ERA SÓLIDO E DESMANCHA NO AR

Bolsonaro arrasou o PT até em tradicionais redutos de Lula, prometeu eliminar a velha política, nomeou os ministros sem ouvir os partidos, atraiu Sérgio Moro, foi recebido pelo mercado com forte alta da Bolsa. Logo no início do Governo apresentou seus projetos de alto impacto, a reforma da Previdência e o pacote contra o crime organizado. Recebeu a bênção de ter a oposição sob o comando de Gleisi e Haddad, que não se movem sem buscar instruções na cadeia. Deveria ostentar um nível inédito de popularidade; mas, insistindo em discussões inúteis sobre temas do passado longínquo, em brigas inúteis com quem não tinha motivos para hostilizá-lo, sem disposição para enquadrar as várias alas de seu Governo, tem hoje popularidade inferior à dos últimos presidentes, no mesmo período – inclusive Collor, que confiscou o dinheiro de população. Consegue estar abaixo até de Dilma.

Que é que aconteceu? Como se derreteu o Governo? Houve erros, claro; houve ministros que não se mostraram capazes, houve brigas com aliados (como Gustavo Bebianno), houve hostilidade à imprensa – que reagiu na mesma moeda, há administração por atrito. E houve, principalmente, decepção dos que esperavam um presidente pronto para se impor, com a força derivada de seus votos, e encontraram um líder hesitante, na defensiva, cheio de dedos para se livrar de gente próxima sob suspeita.

Quem votou no Super-Homem se decepcionou ao eleger Clark Kent.

Vai passar

A reforma da Previdência já é debatida na Comissão de Constituição e Justiça e, ao que tudo indica, estará encerrada e aprovada no dia 17. O PT tenta retirá-la de pauta, atrasando a votação e a entrada em vigor, caso aprovada. Opinião deste colunista, com base na Pesquisa DataChute: a reforma deve ser aprovada, com modificações, mas nada que a desfigure.

De briga

Abraham Weintraub, ministro da Educação, é economista, estudioso da Previdência. Fez campanha por Bolsonaro e foi levado ao Governo por Paulo Guedes. É professor rigoroso e, dizem, pessoa de trato difícil. Já se manifestou contra o que considera viés esquerdista no ensino superior. E, embora talvez tenha pontos de contato com Olavo de Carvalho, não é um olavete. Como se divulga que é “discípulo” de Olavo, um ótimo jornalista, dos que nada publicam sem confirmação, perguntou a uma repórter qual a ligação de entre ambos. Ela não sabia, mas disse que Weintraub era “considerado” seu discípulo. Considerado por quem? “Por todos, ué”.

Togas em festa

O Superior Tribunal de Justiça completou 30 anos e a data foi marcada por bela festa, paga pela Associação dos Magistrados Brasileiros, AMB. Época de contenção de despesas? Vejamos o que diz a empresa Renata la Porta Buffet, responsável pelo jantar: “Hoje é um dia de abundância: entrega de vinhos maravilhosos, caixas e mais caixas de materiais novos e a cozinha a mil, produzindo festas incríveis: amanhã estaremos celebrando os 30 anos do STJ para 800 convidados”. Preço, processo de contratação? Nem STJ nem AMB se manifestaram. A AMB só disse que pagou a festa sem qualquer apoio, direto ou indireto, de empresas públicas ou privadas. Além da festa, houve o seminário internacional O Poder Judiciário nas Relações Internacionais. Amanhã tudo termina com jantar num bom restaurante.

Tempestade do Rio

Disputa entre o prefeito carioca, Marcelo Crivella, e o Governo Federal: Crivella diz que Bolsonaro prometeu ampliar a participação de Estados e Municípios nas receitas do país, e que isso não ocorreu. Isso não ocorreu mesmo; mas a Prefeitura do Rio não aplicou até agora nenhum centavo de seu orçamento em obras de prevenção de enchentes. O Rio tem tido problemas sérios, com chuvas mais abundantes que as normais, numa fase em que não há investimento algum no setor. Detalhe: Crivella é um dos principais políticos do PRB, ligado à Igreja Universal, que apoia Bolsonaro.

Cai, cai

A Ciclovia Tim Maia, no Rio, que liga o Leblon à Barra da Tijuca, à beira-mar, desabou mais uma vez com as chuvas e as enchentes. Desde que foi inaugurada pelo prefeito Eduardo Paes, em janeiro de 2016, é seu quarto desabamento. Comparando: o Aterro do Flamengo, construído no Governo Carlos Lacerda há mais de 50 anos, nunca teve qualquer problema desse tipo, embora a cidade tenha tomado muito terreno ao mar. Explica-se: para realizar a obra, foram contratados estudos do Laboratório Hidrológico de Lisboa, um dos mais avançados do mundo. Houve medições, modelos matemáticos, construção correta, que seguiu o projeto, e a obra mudou a cara do Rio para melhor – o que parecia impossível. Como foi feita a ciclovia? O que se sabe é que desabou tantas vezes que talvez seja inviável reconstruí-la.

