EPITÁFIO – Bocage

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
que engrole sob-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

“Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”

Colaboração de Pedro Malta

2 pensou em “EPITÁFIO – Bocage

  1. Poema testamento do grande poeta Bocage.
    Conhecia como ninguém a real natureza humana, assim sendo
    não dava troco para a hipocrisia e obscurantismo da época.
    Se eu fosse alguém um tanto relevante, ao passar também o sepulcro em
    , ermo outeiro, este poema ficaria bem posto na tumba, um dia espero, num
    futuro alvissareiro.

  2. Não é um Soneto Infernal , mas também é ótimo e como o poeta Manuel, eu Joaquim que nada tenho de poeta ,também comi e bebi , mas estou fudido e sem dinheiro.

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