MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

UM CORDEL JURÍDICO

Nos idos de 1997, tive a honra de exercer a advocacia na Superintendência Jurídica do Banco do Nordeste do Brasil.

Ali adquiri conhecimentos que utilizo até hoje em minhas atividades jurisdicionais. Também fiz grande amizades, que permanecem vivas até os dias atuais.

Um dos colegas com quem trabalhei, o advogado Isael Bernardo de Oliveira, tinha (e certamente ainda tem) habilidade para fazer versos de cordel, acontecendo muitas vezes de criarmos juntos várias estrofes jurídicas, quase de improviso, enquanto estávamos trabalhando.

Semana passada fui surpreendido, quando chegaram às minhas mãos versos que havíamos criado em uma daquelas ocasiões.

O portador da feliz lembrança foi o amigo-irmão Zico, também advogado do Banco do Nordeste, e que por mais de dez anos foi meu braço direito, trabalhando como diretor de secretaria na Justiça Federal.

Os versos recuperados daqueles tempos remotos são os seguintes:

Querido amigo Isael,
Antes de tudo, bom dia.
Vou lhe fazer um convite,
Com amizade e alegria:
Para estudarmos Direito,
Fazendo verso perfeito,
Direito com Poesia!

O convite do amigo
A mim muito satisfaz;
O Direito me afeiçoa,
Poesia me dá paz.
Se o Direito é sacerdócio,
Dele já me sinto sócio,
Da poesia ainda mais!

Então, vamos ao trabalho!
Comecemos neste instante!
Escolhendo logo o tema,
Algum assunto importante.
Pela nossa formação,
Nossa Constituição
Parece um tema vibrante!

Nessa tema escolhido,
Nossa Constituição,
É como um leito sagrado
Dos direitos do cidadão.
Todos eles essenciais,
As garantias constitucionais
Me chamam mais a atenção.

De fato, em tempos remotos,
Norma assim não existia.
As leis que o rei aplicava,
Ele mesmo é que as fazia.
E o povo, sempre sofrido,
Espoliado e oprimido,
Não tinha essa garantia.

Esse poder do monarca
A um tal ponto cresceu,
Que um tal de Luiz XIV,
Que lá na França viveu,
Gostava de se gabar,
E vivia a proclamar:
“O Estado aqui sou eu!”.

Essa frase do monarca
Revela absolutismo,
Que deve ser combatido
Assim como o nepotismo.
Muito próprio das nações
Cujas Constituições
Contêm autoritarismo.

O tal autoritarismo
Se opõe à democracia,
Que a nossa Constituição
No preâmbulo evidencia,
Lembrando sempre que o lema
Que escolhemos como tema
É Direito com Poesia!

Não esqueço, meu amigo,
Pois tenho boa memória;
Porém a Constituição
Também tem a sua história.
Foi contra o absolutismo
Que o constitucionalismo
Conquistou sua vitória!

E essa conquista importante
Chegou até nossos dias;
No encarte desenhado
Das boas democracias,
Dando luz e proteção
Ao país e ao cidadão,
Com as suas garantias.

Por isso é que a Carta Magna
Vigente aqui, hoje em dia,
Impõe como fundamentos
Da nossa democracia
A forma republicana,
Com dignidade humana,
Trabalho e cidadania.

Direito com Poesia,
De uma forma natural,
Para o Homem que trabalha
Na zona urbana ou rural.
Parabéns ao cidadão
Que tem a Constituição
Por patrimônio nacional!

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

O MENINO QUE NÃO TINHA MEDO

Era uma criança como qualquer outra, o Abel. Brincava, corria, jogava futebol… Não corria mais que os outros, nem era tão bom de bola, mas tinha uma coisa que fazia dele um menino que se destacava na turma: não tinha medo de nada.

Lembro que, quando foi morar na nossa rua, ele tinha uns onze anos de idade. Eu era um pouco mais novo, talvez menos de dois anos, mas, naquela época, isso fazia muita diferença. Até porque, muito me impressionava a autoconfiança com que Abel enfrentava qualquer situação na qual fosse preciso demonstrar coragem.

Se a brincadeira era subir em uma árvore, ele sempre chegava aos galhos mais altos. Se o desafio era cortar caminho atravessando o cemitério, quando voltávamos da escola, ele era o primeiro a entrar pelo portão macabro. Subia nos túmulos e corria entre eles, sem a menor cerimônia, enquanto os outros caminhávamos tensos. No final, quando chegava a hora de transpor o muro dos fundos do cemitério, para alcançar a rua do outro lado, ele primeiro ajudava todo mundo a subir. Só depois iniciava a própria escalada. Acabava sendo o último a sair dali.

Às vezes, jogávamos futebol na rua e a bola caía dentro do jardim da Dona Letícia, nossa vizinha. Ela odiava quando isso acontecia, porque a bola quebrava suas roseiras. Certa vez, ela deixou o cachorro solto no jardim, para que, caso a bola caísse lá dentro, não pudéssemos pegar de volta.

