PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MOTES, GRANDE GLOSAS

Anastácio e Zé Limeira, O Poeta do Absurdo, glosando dois motes.

Primeiro mote:

É lindo queimar-se as flores
No santo mês de Maria.

Anastácio

No mês de maio a novena
Tem grande veneração,
No Brejo, Agreste e Sertão
É muito honrada esta cena,
Rosedal, rosa e verbena
Se vê brotar todo dia…
O aroma que a rosa cria
Nos faz esquecer as dores…
É lindo queimar-se as flores
No santo mês de Maria.

Zé Limeira

Você pra mim é menino,
Queimo flor uma porção,
Boto fogo em barbatão
Cercado de arame fino.
No pagode do suíno,
Quando a poica grita e chia,
Corre Mané e Sufia
E até os agricultores…
É lindo queimar-se as flores
No santo mês de Maria.

* * *

Segundo mote:

Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.

Anastácio

Zé Limeira, você cuide em rezar
Que é preciso hoje aqui dar-lhe um surrote
Apresento as virtudes do meu dote
Para você aprender a me honrar:
Se você resolver me acompanhar,
Diga logo a esse povo que perdeu,
Um fantasma chegou, lhe interrompeu,
Atraiu sua voz, o verso e o peito…
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.

Zé Limeira

Sou um nêgo um bocado esbagaçado ,
Sou o vatis das glória desta terra,
Sou a febre que chama berra-berra,
Mastigando eu sou cobra de veado,
Sou jumento pru fora do cercado,
Sou tabefe que dero em seu Lameu…
Se tivé bom guardado bote neu,
Seu caminho de bonde ruim, estreito…
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.

Anastácio

Cantador sem origem, sem ciência,
Miserável, lebrento , pé de peia,
És miséria da guerra da Coréia,
Seu corrupto, ladrão da consciência.
Castigado da santa Providência,
Que não honra o que Cristo santo deu,
Foste tu, imbecil, o fariseu,
Quem é bom dizes tu que tem defeito…
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.

Zé Limeira

Zé Limeira onde canta, todo mundo
Vai olhá bem de perto a sua orige,
Já cantei no sertão, no Céu da Virge
Sou doutô de meisinha , furibundo.
Viva o Reis, o Juiz, Pedro Segundo.
Sou a cobra que o boi nunca lambeu,
Sou tijolo da casa de Pompeu,
Peripécia da filha do Prefeito..
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.

* * *

Zé Limeira e José Alves Sobrinho glosando o mote

Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.

Zé Limeira

Quando o carão tá cantando
É sinal que vem inverno,
Eu sou um nego moderno,
Foi não foi eu tô pensando.
Amanhã tô viajando
Pru sertão de Bogotá
Tico-tico no fubá,
Padre, juiz e doutor,
Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.

José Alves Sobrinho

Minha vida é esta cantiga,
Meu amor é esta viola…
Deus me botou nesta escola
Egrégia, sublime e antiga.
Se minha viola amiga,
Quiser um dia parar,
A dor não vou suportar
Porque ordena Nestor:
Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.

Zé Limeira

Numa berada de serra
Dom Pedro ficou de coca,
Começou tirá taboca
Do cabeceira da terra,
Veio a febre berra-berra
Pru dentro dum caçuá,
Comendo o tamanduá
Da filha do Promotor,
Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.

José Alves Sobrinho

Este tema deslumbrante
Que nos deu Nestor Rolim,
Despertou dentro de mim
Um sentimento gigante!
Por isso eu canto perante
O povo deste lugar,
Já fazendo despertar
A musa do sonhador..
Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.

Zé Limeira

Se apagou-se a lamparina
Prumode o vento assoprou,
Me adiscurpe, seu Nestor,
Caboco da Palestina.
Joguei minha lazarina
No tronco do jatobá,
Fiz Lampião avuá
Na baixa do corredor,
Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE LENDAS

UM GALOPE PARA O UMBUZEIRO – Júnior Guedes

Frondoso e bonito, o velho umbuzeiro
Que brotou das fendas abertas da terra.
Cresceu num aceiro do pé de uma serra
Passando agruras o tempo inteiro.
Foi ficando forte a cada janeiro,
Mudando a paisagem que tem no lugar.
Felizes daqueles que vem contemplar,
Seu verde, a sombra e sua doçura
O doce da fruta na forma mais pura
Que o puro da brisa que sobra do mar.

