VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O GOL

Era um dia feriado, consagrado ao Exército Brasileiro. Um dia de laser, dentro do Quartel do 16 RI, em Natal, com várias competições esportivas, inclusive um jogo de futebol, disputado por dois times formados por Oficiais.

Na plateia, estavam presentes Tenentes, Capitães e o General Mendes Rosa, um homem careca, bonito e simpático, muito querido pelos oficiais e por toda a Corporação. Deficiente visual de um olho, em consequência de um acidente em serviço, esse General, optou por permanecer em atividade, mesmo tendo direito à transferência para a Reserva Remunerada. Para ele, era um orgulho continuar fazendo parte do serviço ativo do Exército Brasileiro.

As torcidas dos dois times de futebol já estavam a postos, esperando o início do jogo, que iria decidir um campeonato interno. Um deles seria o campeão do torneio e receberia uma taça relativa àquela data.

O jogo começou cheio de emoção, e somente no final do 2º tempo, foi que um dos times conseguiu fazer um gol sensacional, o chamado gol de placa. O autor foi o Tenente Luz, Oftalmologista do Corpo Médico do Exército, que, num assomo de euforia, não se conteve e disse para os colegas:

– PORRA!!! Este gol eu quero dividir com o General Carequinha!!!

A gargalhada dos colegas foi geral. Acontece, que o General Mendes Rosa, ouviu isso e entendeu que era com ele, que nunca admitiu ser chamado de careca ou carequinha por ninguém, principalmente por um Oficial que lhe era subalterno na carreira militar. O General, que estava assistindo ao jogo com alguns amigos e com eles tomava seu Whisky, não gostou nada do que ouviu. Sentiu-se ridicularizado, como se fosse um palhaço. Fechou a cara e se retirou.

O Tenente Luz, que não imaginava que o General tivesse ouvido o que ele falou para os colegas, arrependeu-se desde o dia em que nasceu e perdeu o fim de semana, nervoso e com dor de barriga, só em pensar na punição que deveria receber na segunda-feira. Sabia que seria punido por aquele desrespeito e podia até pegar uma cadeia.

O General Mendes Rosa gostava muito do Tenente Luz, e às vezes se consultava a ele. Não esperava nunca ser desrespeitado logo por esse Oficial a quem tanto prezava.

Na segunda-feira, logo cedo, o Tenente Luz chegou ao Quartel, e, imediatamente, foi chamado à sala do General. Levou um chá de espera de uma hora, no sol quente, até que recebeu a ordem para entrar. Quase tremendo de medo do que iria acontecer, foi recebido grosseiramente pelo General, que sempre o tratava por Dr. Luz, mas, dessa vez, limitou-se ao “Bom dia, Tenente Luz!”

E num tom grosseiro e autoritário, o General perguntou-lhe:

– O senhor pode repetir as palavras que proferiu no campo de futebol, sexta-feira, logo que fez o gol da vitória?

O Tenente, visivelmente nervoso, mas com toda altivez, respondeu:

-Antes de repetir o que eu disse, confesso que me arrependi tremendamente e jamais repetiria aquelas palavras. Na euforia do gol, quis homenagear o senhor, sem imaginar que iria lhe magoar. O que eu disse foi:

“Porra! Esse gol eu divido com o General Carequinha! “

O General, com sua voz estridente, respondeu:

-O senhor me faltou com o respeito e me expôs ao ridículo, como se eu fosse um palhaço. Sempre o respeitei como médico, tratando-o por Dr. Luz, dando-lhe sempre um tratamento especial. Mas o senhor não correspondeu.

O Tenente Luz, bonito e vaidoso, não cortava os cabelos à moda militar. Tinha uma cabeleira negra e sedosa, o que era uma liberalidade que gozava junto ao seu superior.

O General não disse mais nada. O Tenente Luz foi entregue ao ajudante de ordem, para ser encaminhado à barbearia da corporação, onde teve a cabeleira raspada, sendo preservada, apenas, uma pequena trunfa na parte superior.

