PISA NA FULÔ

Esse era o apelido de Gerinaldo, um “faz tudo” ou “quebra-galho” de Natal. Ele era ótimo para fazer pagamentos em bancos, enfrentar filas do INPS, desde a madrugada, para tirar fichas para atendimento médico, resolver problemas na Prefeitura, no Detran e em outras repartições públicas. Todos os “abacaxis”, ele descascava com perfeição. Era um portador de 1ª qualidade, e sabendo que portador não merece pancada, arranjava confusão em tudo que era canto. Pedia para ser logo atendido e inventava, sempre, que a pessoa interessada estava muito doente. O apelido lhe foi posto pelos amigos “biriteiros”, em homenagem à música do saudoso João do Vale, “Pisa na Fulô”, que ele gostava de cantar.

Era o final da década de 80, quando chegaram a Natal as primeiras secretárias eletrônicas, também chamadas de atendedores de chamadas (ou ainda atendedores automáticos). Era um dispositivo usado para responder automaticamente chamadas telefônicas e gravar mensagens, deixadas por pessoas que ligavam para um determinado número, quando a pessoa chamada não podia atender o telefone, nessa época, fixo. As primeiras secretárias eletrônicas usavam tecnologia de fita magnética. Hoje, os equipamentos são mais modernos, mas as fitas magnéticas ainda são utilizadas em muitos dispositivos de baixo custo.

Na época, uma secretária eletrônica facilitava os contatos comerciais. Era o que havia de mais moderno. No caso de Sérgio, que era representante comercial, ele podia atender aos clientes através do telefone, anotando os pedidos deixados na secretária eletrônica.

O dono da secretária eletrônica podia gravar sua própria mensagem, ou utilizar-se da mensagem-padrão, instalada de fábrica, que era mais prático.

Como o aparelho atendia, automaticamente, o telefone e gravava recados, era ideal para quem precisava se ausentar do escritório, ou para quem trabalhava sozinho.

Ao saber do lançamento desse importante aparelho eletrônico, Sérgio comprou um imediatamente e a firma lhe indicou um técnico autorizado para a instalação. A fita gravada de fábrica, com uma bonita voz feminina, dizia:

“ESTA É UMA GRAVAÇÃO. NO MOMENTO, SÉRGIO NÃO SE ENCONTRA. APÓS O SINAL, DEIXE SEU RECADO.”

No primeiro dia, foi um fracasso. Sérgio só chegou ao escritório no 2º expediente, confiando na secretária eletrônica. Apertou o botão para ouvir as mensagens deixadas por seus cliente, mas só ouviu desaforos e palavrões.

No dia seguinte, Pisa na Fulô foi logo cedo ao DETRAN, agendar a vistoria do carro de Sérgio. Ao ser atendido, surgiu um problema e ele, de um orelhão, ligou para o escritório do “patrão”, ignorando a existência da secretária eletrônica.

Ao ouvir que aquela voz era uma gravação e que ele deixasse seu recado, o fiel escudeiro de Sérgio entrou em parafuso. Pensou logo que tivesse ligado para o número errado. Insistiu na ligação e na 3ª vez explodiu, soltando o verbo para “aquela sirigaita” que atendera o telefone de Seu Sérgio:

-Moça, eu quero falar com Seu Sérgio!!! Quem tá falando aqui é Pisa Na Fulô. Só quero falar com Seu Sérgio!!!Passe o telefone pra ele!!! Ainda estou no Detran!!! Chame logo, sua condenada!!!

E terminou Pisa na Fulô mandando a secretária eletrônica se danar.

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OS LENÇÓIS

Na sua venda, que na verdade era um armazém de “Secos e Molhados”, Seu Francisco vendia em grosso e a varejo. No grande depósito, entre diversas mercadorias, ele estocava açúcar da Usina “Estivas”, comprado em sacas de 60 quilos, feitas de tecido de algodão rústico. À medida que o açúcar ia sendo despejado num depósito de madeira com tampa, para ser vendido a granel, ou seja, no peso, as sacas vazias eram levadas para nossa casa por Dona Lia, minha mãe, que as colocava de molho e depois de bem lavadas, secas e passadas, fazia com elas panos de chão, para a limpeza doméstica.

Como eram muitas, minha mãe sempre costumava doar sacas vazias às pessoas que lhe pediam. Algumas donas de casa usavam essas sacas até mesmo para confeccionar lençóis e fronhas, para uso da família.

Nesse tempo, os lençóis e fronhas eram costurados em casa, numa máquia de costura, quase sempre da marca “Singer”, movida a pedal. Comprava-se em peças o tecido apropriado para esse fim (bramante).

Nos tempos em que não havia tanta tecnologia, os armazéns (ou vendas) existiam em cada esquina, e eram a maior, e, às vezes, a única fonte de mantimentos para a população, principalmente nas cidades do interior do Estado.