* * *

Arnaldo Pessoa

As flores do Pajeú
Eram os improvisadores
Muitos desapareceram
Mas deixaram sucessores
Eu sou o fruto mais novo
Da árvore dos cantadores.

* * *

Miro Pereira

O meu pai não tem estudo
Mamãe é analfabeta
Eu pouco fui à escola
Somente Deus me completa
Com esse sublime dom
De repentista e poeta.

* * *

Zé Fernandes

A seca seca primeiro
Os depósitos cristalinos
Depois seca as esperanças
De milhões de peregrinos
Mas bota enchente de lágrimas
Nos olhos dos nordestinos.

* * *
Adauto Ferreira Lima

Quando o sujeito envelhece
Quase tudo lhe embaraça
Convida a mulher pra cama
Agarra, beija e abraça
Porém só faz duas coisas:
Solta peido e acha graça.

* * *

Pedro Tenório de Lima
(Poeta analfabeto do sertão do Pajeú)

Me criei abraçando a agricultura
Já tô véi, a cabeça tá cinzenta
Pra onde vou é levando a ferramenta
E uma faca de doze na cintura
Minha boca lambendo rapadura
E meu almoço, um punhado de farinha
A merenda é um ovo de galinha
Namorei abraçando as raparigas
Me deitando por cima das formigas
Que uma cama bonita eu não tinha.

* * *

UM FOLHETO DE HELIODORO MORAIS

O CURUPIRA, A MULA SEM CABEÇA E A BESTA FERA

O folclore brasileiro
Grande por sua riqueza
Permeia a mente do povo
Por sua imensa beleza
Em defesa da moral
Do homem, do animal
Da vida e da natureza

Muita gente com certeza
Teve chance de ouvir
A lenda do Curupira
Vinda da nação Tupi
Protetor do animais
De florestas tropicais
Progenitor do Saci

Para o povo Guarani
Não era figura rara
Conhecido por Anhanga
Caipora ou caiçara,
Caapora, Pai-do-mato
Existe muito boato
Da ira da sua cara

A sua lenda declara
Que Curupira era anão
Tinha cabelos vermelhos
Como brasa de fogão
Dente e pelo esverdeados
Era perverso e malvado
Ao aplicar punição

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

MESTRES DO IMPROVISO

Miro Pereira

O meu pai não tem estudo
Mamãe é analfabeta
Eu pouco fui à escola
Somente Deus me completa
Com esse sublime dom
De repentista e poeta.

Manoel Bentevi

Na vida ninguém confia
Em nada sem ter certeza
São obras da natureza
Tudo que a terra cria:
Gente, ave, bicharia,
Tudo começou assim.
O homem é quem é ruim
Nada bom ele planeja
Por muito forte que seja
A morte pega e dá fim.

Pinto do Monteiro

Pode entrar, seu Severino,
e me pagar, se puder.
Rico na casa do pobre
alguma coisa ele quer:
ou a sela, ou o cavalo,
ou a filha, ou a mulher.

Zé Galdino

Infância foi ilusão
Por quem por ela passou
A velhice é um museu
Que o tempo fabricou
Pra guardar as fantasias
Que a juventude deixou.

Paulo Robério

No Império D. Pedro prometeu
Vender todas as joias da Coroa
Socorrer no Nordeste a gente boa
Que na seca inclemente esmoreceu
Viajou pra Europa e esqueceu
De cumprir a promessa feita cá
Com banquete e luxúria gastou lá
Não mandou pro Nordeste um só “vintém”
Entra ano , sai ano e nada vem
E o Sertão continua ao Deus dará.

Moacir Laurentino

Acho bonito o inverno
Quando o rio está de nado
Que o sapo faz oi aqui
Outro oi do outro lado
Parece dois cantadores
Cantando mourão voltado.

Jacó Passarinho

Nossa Senhora, é Mãe Nossa,
Jesus Cristo é Nosso Pai!
Repente na minha boca
É tanto que sobra e cai.

Manoel Filó

No sertão tem uma aranha
De uma qualidade escassa
Que tapa a sua morada
Com lã da cor de fumaça
O tecido é tão perfeito
Que a chuva bate e não passa.

