EM LIQUIDAÇÃO

Levei anos, décadas, mas descobri minha vocação: quero ser protestante. Que pastores não se animem. Sou meio desgarrado de igrejas, em especial das estridentes. Nunca fui chegado a ser membro de rebanho. Erro com minhas próprias pernas. Não me queixo das “graças” que obtive, muito embora não esteja convencido de meus parcos merecimentos. Além do mais, a situação econômica não me permite pagar por “milagres” de procedência e efeitos duvidosos. Quero ganhar a vida protestando – de forma lucrativa. Afinal, como dizem por aí, o mar não está para peixe. Tempo bicudo, o nosso.< /span>

O ramo de protestos se profissionalizou muito nos últimos tempos. Diria mesmo que, nesse quesito, superamos Estados Unidos e Europa. De uns tempos para cá, temos até protestos a favor do governo. Segundo dizem, estes são os de melhor remuneração.

Claro que há sempre o risco de o profissional do protesto tomar umas cacetadas dos policiais. Mas jamais tive a pretensão de ocupar a linha de frente, ter a cara estampada nos jornais e na televisão. Não sou candidato a nada. Quero fazer parte da turma do fundão. A paga é menor, sei, mas não preciso apanhar para sobreviver. Melhor dizendo: do ponto de vista financeiro, tenho apanhado além do razoável.

A lista de vantagens de ser protestante profissional é grande, compensa os esqueletos do ofício. Com roupa, pouco se gasta. Até porque não pega bem ir aprumado num protesto. Tem mais: a onda agora é ir pelado. Lanche e transporte estão garantidos. Também é muito bom ser livre, deixar de ser escravo das crenças. Que beleza poder ser a favor e contra isso ou aquilo na mesma semana.

Pagou, levou meu protesto. Cobro barato.

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O LADO BOM DA DIETA

Sempre tive os nervos arruinados. Mas – é inegável –, eles pioraram muito nos últimos dias. A causa principal de minha ruína nervosa não são os parcos recursos que pingam sem nenhuma responsabilidade fiscal em minha conta corrente. Já me acostumei com isso, sou um estoico. O que me aflige é saber que pratos de repolho me esperam no almoço, no jantar, nos dias úteis, nos sábados, domingos e feriados.

Há 35 dias, o repolho refogado tem sido, por assim dizer, o alicerce de minha dieta. A única vantagem é que, sabedores do cardápio que tenho seguido à risca, parentes e vizinhos inoportunos já não me importunam mais. Como se percebe, tudo – até a maldita dieta – tem seu lado positivo.

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SEU PEPINO JÁ CRESCEU?

Dizem que o inferno está cheio de boas intenções. Se isso é verdade, eu não sei. Nunca estive lá nem pretendo estar. Prefiro climas mais amenos. Mas, no chamado Planeta Azul, também não falta gente bem intencionada, disposta a salvar o mundo. O que me leva a crer no seguinte: aqui, se não é a matriz do reino do cão abestalhado, é uma de suas filiais. Com certeza.

Sempre fico muito sensibilizado quando ouço pessoas pregando teses politicamente corretas. Minha vontade é pisar com o calcanhar em seu dedo mindinho. Agora mesmo, ouvi no rádio uma moça tecendo loas às hortas comunitárias – uma tendência mundial que, segundo ela, já chegou a São Paulo. A moda é tão boa que a “especialista” em salsinha e seus amigos tomateiros pedirão ao prefeito de São Paulo que a incorpore em seu plano de metas. Não precisam nem pedir. Prefeitos, em geral, gostam de ficar bem com os politicamente corretos. Gentalha.

Em sua entrevista, a especialista em salsinhas observou que há muita gente plantando até nas sacadas de seus apartamentos. Receio que os pobres estarão fora dessa. A maioria deles tem o péssimo hábito de morar em cortiços, favelas ou em apartamentos sem terraço gourmet, em locais minúsculos. Eis aí uma boa ideia para as futuras casas populares feitas pelo Estado. Os imóveis de amanhã terão que ter espaços para hortas e churrasqueira. Não faz sentido exigir que os pobres andem com vasos de alface na cabeça dentro de casa.

Ainda segundo a nossa especialista em salsinhas, as hortas comunitárias já fazem sucesso na Vila Madalena, Avenida Paulista e Pompéia, bairros chiques de São Paulo. Não se tem notícia de que a moda tenha chegado à Cidade Tiradentes, que fica logo depois do fim do mundo. Pobres são lerdos, demoram a aderir ao que há de mais moderno. Eles – vejam que barbaridade! – catam restos de feira, mas não fazem sua própria horta. São uns coitados.

Não pude ouvir a entrevista até o final. Sofro dos nervos. Não sei se nossa especialista chegou a criticar o agronegócio. Penso que sim. Uma pessoa como ela jamais desperdiçaria uma oportunidade dessas.

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ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE

Dizem os tratadores de almas e mentes que, para viver em paz consigo mesmo, o sujeito tem que se aceitar como ele é. Viver em paz é uma coisa. Ser feliz é outra – coisa que só a turma da Xuxa, salvo engano, consegue ser. Aceitar-se exige paciência e dinheiro. Passar metade da vida estirado no divã a confessar o inconfessável é empreitada para valentes. Não precisei dos préstimos de analistas. Passei a me aceitar melhor por absoluta falta de opção. Aos poucos, por desastrado completo, fui sendo impedido de fazer tarefas para as quais jamais tive aptidão e saco. O problema é que, no início, me sentia humilhado. Afinal, era o homem da casa – e, como se sabe, homem da casa não escolhe nem recusa tarefa.