4 comentários em “ERA SÓLIDO E DESMANCHA NO AR

  1. Prezado Sr. Carlos, longe de contradizer um experiente colunista que acompanha as idas e vindas da administração publica já faz algum tempo, será que sua analise dos tais 100 dias não está sendo pessimista ao usar a apalavra “Derreteu”? Deixo claro que não sou eleitora do atual Presidente e pertenço ao rol de muitos cidadãos que conheço e optaram por retirar do governo gente que não soube comportar-se, confundiram cofres “Públicos” com maquinas de caça niqueis, ou seja, apertavam o botão de comando e jorrava dinheiro.

    Numa empresa privada, quando há uma remodelação de pessoal, contra-se novos sempre conservando os antigos dotados de mais experiência, é uma forma de continuar o trabalho sem atropelos mas, mesmo assim existem problemas. Os antigos se acham superiores e os novos mesmo aptos para determinado cargo operacional, são muito reticentes em compreender que precisam adaptar-se ao ritmo de trabalho que cada empresa estabelece. O legislativo tem um comandante em cada casa, será que estão fazendo seu trabalho de comandar, ou seja, ajustar as coisas para que elas andem? De que adianta comandantes que não comandam?

    Quanto ao Presidentes, igual a outros que já conhecemos de outros carnavais, comete alguns erros mas, tem um lado bom, não está pagando o preço de campanhas eleitorais que sempre são muito caras e a moeda são cargos em estatais para os colaboradores financeiros, ou seja, quem pediu ajuda e também pra quem ajudou.

    Aposentei em empresa privada e no meu tempo havia um contrato de experiência de até 90 dias, não sei se houve alguma mudança, mas, Presidente é eleito e temos que torcer para que dê certo, sem deixar de fazer as criticas necessárias. Agora, criticar é fácil, o difícil e apontar o caminho correto. A imprensa tem um grande papel em toda administração e até é chamada de “4º Poder”, se grandes representantes dela começam a jogar a toalha, nós cidadãos comuns ficamos sem nossos defensores.

    Desculpe o texto longo mas, o respeito que tenho pelo seu trabalho merece uma boa explicação quando tenho discordância de sua opinião.

    Um abraço

  2. Sr. Carlos, está claro que o Governo Bolsonaro entrou para mudar muita coisa do que até então foi feito nos últimos 30 anos. Foi para isso que ele teve mais de 57 milhões de votos.

    Não loteou ministérios, nomeou ministros técnicos e capazes (Moro e Guedes são experts em suas áreas) e peitou a grande imprensa ao cortar as verbas publicitárias que alimentavam as redações; comunica-se diretamente através de lives e implode as fake news no ninho.

    Diferentemente do PT, não tem problemas em reconhecer seus erros e volta atrás quando necessário. Seu partido é novo e formado na maioria por gente que surfou com a popularidade do presidente e agora não reconhece isso.

    Dos 100 dias de governo, ficou mais de 1 mês (quase a metade) afastado ou limitado em suas ações por conta da bolsa de colostomia que usava e foi retirada por uma cirurgia da facada que recebeu na campanha, o que não é fato desprezível.

    Mais ainda; assumiu seu governo em meio a maior crise econômica de todos os tempos e teve que apresentar uma reforma previdenciária que afetará a vida de todos os brasileiros. Políticos da velha estirpe ainda são maioria no congresso e querem desgastá-lo sempre para, como disse L Jardim no Globo; não dar moral a ele.

    Quer saber; o Bolsonaro está sim dentro das expectativas até mesmo de quem o elegeu para tirar o PT do poder.

    Eu jamais tive a ilusão de que o velho sistema (políticos, grande imprensa, academia e juízes corruptos) se voltariam totalmente contra ele.

  3. Sônia Regina, é um prazer ler uma carta como a sua. Não existem textos longos ou curtos; o que existe são textos bons e ruins. O seu é bom. Como a sra., torço pelo êxito de Bolsonaro (estou no barco que ele pilota). Como a sra., reconheço seus pontos positivos, ressaltados, aliás, bem no início da coluna. Mas, invertendo a frase de Mies van der Rohe, o diabo está nos detalhes. No momento em que deveria estar pensando exclusivamente em seu objetivo maior, a reforma da Previdência, arrumou briga com o presidente de seu partido e o presidente da Câmara. Envolveu-se em discussões que não levam a nada, como a referente ao esquerdismo do nazismo (nazismo não é de esquerda e direita; é do mal, ponto). Como os imperadores de Bizãncio, que dirigiam uma cidade magnífica, sede de um império magnífico, e a perderam por discutir o sexo dos anjos e não a melhor maneira de combater o ataque muçulmano. NOmeou gente boa. sim; mas também nomeou o já ex-ministro da Educação, o chanceler (que era dilmista). Dispersou-se. E agora quer reduzir o monitoramento eletrõnico de veículos, que vem reduzindo o número de mortos nas estradas. Continuemos na torcida, Sônia Regina. Mas sem esquecer que boa parte dos que votaram em Bolsonaro já não mais o consideram tão mito assim.

  4. Caro João Francisco, é verdade: Bolsonaro entrou para mudar. Tomara que o consiga. Mas a´te agora tem-se dispersado em assuntos menores, em vez de se concentrar para realizar seus objetivos principais. E não está atendendo a seus eleitores, tanto que tem hoje taxa de popularidade menor que a de outros presidentes anteriores, medida no mesmo período. Torçamos por ele e pelo sucesso de seu Governo, porque isso é vital para nós, passageiros do barco que ele pilota. Abraço!

Deixe uma resposta