XICO COM X, BIZERRA COM I

A INSIGNIFICÂNCIA DE SER IMBECIL

Sou muito sensível a elogios. Adoro quando me chamam de imbecil. Tanto quanto Manoel de Barros. A diferença é que não tenho o talento dele. Mas quando comentam as insignificâncias que escrevo, seja em texto ou canção, fico feliz. Mais ainda e principalmente quando delas discordam. É indicativo de que alguém leu ou escutou e fez despertar o interesse de pelo menos uma pessoa, ainda que pensando diferente de mim. É o poder da palavra ou da música, guardada nos cofres da Poesia. É o nada e o tudo juntos com a magia do encantamento e o poder da sedução. Que seria de nós sem os Buarques de Holanda, Joões Cabrais, os Quintanas, os Vinícius e os Manoéis, os Barros e os Bandeiras? Sem falar nos Pessoas do além-mar. Eles nos bastam para suportar os verdadeiramente imbecis que se julgam superiores, sem o serem, claro. Por isso, me alegram, sobremodo, quando os comentários discordantes são daquelas pessoas reconhecidamente insignificantes e que nos dá prazer tê-las como discrepantes. Opiniões destes, tomo-as como elogio. E gosto de elogios.

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A MULHER QUE NÃO FOI

Ela não foi. Ficou de ir e não foi. Nem mandou alguém em seu lugar: melhor assim. Esse alguém talvez nem goste das cantigas do Chico, tampouco aprecie uma cerva gelada que só. Só sei que a danada não foi. Ou seja: meu amigo estragou água morna e sabão, gastando-os em banho tão demorado. Se seus dentes resistiriam a mais um dia sem escovação, para que escová-los, gastando pasta e escova? Pia e privada bem que poderiam ficar sem lavar: far-se-ia isto depois, com calma. Tudo em vão … Mas tudo bem. Vai ver o UBER ‘farrapou’ ou a babá que ficaria com seu filho adoeceu. Vai ver ela torceu o pé ao descer a escada ou engasgou-se com o cuscus, borrou o batom e deu-lhe preguiça de se ‘rebatonzar’ …Terá tido uma dor de barriga? Ou o calo do mindinho voltou a doer? Talvez tenha ido a um chá de caridade e esqueceu da caridade que iria fazer. Não sei a razão. Sei que ela não foi. Liga não – disse ao meu amigo – aproveita e deixa perdido o desodorante que se perdeu: quem sabe dona Solidão, que ‘tá já chegando ou já chegou, goste do cheiro dele ao cheirar o teu sovaco e se abanque por aí? A gente nunca sabe: a solidão é tão esquisita, tem uns gostos tão estranhos …

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A CASA DOS SONHOS DO MEU AMIGO

Que bela e poética a casa de um amigo meu, de portas amarelas e jardim florido, onde bate o sol mas não se deixa faltar chuva. A casa que ele sonhou. Tão diferente da casa que certo dia descobri ser a casa que não sonhei, de apenas uma porta para entrar e uma janela permanentemente fechada, por onde não passava uma fresta sequer de luz. Nem passarinhos. Serenatas, não as ouvia. Não existiam músicos nem instrumentos. Apenas poeira sobre um chão silencioso. No jardim, covas não fecundadas, semipreenchidas por areias cujos grãos já se tornavam pretos e nenhum jardineiro ou gota d’água para deles cuidar. Paredes nuas, sem quadros a adornar-lhes, fazendo companhia à janela de que falei, sempre fechada. Respirava-se solidão na casa que não sonhei. Nenhum amor ali podia ter vida. Não havia ar. Não havia amor. Nada fazia questão de existir no tempo daquela casa. Nem relógio havia para marcar a tristeza das horas. Só uma cadeira de balanço que não mais balançava por falta do impulso de alguém. Pelo menos não se ouvia o seu ranger ao balançar. Menos mal que nunca sonhei com esta casa. Melhor sonhar com a casa dos sonhos do meu amigo, próxima dos bons botecos e das boas prosas com amigos, onde não há polícia nem Lei Seca, por desnecessário ser. Uma casa sem cercas, muros ou vigias, com todas as gaiolas de portas abertas, em que se possa esperar o nada-fazer o tempo que necessário for conversando com as borboletas e acariciando as pedras que servem de pouso para passarinhos coloridos e cantantes.

