FANTASIA DE PRINCESA

A ladeira estava lá. Subiam e desciam, todos. A noite escura e os tantos pés espalhados na rua me impediam de ver serpentinas e confetes fartamente distribuidos pelo chão, cobrindo cada milímetro do paralelepípedo conivente e alcoviteiro. Ao lado dela, Princesa, este eu Plebeu, pouco me importaando com tanta gente ao redor. Era tempo de disseminar intimamente em meu coração fragmentos de amor que se juntariam para formar um painel imenso de felicidade, tudo com uma trilha musical de sopros tocando um frevo bonito de Nelson Ferreira. Ou um frevo canção de Capiba. E o carnaval não terminaria na quarta-feira. Ia prosseguir daí em diante até que o povo começasse a dizer que estava chegando o carnaval novo. No outro ano. Mas como? Ele nunca terminou. Apenas, a fantasia de Princesa deixara de ser apenas uma fantasia aos olhos de tão insignificante Plebeu.

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E AGORA, JOSÉ?

No carnaval, o José esqueceu a verdade e fez muito bem. Escondeu num lugar bem secreto a chave que nenhuma porta abre e engoliu em seco a palavra doce que nunca pronuncia. Apenas sentou-se na esquina do mundo esperando a utopia. A vida de fantasia, embora fugaz, é bem menos doída, sabia José. Dói menos ver quase nada no bolso se há uma colombina a lhe alegrar o coração; é menos dolorida a barriga vazia se há uma esperança a azular-lhe a alma. Fez muito bem José em não ter ido para Minas em busca de sua lavra de ouro, de seu terno de vidro. Ficou por aqui, ladeiras e pontes a receber seus pés e suor porque a vida tem todo dia e aquela alegria só acontece três ou quatro dias por ano e vale a pena pensar que aquela é a verdade. Embora não seja. Aquilo tudo era festa, era carnaval, era folia. Isto, apenas a vida. A fantasia, para José, sempre foi muito melhor que a realidade. Assim era feliz José, por três ou quatro dias. Evoé!

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MEU CARNAVAL

Minha folia é um confete apenas, de qualquer cor, e um pedacinho pequeno de serpentina, desde que acompanhados de um frevo de Nelson Ferreira. Nem preciso de Felinto, Pedro Salgado, Guilherme ou Fenelon para que minha alma entre no passo e o meu coração bata num compasso binário acelerado, alegria nos pés, sorriso largo. Vim do Crato dos Anicetos para conhecer o som de Capiba, de Carlos Fernando, de Romero Amorim e de tantos outros Mestres, com seus bandolins e metais. Vim, encantei-me, fiquei e nunca mais o Frevo saiu de mim. Tal qual o Capibaribe, atravessando tantas pontes, a festa atravessa todas as fronteiras de minha emoção e estaciona, feliz e brincante, no pátio colorido do meu coração, na varanda de minha alma onde balança alegre uma rede com as cores de Pernambuco. Evoé!

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CAI A NOITE

Xico Bizerrra

Logo, logo, a tarde já colorida vai se embonitar ainda mais para entregar-se à noite com todo o amor que o arrebol proporciona. Os cantos da Igreja próxima, de repente silenciam e se transformam no encanto dos sinos a badalar para que as janelas se abram e deixem entrar a branda brisa da Ave-Maria. Hora de descanso das sacolas que o homem velho carrega pendurados às costas: suas mãos se postam rezando por um dia de luz diante da escuridão solitária que acompanha aquele alforje de interior repleto de vazios. Árvores tagarelas balbuciam sons incompreensíveis enquanto suas folhas continuam a conversar com o vento, prenunciando o cair d’água que está por vir. As crianças-chuva se protegem no alpendre da casa em que seus pais brincam de se abençoar com a luz do amor. Cai a noite.