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A PROTETORA

Cândida sempre foi muito estudiosa. Formou-se em duas faculdades: De Psicologia e de Letras. Optou por ser professora, obtendo aprovação em concurso público federal.

Sua marca registrada sempre foi a personalidade forte, que chegava a ser confundida com fanatismo. Desde criança, tinha opinião própria, até nas escolhas de suas roupas, o que não acontecia com suas duas irmãs. Ainda adolescente, tinha fanatismo por partido político, candidatos, time de futebol, cantores, artistas de cinema, fora os heróis de revistas em quadrinho.

Apesar de ser tratável, Cândida sempre saía do sério, quando alguém ousava se posicionar contra os seus fanatismos. Quem assim o fizesse, imediatamente recebia sua reprovação, o que, às vezes, resultava em intrigas passageiras.

Desde criança, Cândida deixou de comer galinha, pois, certo dia, sem querer, viu a cozinheira da sua casa matando uma, para preparar o almoço. Ficou em pânico e revoltada. As poucas galinhas de sua mãe, que restaram no galinheiro, morreram de velhas e de morte natural, a pedido dela. Afeiçoou-se às galinhas e pôs nomes em cada uma delas, inclusive uma se chamava Marta Rocha, o no nome de uma Miss Brasil.

Certa vez, Cândida, já adulta, viu um gatinho ser atropelado perto da sua casa. Penalizada, levou-o para uma clínica veterinária e pagou as despesas do tratamento, até que ficasse curado. O gato teve alta e Cândida passou a criá-lo. Alguém soube disso e a casa se transformou num depositário de gatos enjeitados. As pessoas abandonavam os gatos no jardim da sua casa e Cândida se afeiçoava a eles, transformando-se numa verdadeira protetora. Se um adoecesse, Cândida chamava o veterinário, para atendimento a domicílio. Gastava uma boa parte do seu salário com remédios e às vezes internamentos em clínicas veterinárias.

Numa visita ao Cemitério, perto do túmulo de um ente querido, Cândida viu um gato com uma ferida no pescoço. Por telefone, chamou um médico veterinário até lá. O homem examinou o gato e receitou os remédios necessários. Mas, no Cemitério “moravam” outros gatos, doentes e famintos. Cândida não os levou para a sua casa, mas assumiu, consigo mesmo, o compromisso de patrocinar o tratamento de suas enfermidades e levar sempre ração para eles, sob os cuidados do Administrador. Decorridos alguns anos, Cândida ainda mantém o mesmo hábito, sozinha, e por conta própria. Solteira por opção, sua vida é dividida entre sua residência, o trabalho profissional, e as visitas ao Cemitério, onde seus pais estão sepultados, e onde se encontra um enorme número de gatos, esperando a visita de sua protetora.

Mesmo já contando tempo de serviço suficiente para se aposentar, Cândida, que detesta a palavra “aposentadoria”, optou por continuar trabalhando, até que seja alcançada pela compulsória. É uma grande mulher, digna de admiração.

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O DESABAFO

Um conhecido Professor, de uma faculdade de Direito particular, de Natal, chegou para dar aula atrasado, pela primeira vez em sua vida. Visivelmente irritado, o jovem e eloquente professor pediu desculpas aos alunos pelo atraso.

Antes de iniciar o tema da aula de Direito, para se descontrair, improvisou uma fala para a turma, quase toda feminina, sobre os problemas da vida a dois.

Começou dizendo que aconselhava aos alunos, moças e rapazes, casados ou solteiros, que nunca atormentassem a vida de seus cônjuges, se quisessem ser felizes no casamento. Principalmente, não tirassem o espaço um do outro dentro de casa.

