SOPA DE PEDRAS

No festim, a sopa de pedras, sem sal. E todos se achegaram: os sem-sorriso e os sem-medo. Depois, até uns sem-fome também vieram pois mais valia a festa que a vontade de comer. Na sopa de pedras puseram sal e o caldeirão fervia … foi quando chegou o povo dos versos abraçando os poetas e fazendo quadras e sextilhas; os sem-ouvidos aplaudiam o pianista e dançavam um blues. Do circo próximo chegaram os malabaristas, o homem do trapézio e o palhaço, que não podia faltar. O domador de leão veio só. A equilibrista, bêbada, não pode vir. Os sem-alegria riam e brincavam e os sem-ninguém encontraram seus pares. E sobrava sopa. Ninguém queria dela saber, muito menos das pedras, que, ao final, apenas serviram para erguer um altar e comemorar a vida, à moda de cada um. De braços dados e saciados de tanto amor escancararam sorrisos e beberam goles de alegria e esperança até o dia clarear. A noite foi breve e as flores se abriram mais bonitas naquela manhã de sol. Do outro lado da rua, o dia permanecia escuro. Todos, com a consciência pesada pois não conheciam a leveza de consciência, comiam as melhores carnes e bebiam os vinhos das safras mais antigas. Eram tristes, não sabiam sorrir nem cantar. Como os ratos que rondavam os felpudos tapetes azuis e vermelhos do salão. Também tristes.

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CALAR E OUVIR

Silêncio! Cessem todos os barulhos, zoadas e zumbidos e calem-se os homens. Todos. Mulheres: só para elas tenho ouvidos. Diante de tantas inconsequências provocadas pelos homens repletos de ignorância plena, refaço o caminho e declaro ao mundo o meu silêncio, que assim permanecerá, apenas para ouvir toda a sabedoria que vem da alma feminina, sábia e generosa. Calo, e calarei sempre para escutar a voz da mulher, melhor conselheira. Deixem-me ouvi-la, sempre. Ouvir e depois ouvir mais uma vez, e mais outras ouvirei. Para isso tenho meus dois ouvidos: para escutar as mais verdadeiras verdades. Deixo minha única boca apenas para o beijo. Além da reciprocidade do beijo, haverá de caber em mim, da mulher que amo, o abraço mais terno que farei por merecer. Ela sempre caberá no meu abraço. Quanto mais de perto, melhor poderei ouvir e aprender o que ela me ensina. Silêncio, por favor!

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TANTOS FRANCISQUINS

Francisquim de Quixadá é seu nome, rabiscar versos no juízo e chamá-los de Poemas, seu ofício. Assim, ajuda a vulgarizar o título, a banalizar a expressão: hoje, todos são Poetas, todos se tratam por Poetas, como se Poetas fossem. Assim como Francisquim, que se diz Poeta, se acha Poeta e adora por esse título ser tratado. Faz uns versinhos, de quando em vez, utiliza rimas paupérrimas e é desobediente nos quesitos métrica e ritmo em seus poemas (se é que assim podemos chamá-los). Não apenas pés, mas versos de pés, mãos, pernas e braços quebrados. Versos ortopédicos, digamos. Tampouco podem seus pretensos versos ser classificados como modernos, tão banais que são. Francisquim, o de Quixadá, é tão Poeta quanto aquele seu xará, o de Baturité, igualmente pouco afeito às rimas e aos versos. Incautos insistem em chamá-los de Poeta e o de Quixadá, de peito cheio e ego lotado, diz, num autoelogio, ser o Poeta mais importante de sua rua. Ele não mente: Na rua em que mora só há uma casa, a sua. E ele mora só. Não tem concorrentes. Mas os dois Francisquins são gente boa. Apebnas n]ão merecem o título de Poeta. Salve Louro do Pajeú, Pinto do Monteiro, Patativa do Assaré, Manoel Bandeira, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto, Carlos Penna Filho. E apenas para que não restem dúvidas e repetindo o que já disse em crônicas anteriores: me incluo entre os indevidamente chamados de Poeta. Não sou nem tenho a menor pretensão de sê-lo. Apenas escrevo, de quando em vez, letras de música popular. Sou, digamos, o Francisquim do Crato. Poeta é uma coisa muito maior. Coisa para gente da estatura de um Neruda, de um Fernando Pessoa, além daqueles antes citados. Viva quem é Poeta de verdade!

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APENAS UM VULTO

No jardim descolorido vagava algo indefinido como que plainando a meio metro do chão. O vulto dessa imagem era o único indicador de que ela ainda estava por lá, sem destino, sem definição de sorte ou de futuro. Entre bromélias e orquídeas, também quase imóveis não fosse o vento, passava despercebida aos transeuntes, todos apressados e absortos com suas tarefas de viventes comuns. A rosa que em sua mão sangrava também era sem cor, como o sangue que não se avermelhou. Até as samambaias e espadas de São Jorge, outrora verdes, estavam empalidecidas. Tudo ali era pálido. Como a vida, como aquele vulto, como aquele jardim. Todos passavam e nada percebiam. Mas ali havia um vulto. Apenas um vulto. Sem vida. Faltava quem lhe desse cor.

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MEU POMAR DE TÂMARAS

Da janela do quarto onde durmo avisto o meu pomar de tâmaras. Meus sonhos e devaneios do bem-querer, à sombra das tamareiras, ali também dormem e descansam à espera das alegrias que estão por vir, na terça que virá, ou na quarta, ou na quinta, ou sei lá quando, mas que virão de mãos dadas com o sol, quando a chuva passar, quando a areia do deserto se acalmar, quando não mais houver assustadores trovões estridentes e zoadentos nem relâmpagos de raios e cores diversas. Apenas chuvas finas e generosas. Quando acordarmos, o sol, eu, a esperança e toda a vida vão estar doce como as tâmaras do meu pomar. Será tempo de sorrir, de cantar e de levar aos amigos a alegria de ser feliz … A todos oferecerei o doce das tâmaras. Não sem antes saboreá-las, adoçando a alma na medida justa e certa da felicidade que está por vir.