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TEATRO

Xico Bizerra

TEATRO FEDERAL Apresenta
NUMA CIDADE SEM ESQUINAS
UMA TRAGICOMÉDIA EM TRÊS obscenos ATOS

* * *

Na sala de estar, avó e neto em frente à TV, acompanham a eleição para Presidente do Senado, de baixíssima reputação: Os Cleros, ‘Alto’ e ‘Baixo’, se engalfinham numa elegante e respeitosa troca de amabilidades:

– Conceda-me um aparte. V Excia é um Ladrão!

– Não lhe concedo o aparte. Ladrão é V Excia!

– Com todo o respeito, V Excia é um Canalha!

– Canalha é V Excia!

Propõe a Avó:

– Menino, melhor desligar essa TV. A discussão é inócua. As duas excelências estão com a razão.

* * *

Num canto da tela, os outros engravatados sem prestar atenção aos impropérios, conversam e riem entre si.

– O homem está falando e ninguém presta atenção, vovó. Riem deles, dos brigões?

– Não, meu querido. Riem de nós.

* * *

Enojados, avó e neto desligam a TV, dão-se as mãos e vão até a banca de jornais mais próxima e compram uma revistinha de putaria explícita. Quase tanto quanto.

* * *

CAI O PANO. RAPIDAMENTE.

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CORAÇÃO.COM – Xico Bizerra

Xico Bizerra

Configurei meu coração mas perdi a senha. Não mais posso acessá-lo tampouco me conectar com o mundo à minha volta. Tentei plugar o meu amor, em vão. Sem
senha nada é possível. Impossibilitado de navegar na rede, procurei, no Google, reencontrar o mundo, mas, mais uma vez, tentativa inútil. ‘Sem senha, é impossível’, disse-me abusado e em letras garrafais o Note Book. E o mundo lá fora, brilhando, informando tudo sobre tudo e eu aqui, sem senha, sem saber o que se passa. Eu querendo falar on-line e dizer da minha vontade de viver, mas, apenas porque sou esquecido e esqueci a senha, sem poder fazê-lo. Tem nada não, vou me vingar quando lembrar da danada da senha: vou mandar um Zap para meus amigos todos desejando Paz e, on-line, pelo Instagran, sorrir para mostrar que ainda é possível ser feliz. E quando um dia conseguir, dançando um xote no site da felicidade, conversar via Facebook com os que quero bem, vou jogar na lixeira todos os arquivos de tristeza e dor. E aí prometo nunca mais esquecer a danada da senha.

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A DANÇA DA ALGARAVIA – Xico Bizerra

No espaço entre o céu e o chão, bem mais próximos do chão que do céu, os fios da ganância e da concorrência entre operadoras de celular dançam a dança da algaravia, sobrepostos entre si, pendurados aos postes, alguns quase tocando o espaço em que o povo tenta andar. Barulhos e zumbidos de ambulantes que não ambulam, aboletados em suas barracas, impedem o fluxo normal de quem por ali passa, tumultuando o que deveria ser uma calçada para pedestres. Restos de comida e esgotos mal acondicionados infestam o ar de uma falta de cheiro digna dos mais infectados mercados das piores cidades do mundo. Carros e ônibus brigam por pedaços pequenos de ruas e avenidas e o ar, de tão poluído, é cinzento, a olho nu. Fumaça e óleo queimado, seus ingredientes O velhinho que pede esmola confunde sua voz de pedido com a estratégia de marketing do camelô querendo vender suas capas para celular. Onde estamos? Para onde vamos? Quando teremos uma Boa Vista passeando por aquela avenida?

