ORLANDO SILVEIRA - SÓ NOS TRÊS É QUE SABEMOS

RAPIDÍSSIMAS

LAVOURA ARCAICA

A idiotia (individual ou coletiva) não é obra do acaso. Não mesmo. Ela é longa e sistematicamente cultivada.

MALDITA FELICIDADE

Ignorante todo mundo é. Mas só os ignorantes absolutos são absolutamente felizes. Pobres diabos. Donos de certezas inabaláveis, eles ignoram o tamanho da própria ignorância.

CAIU A FICHA

É tudo tão ligeiro, passageiro que só. Esquentar tanto, meu Deus, para quê?

QUEM ME DERA

Ser criativo, imaginoso. Mas criativa e imaginosa é a realidade.

CÁ ENTRE NÓS

Jovem pesaroso é um porre. Jovem pesaroso metido a poeta, um pé no saco. Pior que isso só velho que se julga adolescente.

QUEM DIRIA?

O apressado, depois de tanto apanhar, perdeu a pressa.

É SIMPLES

Se ninguém acredita mais na palavra empenhada, falar pra quê?

QUATRO DÉCADAS

Quando tudo parecia perdido, eles deram a volta por cima: voltaram a ser o que sempre foram: amigos, cúmplices para sempre.

RECOMEÇAR

Nunca é tarde pra partir.

POR AQUI, POR ALI?

Ora, se a gente tivesse certeza sobre o melhor caminho, a gente o percorria.

TEM JEITO NÃO

Envelhecer é acumular perdas. Mas, quem se dispõe a ir antes da hora?

ESTÁ ESCRITO

Homem que perde o trabalho, não importa sua história, com o passar do tempo vira estorvo. Para os outros e para si mesmo.

ESFORÇO EM VÃO

Trocou os aplausos fugazes pelo silêncio reconfortante. E continuou infeliz.

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QUASE HISTÓRIAS: O JIPE DO TIO

– Oi. Tudo bem por aí, pai?

– Tudo, filho. E com vocês?

– Tudo em paz. Dudu está lindo.

– Daqui de cima, eu o vejo todos os dias. Está lindo mesmo. Como você conseguiu ligar?

– Não importa. A gente sempre dá um jeito.

– Não me faça passar vergonha. O céu é lugar recatado.

– OK. Estou com saudade. Tem lido?

– Muito. Quer dizer: quando tua mãe me deixa ler… Como fala, a tua mãe! Havia me esquecido desse detalhe.

– Ela está aí?

– Agora, não. Ela foi com Laura e Valésia, suas tias, fazer pudim para Pedro, o santo.

– Como assim?

– É aniversário dele. Vamos fazer uma festinha surpresa.

– Não sabia que santo faz aniversário.

– Faz. Por que não faria? O que mais, filho?

– Está com pressa?

– Estou. A vida é curta, preciso ler, aprender. Mas pode falar.

– Por aí a vida não é eterna?

– Depois te explico.

– Soube que tio Iraci está por aí.

– Está. Duro é encontrá-lo. Continua o mesmo. Bate pernas o dia todo. Só aparece para fazer as refeições. Vai ao purgatório, vai ao inferno. Não esquenta cadeira. Uma hora ainda se perde. Não volta para o céu.

– E tio Antônio?

– Também está por aqui. Ele sempre lhe manda beijo. Gosta de você. Continua o mesmo. Continua chamando Laura de “pamonha”. Com razão. Agora cismou, esse Antônio! Quer fazer piquenique. Mas quem há de trazer o velho jipe para o céu? Quem? Sem jipe não há piquenique…

– É.

– Amanhã, a gente se fala. Pedro está chegando, com cara de poucos amigos. Acho que o pudim desandou. Também pudera. Sua mãe e tias não param de falar.

– Sua benção, pai.

– Deus te abençoe. Não beba muito, largue o cigarro. Beijo.

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COISAS DE “NONAS”

O neto ligou para a avó, a quem não via há mais de dois anos.

– Nona: tudo bem? É Pierino, seu neto.

– Eu sei. Pensei que não tivesse mais neto… Se eu morro, você fica sabendo pelo anúncio no jornal.

– A vida está corrida. Mas estou indo aí, para visitá-la. Vou levar a Jussara para a senhora conhecer.

– Quem é essa?

– Minha nova mulher.

– Coitada. Mais uma vítima. Mas venham.

– Daqui a meia hora estaremos na sua casa.

– No prédio, as coisas mudaram um pouco. Quando você chegar, aperta com o cotovelo o botão do porteiro eletrônico. Abro a porta aqui de cima. Depois, no elevador, aperta com o cotovelo o 3. Moro no 32. Quando chegar, toca com o cotovelo a campainha. Entendeu?