Gustavo Dourado

A educação é tudo:
Amplia o conhecimento
Faz do homem passarinho
No imenso firmamento
Nos conduz ao infinito…
Nas asas do pensamento…

Francisco Caetano

Meu dom é dado por Deus
Quando eu morrer ele fica
Eu sou pobre igual a Jó
Mas a minha rima é rica
Possui o gosto da fonte
Do olho d`água da bica

* * *

CEGO OLIVEIRA – NA PORTA DOS CABARÉS

CEGO OLIVEIRA – MINHA RABEQUINHA

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

TRÊS MOTES E UM FOLHETO DE BICHOS

O grande poeta cantador paraibano Nonato Costa

* * *

Nonato Costa glosando o mote:

Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Pra quem vai prestar contas a Jesus
Tem pra sempre gratuita uma morada
E como símbolo na porta de entrada
Tem o nome do dono numa cruz
Não tem conta de água nem de luz
Não precisa avalista ou corretor
E Deus perdoa seu saldo devedor
Quando o banco da vida abre falência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Não existe desvio no caminho
Quando o cerco da morte está armado
Pelos súditos o rei vive cercado
Mas no dia que morre vai sozinho
Dos dois lados do túmulo tem vizinho
Mas não há um diálogo a se propor
E a caveira jamais vai recompor
A beleza que tinha a aparência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

O local é salgado pelo pranto
Dos que perdem seus entes mais queridos
Os irmãos, as esposas, os maridos
E os amigos que vão praquele canto
Condomínio fechado, campo santo
É pra lá que vai todo pecador
E ao entrar a balança do Senhor
Tira um peso da nossa consciência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Empresário, princesa, vagabundo
Evangélico e ateu, homem ou mulher
Apesar de ser grátis ninguém quer
Nesta casa morar nenhum segundo
O portal que nos leva a outro mundo
Não exige função superior
E nem precisa RG que o emissor
Quando chama já sabe a referência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Com chibanca ou enxada o homem faz
Esta casa sem planta e sem dinâmica
Onde o piso é sem pedra de cerâmica
E o seu teto sem lustres de cristais
Sem textura as paredes laterais
Sem contato com o mundo exterior
E uma hora qualquer seu construtor
Vai pra lá encerrar sua existência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

* * *

Dedé Monteiro glosando o mote:

São os sons que ninguém pode esquecer
Se já foi residente no sertão.

O latido amistoso de um “jupi”,
Vira-lata raçudo sem ter raça,
Uma banda de pífanos na praça,
O penoso cartar da juriti,
Um boaito saindo do jequi
E um vaqueiro a pegá-lo pela mão,
O estrondo redondo do trovão
Avisando que em breve vai chover,
São os sons que ninguém pode esquecer
Se já foi residente no sertão.

* * *

Zé Silva glosando o mote

Mocidade é um vento passageiro
Beija a face da gente e vai embora.

Como é bom ser menino, ser criança,
Ter um mundo de sonhos, de ilusões,
Caminhar num caminho de emoções,
Aquecido no sol da esperança.
No entanto, esse tempo de bonança,
Como tudo que é bom, pouco demora.
Como a marcha dos anos me apavora
E a tudo transforma tão ligeiro!
Mocidade é um vento passageiro
Beija a face da gente e vai embora.

* * *

Um folheto da autoria de Arievaldo Viana e Gonzaga Vieira

UM DIA DE ELEIÇÃO NO PAÍS DA BICHARADA

O comendador Cachorro
Era um amigo dileto
Da velha Rita Mingonga
De quem sou tataraneto
Quando os bichos escreviam
Os dois se correspondiam
Com ternura e com afeto

Depois que a velha morreu
Ficou a correspondência
Com sua neta Raimunda
Que deixou pra tia Vicência
Titia deixou pra mim
E foi justamente assim
Que aprendi cantar ciência

Morava o comendador
Na Vila da Cachorrada
Município da Rabugem
Distrito Tábua Lascada
Na corte do Rei Leão
Era um grande figurão
Porém não fazia nada

O elefante e o urso
Eram grandes generais
Tramaram uma revolta
No reino dos animais
E depois em praça pública
Proclamaram a República
Tornando-se os maiorais

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

QUATRO MESTRES DO IMPROVISO E UM DOCUMENTÁRIO

Sebastião Dias:

Das quatro e meia em diante,
Sinto de Deus o poder,
Um sopro espatifa as nuvens
Para o dia amanhecer,
Deus enfeita o firmamento
E a vassoura do vento
Varre o céu pra o sol nascer.