Mas a estratégia da vizinha malvada acabou não funcionando. Quando a bola passou sobre o muro, para se acomodar entre as roseiras de Dona Letícia, Abel nos chamou e disse baixinho:

– Fiquem perto do portão, chamando a atenção do cachorro, enquanto eu pulo o muro pelo outro lado.

Fizemos o que Abel pediu e ele pulou mesmo o muro. Pegou a bola, arremessou de volta para a rua e, no instante seguinte, já estávamos reiniciando o jogo. O cão de guarda nem notou que ele havia entrado e saído do jardim.

Para mim, que até hoje tenho medo de cachorro, aquele foi um gesto assustador, embora Abel houvesse feito tudo sorrindo, como se fosse apenas mais uma brincadeira qualquer.

O tempo passou. Eu e meus amigos crescemos respeitando aquele menino que nunca tinha medo de nada. Já éramos adolescentes quando seu pai arranjou um emprego no Rio de Janeiro e levou toda a família, fazendo com que perdêssemos o contato.

Vários anos depois (não lembro quantos), eu estava assistindo a um programa de televisão e vi um grupo de alpinistas que se preparava para escalar um vulcão, em um lugar chamado Cinturão de Fogo, no México, se não me engano. Lá estava Abel, entre os líderes do grupo, estampando no rosto o mesmo sorriso do menino que um dia desafiou o cão de guarda da Dona Letícia.

Comentei com alguns de meus amigos de infância aquela reportagem, e, a partir daí, sempre que um de nós encontrava alguma notícia das aventuras de Abel pelo mundo, mostrava para os outros.

Foi assim que, em 2008, quando todos nós já havíamos atravessado a barreira dos quarenta anos, aconteceu uma etapa do Campeonato Mundial de Motocross Freestyle em Fortaleza. Alguém trouxe a notícia de que Abel estava vindo para participar do evento. Ele já havia deixado de competir nessa modalidade, mas estava trabalhando na produção.

Reunimos vários amigos da época, descobrimos o hotel onde os organizadores da competição estavam hospedados e fizemos uma visita surpresa a Abel.

Foi uma festa! Uns casados, outros descasados, alguns com filhos adolescentes, outros com bebês de colo, o fato é que, mesmo sendo ele o aventureiro da turma, cada um de nós tinha alguma coisa para contar.

Como a competição aconteceria no sábado à noite, marcamos de ir à praia com as famílias no dia seguinte.

E assim fizemos. No domingo de manhã, lá estávamos nós, com as esposas e filhos, em uma praia muito conhecida nos arredores de Fortaleza, onde há também um famoso parque aquático. Meu filho Álvaro tinha acabado de fazer oito anos; Abelinho, filho dele, estava perto de completar onze. Num instante ficaram amigos, e logo estavam diante de nós, pedindo para ir brincar no parque aquático.

Mas, pela primeira vez, desde que o conheci, Abel pareceu vacilante:

– Meu filho, vá brincar na areia mais um pouco… depois nós iremos com vocês para os brinquedos…

Eu disse mais ou menos a mesma coisa para o Álvaro, e, com alguma relutância, os dois acabaram aceitando adiar as aventuras nos tobogãs aquáticos.

Quando se afastaram, perguntei a Abel:

– O que houve, amigo? Algum problema?

Ele coçou a cabeça, pensou um pouco e explicou:

– Olhe, pra lhe dizer a verdade… o problema é que o Abelinho é muito afoito, sabe? Quando ela entra nesses parques aquáticos, vai direto para os escorregadores mais altos. Aliás, é assim com tudo. Montanha russa, elevador que cai, trem fantasma, ele adora todos esses tipos de brinquedos. Você precisa ver o que ele faz com a bicicleta lá em casa…

– Não me espanta que ele seja assim – disse eu. – Você não fica feliz de ver que ele parece tanto com o pai?

– Eu fico mesmo é com medo – suspirou ele baixando os olhos. – Morro de medo que aconteça alguma coisa, que ele se machuque… Sei lá.

Percebi que o risco de o filho se ferir realmente deixava Abel com medo. E achei engraçado que aquilo acontecesse justamente com ele, sempre tão disposto a enfrentar toda sorte de perigos.

Nessa hora, senti que um sorriso se formou em meus lábios, mas, devo admitir que não foi por achar a situação engraçada que sorri. Era um sorriso que vinha de uma espécie de satisfação de, pela primeira vez na vida, me sentir encorajado a ir adiante, enquanto Abel vacilava.

– Deixa de besteira, rapaz! – disse eu, já me levantando. – Não tem nada perigoso aí, não! Vamos chamar os meninos, senão fica tarde e eles não vão poder aproveitar todos os brinquedos!

Minutos depois, os dois garotos deslizavam felizes pelos escorregadores. Fiquei orgulhoso de ver que, apesar de menorzinho, Álvaro acompanhava o Abelinho naquelas aventuras, sem vacilar, mesmo quando precisava se lançar dos pontos mais altos dos brinquedos aquáticos.

Ao meu lado, um Abel tenso acompanhava o filho com os olhos, até o final de cada descida.