Sempre tive grandes dificuldades para, por exemplo, trocar aquela pecinha de torneira – cujo nome agora me escapa. A falta de coordenação motora, que muitos atribuem ao fato de não ter cursado o jardim da infância e o pré, me atrapalhou um bocado, a ponto de me impedir de unir as pontas de dois fios e passar a fita isolante na maldita emenda. Trocar lâmpada nunca foi problema. O
problema continua sendo subir os degraus. Tenho problema com altura. Escalo um degrau, dois degraus e, no terceiro, já fico mais tonto que o habitual. Nunca me recusei a trocar pneu de carro. Desde que tenha alguém para me colocar os parafusos nas porcas, que insistem em brincar comigo de esconde-esconde.

A lista de minhas impossibilidades é vasta.

No começo, me sentia inferior a outros homens do lar. Ficava amuado quando me comparava aos que consertam fechaduras, põem óleo nas janelas engripadas, trocam o botijão de gás, aparam grama, pintam o portão da garagem etc. Nunca soube fazer nada disso. Mas hoje vejo que minhas inutilidades não são de todo inúteis. Dou de ombros às gozações, e me estiro no sofá. Já não quero saber para o que sirvo. Essa preocupação passou a ser de minha mulher:

– Não te largo, sem descobrir sua utilidade, diz.

Nosso casamento vai longe. Se nem eu sei minha utilidade…

1 Resposta

FUTEBOL VAGABUNDO

Dirigentes esportivos – os de futebol muito à frente – valem tanto quanto à maioria dos nossos políticos: nada. É uma vergonha. Qualquer jogador, por mais perneta e burro que seja, sabe que, se tirar a camisa para comemorar o gol de canela, vai receber cartão amarelo. Ou seja: está prejudicando seu time, de propósito. Qual é a punição que os marginais recebem? Nenhuma.

***

No país da caixinha, jogador de futebol se acha no direito de receber “bicho” quando seu time ganha, por mais ordinário que seja o adversário. Caracas! Jogar bem é sua obrigação; lutar para vencer, idem. Ora, então não seria justo descontar o “bicho” do salário da moçada quando o time perde?

***

Os dirigentes de meu time sempre inovam, embora não sejam piores que os de outras agremiações. Contratam ou renovam contratos de jogadores a salário de ouro, o “liga” não joga nada, resolvem emprestá-lo e se dispõem a pagar metade do salário. E acham que fizeram bom negócio.

***

Vamos criar vergonha na cara: não vamos mais aos estádios.

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AGONIADA? NEM PENSAR

Passei anos – tenho certeza de que você também – ouvindo de meus pais: “A saúde em primeiro lugar”. E sempre dei de ombros ao conselho que me davam. Mas, o tempo passa, o tempo voa… Ora, se nem o Bamerindus continua numa boa – ao contrário, quebrou –, quem sou eu para desafiar a “lei da idade”? Resolvi me tratar por conta e risco próprios. Médicos são incapazes de fechar qualquer diagnóstico sem pedir o tal de exame de sangue. Agulhas não se dão bem comigo, se me entendem. Elas entram num braço, eu quedo sobre o outro: desmaio.

Optei pelos fitoterápicos. Peguei uma relação de ervas, analisei a utilidade de cada uma delas e escalei meu “time”: Carqueja (gol); Salsaparrilha, Artemísia, Assa Peixe e Avenca (zaga); Barbatimão (em homenagem ao glorioso Corinthians, campeão dos campeões, eternamente etc.), Boldo do Chile e Cabreúva (meio-campo); Hortelã, Porangaba e Cactus (ataque). Na reserva, mantenho uma erva para cada titular. Tomo em média três copos de 250 ml por dia – de cada erva do time principal. Ou seja: mijo muito, quase sem parar. Trato simultaneamente de vários problemas, ok? Excluí do elenco duas plantas: Urtiga e Agoniada. Segundo a vasta literatura fitoterápica, a primeira dá jeito na menstruação i rregular e a segunda acaba com a inflamação uterina. Concluí que elas não me seriam úteis.

Como todo tratamento, o que adotei também apresenta efeitos colaterais. Tenho produzido pouco e dormido menos ainda. Quando não estou tomando chá, estou eliminando chá. Por falar nisso, tenho que encerrar a conversa. Hora de passar o pano no chão e trocar de bermuda. Até. Em breve, lhes darei notícias sobre o andar do tratamento.

Vai uma urtiga, aí?

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E O AMOR SAIU PELA JANELA

Orlando Silveira

CENA I

– Sonhei que estava fazendo amor com você…
– Jura? E aí?
– Acordei suada, amedrontada. Um horror.

CENA II

– Seu ronco é insuportável.
– Eu sei. Em compensação, só solto “pum” no banheiro.

CENA III

– Se eu soubesse que você ficaria desse tamanho, juro, teria dito “não” ao padre.

CENA IV

– Como estou?
– Parecendo árvore de Natal.

CENA V

– Querido: se é verdade que você só me trai em pensamentos, me faça um favor: reze em casa. Vamos economizar muito dinheiro (da gasolina, do estacionamento, do pastor). Se agir assim, terá desde já meu profundo perdão.

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