Otacílio Batista:

Nas brancas areias formosas da praia
Um homem com trinta e seis anos de idade
Chorava com pena dessa humanidade
Que tomba, desmaia, delira e fracassa
Usava um túnica da cor de cambraia
Seus olhos brilhavam sem pestanejar
Nenhuma sereia podia imitar
Sua voz de veludo a Deus dirigida
Eu sou o caminho, a verdade e a vida
Palavras de Cristo na beira do mar.

José Monte:

É bonito se olhar numa represa
A marreca puxando uma ninhada
Com um gesto de mãe tão dedicada
No encontro das águas da represa
Quanto é lindo o arrolho da burguesa
Num conserto de notas musicais
A lagarta com letras naturais
Numa folha escrever fazendo um cheque
E palmeira selvagem abrindo o leque
Espantando o calor que a tarde faz.

Manoel Xudu:

O mar se orgulha por ser vigoroso
Forte e gigantesco que nada lhe imita
Se ergue, se abaixa, se move se agita
Parece um dragão feroz e raivoso
É verde, azulado, sereno, espumoso
Se espalha na terra, quer subir pra o ar
Se sacode todo querendo voar
Retumba, ribomba, peneira e balança
Não sangra, não seca, não para e nem cansa
São esses os fenômenos da beira do mar.

O próprio coqueiro se sente orgulhoso
Porque nasce e cresce na beira da praia
No tronco a areia da cor de cambraia
Seu caule enrugado, nervudo e fibroso
Se o vento não sopra é silencioso
Nem sequer a fronde se vê balançar
Porém se o vento com força soprar
A fronde estremece perde toda calma
As folhas se agitam, tremem e batem palma
Pedindo silêncio na beira do mar

Não há tempestades e nem furacões
Chuvadas de pedras num bosque esquisito
Quedas coriscos ou aerólito
Tiros de granadas de obuses canhões
Juntando os ribombos de muitos trovões
Que tem pipocado na massa do ar
Cascata rugindo serra a desabar
Nuvens mareantes, tremores de terra
Estrondo de bombas, rumores de guerra
Que imite a zoada das águas do mar.

* * *

DESAFIOS – UM DOCUMENTÁRIO DA TV SENADO

O universo em torno dos cantadores e dos repentistas e a riqueza contida em suas memórias. O documentário reúne uma coletânea de histórias sobre os cantadores de viola nordestinos, homens de raciocínio rápido e língua afiada, que deixaram um rastro de poesia mundo afora.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MOTES, GRANDE GLOSAS E UM FOLHETO DE MENTIRAS

O cearense Geraldo Amâncio e o paraibano Severino Feitosa, dois dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade

Geraldo Amâncio e Severino Feitosa glosando o mote:

Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

Geraldo Amâncio

Vem Geraldo que eu tenho muita fé,
me pediu que eu fizesse esses arranjos,
conterrâneo de Augusto dos Anjos,
que é nascido na terra de Sapé,
vem dizer o poeta como é,
é pra ele um eterno sonhador,
um artista de invejável valor,
comunica seu dom nesse terreno.
Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

Severino Feitosa

Se eu tivesse o poder do soberano,
não tirava da terra um Oliveira,
um Geraldo, um Valdir e um Bandeira,
Moacir, nem Raimundo Caetano,
Sebastião nem João Paraibano,
e muitos outros que têm tanto valor,
não tirava a garganta de tenor
de quem tem esse seu direito pleno.
Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

Geraldo Amâncio

Sei que um carro virou numa ladeira,
já passei para o mundo essa mensagem,
pois eu ia também nessa viagem
que a morte levou nosso Ferreira,
eu me vi na viagem derradeira,
eu gritei por sentir a grande dor,
foi a morte que fez esse terror,
de levar nosso astro, esse moreno.
Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

Severino Feitosa

Se Xudu decantou o santo hino,
da maneira que foi Zezé Lulu,
não esqueço Louro do Pajeú,
Rio Grande, recorda Severino,
Pernambuco, também, José Faustino,
que foi um repentista de valor,
Paraíba não esquece Serrador
e Santa Cruz não esquece de Heleno.
Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