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ONDE ESTÁ O CARNEIRINHO?

 

Sou de um tempo em que se comemorava o período junino com música, festa e comidas típicas. O mês de Junho era todo de festejos, de homenagens aos Santos Pedro, João e Antônio. Quadrilhas, hoje, só de políticos que roubam a população. Onde estão as fogueiras, os fogos e os balões? Olhei pro céu, que ontem foi lindo, e nada disso pude ver mais. Sequer estrelas tinha. Meu junho parece mais um outubro de tão triste e outonal. Por mais que apure as ‘oiças’ nenhum som de sanfona, nenhuma dança, nenhum baião. Já não se brinca de esconder anéis e as adivinhações são meros aplicativos dos telefones nas mãos de cada ‘matutinho.’ Mas nem com a ajuda tecnológica eles conseguem adivinhar onde estão as canjicas e as pamonhas. Nos palcos, bandas e bundas, sob o cúmplice olhar e escusos interesses dos ‘donos’ do poder público, seus asseclas, sequazes ‘empresários da cultura’. Morreu o São João ou morri eu e esqueceram de me avisar? Não olhem pro céu: pouquíssimas estrelas há. Nem carneirinhos há mais.

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ÁGUAS CRUÉIS DE UMA CHUVA INTENSA

Chove na cruel cidade das chuvas cruéis. Desabam morros, soterram-se casas, desfazem-se famílias. Mares revoltos de águas muitas, muito além do que deveriam ser. Gente que não mais verá a cidade. Nunca mais. Esperemos o sol brilhar e reflitamos sobre o proclamado Recife, Capital do Nordeste. E seria, não fosse a miséria vista de baixo, a falta de drenagem dos rios, a não-limpeza dos canais, o lixo no que um dia foi calçada. Lá de cima, drones mágicos, imagens enganosas fazem crer que está encravada no nordeste brasileiro uma Estocolmo, uma Copenhague. A verdade é outra. Quando o Capibaribe banhar–se de sol e os sobrados anciãos da rua da Aurora deixarem-se refletir em suas águas correntes, o Beberibe, mãos dadas com as baronesas flutuantes e cansado de longa viagem desde a Serra de Jacarará, a ele se juntará e, em pouco tempo, já transformados em Oceano, se espalharão mundo afora fantasiados de Mar. E aí o Recife voltará a ser belo, ainda que apenas quando visto e fotografado por drones, no andar de cima.

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JOÃO E MARIA

O gatinho João amava a gatinha Maria. Aos olhos de João e ao amparo de seus sentimentos, Maria era bela. Belíssima. A mais bonita de todos os telhados. Pouco lhe importava se ela andasse desequilibrada e passeasse suas patas descalças por sobre as telhas sujas do lugar. Não lhe incomodava seus pelos maltratados e em desalinho. Maria era bela. Belíssima. Olhos de um verde que quase não mais existia em outras gatas nas redondezas. Assim avistava João. Seus amigos percebiam muitos defeitos em Maria. E miavam aos quatro cantos suas imperfeições. Apenas o gatinho João não as enxergava. Via e ressaltava sua beleza natural, a que independe de qualquer coisa, a que realmente importa. Maria, apesar dos maus-tratos que a vida lhe impunha, era bela. Belíssima. A mais bela de todas as gatas e seu rosnar era incomparável. Ameaçador, é verdade, mas tão terno quanto. João amava Maria. E Maria amava João. Apenas isso. Além do que, aos olhos de João e ao amparo de seus sentimentos, Maria era bela. Belíssima. A mais bonita de todos os telhados.