Nesse tempo, os dias eram calmos e não havia violência. As mães podiam mandar um filho sozinho a uma venda, comprar alguma coisa de última hora e pedir ao dono para anotar na caderneta. Esse era o sistema de crediário mais antigo e seguro da época. Dificilmente, um freguês não cumpria a obrigação de pagar a caderneta no dia em que recebia “o ordenado”. O tempo da desonestidade ainda não tinha nascido.

O dono da venda, geralmente, sabia de cor os dias em que cada freguês recebia seu ordenado, palavra usada para “salário” ou “vencimento”, naquela época, e tinha como certo o pagamento das dívidas do mês para aquela data. A palavra dada valia mais do que o papel e a letra.

Nas cidades do interior, todos se conheciam pelo nome, e todos confiavam uns nos outros.

Nas vendas ou armazéns de “Secos e Molhados”, havia sempre uma balança sobre o balcão, para pesar as mercadorias que seriam vendidas a granel. As balanças antigas foram substituídas pelas da marca”Filizola”, mais modernas e bonitas, com o marcador do peso à mostra, em ponteiros. Os antigos “pesos”, aos poucos, foram abolidos.

A “Caderneta”, portanto, era o “cartão de crédito” de antigamente. Todas as pessoas da cidade tinham conta corrente em alguma venda (ou armazém). Compravam o mês todo e pagavam quando saía o “ordenado”. Os calotes quase não existiam. Também não existia o supérfluo, que hoje “enlouquece” os compradores compulsivos.

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A VOCAÇÃO

Era dia de Finados, 2 de novembro, década de 70. Luizinho, 12 anos, entrou na venda do tio Francisquinho, pela manhã, e pediu que lhe confiasse uma caixa de velas, com 20 caixinhas, para ele vender no Cemitério. Quando vendesse todas, voltaria para pagar a dívida. Perguntou qual era o valor e por quanto deveria vender cada caixinha. Queria lucrar um dinheirinho.

O tio ficou surpreso com o pedido, pois era a primeira vez que isso acontecia. Confiou no menino e entregou-lhe a caixa com as velas. Uma hora depois, Luizinho estava de volta, para pagar o que devia, com parte do apurado e comprar “fiado” outra caixa de velas. Voltou ao Cemitério para continuar a venda.
Nessas idas e vindas, o menino passou o dia todo vendendo velas no Cemitério, e pagando ao tio quando voltava para comprar outra caixa. Guardava o lucro no bolso da calça curta que vestia. Nessa época, em Nova-Cruz, não havia lanceiros nem ladrões.

Luizinho guardou o pouco dinheiro que obteve com a venda das velas e passou dias custeando seus gastos com chocolates, pirulitos e outras guloseimas, sem incomodar a mãe.

Chegaram as festas de fim de ano. Em Nova-Cruz, o Comercial Atlético Clube promovia um grande baile no dia 1º de janeiro, com uma orquestra de Natal, João
Pessoa ou Recife. Essa festa atraía o povo da redondeza e também de João Pessoa e Natal. Havia, ainda, a turma animada do Recife, pessoas que tinham família em Nova-Cruz.

Luizinho começou a azucrinar o juízo de sua mãe, dois dias antes dessa festa. Queria, por que queria, que ela preparasse um caldeirão de carne moída para ele vender cachorro quente em frente ao Clube, onde populares ficariam no sereno, apreciando a entrada do povo rico e bem vestido. Os populares, com certeza, iriam sentir fome e comprariam cachorro quente para lanchar.

A mãe deu-lhe diversos “não”, sob a alegação de que seria uma vergonha seu filho, tão novo ainda, vender cachorro quente em frente ao Clube. Eles não precisavam disso. Ela e o marido podiam sustentar os 5 filhos. Inconsolável , Luizinho chorou muito. Dona Lia, sua tia, ouviu a discussão e entrou na casa da concunhada, para saber o que estava acontecendo. Ao se inteirar do problema, teve pena de Luizinho e intercedeu em seu favor. Disse à sua mãe que não via nada demais nisso. Afinal, era uma noite de festa e o dinheiro apurado seria para ele mesmo. Além do mais, trabalhar não era desonra.

E lá se foi Luizinho, na noite do baile, com um caldeirão de carne moída, muito bem temperada por sua mãe, e um pacotão de pão de sanduíche, vender cachorro quente, em frente ao Clube. Seu ajudante era outro garoto, amigo seu.

A venda de cachorro quente foi um sucesso.

Enquanto a vocação para o comércio aflorou logo cedo em Luizinho, a vocação para estudar passou por muito longe. Ele nunca se saiu bem na escola. Por mais
que a mãe e o pai o estimulassem a estudar, inclusive colocando-o em aulas de reforço, quase sempre era reprovado. Nunca conseguiu ser um bom aluno.

Um tio materno de Luizinho, dono de uma madeireira em Natal, tomando conhecimento do problema, propôs à irmã trazê-lo para trabalhar com ele. Aqui ele poderia continuar os estudos.

