GERAÇÃO CIBERNÉTICA

José Narcelio

Final de semana passada visitei um casal amigo, veranista de uma das belas praias do litoral potiguar. Além de curtir o estonteante panorama do recanto, pude me divertir com a espontaneidade e inteligência de Marina, uma criança de quatro anos de idade, neta do casal anfitrião, autênticos avós-corujas.

Marina pertence àquela geração que nos espanta pela sagacidade e rapidez de raciocínio tão comum nas crianças da atualidade. Geração essa familiarizada com a internet, consumidora da programação infantil das TVs, de revistas Recreio, de jogos eletrônicos, do telefone celular, privilegiadas portadoras de perspicácia acima da média estabelecida como padrão nas avaliações escolares.

Conversar com Marina lembrou-me o convívio com meu neto mais velho – hoje com 11 anos -, quando da mesma idade da neta do casal amigo. Luís Filipe – esse é o seu nome – perguntou-me certa vez: “Vovô, por que o peixe prego tem medo de água salgada?” Sem pensar duas vezes, respondi: “Deve ser por receio de enferrujar”. E ele: “Errou!”. Complementando em seguida: “É por medo do tubarão martelo”.

Isso não teve qualquer relevância diante da próxima pergunta:” Vovô, você sabe o que é hipopotomonstrosesquipedaliofobia?” Perplexo, eu larguei a revista que folheava e exclamei: “O que! Você pode repetir essa aberração?”. E o moleque repetiu soletrando, pausadamente, cada uma das 15 sílabas da palavra de 33 letras. Deixei escapar um “Não sei!” cauteloso. Então ele esclareceu: “É o medo irracional de pronunciar palavras grandes ou complicadas”.

Não convencido com a explicação do neto, disfarcei minha incredulidade e, sorrateiramente, entrei na internet e constatei a existência daquela monstruosidade gramatical da nossa língua, assim como me foi perguntado por Filipe.

Esse meu neto agora tem predileção por História Universal. Ano passado ele preparou uma explanação sobre a Primeira Guerra Mundial para apresentação em sala de aula, e se propôs reprisar a palestra para o avô. Acontece de ele não avisar que o trabalho fora elaborado para a sua turma do Open Doors e, como não poderia deixar de ser, em inglês. Vi-me obrigado a declinar do convite para não decepcionar Filipe, novamente, hoje fluente naquele idioma.

É impressionante a carga de informações imputada aos jovens da atualidade por diferentes meios de comunicação. Bem como a facilidade de aprendizado por artifícios eletrônicos, recursos inimagináveis para a juventude de outrora.

Longe de mim invejar não haver desfrutado do atual progresso educativo. Se assim fosse, eu não guardaria na lembrança momentos maravilhosos decorrentes das brincadeiras inocentes, porém envolventes, da minha época de criança.

Embora sem haver desfrutado, na infância, de embates com jogos eletrônicos ou demais recursos cibernéticos, meus netos, em contrapartida, não sentiram o prazer das peladas com bolas de meia ou de pegas com carrinhos de madeira ou em cavalos de pau produzidos artesanalmente. Tampouco conseguem admitir a possibilidade de criação de batalhas impagáveis dispondo apenas da imaginação e de um punhado de soldadinhos de chumbo.

O único sentimento a permanecer inalterado é o instinto maternal das meninas. Brincar com bonecas, sejam molambos ou modelos sofisticados, guardará o mesmo encantamento antes, agora e sempre. É essa sensação que Marina e minhas netas, Gabriela e Ana Júlia, transmitem quando embalam, em êxtase, as suas bonecas.

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