Geraldo Amâncio

Quem já foi Juvenal Evangelista,
um encanto pra o nosso Ceará,
mas morreu encostado ao Amapá
e se encontra com os irmãos Batista,
desse povo que tem na minha lista,
Pinto velho pra mim foi um terror,
eu não posso esquecer um Beija-Flor,
e Pajeú inda lembra Zé Pequeno.
Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

* * *

Roberto Macena e Zé Vicente glosando o mote:

Velhice, um prêmio divino
Que Deus oferece à gente

Roberto Macena

Eu perdi minha beleza,
Mas não vou fugir da ética.
Que eu mudei a minha estética
Por conta da natureza.
Mesmo assim, não há tristeza,
Que eu não fico decadente:
Tô mais é experiente
Que com isso, não amofino.
Velhice, um prêmio divino
Que Deus oferece à gente.

Zé Vicente

Vovô muito me encanta,
É meu verdadeiro mestre.
Morando em área silvestre,
Mas sempre me acalanta.
Se eu sofrer da garganta,
Ainda canto repente.
Meu avô estando presente,
Ele é meu otorrino.
Velhice, um prêmio divino
Que Deus oferece à gente.

Roberto Macena

Não adianta fazer prece
Nem usar agilidade,
Que, quando passa a idade,
Tudo de ruim acontece
O que é de nervo amolece,
Fica tudo diferente:
Dói a perna, dói o dente
E o cabra fica mofino.
Velhice é um prêmio divino
Que Deus oferece à gente.

* * *

Sebastião Dias e Zé Viola glosando o mote:

Existe um dicionário
Na mente do cantador

Sebastião Dias

Existe um Deus que controla
A mente de um repentista
Que nasceu pra ser artista
Do oitão da fazendola
É o homem da viola
Nascido no interior
Nem precisa professor
Pra ser extraordinário
Existe um dicionário
Na mente do cantador

Zé Viola

Acumulo cada ano
Cantando mares e terra
Paz, conflito, briga e guerra
Peixe, céu e oceano
A viola é o piano
O povo é meu instrutor
O palco me traz calor
E o cachê é meu salário
Existe um dicionário
Na mente do cantador

* * *

UM FOLHETO DE CORDEL DE EDMILSON GARCIA

UM CONTADOR DE MENTIRAS

Foi lá nos anos oitenta
Que conheci um senhor
Nas terras da Paraíba
Araruna, interior…..
Ele era conhecido
Como seu “Zé Nicanor”

Homem de vários ofícios
Foi vaqueiro, agricultor,
Político e viajante,
Palestrante e pescador
Arrancador de botija
E grande “conversador”

Nasceu, cresceu por ali
E ali se fez conhecido
Pra todos contava histórias
E todos lhe davam ouvido
Difícil era acreditar
Ou aguentar seu “muído”

Pois tinha um “defeitinho”
Que pretendo descrever
Tudo ele aumentava
Talvez pra se aparecer
Decorava tudo em mente
Pois não sabia escrever

Dizia ser viajado
Conhecia o Brasil inteiro
De Porto Alegre à Natal
Do Acre ao Rio de Janeiro
Morou em Serra Pelada
Mas não quis ser garimpeiro

Deitava na preguiçosa
Todo dia à tardesinha
Pra conversar com os amigos
E contar uma “mentirinha”
Loroteiro igual à ele
Em Araruna não tinha

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

POEMAS DE PATATIVA DO ASSARÉ

MINHA VIOLA

Minha viola querida,
Certa vez, na minha vida,
De alma triste e dolorida
Resolvi te abandonar.
Porém, sem as notas belas
De tuas cordas singelas,
Vi meu fardo de mazelas
Cada vez mais aumentar.

Vaguei sem achar encosto,
Correu-me o pranto no rosto,
O pesadelo, o desgosto,
E outros martírios sem fim
Me faziam, com surpresa,
Ingratidão, aspereza,
E o fantasma da tristeza
Chorava junto de mim.

Voltei desapercebido,
Sem ilusão, sem sentido,
Humilhado e arrependido,
Para te pedir perdão,
Pois tu és a joia santa
Que me prende, que me encanta
E aplaca a dor que quebranta
O trovador do sertão.