Para Luizinho, esse convite foi uma alegria. Com 14 anos, viajou para Natal com o tio e passou a trabalhar com ele na madeireira. Tornou-se os pés e as mãos desse tio. Anos depois, o homem se aposentou e encerrou suas atividades. Luizinho recebeu uma excelente indenização em madeira e o ponto comercial onde trabalhava, que tinha uma grande clientela. Investiu numa pequena fábrica de portas, janelas e esquadrias, a que deu o nome de “O JANELÃO”. Tornou-se um comerciante próspero. Casou-se e constituiu família, com uma prole de quatro filhos.

Tempos depois, Luizinho construiu um Restaurante na Praia de Tabatinga, com um apartamento no 1º andar, onde passou a residir. O menino sonhador, nascido em Nova-Cruz, que, por vontade própria, chegou a vender velas no Cemitério e cachorro quente na frente do Clube da cidade, transformou-se num alto comerciante em Natal e dono de um requintado restaurante. Ainda tinha muitos planos pela frente. Mas seus sonhos pararam aí.

Numa noite de domingo, depois de um dia muito cheio, Luizinho, aos 45 anos, morreu, em consequência de um assalto, no Restaurante de Tabatinga, sua maior
realização.

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O ALFAIATE

Nicanor ficou rico costurando roupas masculinas. Alfaiate de mão cheia, aprendeu esse ofício, ainda rapaz, ajudando a um antigo alfaiate da cidade. Começou pregando botões, fazendo costuras de mão e alinhavos. Anos depois, de ajudante, passou a dono da alfaiataria. Nesse tempo, as máquinas de costura eram manuais ou de pedal. Com a sua arte, conseguiu juntar dinheiro e, vivendo com simplicidade, tornou-se um homem razoavelmente rico.

Já coroa, casou-se e constituiu família, com uma prole de quatro filhos. Mesmo cheio de dinheiro, Nicanor continuou com “um pé preso na senzala”, como diz o ditado popular. Sem estudo e convivendo com pessoas simples, mal assinava o nome e tinha um vocabulário muito pobre. Faltava-lhe o traquejo social e a cultura geral que a leitura proporciona. Faltava-lhe também o bom gosto na maneira de se vestir. Ao falar, perdia-se nas palavras, mas não se perdia nas ideias. Mesmo rico, Nicanor continuou sendo um homem simples.

Era tímido e sabia manter a distância entre ele e os seus clientes ricos.

Um dos seus clientes, padrinho do seu filho, convidou-o para se associar aos Clubes da cidade, a fim de se entrosar mais com as pessoas. e fazer novas amizades. Afinal, ele tinha dinheiro suficiente para frequentar a mesma roda social dos seus fregueses.

Aconselhou-o a arranjar um “personal stylist”,professor de etiquetas, para lhe ensinar a ser traquejado.

A primeira orientação desse “professor” foi de que ele providenciasse roupas de boas marcas, de cores berrantes e chamativas, para se vestir com mais elegância.

Sua esposa, Esmeralda, não aprovou nada disso, pois era muito simples e tímida. Mas o marido não lhe deu ouvidos.

Ele, então, foi na onda do compadre e se associou ao Clube Comercial e ao Lions Clube da cidade. Reuniões, festas, mensalidades e novas amizades.

Nicanor passou a frequentar uma academia e se matriculou num curso de dança de salão. Seu sonho era aprender a valsar.

Contratou um professor de Português para lhe dar aulas, mas não houve jeito de Nicanor aprender nada mais do que já sabia. Continuou falando errado e lendo e escrevendo pouco e ruim. Leitura lhe dava sono. Jamais seria um autodidata.

Nicanor terminou desistindo de tudo, ao ver que estava gastando muito, e o custo-benefício não compensava. Preferiu continuar na sua vida simples de antes. Nada de novo no “front”. Leitura lhe dava sono. Vida social, academia e aula de dança, tudo isso custava dinheiro, o dinheiro do seu trabalho. Era mais barato, continuar fazendo suas caminhadas, junto com Esmeralda, sua esposa. Essa mudança de hábitos estava mexendo com o seu bolso. Afinal, tudo o que ele conquistou foi fruto de anos e anos de trabalho na sua alfaiataria. Nicanor nasceu pobre, mas não queria ver a sua família terminar a vida pobre. Desistiu de ser chique e voltou à sua vida normal, para felicidade geral da família e para o bem de suas finanças.

“Quem não pode com o pote, não pega na rodilha”.

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A UNIÃO

Antonina, viúva, 38 anos, tinha duas filhas e era costureira. Apaixonou-se por Zé Bento, um fazendeiro de 60 anos, também viúvo e com um filho rapaz. O romance dos dois resultou num “casamento” pelo regime do livre arbítrio, onde não foi preciso padre nem juiz. Como toda vassoura nova varre bem, o “casamento” começou muito feliz. Antonina teve quatro filhos, um atrás do outro.

Decorridos 15 anos dessa união, Zé Bento começou a mudar. A paixão que uniu o casal se diluiu no tempo e no espaço.