– Entendi, entendi, Nona. Só não entendi por que tenho que apertar todos os botões com o cotovelo.

– Puta que o pariu. Você fica sem aparecer mais de dois anos e me vem com as mãos abanando?

* * *

E POR FALAR EM NONA…

O Nono estava no bico do corvo. O médico chamou a família:

– O quadro do Nono é gravíssimo, irreversível. Não temos mais nada a fazer por ele. Melhor levá-lo para casa, para que ele possa ficar perto dos filhos, netos, bisnetos… Segundo me disse, gostaria de morrer em casa.

E assim foi feito.

A casa do Nono parecia um Corinthians X Palmeiras, em final de campeonato, de tão lotada.

Embora moribundo, o Nono mantinha faro apurado. Chamou um dos bisnetos e lhe disse:

– Vá até a cozinha e peça dois pastéis pra Nona: um de carne e um de queijo. Adoro pastéis.

O pirralho foi e voltou de mãos abanando.

– Cadê os pastéis? – quis saber o Nono, impaciente, lutando contra o tempo.

O bisneto foi direto ao ponto:

– A Nona me disse que os pastéis são para o seu velório.

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RAPIDÍSSIMAS

ASAS À IMAGINAÇÃO

Os solitários não precisam ser necessariamente infelizes. Afinal, eles podem reinventar o mundo.

Todo santo dia.

BOTEM REPARO

Quem é sempre do contra nunca é a favor de nada. Ou seja: não tem serventia alguma.

BOTEM REPARO II

Quem assobia não come.

BOTEM REPARO III

Nem todo tatuado, evidentemente, é bandido. Mas todo bandido é tatuado.

CONTRA A CORRENTE

Ruim com ele… Melhor sem ele.

ACASO

Quando um não quer, dois não ficam. A não ser que apareça, de onde menos se espera, um personagem como J. Pinto Fernandes, de Carlos Drummond de Andrade (QUADRILHA).

ESFORÇO EM VÃO

Trocou os aplausos fugazes pelo silêncio reconfortante. E continuou infeliz.

TOLICES

Nem todo dito popular é despropositado. Querem ver? “A pressa é inimiga da perfeição”. Ora, quem padece de ejaculação precoce sabe disso.

DE HOMEM PARA HOMEM

Com um frio danado desses, só há uma forma de amor possível – a platônica.

OS MELHORES AMIGOS

São os de quem gosto. São muitos? São poucos? São velhos? São novos? São reais? São virtuais? Não sei. Mas que importa? São os de quem gosto muito.

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CADA UM COME O SEU…

O caipira tinha dinheiro de sobra, gostava de ostentar seus carrões, roupas de grife e correntes de ouro, não abria mão de frequentar restaurantes caros. Mas não gostava de passar por jeca – sejamos francos: ninguém gosta de passar por jeca, ainda mais se for jeca.

Certa feita, nosso matuto veio para a capital a negócios. Resolveu jantar num restaurante chique. A desgraça é que ele não tinha a menor ideia do que pedir para comer e beber. Não entendia o que estava escrito, em francês, no cardápio. Escolheu sua mesa a dedo. Ao lado da mesa de um grã-fino.

– Garçom, me traga o prato de sempre – pediu o bacana, frequentador assíduo da casa.

O caipira não deixou por menos:

– Dois.

O bacana pediu ao garçom “o vinho de sempre”.

E o caipira:

– Dois.

Nosso jeca foi nessa batida até a hora da sobremesa. O bacana estava a ponto de estourar. E estourou:

– Garçom, isso aqui está insuportável. Quero o manobrista.

– Dois, pediu o caipira.

– Escuta aqui, cidadão: um manobrista dá para os dois.

O caipira retrucou:

– Nada disso! Cada um come o seu.

– Garçom, isso aqui está insuportável. Quero o manobrista.

– Dois, pediu o caipira.

– Escuta aqui, cidadão: um manobrista dá para os dois.

O caipira retrucou:

– Nada disso! Cada um come o seu.

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LULA FAZIA MÁGICA ATÉ EM RESTAURANTE CHIQUE

Lula e Zé Dirceu foram jantar num restaurante muito luxuoso. Ali, os talheres eram de ouro. Puro luxo. Coisa para nababos.

De repente, Lula vê Zé Dirceu pegar duas colheres de ouro e esconder no bolso.

Ficou profundamente aborrecido. Como ele não tivera primeiro a ideia? Mas não passou recibo, decidiu que também ia roubar duas colheres. Todavia, na hora do furto, ficou nervoso (pois os companheiros sempre roubaram para ele e ele “nunca sabia de nada”) e as colheres acabaram batendo uma contra a outra, fazendo barulho.

Solícito, o garçom lhe perguntou se queria alguma coisa.