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DESENCONTRO DE SOLIDÕES

Na encruzilhada de uma cidade grande todos os vícios que as grandes cidades têm marcam encontro no mesmo horário: stress, engarrafamento e uma neblina chata e incessante às 6 da tarde, sol já escondido. Na rua estreita, cruzamento com uma outra rua qualquer, destinos embaçados imiscuem-se num sinal vermelho. Entre os dois carros, lado a lado, além dos pingos da chuva miúda sentimentos parecidos, solidões semelhantes. Não fosse o verde do sinal, ali ficariam naquela esquina debulhando sonhos e vontades iguais, um a pastorear o outro e sendo pastoreado numa reciprocidade necessária, repleta de cumplicidade. As buzinas não permitem que o arrepio evolua para um carinho ou um mero aceno, um alô, uma troca de números, quem sabe? Obedientes à lei e sem ter como competir com a impaciência dos outros motoristas que faziam fila na rua estreita, fizeram a curva para lados opostos, os dois carros, as duas vidas, as duas solidões.

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O FILHO DA FILHA DE DONA DULCE

O não-arrulhar dos mais gentis pombos e o ausente zunir de abelhas aflitas pelo excesso de mel levam para Bernardo o silêncio de um belo sino a não-badalar na mais antiga das igrejas do meu povoado. E o filho da filha de dona Dulce, no sigilo misterioso que se contém no bater de asas de uma nuvem colorida de borboletas, olha para mim, ainda sem saber falar, mas já balbuciando a palavra Amor, deixando escapar na ternura de seus olhos a canção de Paz por que tanto lutei. E depois, no calor de um grão de chuva, neblina pouca em uma manhã de sol, sinto na pele o amanhecer do dia ao preparar os meus melhores colos e abraços para recebê-lo, enquanto começam a surgir as notas da canção que pensei para ele criar e que o desassossego da vida só permitiu os primeiros acordes. Mariana dança. Sua mãe sorri. Bernardo agora dorme o sono do ano um, enternecendo minha tarde de domingo. Era 2014, outubro.

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ONDE ESTÃO AS FADAS?

Elas já não cuidam de nós e permitem as maiores atrocidades. Suas varinhas mágicas, escondidas sob suas roupas agora pretas, parecendo togas, não produzem mais efeitos. Os sapatinhos de cristal, quebraram-se todos nos degraus das escadas dos palácios suntuosos. Procurou-se, em vão, sapateiros para consertá-los, mas sapateiros já não há nas cercanias do reino encantado e os súditos, desesperançados, andam descalços, pisam pedras. Os guardas sumiram nas carruagens sem placas, bêbados e em alta velocidade: ao que parece, eles não estão interessados em moralizar o trânsito. Os que outrora se intitulavam príncipes mofam nas masmorras mais sombrias. Outros estão por ir fazer-lhes companhia. De nada adiantou procurar as fadas no calabouço, ao lado do pomar das melancias verde-rosa, onde imaginei estivessem escondidas: tinham todas saído para rebolar suas bundas num show de Anita. É triste saber dos desmandos todos, mas mais triste ainda é saber dos ladrões de tatuagens. Já faz pra mais de um ano que sumiram com as da princesa. Descobriram os ladrões. Falta descobrir quem mandou roubá-las. Eles podem quase tudo, mas não poderão roubar a coragem e o amor tatuados no coração dela.

(… Homenagem a MARIELLE, tão reverenciada por tantos, com justiça, e a menina BEATRIZ MOTA, assassinada no colégio de Petrolina, e que poucos lembram sequer o seu nome.)

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JANELAS

Janelas, mantenho-as sempre abertas. Escancaradas. Outras, abro-as apenas de quando em vez. Janelas de sóis, de sonhos e de pássatos nunca fazem mal, assim como as das ilusões, das boas ilusões e, principalmente, a janela do amor. Esta, nunca a fecho. Apenas a janela da dor, deixo-a fechada, sempre. Não quero com ela intimidades, tampouco descobrir o que se esconde atrás de suas frestas misteriosas e sombrias. É tudo escuro, sem luz, de uma negritude plena e profunda. Prefiro, então, pintá-la de uma amarelo claro que me agrade a vista e a alma, sempre que a avistar. Fechada, sem brechas.

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FANTASIA DE PRINCESA

A ladeira estava lá. Subiam e desciam, todos. A noite escura e os tantos pés espalhados na rua me impediam de ver serpentinas e confetes fartamente distribuidos pelo chão, cobrindo cada milímetro do paralelepípedo conivente e alcoviteiro. Ao lado dela, Princesa, este eu Plebeu, pouco me importaando com tanta gente ao redor. Era tempo de disseminar intimamente em meu coração fragmentos de amor que se juntariam para formar um painel imenso de felicidade, tudo com uma trilha musical de sopros tocando um frevo bonito de Nelson Ferreira. Ou um frevo canção de Capiba. E o carnaval não terminaria na quarta-feira. Ia prosseguir daí em diante até que o povo começasse a dizer que estava chegando o carnaval novo. No outro ano. Mas como? Ele nunca terminou. Apenas, a fantasia de Princesa deixara de ser apenas uma fantasia aos olhos de tão insignificante Plebeu.

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