Do dia pra noite, o homem virou a cabeça e abandonou a família, sem dar qualquer satisfação a ninguém. Foi dominado por outra paixão violenta, que fez ruir por terra sua união com Antonina, aparentemente estável e definitiva.

A mulher adoeceu de tristeza e de revolta, com a falsidade de Zé Bento. Jamais imaginou que, sendo bem mais nova do que ele, fosse passar por essa humilhação de ser abandonada, juntamente com todos os filhos, inclusive o enteado.

Revoltado com a atitude do pai, por haver abandonado a mulher e os filhos, Júnior, filho do 1º casamento de Zé Bento, já com 30 anos, assumiu a família, e meses depois pediu Antonina em casamento. Sentia-se o pai dos seus próprios irmãos e o peso da responsabilidade pesava sobre os seu ombros. Literalmente, ocupou o lugar do pai, dentro de casa.

Zé Bento, quando soube do resultado do embrolho que havia provocado, e do casamento do filho Júnior com Antonina, entrou em parafuso e, envergonhado, meteu a cara na cachaça. Indignado, sentia-se traído pelo filho e desrespeitado pela ex-companheira. Como “macaco não olha pro rabo”, Zé Bento não reconhecia seus erros.

A situação de Antonina mudou. De madrasta, quase mãe, passou a ser mulher do enteado, irmão dos seus quatro filhos, por parte de pai. Júnior passou a ser padrasto dos irmãos e ao mesmo tempo marido de Antonina, que antes era sua madrasta e mãe dos seus irmãos. Antonina agora era a mulher do enteado, quase filho. Os quatro filhos que teve com Zé Bento eram irmãos por parte de pai de Júnior, que, por conseguinte, passou a ser o pai deles. Júnior passou a ser padrasto dos seus irmãos e marido da “madrasta”.

Zé Bento não se conformava de ser sogro de Antonina, sua ex- mulher. Nem com o fato dela ser mulher do seu próprio enteado, quase filho.

Passou a viver embriagado, e a toda hora comentava com os companheiros de copo que essa história era de arrombar…

Já não sabia quem era ele…

Para aumentar a confusão, Antonina e Júnior tiveram um filho homem, neto dela e de Zé Bento. Com essa, o homem esclerosou de vez.

O caso foi igual ao drama vivido por um homem, que passou por situação semelhante e resolveu morrer, por não saber mais quem era.

Quando a cabeça não pensa, o corpo padece.

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O APELO

“UMA ESMOLINHA, PRA MINHA MÃE JEJUAR NO DIA D’HOJE!!!”

Nunca esqueci esse triste apelo, ouvido das crianças que pediam esmolas, de porta em porta, em Nova-Cruz, na Quinta-Feira Santa e na Sexta-Feira da Paixão. Aos meus ouvidos, esse apelo soava como um lamento cheio de dor.

Na sala da nossa casa, ficavam dois sacos grandes, um com brote, outro com bacalhau. Eram as esmolas que minha mãe distribuía aos pedintes, durante a Semana Santa, especialmente na quinta e na sexta-feira. A distribuição começava de manhã cedo, sem hora para terminar.

Nessa época, começo da década de 60, bacalhau era produto de baixo custo. Não chegava a Nova-Cruz o bacalhau de 1ª qualidade.

A Semana Santa, principalmente para os católicos, era uma época triste e sombria. O martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo era revivido com respeito.

Para começar, não havia aula durante a Semana Santa. Não se ouvia música profana; ninguém chamava “nome feio”, e ninguém brigava. Era um período de reflexão, arrependimento e orações.

Na Quarta-Feira de Trevas, que antecede o martírio de Jesus, parecia que o mundo estava de luto, com a perspectiva de que no dia seguinte começaria o seu Calvário. Na Igreja lotada de fiéis, era rezado o “Ofício das Trevas” , no final da tarde,

A crendice popular era tão forte, que grande parte do povo da roça chegava ao ponto de não tomar banho na Quarta-Feira de Trevas, achando que era pecado e temendo ficar entrevado. Foi preciso a intervenção de Frei Damião, numa das “Santas Missões” que costumava fazer na cidade, para convencer o povo da roça de que não era pecado tomar banho na Quarta-feira de Trevas. E o Santo Frade Capuchinho, sempre terminava seus sermões, pela manhã, dizendo:

-Agora, vocês voltem para suas casa, e vão tomar banho!!! Não quero que cheguem aqui na Igreja mais tarde, fedendo a “bacurim”!

Na Quinta-Feira Santa, quando se revive a traição de Judas durante a Última Ceia, sentia-se na cidade o clima de tristeza e solidariedade. Era o começo do martírio de Jesus, que carregaria sua Cruz até o Calvário ou Gólgota, colina na qual seria crucificado e que, na época, ficava fora de Jerusalém.

Fazia parte da cultura nordestina, o furto de galinhas, na Sexta-Feira da Paixão, para servir de tira-gosto aos cachaceiros de plantão. Essa brincadeira grosseira, detestada pelas donas de casa, quase sempre era praticada por turmas de amigos, que gostavam de farrear.