Lula ficou sem jeito, pois tinha sido pego com a boca na botija. Respirou fundo, recompôs a cara de pau e falou que não tinha ouvido nada, não sabia de nada e não queria nada.

Em seguida, “Nunca Antes” tentou de novo, mas uma das colheres caiu no chão.

O garçom ouviu o barulho, aproximou-se de Lula e perguntou, novamente, se ele queria algo.

Lula pensou um pouco. Exímio enganador, dissimulado e oportunista, perguntou ao garçom:

– Você quer que eu faça uma mágica?

– Claro, presidente, claro. Adoro mágicas.

– Então, pegue essas duas colheres de ouro e as coloque no meu bolso.

O garçom o atendeu prontamente.

– Pronto senhor, e agora?

– Agora, conte até três e tire as colheres do bolso do Zé Dirceu.

Todos os que viram a cena ficaram maravilhados. Inclusive o garçom. O Brasil nunca teve, de fato, um presidente como ele.

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APONTAMENTOS

Sou romântico inveterado. Sou Roberto Carlos sem voz.

Adoro mulher de quarenta. E gorducha também.

Desconfio da masculinidade de homens que não aceitam estrias e celulite.

São incapazes de dar o devido valor a um par de peitos levemente caídos.

São tolos. Desprezam a vivência.

Não se olham no espelho.

Paciência.

Antes de bater as botas, faço um apelo às mulheres, em especial às gorduchas:

– Não usem calcinhas seis números abaixo do que suas nádegas exigem! Não vejam erotismo onde a vulgaridade impera. E disparem um pontapé no traseiro de homens cheios de frescuras.

* * *

E ela bateu pesado, como toda mãe bate em marido inconveniente

– Sai daqui, animal: quer tomar o leite do menino?

Não queria roubar leite, muito menos leite do filho. Imagine… Nem de leite gostava, queria um prazer efêmero, coisa ligeira, de quem tem que trabalhar amanhã: um beijinho, uma mamadinha nos seios da amada de sempre.

Ela negou. Vítor cresceu. O amor se foi. E ele morreu. Por falta de cálcio. E de peitos.

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QUEM TEM JUÍZO…

A madame arrogante ficou transtornada, puta da vida, com a empregada com três meses de casa:

– Escuta aqui: você mal chegou e quer aumento de 20%?

– É que lavo a roupa melhor que a senhora?

– Quem lhe disse isso?

– Meu patrão. Tem mais: ele também me disse que cozinho melhor que a senhora.

– O que mais, abusada?

– Sei que na cama sou melhor que a senhora…

– Aquele vagabundo do seu patrão lhe disse isso?

– Não. Foi o motorista.

A patroa achou 20% pouco. Deu à mensalista 50% de aumento.

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RAPIDÍSSIMAS

QUATRO DÉCADAS

Quando tudo parecia perdido, eles deram a volta por cima: voltaram a ser o que sempre foram: amigos, cúmplices para sempre.

RECOMEÇAR

Nunca é tarde pra partir.

POR AQUI, POR ALI?

Ora, se a gente tivesse certeza sobre o melhor caminho, a gente o percorria.

TEM JEITO NÃO

Envelhecer é acumular perdas. Mas, quem se dispõe a ir antes da hora?

CONFORTO

Quem diria? Três casas nos separam. A gente voltou a namorar. Namorar é bom. Namorem.

ESFORÇO EM VÃO

Trocou os aplausos fugazes pelo silêncio reconfortante. E continuou infeliz.

NA PIOR IDADE

Aqueles gemidos lancinantes não são de prazer. São de dores, muitas dores. Nas costas, nos rins, nos braços e pernas.

ESTÁ ESCRITO

Homem que perde o trabalho, não importa sua história, com o passar do tempo vira estorvo Para si mesmo.

CELA 45

Muito pior que as grades é a convivência forçada

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O AZARADO

Achou estranho o convite para a entrevista, mais ainda cargo e salário em perspectiva. Mas não estava em condições de recusar desafios. Se mais não fosse, já passara da hora de alguém reconhecer aquele talento adormecido.

Fez a barba, tomou um banho bem tomado, espanou o paletó puído, calçou o par de sapatos das grandes e raríssimas ocasiões, tomou um trago e se foi – rumo ao sucesso improvável. E com aquele ar “altivo” dos previamente derrotados.

– Você sabe por que está aqui, não sabe?

– Claro que sei, respondeu. De peito estufado, coração na mão.

– Indicação dele.

– Do chefe, eu sei.

– O que sabe fazer?

– Tudo o que for preciso.

– Está dispensado.

– Mas, e o chefe?

– Ele não apita mais nada. Foi demitido ontem. Já foi tarde. E aqui a coisa só funciona na base do “quem indica”. Trate de arrumar outro padrinho.