DESIGUALDADES

Machado de Assis estava certo. Embora o seu Brasil fosse bem diferente do Brasil da atualidade, mas, de acordo com sua visão crítica da sociedade, que parece não mudar muita coisa, o famoso escritor descia a lenha sobre os aspectos sociais e a manutenção das aparências. Da mesma forma que o Rio de Janeiro de outrora reclamava da falta de infraestrutura, o país da realidade permanece malhando contra o desrespeito à pobreza. Basta comparar o país dos ricos para notar que o país dos pobres continua uma porcaria. Cheio de defeitos, sendo a pior das falhas a eterna exclusão social. Tudo por causa da ilegitimidade política e da ineficiência das instituições, positivamente fragilizadas.

Analisando os acontecimentos da década de 80 até hoje, são poucas as diferenças. Não pescou? Pense no desemprego, sempre crescente, na miséria inaceitável, na violência assustadora e na marginalidade em alto grau. Anormalidades de ontem e de hoje. O incrível são os temas serem itens obrigatórios em todos os projetos políticos. Contudo, ainda não apareceu um parlamentar sequer com capacidade para apresentar propostas capazes de amenizar ou, o que é mais difícil, solucionar a falta de moradia, oferecer alimentação saudável, proporcionar educação à altura do preparo intelectual que a juventude necessita, saúde de qualidade para evitar as longas filas nos postos de saúde, lazer satisfatório para as famílias e trabalho para garantir uma vida digna às classes menos privilegiadas.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), desde o ano de 2000, existe alta vulnerabilidade social no país. Os índices oscilam. Caem um pouquinho, mas, no fundo, não desaparecem. Sempre voltam à realidade. Os resultados são acanhados. É verdade que no Sul a coisa melhorou. Todavia, no Norte/Nordeste, a situação continua preta. As disparidades sociais são inquietantes. Tudo por falta de políticas sociais decentes, políticas de desenvolvimento regionais consistentes. Os dados de três indicadores, apenas, Infraestrutura Urbana, Capital Humano e Renda do Trabalho, comprovam os fatos. Não deixam mentir. Revelam a triste realidade. Como se essa negatividade não bastasse, é fácil constatar na prática as irregularidades. Na mídia, a política mostra-se altamente interessada em consertar o país, mas, nos bastidores, o que mais os políticos executam são falsas ideologias e corrupção, sem trégua. Para decepção do brasileiro sério.

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Devido aos insucessos econômicos, a mania do Brasil era trocar de moeda. Antes da colonização, o que prevalecia na economia, o que dava valor às trocas eram os produtos agrícolas, algodão, açúcar e fumo. No entanto, durante o período colonial, entre 1690 até 1942, circulava o primeiro Real, que no plural foi conhecido como réis. O primeiro Real foi substituído sucessivamente pelos Cruzeiros, Cruzados, até chegar ao atual Real, lançado em julho de 1994. No troca troca dos nomes do dinheiro oficial, o Brasil já possuiu 9 moedas. Essas incertezas quanto à verdadeira moeda fez o país perder credibilidade. Ao contrário do dólar, a moeda dos Estados Unidos existe desde 1518. Serve inclusive de base para validar as reservas dos demais países mundiais.

Em virtude de ser bem aceita no mercado internacional, o dólar é uma moeda tipicamente forte. O que faz o dólar ser uma moda forte é o próprio mercado, através da lei de oferta e procura, que lhe assegura ter uma taxa de câmbio estável. O que forçou o Brasil ficar mudando constantemente de moedas, foram as instabilidades e os fracassos econômicos, cujo efeito maior foi o descontrole inflacionário. Outro detalhe interessante do Real é ignorar o nome de personalidades, priorizando na impressão da moeda a efígie simbólica da República e o nome de animais da fauna nacional. Oficializando, enfim, as imagens do beija-flor, da garça, arara vermelha, mico leão dourado, onça pintada e garoupa.

Com a chegada do Real, cuja finalidade era estabilizar a cambaleante economia, bombardeada até então por elevada inflação, a sociedade esqueceu por um momento as reivindicações pelos aumentos salariais. O motivo foi a elevação do poder aquisitivo. Todavia, em função de uma crise monetária, o regime cambial do Real extinguiu-se em 1999. Para ser ter ideia da desorganização inflacionária que atormentou o Brasil, antes do Real, basta lembrar que no espaço de um ano apenas, o preço do tomate subiu 4.500%. Outro absurdo registrado em 1993, foi a taxa de inflação bater em 2.477% ao ano. A diferença entre o Plano Real e os demais planos anteriores, Bresser, Verão e Collor I e II, foi a sequência de fases. Ao contrário dos outros planos que só se preocupavam com o congelamento de preços, o Plano Real iniciou ajustando as contas públicas. Corte de gastos do governo e privatizações. Em seguida veio a implantação da URV (Unidade Real de Valor), até findar no Real verdadeiro. O lado negativo do Real foi a perda de 83,25% do poder aquisitivo da moeda. No início, uma nota de R$ 100,00 pagava o salário mínimo. Atualmente, este valor está reduzido a apenas R$ 16,75. Como fator positivo, pode-se dizer que o Real realmente controlou a inflação, estabilizou a economia, evitou uma explosão de consumo, ao adotar uma altíssima taxa de juros e, principalmente melhorou a distribuição de renda no país. Se não fosse o déficit fiscal, o Brasil estaria navegando em águas mansas, agora.

