É DE ARDER!

Passear pela verve contista de Nelson Rodrigues é entreter-se com dramas e tragédias de personagens envoltos nas piores encarnações morais que o gênero humano já concebeu. Por outro lado, é também uma maravilhosa viagem ilustrativa aos usos e costumes dos anos 50 e 60 retratados com sotaque da época, despidos de qualquer pudor ou censura.

O que torna deliciosa essa leitura é poder resgatar expressões e gírias escondidas há muito nas sombras de nossas lembranças, que escapolem, aos borbotões, das páginas daquele imaginário livresco e se nos apresentam tão vívidas e atuais como no tempo dos escritos de cada cena das histórias do autor.

Cinquenta anos atrás era comum externar surpresa dizendo: Carambolas! Papagaio! Mostrava-se desagrado afirmando: É de arder! Acho pau! É espeto! É de morte! Ora, que pinóia! Será o Benedito? Se algo nos era agradável manifestávamos a satisfação exclamando: Bonito! É uma bola! É um biju! Um brinco! Uma tetéia! Bonita como uma Estampa! Bacana!

Receio se expressava assim: Estou frito! Algum bode? Fizeram minha caveira! Para combinar um negócio recorria-se a ditos como: No duro! De fio a pavio. Uma mulher rica era Cheia da gaita. Ir ou vir depressa se cobrava com um: Chispando! Mentira afirmava-se: É potoca! O gabola era um Garganta pura.

Pessoa franzina não passava de um Espirro de gente. Recém-casado chamava-se Casadinho de fresco. Ser rigoroso era Entrar de sola. Pedia-se calma com um Sossega o periquito! Externava-se alguma contrariedade dizendo: Comigo não, violão! Para cobrar um segredo recorria-se a Desembucha, anda!

Diante da possibilidade de um namoro comentava-se: Ela te dá bola! Faz fé com a tua cara! Pode dar em cima! Para acusar alguém de esnobismo ou afetação era comum dizer: Não me venhas com chiquê! Com nove horas!

Usava-se o termo, Até aí morreu o Neves para insinuar que o tempo para determinada providência se esgotara. Para definir uma pessoa sonsa ou de dupla personalidade, dizia-se: Mas que mascarado você é! E nesse ritmo seguia-se.

No fundo, as gírias de hoje traduzem o mesmo significado de outrora, com a diferença de estarem maquiadas com um vocabulário pesado, sem originalidade e, em muitas situações, chulo.

Soltando a imaginação, até que seria pitoresco um trabalho cotejando expressões idiomáticas extraídas do cotidiano do brasileiro, relacionadas a diferentes épocas de nossa história contemporânea. Tal trabalho, lido por algum saudosista, deixaria escapar esta exclamação de apoio: É um número! Digno de almanaque!

Um dos vocábulos mais utilizados nas crônicas de Nelson Rodrigues é Batata. Tanto para cobrar um compromisso quanto para expressar um acerto: Nós nos encontraremos mais tarde, Batata? A tal pergunta respondia-se com outro: Batata! E estava empenhada a palavra.

Fico imaginando qual seria a reação de adolescentes, de alguma comunidade funk brasileira deste século XXI, diante do questionamento: Batata? Certamente entenderiam diferente a manifestação e responderiam algo do tipo:

Yes brother, manda o treco, mas, tem que ser passado num óleo esperto, com um sanduba de penosa e uma breja no grau que pinguim gosta!

– É de arder!

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