FELICIANO, DO CAROÁ AO ÁRIDO MOVIE

Feliciano fica na margem da BR 232, município de Sertânia, no início do Sertão pernambucano, entre Arcoverde e Custódia, na beira do riacho que dá nome ao lugar, com muitas ruínas grandiosas para um pobre Sertão nordestino de 70 a 80 anos atrás. Quem passa vexado, de carro ou ônibus, nem percebe o valor histórico que tem o Feliciano, nem observa uma igreja sem torre nem sino e um posto de gasolina abandonado com a coberta de concreto armado, pois saiba que lá já foi um importante ponto de apoio de quem seguia sertão adentro, além de um produtivo entreposto de caroá, matéria prima na fabricação de corda em uma época que não existia o nylon.

Lembro-me quando criança, na década de 70, umas poucas vezes que passei por ali, Seu Djalma Nogueira, meu pai, um ótimo contador de histórias desse Sertão da gente, me dizia que ali já teve um posto de gasolina e uma revenda de automóveis, eu não entendia bem porque uma loja de automóveis ali naquele esquisito, isso nunca me saiu da lembrança, e nesses 15 anos que trabalho na região fui buscando informações do lugar. Ali existia uma prensa para embalar a fibra de caroá, uma espécie de bromélia, também conhecida como gravatá ou caraoatá. Essa planta hoje tem valor medicinal, é um ótimo cicatrizante, inclusive usado no combate a úlceras, mas na época só tinha um valor: a fibra para fazer corda ou exportar.

A próspera indústria do Feliciano plantava, colhia, desfiava e embalava a fibra, que seguia pra Recife e de lá era exportada, pertencia a Armando da Fonte, cuja família ainda hoje atua na área de revenda de veículos (GM Dafonte em Caruaru, Recife e Fortaleza) e outras empresas famosas como Brilux, Minhoto e Espirais Sentinela, esta última só os mais velhos ouviram falar. Com o tempo veio a decadência do caroá e a empresa foi vendida a outra família sertaniense que tocou o negócio até o seu fim, na década de 60 ou 70, quando a fábrica fechou de vez. Hoje, o que está de pé, é sede de uma fazenda de criação de bodes.

Nas fotos vemos algumas casas dos moradores, a capela, a prensa, o posto de combustível e o hotel e restaurante da época, hoje com a inscrição “Bar e Rest. Catimbau”, esta inscrição e o ambiente interno do Restaurante Catimbau não têm nada a ver com o período de ouro do caroá e sim com o filme Árido Movie, do pernambucano Lírio Ferreira, com Selton Mello, Matheus Nachtergaele e Jose Dumont, que foi gravado por essas bandas em 2006, mas ai já é outra história.

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