Para se precaver dessa prática desalmada, à tardinha, as donas de casa mais cuidadosas transferiam as galinhas, do galinheiro para um quarto dentro de casa.

Na Semana Santa, as comadres da minha mãe, que residiam na zona rural, traziam-lhe beijus de goma com coco de presente, feitos em Casa de Farinha. O cheiro e o gosto desses beijus, eu nunca esqueci.

A partir da 4ª feira de trevas, não se comia carne. O almoço era na base de bacalhau, peixe, ou fritada de sardinha “Coqueiro”, feijão e arroz de coco.

Na Sexta – Feira da Paixão, Jesus estava morto e a imagem do seu corpo ficava em exposição na Igreja, durante todo o dia. Formava-se uma fila interminável, para que os fiéis o beijassem. Era o chamado dia do “beija”.

Nesse dia triste, eram obrigatórios, de acordo com os preceitos da Igreja Católica, o jejum e a abstinência de carne e bebidas alcoólicas.

As rádios só transmitiam músicas sacras ou clássicas. Não se ouvia o apito do trem, pois ele não trafegava. Não havia entrega de leite dos currais, pois não se tirava leite naquele dia. Não se comercializava nenhuma mercadoria, em respeito ao sofrimento de Jesus Cristo, traído por Judas, em troca de 30 moedas.

Os clubes sociais, os bares ou outros ambientes de entretenimento também não funcionavam.

A tristeza só desaparecia no Sábado de Aleluia, que revive a expectativa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nesse dia, havia a malhação de Judas, um boneco/homem, de palha ou de pano, em tamanho natural, que era exposto em praça pública, para ser castigado. por ter traído Jesus.

A malhação ou queima de Judas é uma tradição vigente em diversas comunidades católicas e ortodoxas, que foi introduzida na América Latina pelos espanhóis e portugueses. É também realizada em diversos outros países, sempre da Sexta-Feira da Paixão para o Sábado de Aleluia, à meia noite. Simboliza a morte de Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Jesus.

A liturgia da Páscoa, ou passagem, ocorre na madrugada do Sábado de Aleluia para o Domingo.

No Domingo de Páscoa, a data mais importante do calendário cristão, comemora-se a Ressurreição de Cristo, três dias depois de sua morte. Esse é o maior motivo e fundamento da Fé cristã.

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O QUINTAL

A casa da minha infância, em Nova-Cruz (RN), era vizinha à de Dona Júlia, minha avó paterna, onde havia um enorme quintal. Eu acordava cedo e corria logo para lá, ao encontro das goiabeiras, colher as minhas frutas preferidas.

Minha avó sempre dizia que eu iria ficar com o pescoço defeituoso, de tanto olhar para cima, procurando goiaba. No quintal, havia uma vara com um gancho, próprio para esse fim, o que facilitava o trabalho, quando as goiabas brotavam nos galhos altos. As mangas caíam sozinhas.

Eu vivia com os pés cheios de frieira, pois, contrariando as ordens da minha mãe e da minha avó, eu entrava descalça no chiqueiro dos porcos, onde também havia pinhas maduras. Sem as sandálias, podia subir melhor nas pinheiras.

O chiqueiro dos porcos, no interior nordestino, é uma fonte de micoses e fungos. Os porcos são animais injustiçados. Os criadores inventaram que eles são sujos e não tem paladar. Por isso, os criam na lama e os alimentam com restos de comida. São criados no desconforto, com fama de mal-cheirosos e sujos. No Sul, o tratamento dado aos porcos é diferente. As pocilgas são amplas e limpas.

Está provado que os porcos nunca utilizam o local em que comem e dormem, para fazer suas necessidades fisiológicas. Isso só acontece quando não há espaço suficiente. Eles adoram tomar banho dentro d’água. Deitam-se na terra molhada, porque não conseguem transpirar. São, praticamente, obrigados a se deitar na lama.

Voltando à “Frieira”, ela provocava uma coceira desesperadora e incontrolável nos pés, principalmente entre os dedos. E eu coçava até sangrar… Às vezes, os pés ardiam tanto, que se tornava impossível até o uso de chinelo.

“A frieira é uma infecção provocada pelos fungos Trichophyton mentagrophytes ou Trichophyton rubrum, que ataca preferencialmente a sola dos pés e os espaços entre os dedos. Conhecida também como tinea pedis ou pé de atleta, a frieira é a micose de pele mais comum no mundo. “

Certa vez, meus pés ficaram tão inflamados, e com o aspecto tão feio, que o “Unguento Maravilhoso”, vendido na farmácia de Nova-Cruz, não estava mais surtindo efeito. Por sorte, coincidiu que, à noite, Nova-Cruz seria palco de um grandioso comício, com a presença do renomado médico norte-riograndense, Dr. Vulpiano Cavalcanti, líder do antigo Partido Comunista Brasileiro, posteriormente transformado em PC do B (1962).

Depois desse esperado comício, meu tio Paulo Bezerra, correligionário e amigo pessoal do Dr. Vulpiano Cavalcanti, levou-o para jantar em sua casa, que era vizinha à nossa.

