UM PRIMO QUE PARTIU

Quitéria e Amara são duas irmãs que já se encantaram e partiram pro infinito.

Quiterinha, como era conhecida, é minha saudosa mãe.

Amara é mãe do meu primo Ricardo.

Amara era minha madrinha de crisma. Eu a chama de Madrinha Amara e pedia-lhe a bênção sempre que a encontrava.

Ricardo, filho de Madrinha Amara, encantou-se na quinta-feira passada, jovem, moço, aos 57 anos, porque não resistiu a uma danada duma doença maligna.

Ontem, sexta-feira, fomos nos despedir dele. Como ressaltou um amigo presente, nada de tristezas. Só saudades.

Por uma ironia do destino, Ricardo, que era um carnavalesco apaixonado, inventou de nos deixar em pleno Carnaval.

Ela era membro do grupo Guerreiros do Passo, uma turma de brincantes que preserva o Carnaval tradicional do Recife e faz muito sucesso em todos os seus desfiles e apresentações.

No vídeo abaixo, Ricardo aparece de suspensórios e camiseta branca, usando o mesmo chapéu que estava ontem sobre o seu ataúde.

Descanse em paz, sujeito.

E diga pra Madrinha Amara que peço a bênção e que mandei um beijão pra ela.

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  1. Este é o melhor necrológio que vi até agora. sobre uma pessoa desconhecida do grande público, mas querida num pequeno. Integrava uma agremiação cultural de permanência – ou resistência, como se coloca agora – de tradições, músicas, ritmos.. O nome do seu grupo diz tudo: Gerreiros do Passo.

    Berto executou uma façanha literária: fez um funeral ficar alegre vendo o cabra morto e pulando no carnaval.

    A coisa ficou tão boa que eu me pergunto se o fato relatado é real. Berto, me diga: você é realmente aparentado desse cabra?

  2. Querido Berto:

    Esse necrológio festivo, festejo, carnavalesco, em homenagem a seu primo Ricardo, dançando Guerreiros do Passo nos principais pontos culturais do Recife junto com outros carnavalescos de farra, lembrou minha sobrinha Luanda que encantou-se jovem ouvindo Bolero de Isabel, canção de Jessier Quirino, e fez questão, em vida, de que ninguém chorasse no seu cortejo fúnebre, com exceção da mãe, Mariinha, que sabia não segurar as lágrimas.

    Eu a ouvi antes de encantar-se e atendi a todos os seus desejos. Curioso é que, depois que os esquife desceu os sete palmos do chão, não se ouvia uma lágrima dos presentes porque ela havia proibido a tristeza naquele momento!

    O Clipe de Guerreiros dos Passos é genial que nos passa essa impressão de Bolero de Isabel sendo cantada por Xangai com o caixão da minha sobrinha descendo ao chão.

    Valeu, a alegria!

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