E frisou bem que a mulher, quando é vaidosa demais, torna-se egoísta, de tal forma, que não tem tempo de pensar no bem-estar do marido nem dos filhos. Estes são entregues às babás ou às creches, e, às vezes, os pais só veem os filhos pequenos quando eles estão dormindo, ou nos fins de semana. Por esse motivo, as crianças se apegam mais às babás do que aos pais, e, em casa, preferem dar atenção aos brinquedos eletrônicos, incluindo-se os “tablets”, e filminhos, principalmente um tal de “Galinha Pintadinha”, por quem ele, pessoalmente, sentia verdadeira ojeriza.

Disse que sua mulher “privatizou” a suíte do casal, apossando-se do banheiro, de tal forma que ele só dispunha, nas inúmeras prateleiras de vidro, de um pequeno espaço, para colocar sua escova de dentes. Disse que vivia estressado, pois, ao chegar do trabalho no final da tarde, sua mulher nunca estava em casa. Sempre tinha saído para a Academia e ele já estava cansado de jantar sozinho, por não ter paciência de esperá-la até 19 horas.

Naquele dia, especialmente, disse ele, estava com os nervos em pandarecos. Depois do café da manhã, como sempre fazia, havia entrado no banheiro para tomar banho, já pensando no trânsito que iria enfrentar, para chegar até ali e dar sua primeira aula. Lavou os cabelos com “shampoo” e condicionador, enxugou-se e se arrumou apressadamente. Ao se pentear, percebeu que tinha exagerado no condicionador, ou sua mulher tinha comprado uma nova marca, aliás de cheiro excelente. Mas seus cabelos haviam ficado ralos e sem jeito. Muito vaidoso, não conseguiu penteá-los ao seu gosto. Disse que estava se achando a cara de “ Marcelino Pão e Vinho”, com uma franja cobrindo sua testa, coisa que ele detestava.

Disse ainda que, na hora de sair de casa, havia entrado no banheiro e aproveitara para ver a marca do novo condicionador que a destrambelhada da mulher tinha resolvido comprar. Devia ser algum lançamento e de uma marca muito cara, do jeito que ela gostava.

Qual não foi sua surpresa, ao constatar que, em vez de condicionador, ele tinha usado nos cabelos, após o “shampoo”, um sabonete íntimo, cremoso, da sua esposa, com um perfume inebriante. Já era tarde para lavar os cabelos novamente.

E concluiu sua fala:

-Não é brincadeira, não! Eu, um Advogado e Professor respeitado, estou aqui me sentindo uma VULVA, por causa da futilidade da minha mulher!!!!!!

A classe não conteve o riso, e o desabafo do Professor diminuiu o seu estresse.

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O GALANTEIO

O antigo galanteio nada tem a ver com o chamado Assédio sexual, definido no Art. 216 do Código Penal, como o ato de “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente de sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”.

Tempos atrás, não se falava em assédio sexual, como hoje. O que havia era galanteio. As cantadas “sadias”, elogios e galanteios não eram crimes, e podiam até envaidecer a mulher, aumentando-lhe a autoestima. As propostas indecentes sempre existiram, sem que caracterizassem crime de assédio sexual, como nos tempos atuais.

Dr. Minora, um conhecido advogado, recebeu em seu escritório uma senhora, bonita e insinuante, 50 anos, que queria contratá-lo para fazer o seu divórcio.

Depois de ouvir os motivos que estavam levando a cliente a pedir a separação, o advogado elogiou a sua beleza e comentou que existia homem idiota, que não enxergava a mulher que tinha ao seu lado.

Na verdade, o advogado era galanteador por natureza e não podia ver uma mulher bonita, que tentava conquistá-la, mesmo que fosse sua cliente, Sentia um certo fascínio por mulheres casadas, em fase de separação. Sentiu-se atraído pela cliente e os elogios eram verdadeiros.

A mulher sentiu-se gratificada, pois vinha atravessando uma fase de desprezo do marido, que há meses não tinha com ela qualquer relacionamento conjugal. Isso massageou o seu ego.