Tio Paulo aproveitou a ocasião e também o levou até a nossa casa, para ver o estado dos meus pés. À luz de candeeiro, Dr. Vulpiano Cavalcanti examinou meus pés e prescreveu uma fórmula, a ser manipulada em Natal, com urgência, para ser aplicada sobre eles três vezes ao dia, e durante 60 dias. Foi um santo remédio.

A partir de então, para minha tristeza, fui definitivamente proibida de andar de pés descalços no quintal da casa de Dona Júlia.

Mas, esse quintal nunca saiu dos meus sonhos e faz parte das minhas saudades. Era um paraíso particular, onde, de manhã cedo, ouvia-se o cantar dos passarinhos e se sentia o cheiro das frutas frescas, misturado com o cheiro do mato verde.

Ainda hoje, sofro da nostalgia do quintal, recanto sagrado que faz parte das lembranças da minha infância.

Tenho pena das crianças que, na vida moderna, não desfrutam mais das coisas da natureza e não sabem como é gostoso brincar num quintal. Elas não conhecem a paz que existe nesse recanto do paraíso, cujo cheiro nos acompanha por toda a vida, povoando nossos sonhos.

Toda criança precisa conhecer um quintal, onde possa brincar, correr, saborear uma fruta colhida por ela mesma, e onde possa, de manhã cedo, ouvir o cantar dos passarinhos, o “có có có” das galinhas “de verdade” e o “glu glu glu” dos perus.

Longe desse insensato mundo do Celular e da Televisão.

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“E O DESTINO DESFOLHOU”

Esse é o título de uma linda valsa, uma das preferidas do meu pai. Quando eu era menina, sempre o ouvia solfejá-la. Descobri agora, pesquisando, que é da autoria de Gastão Lamouner (1893-1984) e Mário Rossi (1911-1981) – gravação de Carlos Galhardo (ODEON- 1938).

Houve uma época, quase na década de 60, em que estava na moda as moças estudarem acordeon (sanfona). Em Nova-Cruz, foi uma verdadeira “coqueluche”. Minha mãe comprou uma sanfona para a minha irmã Ana Maria e contratou o Mestre da Banda de Música de Nova-Cruz, para ministrar aulas a ela e à outra minha irmã, Valéria. Elas estudavam pelo “Método de Acordeom”, de Mário Mascarenhas”. Nesse Método, entre inúmeras músicas, também constava a valsa “E o Destino Desfolhou”, de que meu pai tanto gostava.

Por ser eu a caçula, ou talvez por economia, não fui matriculada na aula de sanfona. Tampouco, podia chegar perto dela, com a desculpa das minhas irmãs de que eu iria desafiná-la.

Irmã caçula sofre muito…Todos achavam que eu era muito criança para estudar acordeon. Sentindo-me injustiçada, quando eu me via sozinha em casa, a primeira coisa que eu fazia era colocar a sanfona no colo e tentar aprender a tocar de ouvido. E aprendi a tocar, quase com perfeição, todas as músicas que minhas irmãs estudavam pela partitura,com aulas diariamente, das 13 às 14 horas. Eu me “babava” de inveja, mas não tinha coragem de reclamar. Só não entendia por que não me foi dado o direito de também estudar acordeon. Seria pecado ser caçula??? Mas isso não me impediu de aprender a tocar, mesmo de ouvido.

Conheço pessoas que só tem orelha. Mas tenho certeza de que, além de orelha, eu também tenho “ouvido”. E dei prova disso. Aprendi a tocar sozinha. Aliás, o Nordeste é berço de excelentes sanfoneiros, que aprenderam a tocar sozinhos, de ouvido. São coisas de Deus…

Certa vez, no Cinema Éden, do meu tio Paulo, foi organizado um “showmício”, em homenagem a um determinado candidato a governador do Estado do Rio Grande do Norte. Luiz Gadelha, conhecido político de Nova-Cruz e marido da minha tia Nazinha, foi o organizador. Pensando que eu também estudava acordeon, perguntou-me se podia incluir meu nome na pauta das atrações musicais que fariam parte do show. Eu disse que sim, só por danação, e que só não poderia levar a sanfona. A música que eu escolhi para tocar foi “E o Destino Desfolhou”, que minhas irmãs tocavam por partitura e eu aprendi “de ouvido”. Mas, na nossa casa, ninguém sabia disso.

Pois bem. No dia do “showmício”, o cinema do tio Paulo ficou lotado.

Luiz Gadelha, fazendo as vezes de apresentador, começou a anunciar diversos números artísticos. Houve poesias, cantorias, e chegou a minha vez de tocar. E ele anunciou:

“Ouviremos, agora, um número de acordeon!!! Com a garota Violante, a valsa “E O DESTINO DESFOLHOU”. Silêncio total…

Subi no palco pela entrada lateral e sentei-me em uma cadeira que já me esperava. Luiz Gadelha me acompanhou, trazendo a sanfona de um dos músicos e colocou-a sobre o meu colo.