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Pesquisas sustentam que uma das causas da mente do idoso trabalhar devagar, vagarosamente, é devido ao acúmulo de informações. Especialistas alemães atestam que a capacidade mental das pessoas não se altera com a idade. O processo cognitivo permanece ativo, acumulando experiências. Idoso é a pessoa que completa 60 anos de vida. Segundo o Estatuto do Idoso, pessoas com esta idade tem assegurado todos os direitos adquiridos, como prioridade, efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à liberdade, educação, cultura, esporte, lazer, trabalho e à cidadania. Como a política brasileira é super vagarosa, o Congresso Nacional passou 30 anos em dúvidas, indeciso se aprovava os 118 artigos do projeto, cuja regularização só aconteceu no ano de 2003.

Na velhice, as lembranças fluem vagarosamente. Mas, tem semelhança com o disco rígido do computador que, lotado de dados, reduz a velocidade da máquina. Por isso na senilidade a mente esquece facilmente determinados detalhes. São os lapsos de memória no idoso que dificultam a pessoa se lembrar momentaneamente onde deixou a chave do carro. São a bebida, o cigarro e as doenças degenerativas os maiores inimigos do sistema nervoso central. Os efeitos desses vícios, costumam provocar ondas de esquecimento, em virtude da decadência dos sistemas do corpo. Cardiovascular respiratório, genital, urinário, endócrino e imunológico.

A demência para os velhinhos, que julgam ter idade subjetiva menor do que a da certidão de nascimento, chega mais tarde, paulatinamente. Em função da massa cinzenta do cérebro ainda apresentar maior volume. Quanto mais ativa for a rotina do idoso, tanto física, quanto mentalmente, a substância cerebral cinzenta levanta a moral da pessoa na terceira idade. Daí a recomendação de especialistas. Quem quiser envelhecer com naturalidade, antes do tempo, seja amigo de frutas e de exercícios físicos. Afinal, são os hábitos saudáveis, os responsáveis para evitar a queda repentina das reservas funcionais dos órgãos. Então, para evitar surpresas desagradáveis, tanto o corpo quanto a mente devem estar alinhados nas atividades.

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Um dos males brasileiros é manter a quantidade de estatais em número excessivo. Cada governo que assume o bastão, dana-se a criar empresas estatais para garantir vagas para os apadrinhados políticos nas esferas federal, estadual e municipal, em vez de cuidar estrategicamente da administração de recursos. Tem estatal que realmente precisa ser criada por exercer justamente serviços de interesse público, no âmbito econômico e social. A empresa dos Correios é o melhor exemplo. Mas, quebrado e desorganizado pela corrupção, tá no caminho da privatização. Tem país que adora estatizar empresas para controlar a economia. A Rússia, durante a revolução comunista de 1917, pretendendo sair do atraso, principalmente na agricultura, resolveu mudar de rumo. Trocou na marra a propriedade privada pela estatização, na ânsia de se tornar em pouco tempo uma robusta potência industrial. Só que o sonho russo não vingou. Durou apenas 70 anos. Tempo mais do que suficiente para presenciar a economia soviética desmoronar, em vez de se robustecer.

Mas, a ideia de estatização espalhou-se pelo mundo, causando impacto. O Brasil rapidamente entrou no páreo. Sem temor, criou duas empresas estatais em setores específicos. Uma na área de energia elétrica e a outra no campo de petróleo. Em 1950, surgiu a Eletrobrás para substituir as empresas estrangeiras, especialmente na construção de usinas hidrelétricas, dando chances posteriormente para criar empresas subsidiárias, como as companhias energéticas estaduais. Comprovadamente, o pecado das estatais, por não serem autônomas, é abrir portas para a corrupção, em face dessas instituições servir mais como cabide de emprego do que funcionar como uma organização moldada exclusivamente na seriedade, compromissada com o crescimento do país.

No regime militar foram criadas 47 empresas estatais. Porém, preocupado em amparar seus aliados, os governos petistas oficializaram 43 estatais. Somente na esfera federal, o Brasil abriga 140 estatais. Preocupado com o inchaço do Estado, a pouca produtividade e as enormes dívidas acumuladas, o atual governo defende a ideia de vender muitas das estatais, particularmente as deficitárias, que são muitas. A finalidade é vencer as crises fiscais e financeiras, buscar a qualidade nos serviços prestados por elas, geralmente precários, fugir dos altos preços cobrados nos serviços, e, essencialmente reduzir a dívida pública que anda escandalosamente alta. Em apenas 18 empresas estatais, encontram-se verdadeiros absurdos. A quantidade de funcionários passa de 73 mil pessoas e como não vivem com as próprias pernas, dependem demais da boa vontade do governo em provisionar recursos para as suas sobrevivências. As empresas estatais rentáveis são poucas, todo mundo conhece. Banco do Brasil, Caixa Econômica, Eletrobrás e agora a Petrobrás. O resto vive de esmola do governo. Somando todas as empresas da União, estados e municípios, o Brasil aguenta o peso de 418 estatais. Enquanto isso, o Japão tem apenas 8 e os Estados Unidos, somente 16.

4 pensou em “DESIGUALDADES

  1. Muito bom Carlos. Quando eu dou aula sobre inflação, conto essa história destacando o início em 1967 com a correção monetária. Citando os indexadores ORTN, OTN, BTN, etc eu digo que só faltou PQP. O tempo de “vale um barão” ou como na música Amigo é pra essas coisas…”tome um Cabral”….tomamos mesmo um Cabral.

  2. Meu Caro Mauricio Assuero, oportuna obervação. Com apenas duas palavras, vc matou a jogada. Correção Monetária foi o porto seguro para o país atravessar aquela má fase. Obrigado. .

  3. Carlos, saiu no jornal “Valor” que apenas as estatais criadas pelo PT custaram, entre 2003 e 2015, oito bilhões de reais aos cofres públicos. Sem contar todas as que já existiam.

    E continuam existindo a EPL, criada para “estudar o trem-bala”, a Cietec, que deveria produzir chips de identificação, e a notória EBC, entre tantas outras.

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