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CÃES E SONHOS

Joviais senhoras, jovens senhoritas e alguns mancebos, quase sempre malhados, desfilam nas calçadas alheias, com seus cãezinhos, nem sempre cãezinhos. Alguns mais lembram ferozes leões acorrentados ao pescoço e puxados por suas donas e donos, domadores cuidadosos. Meu último cão foi Tupã, quando ainda garoto. Morava e passeava solto no quintal de minha casa. Gosto de cães, mas não mais os tenho e, por isso, com eles não passeio. Prefiro passear com meus sonhos e desejos: melhor companhia não há. Nos ajudam a encarar a vida e os percalços, quando seguram nossas mãos e nos desviam da crua realidade. Outras vezes nos fazem adormecer com a esperança refeita de um dia melhor no dia seguinte. Dobram as esquinas, mudam de calçada, ao pressentir perigo e nos embala, às vezes com carinho, outras, com sofreguidão, antes de nos abandonar até o próximo encontro, até o próximo sonho, até que o desejo se encante. Além do que, não precisam de coleiras, podem conosco subir e descer pelo elevador social. E com a grande vantagem de que não fazem cocô nas ruas.

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O ÚLTIMO TANGO DO SERTÃO

Um tango se ouvia como trilha sonora. No cabaré de um distante sertão, em meio à fumaça e cheiro de cigarros, tudo à meia luz, um tango. No canto do salão, apenas a pequena e quase inexistente claridade de um abajur lilás, bem menos forte que o sol que, dali a pouco, brilharia no céu daquele ambiente triste e profundo. Mas um tango? Melhor seria dançar um baião bem compassado como os que se acostumara a ouvir, pensou ele, antecipando o desejo de ter aquelas coxas fartas e outras curvas dela ao seu dispor, entre suas coxas. Por uma fresta da janela entreaberta, percebia-se um clarão que se achegava, diluindo o sonho, antecipando o final do tango … Ela, com sono, cochilava entre os acordes de um bandoneon tentando tocar La Cumparsita … E ele se pergunta: – ¿Qué has hecho de mi pobre corazón?

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O CÉU QUE A GENTE MERECE

O céu. Olhei hoje cedo, pela manhã, como sempre faço, e ele estava escuro. Carregado, como se diz lá no meu Crato distante. A gente diz que está bonito pra chover. Uma nuvem cinza e preguiçosa passeava, sem pressa, de cá pra lá, de lá pra cá, como que anunciando uma chuva. Além de cinza, preguiçosa e escondedeira do sol, a nuvem era também mentirosa: caiu um pinguinho só, um apenas, um pingo impostor, uma quase neblina fraquinha, insuficiente para amenizar o calor danado que abraçava a todos nós. Era apenas uma nuvem cinza. Flor que precisasse de água pra brotar morreria sem nascer. Isso foi de manhã, sol mal botado a cara de fora. Quem dera, agora à tarde, abram-se as comportas do céu e São Pedro, talvez com remorso, seja generoso deixando cair água muita. Tomara que assim seja, que o Sertão tão precisado também se molhe e que as ribançãs, de asas encharcadas, estejam de volta. A gente merece. Tomara que o mau tempo não demore a passar. A gente não merece.

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SOPA DE PEDRAS

No festim, a sopa de pedras, sem sal. E todos se achegaram: os sem-sorriso e os sem-medo. Depois, até uns sem-fome também vieram pois mais valia a festa que a vontade de comer. Na sopa de pedras puseram sal e o caldeirão fervia … foi quando chegou o povo dos versos abraçando os poetas e fazendo quadras e sextilhas; os sem-ouvidos aplaudiam o pianista e dançavam um blues. Do circo próximo chegaram os malabaristas, o homem do trapézio e o palhaço, que não podia faltar. O domador de leão veio só. A equilibrista, bêbada, não pode vir. Os sem-alegria riam e brincavam e os sem-ninguém encontraram seus pares. E sobrava sopa. Ninguém queria dela saber, muito menos das pedras, que, ao final, apenas serviram para erguer um altar e comemorar a vida, à moda de cada um. De braços dados e saciados de tanto amor escancararam sorrisos e beberam goles de alegria e esperança até o dia clarear. A noite foi breve e as flores se abriram mais bonitas naquela manhã de sol. Do outro lado da rua, o dia permanecia escuro. Todos, com a consciência pesada pois não conheciam a leveza de consciência, comiam as melhores carnes e bebiam os vinhos das safras mais antigas. Eram tristes, não sabiam sorrir nem cantar. Como os ratos que rondavam os felpudos tapetes azuis e vermelhos do salão. Também tristes.

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