Toquei calmamente, como se estivesse sozinha em casa. Não enxerguei ninguém na plateia. Nem meus pais, que estavam nas cadeiras da frente. O Mestre da Banda de Música , professor de acordeon das minhas irmãs, levantou-se e me acompanhou com o Saxofone, numa verdadeira apoteose interiorana. Sinal de que eu estava tocando bem. Só dei por mim, quando estrondaram os aplausos do “respeitável público”.

Desci do palco por onde eu tinha entrado e corri para junto de Dona Lia e Seu Francisco, que me abraçaram fervorosamente. Meu pai estava chorando, emocionado com a surpresa de me ver tocar, e ainda por cima, a música que ele adorava, “E O DESTINO DESFOLHOU”.

Minha mãe ainda estava tensa, com a surpresa de me ver subir ao palco e tocar, sem ainda ter sido aluna do Mestre da Banda de Música, como minhas duas irmãs.. Ela comentou que, ao ouvir Luiz Gadelha anunciar o meu nome, pensou que ele houvesse se confundido. Com certeza, quem iria apresentar o número de acordeon seria Ana ou Valéria, alunas do Mestre da Banda de Música .E quando me viu entrar no palco, com Luiz Gadelha atrás de mim trazendo uma sanfona, gelou… Esperou que a apresentação fosse um fracasso, coisa de menina danada. Mas foi um sucesso…

Dona Lia adorava contar essa história…

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UMA LUTA INGLÓRIA

Acabou-se o tempo em que a vaidade era requisito exclusivamente feminino.

Décadas atrás, ouvi meu avô materno dizer que perfume de homem era o suor. No seu entender, homem de verdade não usava perfume, pois isso era coisa de mulher.

Com a modernidade, o homem passou a ser concorrente da mulher, em matéria de vaidade e também na luta contra a velhice. A vaidade física dos dois é a mesma, a começar

pela pintura dos cabelos e tratamentos em busca de rejuvenescimento.

Minha avó materna, a poetisa Anna Lima, respondendo sobre o que mais temia na vida, disse:

“O que mais temo na vida é a velhice caprichosa/ que faz da moça bonita/ uma carcaça horrorosa/ uma megera maldita”. Palavras fatídicas.

As mulheres detestam dizer a idade, muito mais do que os homens. Todas temem o envelhecimento.

Quando a fachada facial começa a dar sinais de que ela já não tem 24 anos, a mulher entra em ação, para camuflar o início da maturidade. E quando se torna impossível esconder as primeiras rugas, a mulher vaidosa procura logo uma solução, recorrendo aos cosméticos antirrugas ou ao esteticista. Se tiver boa condição financeira, apela para os modismos: “botox”, “pelling”, e, por fim, cirurgia plástica, recursos que cooperam, de forma mais que perfeita, com “as farsas” contra o envelhecimento. E a luta continua, até que se esgotem todos os recursos possíveis e imagináveis, na preservação da juventude.

Mesmo assim, chega um dia em que o prazo de validade da juventude se esgota. E o tempo de vigência da beleza física também.

Pois bem. Matilde era esposa de um político importante do Rio Grande do Norte, e chegou a ocupar o “posto” de 1ª dama de uma importante cidade. Muito vaidosa e rica, todos os anos viajava ao Rio de Janeiro, para “pedir socorro” ao mais famoso cirurgião plástico da época, na luta contra o envelhecimento. A força dos anos pesava sobre ela como uma maldição.

Ao longo de mais de dez anos, submeteu-se a várias cirurgias plásticas e sempre voltava do Rio com cara de menina, “passível de pegar sarampo”. Rosto esticado, silhueta elegante, mas já sem a leveza do andar, própria da juventude.

Induvidosamente, toda luta tem começo, meio e fim. Chega um tempo em que, realmente, a velhice caprichosa “ faz da moça bonita uma carcaça horrorosa, uma megera maldita”.

Matilde, ao se aproximar dos 80 anos, já havia se submetido a todas as cirurgias plásticas que a medicina permitia. Passou por todas as recauchutagens possíveis e imagináveis. Nem o moderno “botox” resolvia mais. Só fazia efeito dois meses e a pele arriava novamente.

Finalmente, na sua última viagem ao Rio à procura de socorro, seu cirurgião plástico usou de franqueza e lhe disse que sua verdadeira idade não lhe permitia mais nenhuma cirurgia plástica. Sua pele estava completamente flácida e não tinha mais elasticidade para ser esticada.

O mundo desabou sobre a cabeça da vaidosa Matilde. Revoltou-se com o médico, mas teve que se conformar. Dessa vez, voltou à sua cidade, sem ter feito nenhum procedimento para rejuvenescer. Olhava-se no espelho, sentia-se uma múmia, e não se conformava com o “veredicto” do famoso médico, de que não adiantava mais fazer plástica.

