IDADISMO

José Narcelio

Pouca gente está familiarizada com o termo que intitula esta matéria. Porém, ao lado do racismo e do sexismo é uma das três maiores formas de discriminação do mundo moderno: envelhecer sofrendo preconceito social. Talvez não percebamos, mas a segregação do idoso aumenta na proporção que avança a expectativa de vida de homens e de mulheres.

Numa sociedade que privilegia a juventude, a beleza, a velocidade e a tecnologia, pessoas com 60, 70, 80 ou 90 anos de idade tendem a ser marginalizadas em razão das limitações de suas aptidões físicas, mentais, sentimentais e até sexuais.

Não tratamos aqui de idosos acometidos de males que os incapacitam para as mínimas tarefas corriqueiras ou atividades que requeiram exercícios de raciocínio. Prendemo-nos àqueles habilitados, mental e corporalmente, excluídos por atingirem a idade limite tida como tabu.

O idadismo se manifesta nos meios de comunicação, na publicidade e na sociedade como um todo. Somos descriminados porque não mais produzimos, e daí sermos taxados de pesos mortos – como se aposentadoria fosse uma mácula e não um direito adquirido com muito trabalho; excluídos pela dificuldade de adaptação às inovações tecnológicas; e, até por insuficiências físicas como o embaraço de locomoção.

A ideia que o idoso passa para muitos é a de um ser alienado no tempo e no espaço, de não possuir opinião ou vontade próprias, de um ente desprovido de sexualidade e de emoções. De uma pessoa que não deve fazer o que lhe der vontade quando bem lhe aprouver, como qualquer indivíduo dotado da liberdade de ir e vir. Que não pode sorrir ou fazer graça para evitar o ridículo. Propagador da tristeza e da sisudez.

Entretanto, a pior experiência resulta do âmbito familiar, onde as manifestações sutis de idadismo são as mais dolorosas. Quando nos acham inábeis e de difícil integração com os demais; quando os entes queridos tomam decisões por nós sem nos consultar; quando fixam que devemos nos relacionar apenas com pessoas de nossas idades; e, quando determinam que nada mais temos a ensinar ou a aprender. Por fim, quando nos induzem a viver num mundo isolado alheio a tudo e a todos.

É verdade que a prática do idadismo não é generalizada. Existem famílias que não admitem entregar os seus idosos aos cuidados de asilos ou instituições correlatas, mantendo-os no seio da família até o último suspiro – o cenário muda quando o idoso é o provedor da família, isso até enquanto ele não atingir a senilidade.

Esse tipo de descriminação é tão marcante que, às vezes, atinge os próprios descriminados, transformando-os em adeptos do idadismo, ou seja, preconceituosos consigo mesmos, abrindo espaço para decisões extremas como procurar o isolamento espontâneo e completo ou desejar a morte.

Por se tratar de problema penoso para os familiares, a solução é postergada, na maioria dos casos, até o limite do suportável. No meu entendimento, o melhor caminho para o impasse é a teoria de São Francisco de Assis do “é dando que se recebe”. Se durante o convívio familiar o cidadão promoveu a harmonia, incentivou a tolerância, distribuiu bem-querença e amou para se fazer amado, certamente na velhice fará a boa colheita de frutos benevolentes recheados de afeição. Caso contrário…

Receio o aprisionamento decorrente da decrepitude, temo o transtorno de ser um peso morto para a família, minha religião impede a eutanásia, resta-me, por certo, aceitar o veredicto do qual me fiz merecedor. Que conste!

2 comentários em “IDADISMO

  1. Integrante recente do time dos sex, também denominado sexagenário, já tive oportunidade de ser vítima do idadismo. Meu filho quando me apresenta a algum amigo, diz esse é o coroa. Falo pra parar de me apontar como coroa e aí vem o escárnio. De doer…

  2. IDADISMO

    Le economie vanno male? Tutta colpa dei vecchi: hanno i soldi, ma non li fanno circolare
    Si è finalmente scoperta la causa dei problemi economici che da un po’ di tempo affliggono quasi tutti i paesi: la colpa è degli anziani. Senza di loro gli stati spenderebbero meno, i soldi risparmiati non resterebbero ad ammuffire improduttivi nei materassi e persino i risultati delle elezioni sarebbero migliori. Nessuno lo dice apertamente, ma molti cominciano a pensarla così. Lo ha notato James Hansen nell’ultimo lancio della sua Nota Diplomatica. L’ex diplomatico e giornalista, brillante …
    PUblicado no jornal La Repubblica, Roma

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