Ao sair do escritório, o Dr. Minora foi com um amigo, Dr. Rildo, também advogado, até o café mais próximo, onde fizeram um lanche e conversaram sobre sua nova cliente. Contou ao amigo os elogios que lhe tinha feito e se justificou, dizendo que toda mulher gosta de receber elogios, principalmente quando já está entrando na idade madura.

De repente, de surpresa, a esposa do Dr. Minora chegou ao café e sentou-se para lanchar também, junto com o marido e o amigo. Muito bonita e elegante, Rosilda despertou a atenção de quem estava por perto, e o amigo do seu marido. não conseguia deixar de admirar a sua beleza. Teceu-lhe elogios e parabenizou Dr. Minora, pela bela mulher que ele tinha. Disse, ainda, que o Dr. Minora era um felizardo. por ter se casado com uma mulher daquela, bonita, elegante e simpática.

Ele sempre ouviu Dr. Minora dizer que um homem educado, quando está diante de uma mulher atraente, tem o dever de fazê-la sentir-se admirada. Isso massageia o ego feminino, pois a mulher gosta de elogios.

A indiferença do homem diante de uma mulher bem vestida e elegante é humilhante para ela, principalmente quando se trata de uma mulher na idade madura. Vem logo o complexo de velhice, que é o pavor de todas as mulheres.

Baseado no que sempre ouvia o Dr. Minora dizer, o amigo se desmanchou em elogios à sua esposa, que ficou muito envaidecida.

Dr. Minora ficou sério e não gostou do que viu e ouviu. Teve uma crise de ciúme.

O amigo se justificou:

– Sempre escutei você dizer que o homem educado tem que elogiar as mulheres.

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UMA PESSOA ADORÁVEL

Numa Escola pública de Natal, num dia de prova de Português, o primeiro quesito foi uma Redação, com o tema “Uma pessoa adorável”.

Nessa escola, predominava o número de alunos criados somente pela mãe.

Todos fizeram a redação, focalizando seus heróis de revistas em quadrinhos, artistas de cinema e televisão, cantores, e até jogadores de futebol. Em nenhum momento, homenagearam os pais ou outros parentes, exceto Antonina, uma aluna exemplar, que sempre se destacava em tudo, inclusive na educação. Essa aluna era a mais aplicada da classe e foi quem primeiro entregou a prova.

Sobre o tema da redação, ela assim se expressou:

“Para mim, uma pessoa adorável é o meu Pai, Antônio Firmino. Ele é meu herói , meu amigo. Tem dedicado sua vida a mim e à minha irmã, desde que perdeu nossa mãe para o câncer.

Já faz seis anos e até hoje ele não quis casar novamente. Diz sempre que jamais nos dará uma madrasta. Eu digo a ele que isso não seria problema nenhum. Toda pessoa viúva tem direito de se casar de novo. Mas ele diz que não quer. Para mim e minha irmã, ele é pai e mãe. Faz o possível para nos dar uma boa educação e diz que seu maior objetivo na vida é nos ver formadas e muito felizes.

Neste mundo, não existe pessoa melhor do que meu Pai. É a ele que eu mais amo na vida.”

Ao corrigir a redação de Antonina, a professora ficou impressionada com a maturidade dessa aluna de 12 anos e se emocionou. Leu a redação em voz alta para toda a classe ouvir.

Aquela declaração de amor ao pai provocou lágrimas em alguns alunos. Todos se comoveram com o fato de Antonina ser órfã de mãe.

A menina ficou feliz com o destaque que a professora deu à sua redação, considerando-a uma das melhores da classe.

Seus colegas passaram a olhá-la de forma mais carinhosa e solidária.