Não havia base nem pó de arroz que escondesse as rugas do seu rosto. Quem a conhecia sabia que ela tinha sido uma mulher linda, chique e adorada pelo marido, que fazia questão de alimentar a sua excessiva vaidade.

Matilde entrou em depressão e foi obrigada a fazer terapia, para tentar aceitar a velhice.

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UMA VACA PARIDA

Desde criança, em Nova-Cruz (RN), eu era acordada por Dona Lia, minha mãe, às 5 horas da manhã, para tomar leite cru no curral de seu Leó. Depois, passamos para o curral de Seu Manoel Silvestre, onde o ordenhador avisava:

– Leite com “dote” é mais caro, porque não faz espuma.

Ele queria dizer “Toddy”, um dos achocolatados mais antigos do Brasil, e, na época, o mais usado. Meu copo de 500 ml era de alumínio e eu o tomava completamente cheio. E sem “dote”. Gostava do leite com açúcar e muita espuma.

A Toddy foi fundada em 1916 pelo porto-riquenho Pedro Santiago.

Em 15 de março de 1933, Pedro Santiago obteve licença do governo provisório de Getúlio Vargas, para comercializar o produto no Brasil.

Vim para Natal, aos 15 anos, para estudar na Escola Normal. Trouxe comigo, entre as minhas saudades, a saudade do leite cru da minha infância, tomado na companhia da minha mãe e irmãs. Perdi, para sempre, o convívio com aquela folia gostosa do curral, quando tomava leite cru, tirado diretamente do “peito da vaca”, em ordenha manual..

Esse afastamento faz parte das minhas lembranças e das minhas perdas. Parece infantilidade, mas não é. Com a minha vinda para Natal, distanciei-me de um dos melhores costume da minha terra, que era essa ida ao curral todas as manhãs, quando o sol estava raiando.

Mesmo passando as férias escolares em Nova-Cruz, a vida foi mudando seu rumo, e o rumo foi mudando a minha vida. Nas férias escolares, cheguei a ir algumas vezes ao curral de Seu Miguel Silvestre, mas sem a mesma euforia do meu tempo de criança.

Meu plano era terminar o curso pedagógico e voltar para Nova-Cruz, para exercer o magistério. Mas a roda-viva do cotidiano mudou tudo. Casei-me aos 18 anos e continuei morando em Natal.

Meu marido tinha um irmão, que morava, e ainda mora, em São Paulo, e é proprietário de uma chácara no município de Pereiras, a duas horas da capital paulista. Logo que casamos, fomos a São Paulo, juntamente com a minha sogra, visitar esse seu irmão. No fim de semana, fomos a Pereiras, conhecer a chácara. .

Minha surpresa foi grande, quando chegamos nesse local abençoado. Eu não sabia que na chácara do meu cunhado havia algumas cabeças de gado, incluindo uma vaca parida. À tardinha, ele nos convidou para tomar leite cru, e eu me esbaldei. Matei a saudade do leite cru de Nova-Cruz, do curral de Seu Leó e do curral de Seu Miguel Silvestre. Lembrei-me do aviso do ordenhador, palavras que nunca esqueci:

– “LEITE COM “DOTE” É MAIS CARO”! Porque “Dote”, não deixa o leite espumar!”

Em Pereiras, eu, meu marido, minha sogra, meu cunhado e sua namorada tomamos leite-cru até topar.

Foi gratificante o meu reencontro com o leite cru, tirado “do peito da vaca”, na hora. Leite puro, sem ser “batizado” com água, e sem aditivos químicos para conservá-lo., como acontece com o leite atualmente. O leite “ in natura” é inigualável. Por mais cara que seja a marca do leite pasteurizado e industrializado, nenhum tem o seu sabor..

O progresso modificou tudo, trazendo danos à saúde do consumidor e aumentando o lucro do produtor. Prejudicou o povo com os aditivos químicos e hormônios, que complementam a ração do gado, mas provocam doenças da moda, como “intolerância à lactose”.

Para quebrar a harmonia do fim de semana em Pereiras, assustei-me com os gritos de pavor da namorada do meu cunhado, dono da chácara, que estava tomando banho e saiu do banheiro toda molhada e enrolada na toalha, chorando, como se tivesse visto uma assombração. A moça, criada na capital, aterrorizou-se com a presença de uma inofensiva rãzinha, agarrada à parede do banheiro. Não estava acostumada com sapos, rãs, grilos e outros bichinhos que vivem no mato..

Minha sogra, mais que depressa, preparou-lhe uma garapa, para que se acalmasse.

Eu, acostumada com os sapos e enormes Cururus de Nova-Cruz, quando entendi do que se tratava, tive uma crise de riso, no que fui acompanhada por meu marido. Saímos da sala e fomos rir bem distante da casa.. Nunca tinha visto tanto “fricote” na minha vida, como diria minha mãe..

O tempo passou e hoje, quando ouço pessoas amigas, falando em comprar apartamentos novos, carros importados, IPHONE e IPAD, fico rindo e confesso que o meu sonho de consumo continua sendo uma vaca parida, para eu poder tomar leite cru à vontade.

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