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O MENINO, O VENTO E A PIPA – Xico Bizerra

No meio do tempo, sol pleno, vento abundante. Ali estavam o menino, sua pipa e o vento alcoviteiro. No mesmo instante em que o menino dá linha a sua ave de papel colorido, ela vai se aproximando dos seus irmãos anjos que perambulam pelo céu e se encantam com o balouçar da pipa brincante. Se desaproximam da terra quente. É a dança alegre de um pedaço de papel, untado com cola de grude e amparado por talas de coqueiro em forma de cruz, que lhe dão sustentação para brigar contra a força do vento que a carrega para o alto. Na extremidade final daquele papel volante e acrobático, a rabiola, provedora do equilíbrio, ‘evitadeira’ das guinadas indesejáveis da pipa. Naquele instante, inexiste qualquer preconceito, todos são iguais. Não importa os pés descalços e o sorriso banguelo de quem tem o domínio sobre o objeto voador: aquele menino tem pleno e profundo conhecimento sobre seu brinquedo e dele faz o que bem quer, tendo o vento como cúmplice e amigo. Ali, se acabam as diferenças e tudo passa a ser igual, como igual é a luminosidade do sol para todos, pretos, brancos, meninos, meninas, ricos e pobres. A pipa é igual para todos que a veem.

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FUTEBOL É COISA PARA O NELSON … – Xico Bizerra

Pouco, ou quase nunca, me atrevo a escrever sobre futebol por não dispor de dois atributos essenciais para poder incluir o tema em meus escritos: primeiro, o talento de um Nélson Rodrigues, que tão bem e como ninguém tratou o assunto, inibindo a todos a abordagem do tema. Tudo que se escrever sobre nosso esporte parecerá incompleto se comparado ao que escreveu o dramaturgo Nélson. Segundo, a comparação do futebol de hoje com o de antes, hoje muito diferente do daquela época, em que interesses financeiros não se sobrepunham à beleza do esporte, ao romantismo da bola rolando por entre pés mágicos e mãos defensoras de gols quase feitos. Tempo em que não se beijava descaradamente o escudo do time eventualmente ‘defendido’ pelos atletas atuais. Bem diferente dos craques (a estes podemos chamar de craques) de ontem, que, apesar de não beijarem levianamente os escudos dos seus times, o defendiam de verdade, com amor. Um Garrincha, um Nilton Santos, um Castilho, para não falar de Pelé, defenderam seus times por anos e anos, quando o futebol era apenas um esporte, longe de ser um negócio. Tempos em que uma cantora famosa se apaixonava por um jogador pobre. Tempos em que o golkeeper batia roupa e o centrefor, na banheira, reclamava do juiz da marcação do offside. Pela falta de um drible emocionante de Garrincha, de uma defesa arrojada de Carlos Castilho e levando em conta a inexistência atual de equivalentes jogadores, prefiro estragar minhas letras com o amor, o afeto e a saudade. Por isso que hoje, não obstante eventualmente vista uma camisa vermelha e preta com um leão desenhado no peito, sob o ouro e a prata de algumas estrelas conquistadas, acho mais fácil falar das arquibancadas e refletores da lua, das traves e entraves do amor, das embaixadas e dribles das estrelas, dos lagos e jardins de nuvens preguiçosas e dos golaços dos arco-íris coloridos … Futebol é assunto difícil demais para mim. É coisa para o Nélson.

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DELÍRIOS FELIZES – Xico Bizerra

Ponho no bolso da camisa meu porte de alma, junto à carteira do amor, e saio por aí, serelepe e fagueiro, atirando carinho e flores, preferindo estar amado a me utilizar de armas, quaisquer que sejam elas. Esqueço, por um instante, meus sérios poemas mentais. Estou são, pelo menos por enquanto. Hoje, quero apenas a mão que acaricia, o silêncio das palavras que acalma. Na boca do céu, dou um beijo no céu da boca da noite e delírios felizes vão se sucedendo na contemplação das estrelas, elas de mãos dadas, constelação estelar na ciranda dos céus. Assim que quero ser, assim quero viver: de sereno, de orvalho, de madrugadas se achegando silenciosas e inspiradoras. Do cheiro de uma flor e do sabor doce de um sapoti maduro, colhido no pé. De um livro, um soneto, um poema. Talvez até brote uma canção que a alguém encante ou que, algum dia, alguém cante lembrando um grande amor ou a saudade de seu bem-querer.

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