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A MOLEZA

Numa sexta-feira, ao terminar o expediente, os advogados de um escritório de advocacia de Natal, como costumavam fazer, saíram direto para um barzinho. Pouco tempo depois, Marleide, 45 anos, esposa do mais velho, Dr. Salomão, 50 anos, começou a lhe telefonar direto, para que fosse para casa jantar. Já impaciente, o marido disse-lhe que ela podia jantar com os filhos, pois o papo estava muito bom e ele iria demorar mais um pouco.

Do barzinho, seguiram todos para a casa de um deles, para continuar bebendo e conversando.

O Dr. Salomão se excedeu no Whisky e ficou completamente embriagado. Já eram quase 23 horas e o advogado adormeceu na cadeira, sem jeito de despertar.

Querendo encerrar a brincadeira, os colegas o levaram para tomar um banho de chuveiro na suíte do casal. Tiraram sua roupa e o deixaram sentado no chão do box, com o chuveiro aberto. Uma hora depois, Dr. Salomão chegou no terraço, ainda tonto, mas devidamente vestido, cabelo penteado e molhado. Pediu aos amigos que fossem deixá-lo em casa, pois sua mulher devia estar uma fera.

Como era de se esperar, foi recebido com “quatro pedras na mão” e uma série de impropérios. Não adiantou dizer onde estava, nem com quem, pois isso já não interessava à mulher dominadora e ciumenta.

Dr. Salomão jogou-se na cama, e adormeceu na mesma hora, vestido do jeito que chegou da rua. Não tirou nem os sapatos. Quando já estava roncando, Marleide resolveu tirar a roupa do marido e deixá~lo dormir somente de cueca.

A indignação da esposa de Dr. Salomão aumentou ainda mais, ao ver que o marido estava usando uma calcinha feminina, preta e toda rendada!!! A mulher teve uma crise histérica e gritou para quem quisesse ouvir que iria se separar dele no dia seguinte, pois acabara de descobrir que era casada com um boiola, há quase 20 anos, sem saber!

Dr, Salomão dormia em berço esplêndido, roncando loucamente, enquanto Marleide se “descabelava” de raiva dele, com vontade de esganá-lo.

No dia seguinte todos os colegas do escritório ficaram sabendo da confusão da “calcinha preta” e foi preciso que fossem todos, inclusive a dona da calcinha, à casa de Marleide e Dr. Salomão. para desfazer o equívoco.

O difícil foi convencer Marleide de que seu marido, ao tentar vestir a cueca depois do banho, por equívoco, vestiu a calcinha da dona da casa, que estava ao lado. Ele não tinha nada de boiola.

Foi muita moleza do Dr. Salomão!!!

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A CIRURGIA

Há várias décadas, entrando pela 2ª metade do século passado, em Nova-Cruz (RN) o atraso era geral. Não havia energia elétrica, água encanada, hospital, clínicas ou consultórios médicos.

Qualquer problema de saúde, que um chá com uma “Cibalena” não resolvesse, o caminho certo era procurar atendimento médico em Natal ou João Pessoa, capital da Paraíba, Estado com o qual a nossa cidade faz fronteira.

Dona Lia, minha saudosa mãe, padeceu durante anos, com problemas de varizes nas duas pernas. Para completar o sofrimento, surgiu na sua perna esquerda, uma pequena úlcera varicosa, que logo aumentou de tamanho, passando a arder e doer cada vez mais.

Depois de usar os unguentos vendidos na farmácia e todos os remédios caseiros, sem qualquer resultado, Dona Lia se deslocou para Natal, a fim de se consultar a um especialista em varizes. Marcou uma consulta com o mais famoso Cirurgião Vascular da capital, a quem vou chamar de Dr. Abelardo.

A consulta ao Cirurgião Vascular foi feita e o tratamento indicado para a úlcera varicosa foi o cirúrgico, com a retirada da veia Safena (Safenectomia).

Feitos os exames pré-operatórios, inclusive o risco cirúrgico, o Cirurgão Vascular marcou a data e o horário da cirurgia, a ser realizada na Casa de Saúde São Lucas, numa terça-feira, às 14 horas.