Sei que, com tua harmonia,
Não componho a fantasia
Da profunda poesia
Do poeta literato,
Porém, o verso na mente
Me brota constantemente,
Como as águas da nascente
Do pé da serra do Crato.

Viola, minha viola,
Minha verdadeira escola,
Que me ensina e me consola,
Neste mundo de meu Deus.
Se és a estrela do meu norte,
E o prazer da minha sorte,
Na hora da minha morte,
Como será nosso adeus?

Meu predileto instrumento,
Será grande o sofrimento,
Quando chegar o momento
De tudo se esvaecer,
Inspiração, verso e rima.
Irei viver lá em cima,
Tu ficas com tua prima,
Cá na terra, a padecer.

Porém, se na eternidade,
A gente tem liberdade
De também sentir saudade,
Será grande a minha dor,
Por saber que, nesta vida,
Minha viola querida
Há de passar constrangida
Às mãos de outro cantor.

***

MINHA SERRA

Quando o sol nascente se levanta
Espalhando os seus raios sobre a terra,
Entre a mata gentil da minha serra
Em cada galho um passarinho canta.

Que bela festa! Que alegria tanta!
E que poesia o verde campo encerra!
O novilho gaiteia a cabra berra
Tudo saudando a natureza santa.

Ante o concerto desta orquestra infinda
Que o Deus dos pobres ao serrano brinda,
Acompanhada da suave aragem.

Beijando a choça do feliz caipira,
Sinto brotar da minha rude lira
O tosco verso do cantor selvagem.

***

ARTE MATUTA

Eu nasci ouvindo os cantos
das aves de minha serra
e vendo os belos encantos
que a mata bonita encerra
foi ali que eu fui crescendo
fui vendo e fui aprendendo
no livro da natureza
onde Deus é mais visível
o coração mais sensível
e a vida tem mais pureza.

Sem poder fazer escolhas
de livro artificial
estudei nas lindas folhas
do meu livro natural
e, assim, longe da cidade
lendo nessa faculdade
que tem todos os sinais
com esses estudos meus
aprendi amar a Deus
na vida dos animais.

Quando canta o sabiá
Sem nunca ter tido estudo
eu vejo que Deus está
por dentro daquilo tudo
aquele pássaro amado
no seu gorjeio sagrado
nunca uma nota falhou
na sua canção amena
só canta o que Deus ordena
só diz o que Deus mandou.

* * *

O POETA DA ROÇA

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chôpana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.

Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito.

Eu canto o cabôco com sua caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topando as visage chamada caipora.

Eu canto o vaquêro vestido de côro,
Brigando com o tôro no mato fechado
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.

E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte.

* * *

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM MOTE BEM GLOSADO E UMA CANTORIA

O cearense Geraldo Amâncio e o paraibano Severino Feitosa, dois dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade

* * *

Geraldo Amâncio e Severino Feitosa glosando o mote:

Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

Eu sei que você reclama,
que é um repentista antigo,
porém pra cantar comigo,
acho pouco a sua fama,
é muito bom pra o programa,
pra todo mundo acordar,
pra falar, pra conversar,
mas é fraco pra o repente.
Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

Severino Feitosa

Seus erros ninguém perdoa,
porque você é pequeno,
sua dose de veneno
está pronta em João Pessoa,
lhe afogo na lagoa,
lhe jogo dentro do mar,
e você morre sem voltar
pra o Ceará novamente.
Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

No gramado eu sou atleta,
hoje aqui em João Pessoa,
não faço cantiga à toa,
a minha idéia é completa,
eu prefiro outro poeta,
com quem possa me ocupar,
é perdido eu trabalhar
com certo tipo de gente.
Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

Severino Feitosa

Geraldo, você recita
para a platéia achar graça,
em todo canto que passa,
tem a cantiga bonita,
mas aqui onde visita,
é meu reino, é meu lugar,
você tem que respeitar,
para ser independente.
Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

Muita coisa eu estou vendo
e a platéia está notando,
é Severino apanhando,
pensando que está batendo,
é um coitado sofrendo,
eu sem querer judiar,
quem se acostuma apanhar,
morre na peia e não sente.
Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

