ENCARANDO A SOLIDÃO

Fernando Antônio Gonçalves

Encontro-me com o Fredinho Lucas, hoje engenheiro tarimbado, colega de Marista da Av. Conde Boa Vista do Recife, curso científico, atleta de volibol, campeão dos Jogos Estudantis Pernambucanos, de épocas áureas. Recentemente desquitado, morando com um irmão mais novo, me confessou ser a solidão um dos seus principais problemas atuais, ele às vésperas de uma aposentadoria medianamente confortável, filhos criados, pais desencarnados, avô de dois, atualmente envolvido numa baita desacreditação de tudo, fruto de um nível de felicidade advindo de uma baixa densidade cultural, consequência primeira de muito trabalho tecnológico e quase nulas horas de leitura humanística.

De pronto, recomendei ao Fredinho a leitura de um livro recentemente editado, voltado para seres humanos carentes. Balizamentos existenciais para enfrentar uma atual epidemia planetária, onde a prática criminosa parece ser fortalecida por impunidades mil, sempre a coibir a ação de uma Justiça efetivamente aplicada: O Dilema do Porco Espinho: como encarar a solidão, Leandro Karnal, São Paulo, Planeta, 2018, 192 p. é muito recomendável. Páginas que reforçaram alguns dos meus fundamentos existenciais, ampliando minha condição de trabalhador da Casa dos Humildes, onde aprendi a assimilar sólidas lições da Doutrina Espírita, após assimilar leituras orientadoras dos bem mais capacitados na vivência teórica e prática dos ensinamentos do Mestre, coordenados por Allan Kardec e outros notáveis.

Na Introdução do livro, Karnal o inicia com uma definição do filósofo Arthur Schopenhauer: “somos uma espécie de porco-espinho. O frio da solidão nos castiga. Para buscar o calor do corpo alheio, ficamos próximos dos outros, provocando espinhos que nos perfuram e causam dor (e os nossos a eles). O incômodo nos afasta. Ficamos isolados novamente. O frio aumenta, e tentamos voltar ao convívio com o mesmo resultado.”

O problema da solidão é tão grave, que o governo da primeira-ministra britânica Theresa May instituiu o Ministério da Solidão, homenageando uma deputada inglesa violentamente assassinada. O nome da Comissão em inglês é Jo Cox Commission on Loneliness (Comissão sobre solidão Jo Cox), e surgiu diante dos alarmantes 9 milhões de britânicos que reclamam de frequente ou total solidão. Um estado de solidão que vitima principalmente as pessoas idosas, súditos com problemas de mobilidade, os maiores atingidos de uma verdadeira epidemia século XXI. Favorecendo uma questão de natureza planetária: o que estaria acontecendo no mundo para que o combate à solidão virasse uma política de Estado?

Karnal ressalta, no seu livro, que solidão é completamente distinta do simples fato de se estar sem alguém por perto, do mesmo modo que estar acompanhado não significa eliminar as manifestações sentidas. Segundo ele, num trágico verão de 2003, mais de 11 mil pessoas morreram na França, a maioria delas tendo idade superior a 75 anos, o isolamento tendo sido a causa principal de tão impressionante obituário. A solidão sendo o vestíbulo da perda da razão, ou “um amplo salão vazio, na qual a insanidade baila.”

Aristóteles, segundo ainda Karnal, garantia que a solidão criava deuses e bestas, querendo dizer que muito da criação humana advém do isolamento interno ou externo, a nossa selvageria sendo originária de perversos momentos solitários.

Em nosso primeiro papo, concordamos que, em reuniões técnicas ou sociais, a palavra crise é ouvida um monte de vezes. Crise de identidade do ser humano contemporâneo, crise de familiaridade com o mundo pós-moderno e crise de insegurança diante dos contextos tornados diferenciados pela Internet, por ela também mundializados. Parecendo crer que tudo vacila: o equilíbrio do todo, antes aparentemente estável, torna-se continuamente instável; os meios de comunicação favorecendo a elevação geométrIca das reivindicações sociais; e o mundo virtual se ampliando enquanto há redução da mão-de-obra assalariada planetária, onde uma globalização excessivamente copiativa favorece uma descriatividade gigante que resvala para a solidão, quando não devidamente combatida por uma criatividade sem pendores nostálgicos.

Ficamos convencidos de que alguns parâmetros germinais muito favoreceriam contínuas reestruturações pessoais, evitando um viver morrendo destemperado e altamente virótico. E alguns deles foram elencados, considerados de alta significância:

 O bem-querer terá prevalência sobre todas as lógicas destrutivas.
 Os méritos devem ser sempre coletivos e jamais fingidos, nunca individualizados.
 As amizades conquistadas são o maior patrimônio de todo ser humano em sua contínua mutação evolutiva.
 Esmagar potencialidades é crime de lesa-convivialidade.
 Jamais abandonar um aprender-desaprender-reaprender que ressalta as diferenças entre permanência e mutação.
 Tornar-se águia sem mentalidade de galinha, por mais emplumada que esta seja.
 Entender que mente saudável, além de saber fazer, faz também acontecer.
 Saudades bem sentidas, nostalgias contidas.
 Umbrais ultrapassados, sonhos recuperados.
 Nunca atirar pérolas aos porcos.
 Sempre distinguir postura orgulhosa e arrogante de dignidade cautelosa.
 Nasce-se com inteligência, jamais com o manual de instrução da sua utilização.

E outro bate-papo foi por nós estabelecido, sempre regado a guaranás e biscoitos, o livro do Karnal gradativamente bem digerido. Para bem compreender os bons momentos dos instantes de solidão.

1 comentário em “ENCARANDO A SOLIDÃO

Deixe uma resposta