Dona Lia, muito nervosa, tinha veneração pelo renomado Cirurgião e Obstetra, Dr. José Tavares, por quem, abaixo de Deus, teve sua vida salva, num delicado caso de uma gravidez molar, anos atrás. Dessa vez, entretanto, seu problema de saúde teria que ser tratado por um Cirurgião Valcular. Ela não se conformava com isso.

Na sexta feira, que antecedeu à cirurgia de Dona Lia, à noite, estiveram na casa de sua irmã Carmen, onde ela estava hospedada, seus amigos: Dr José Tavares (Obstetra), Dr. Héllen Costa (Cardiologista) e o Dr. José Valério Cavalcanti (Clínico Geral e Cirurgião), como sempre acontecia,

A amizade desses médicos com a tia Carmen Pimentel era grande, e, ao saberem do nervosismo de Dona Lia, ante a perspectiva da cirurgia a que iria se submeter na 4ª feira, todos se prontificaram a assistir ao procedimento.que seria feito pelo famoso Cirurgião Vascular.

Na hora marcada, estavam todos na Casa de Saúde São Lucas. Depois dos preparativos de praxe, vimos nossa mãe ser levada na maca para o centro cirúrgico.

Em seguida, passaram por nós os três médicos antigos que iriam assistir ao procedimento e por fim o Dr. Abelardo, responsável maior pela complexa cirurgia, que durou cinco horas.

A cirurgia foi um sucesso e o Dr. Abelardo, ao ver seu feito assistido por médicos antigos e renomados, brincou com todos e disse que ali, de fraco o único era ele.

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A ARAPUCA

Há viciados em bar, que não se conformam em voltar para casa, no fim da noite, quando o proprietário começa a fechar as portas e os garçons começam a recolher mesas e cadeiras. Por eles, continuariam fazendo o exercício de levantamento de copos, até o dia amanhecer. Alguns fazem de conta que não estão vendo o dono fechando as portas e os garçons arrumando tudo. O expediente etílico, para eles, deveria ser do tipo “24 horas”.

Continuam sentados na mesma mesa, às vezes cochilando, mas sem vontade de deixar o bar. Esperam que a vassoura passe perto dos seus pés, para poderem se levantar. São os chamados alcoólicos inveterados, que esquecem que tem família em casa, ou que são separados e moram sozinhos. Saem do bar, reclamando que a cidade é atrasada e não tem vida noturna.

Dois amigos boêmios, corretores de imóveis, saíram de um bar, em Natal, quase de madrugada, e se dirigiram a uma “boate”, à procura de companhia feminina para o fim da noite.

Quando lá chegaram, o mais afoito simpatizou logo com uma bonita morena e subiu para o quarto com ela. No quarto, a mulher, rapidamente, uniformizou-se para a prestação do serviço, ou seja, tirou tudo. Enquanto isso, o homem, embriagado , sentou-se na cama e começou a desabotoar a calça e a camisa. A mulher, querendo se livrar logo daquele freguês, mostrou-se impaciente e pediu para ele se apressar. Em tom autoritário e grosseiro, disse-lhe que, na cama. havia um jornal para ele colocar os pés. Por isso, não precisaria tirar os sapatos.

O homem se irritou, sentindo-se maltratado e humilhado por aquela mulher, cuja profissão lhe exigia respeito e consideração aos clientes.

De repente, o boêmio sentiu-se sóbrio e, com toda dignidade, falou:

-Basta! Não quero mais nada com a senhora!

Vestiu a roupa, rapidamente, e desceu as escadas.

Atrás dele, a mulher gritou:

-Tem que me pagar! Ocupou meu tempo!!!

E ele respondeu:

-Pagar o que, se nem cheguei perto de você?!!! Para tudo nesta vida, é preciso ter classe, inclusive na profissão que você exerce.