Severino Feitosa

Lhe falta a inspiração
para seguir os meus passos,
estou vendo os seus fracassos,
se afracou nesse rojão,
se eu lhe der um empurrão,
a cabeça vai rodar,
esse nariz vai parar
da caixa prego pra frente.
Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

Não tem vez esse rapaz,
quando está no meu caminho,
ele é bem devagarinho,
já não sabe o que é que faz,
cinqüenta léguas pra trás,
doido pra me acompanhar,
se acaso você cansar,
procure um toco e se sente.
Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

Severino Feitosa

Sei nadar em qualquer rio,
me criei nessa escola,
no braço dessa viola,
não aprendo cantar frio,
me pediram o desafio,
e eu quero lhe açoitar,
já ouvi alguém gritar,
Feitosa a cantiga esquente !
Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

Nossa cantiga é assim,
faz tempo que eu lhe conheço,
eu sou manso no começo,
que é para bater no fim,
você diz que dá em mim,
eu começo a duvidar,
sabe o povo do lugar,
tanto apanha como mente.
Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

Severino Feitosa

Conheço o interior,
que o colega foi nascido,
se mete a ser atrevido,
não passa de agitador,
é pequeno cantador,
a sua fama é vulgar
quem de você apanhar,
não sabe o que é repente.
Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

Eu uso a matéria prima,
que nunca saiu à toa,
agrada a qualquer pessoa,
que de mim se aproxima,
Sou a cascavel da rima,
quem vier me acompanhar,
vou morder seu calcanhar
e arranchar em seu batente.
Comigo o rojão é quente,
canta quem souber cantar.

* * *

A dupla Edmilson Ferreira e Antonio Lisboa improvisando com o mote:

Sou vaqueiro criado no sertão,
meu perfume é de casca de madeira

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UMA GRANDE CANTORIA

Diniz Vitorino

Qualquer dia do ano se eu puder
para o céu eu farei uma jornada
como a lua já está desvirginada
até posso tomá-la por mulher;
e se acaso São Jorge não quiser
eu tomo-lhe o cavalo que ele tem
e se a lua quiser me amar também
dou-lhe um beijo nas tranças do cabelo
deixo o santo com dor de cotovelo
sem cavalo, sem lua e sem ninguém.

* * *

Expedito de Mocinha

Eu nasci e me criei
Aqui nesse pé de serra
Sou filho nato da terra
Daqui nunca me ausentei
Estudei não me formei
Porque meu pai não podia
Jesus filho de Maria
De mim se compadeceu
E como presente me deu
Um crânio com poesia.

* * *

Firmo Batista

Um dia eu estava olhando
a serra Jabitacá
conheci que nela está
a natureza sonhando
o vento passa embalando
o corpo robusto dela
a nuvem cobrindo ela
pingos de orvalho descendo
e o Paraíba dizendo
a minha mãe é aquela.

* * *

Zé Limeira

Eu briguei com um cabra macho
Mas não sei o que se deu:
Eu entrei por dentro dele,
Ele entrou por dentro deu,
E num zuadão daquele
Não sei se eu era ele
Nem sei se ele era eu.

* * *

Marcos Passos

Aos primeiros sinais da invernada,
Logo após longo tempo de estiagem,
Lá da serra, do vale e da barragem
Escutamos os sons da trovoada.
Vislumbrando a campina esverdeada,
Sertanejo se anima igual criança.
Logo mais, quando o mato se balança
E um corisco atravessa o céu nublado,
Cai a chuva no colo do roçado,
Germinando o pendão da esperança.

* * *

Jó Patriota

Na madrugada esquisita
O pescador se aproveita
Vendo a praia como se enfeita
Vendo o mar como se agita
Hora calmo, hora se irrita
Como panteras ou pumas
Depois se desfaz em brumas
Por sobre as duras quebranças
Frágeis, fragílimas danças
De leves flocos de espumas.

* * *

A ARTE DA CANTORIA

Dois ícones da poesia nordestina, os cantadores Otacílio Batista e Oliveira de Panelas improvisam em vários estilos.

Sextilhas, Gemedeira, Mourão-de-sete-pés (trocado), Mourão-de-você-cai, Oito-pés-a-quadrão, Dez-pés-a-quadrão, Martelo-alagoano e Galope-à-beira-mar.