Nessas alturas, apareceu um “leão- de -chácara” para defender a mulher. Ao ouvir o relato do cliente, viu que ele tinha razão.

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A PRIMEIRA NOITE

Lúcia e Bento, recém-casados, viajaram em lua de mel, de carro, para conhecerem uma agradável cidade serrana, na Paraíba.

A viagem, mesmo longa, foi muito agradável, pois os dois “pombinhos”, finalmente, iriam se pertencer, uma vez que Lúcia teve uma educação muito rígida e reprimida.. Nesse tempo, as noivas ainda casavam virgens.

Já instalados num hotel, aparentemente antigo, os dois chegaram exaustos da viagem. Pediram almoço no quarto mesmo, tomaram banho e resolveram descansar o resto do dia.

O quarto com banheiro era muito aconchegante, com mobília estilo colonial e cortinas discretas, em cor neutra. À noite, pediram o jantar, e depois continuaram com os afagos e carinhos que há tempos reprimiam.

A felicidade plena dos dois jovens na noite de núpcias, com a certeza de que nada no mundo perturbaria aqueles momentos mágicos que estavam vivendo, completava o cenário do sonho das “mil e uma noites”.

Diz a sabedoria popular, que “o diabo sempre encontra um meio, de lançar a sua gota de absinto na taça da felicidade”. Coincidência ou não, isso sempre acontece.

O casal que estava em paz, gozando das delícias da primeira noite, de repente passou a ouvir risadas e conversas indecentes, dos hóspedes que bebiam no quarto vizinho. Depois de alguns minutos, sem que a balbúrdia cessasse, Bento foi até à gerência e pediu providências, no sentido de que aqueles hóspedes diminuíssem o barulho. Ele e a esposa estavam sem poder relaxar.

Mesmo tendo sido abordados com cordialidade pela gerência, a reclamação não foi bem recebida pelos rapazes, que disseram estar comemorando o aniversário de um deles. Já haviam pedido muita bebida e comida e a euforia continuou.

Lúcia e Bento se entregaram, novamente, aos braços um do outro, tentando não ouvir as risadas nem as conversas picantes dos rapazes. Mas, era impossível.

Ao saberem, pelo empregado do hotel, que no quarto vizinho havia um jovem casal em lua de mel, a excitação e euforia dos hóspedes aumentou. Aparentemente embriagados, falavam ao mesmo tempo, até que se ouviu uma voz forte e pastosa:

– É preciso que os noivos venham aqui brindar conosco! Nós beberemos à saúde deles e ensinaremos ao cara seus deveres conjugais! Melhor ainda, será nós irmos ao quarto deles!!!

Após essas palavras, seguiu-se uma euforia ainda maior, e vozes chamando uns aos outros para irem ao quarto dos noivos. Os dois jovens em lua de mel estremeceram, temendo que o quarto fosse invadido pelos rapazes, e houvesse um assalto ou um estupro.

Por sorte, ouviu-se uma ordem superior, quase aos gritos, mandando que eles se calassem e ficassem onde estavam. Aos poucos, a balbúrdia cessou e fez-se um relativo silêncio.

Nesse ínterim, o clima de desejo entre o casal esfriou, dando lugar a um medo terrível dos hóspedes do quarto vizinho. A noite de amor foi interrompida e se transformou numa noite de terror. Nesse tempo, não se falava em assalto, nem existia a violência dos dias atuais.

Lúcia e Bento estavam certos de que aquela seria a noite mais feliz da vida deles. Mas, ninguém pode dizer “hoje serei feliz”. Às vezes, a pessoa faz os melhores planos para sua vida, mas o Universo conspira contra eles.

Quando o casal já estava calmo e sentindo-se em paz, os hóspedes do quarto vizinho voltaram a fazer barulho. Dessa vez, começou uma cantoria, acompanhada por um trombone. Vieram até a porta dos recém-casados e gritaram:

– Boa noite para os noivos!!! Muitas felicidades!!!

Cantaram uma canção de amor, acompanhada pelo trombone e finalmente deixaram o hotel, para sossego do casal e do hoteleiro, que temia perder a freguesia dos hóspedes costumeiros e barulhentos, mas que lhe davam muito lucro.

Lúcia e Bento continuaram imóveis na cama, tensos, como se tivessem despertado de um pesadelo.

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RETRATO DE UM CASAMENTO

Faço parte, no facebook, do grupo “NOVA-CRUZ NA MEMÓRIA E NO CORAÇÃO”. O presidente do grupo é Celso Lisboa Neto, o nosso querido amigo Celsinho. Ontem à noite, ele postou uma foto das antigas, como ele diz, e pediu a quem identificasse alguma pessoa conhecida, que se pronunciasse. A foto era de um casal de noivos, na calçada da Igreja, com um grupo de convidados, incluindo os padrinhos. Um grupo grande de pessoas. Os noivos, eu não conhecia. Do grupo, identifiquei, apenas, dois casais, que, conforme alguém comentou, eram as testemunhas. Tratavam-se do Sr. Carluce e esposa dona Bernadete, e do Sr. Alfredo Ângelo e esposa, dona Terezinha. Repito que os noivos, eu não conhecia.

Na leitura dos vários comentários à postagem da fotografia, fiquei surpresa, quando alguém escreveu que ali na foto estavam Seu Chico e Dona Lia, exatamente meu pai e minha mãe.. Eu contestei e escrevi um comentário, dizendo que meus pais não estavam na foto. Disse que a autora do comentário, certamente, havia confundido Seu Alfredo com meu pai. Aliás, sempre achei os dois parecidos.

Ao ler meu comentário, contrário ao dela, a moça insistiu que na foto estavam seu Chico e dona Lia. Fiquei irritada e voltei a repetir que não eram eles.

A moça voltou a insistir que Seu Chico e Dona Lia estavam na foto, a qual lhe fora ofertada pela própria dona Lia. Para completar minha irritação, a moça comentou que aquele casamento era, exatamente, de Seu Chico e Dona Lia.

Então, aqueles noivos eram os meus pais, e eu não tinha reconhecido??? Disparate maior do que esse não podia existir. Quase pirei, pois sempre soube que minha mãe e meu pai se casaram em Natal, onde ela morava. Eles fixaram residência em Nova-Cruz, a terra dele e onde ele sempre morou, mas, repito, o casamento deles foi celebrado em Natal. E a foto, mesmo antiga, era de um casamento em Nova-Cruz!!!

Quando eu já estava cansada de repetir, que naquela foto não estavam meu pai e minha mãe, um conterrâneo que também é do grupo, “salvou a pátria”, com um comentário definitivo:

– Minha gente, esse retrato é do casamento de “CHICO PRETO” e Dona Lia, pessoas de Nova-Cruz.

Chico Bezerra e Dona Lia Pimentel Bezerra, meus pais, realmente, não estavam na foto. Eu tinha razão…

Tive uma crise de riso e fiquei aliviada por ter sido desfeito o equívoco. Ora, ora, meu pai era Francisco Bezerra e o apelido era Chico. Minha mãe se chamava Lia e não tinha apelido. Nasci e me criei, sabendo que eles haviam se casado em Natal. De repente, vejo na página do Grupo NOVA-CRUZ NA MEMÓRIA E NO CORAÇÃO, a foto do casamento de Chico e Lia, na Igreja de Nova-Cruz!… Vi logo que não eram eles. Mas, a moça que postou a foto teimou comigo e repetiu diversas vezes. que Seu Chico e Dona Lia estavam na foto, e que a mesma era do casamento deles.

Tive razão de me irritar. Mas ela também teve. Só depois da confusão, foi que o nome de Chico Preto apareceu. A noiva também se chamava Lia, o nome da minha Mãe.

Haja Deus!!!