Percebi sua tensão, mas não falei nada. Apenas reconheci para mim mesmo, depois de tantos anos, que, apesar da nossa amizade, sempre tive um pouco de inveja do Abel.

Porque ele era um menino que não tinha medo.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

GREVE DE ALEGRIA

Em 1999, escrevi um conto e depois apaguei o arquivo. Não quis mostrar o texto a ninguém. Achei que a história não merecia publicação. Mais que isso, achei que não deveria ser lida, porque estimulava sentimentos ruins, destrutivos.

No conto, uma quantidade imensa de brasileiros havia cansado dessa história de sermos um povo que enfrenta os problemas com alegria e bom humor, muitas vezes rindo de nós mesmos.

Dava-se, então, que vários grupos organizavam-se pelo país, em torno de uma mesma ideia. Como se houvessem combinado, decidiram protestar de um mesmo modo inovador: uma espécie de greve de alegria.

Parariam de rir, deixariam de festejar, evitariam demonstrar alegria, qualquer que fosse o motivo, enquanto o país não resolvesse seus principais problemas (que, naquela época, eram mais ou menos os mesmos de hoje).

Na ficção, os movimentos adquiriam um grande número de adeptos, de modo que as manifestações de apatia, tristeza e irritação espalhavam-se pelo país. É verdade que, como havia muitos grupos, independentes entre si, que organizavam os protestos, cada um se queixava por motivos diferentes. Na soma dos esforços, porém, o resultado era que o Brasil havia se tornado um lugar esquisitíssimo.

Continuava tendo carnaval, mas as músicas muitos blocos e escolas de samba eram tristes. E, ao invés de dançar, as pessoas andavam cabisbaixas ao lado de trios elétricos.

Continuava a haver futebol, mas, a cada gol, a reação de boa parte da torcida era fazer um minuto de silêncio. Se fosse um gol muito bonito, um golaço mesmo, era provável que recebesse uma sonora vaia.

E, assim, pela obstinação desses heróicos brasileiros em se mostrar insatisfeitos com seus problemas políticos, econômicos e sociais, o Brasil passava a ser, na minha ficção, um país movido pela tristeza, a indiferença, a raiva e quaisquer outros sentimentos que deixassem clara a infelicidade e a insatisfação do nosso povo.

Ocorre que, quando escrevo ficção, é como se eu acessasse um universo paralelo, onde as coisas que imagino acontecem de verdade. Assim, minha atividade de escritor limita-se a observar o que se passa nesses mundos imaginários, narrando-os, em seguida, na forma escrita.

Consequentemente, as situações que descrevo em meus contos são imaginárias, mas os sentimentos advindos da observação desses fatos são reais. E, nesse caso, eram sentimentos não eram nada construtivos (percebo-os novamente agora, enquanto escrevo esta crônica).

Eis o motivo pelo qual entendi, naquela ocasião, que não valeria a pena compartilhar com ninguém a história que acabara de escrever.

A par disso, hoje, vinte anos depois, lembro dela.

E o resultado dessa lembrança é a vontade de dizer aos meus leitores que, se alguém lhes propuser novas formas de protesto, que consistam em transformar momentos de diversão e entretenimento em protestos políticos, cuidado!

Cuidado para que essa suposta eficiente maneira de protestar não seja o primeiro passo para contaminar politicamente momentos das nossas vidas que poderiam ser bem mais divertidos.

Sim, a política é importante — é muito importante! — mas há outros aspectos da vida que precisam ser levados em consideração.

Temos a família, temos os amigos e temos ainda nós mesmos, que precisamos de momentos de leveza em nosso dia a dia. Ocasiões nas quais possamos apenas relaxar, nos divertir, sem transformar esses momentos de diversão em palanque político.

Manifestações artísticas, como a música, o cinema ou o teatro, sempre foram ferramentas para a manifestação política. A própria comédia é uma da mais eficazes maneiras de protestar. Mas, a arte também fala de amor, ternura e amizade.

Então, será que devemos ir ao cinema ou ao teatro com a predisposição de fazer daquele momento um ato político? E o churrasco com a família, no domingo? Será que é a ocasião adequada debatermos nossas preferências ideológicas?

Não tenho a resposta. Sequer estou dizendo que qualquer conduta nessas ocasiões seja certa ou errada. Estou apenas sugerindo ao querido leitor que reflita se vale a pena trocar a emoção do jogo de futebol (ou qualquer outro esporte de sua preferência) pela do protesto na arquibancada.

A questão é: vale a pena fazer de cada momento de lazer uma ocasião para proferir palavras de ordem?

Admito que, vinte anos atrás, quando escrevi aquele conto, eu até achava que sim. A par disso, ao fim do processo criativo, não gostei do estado de espírito em que me encontrava. Li o meu próprio texto e não gostei do que senti.

Felizmente, era apenas uma obra de ficção, com remotíssimas chances de se tornar realidade. Bastava apagar o arquivo e não haveria maiores consequências.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

ÁGUA NO CHOPE

REFRÃO

Querem botar água no meu chope,
Mas eu não vou deixar,
Vou me defender como puder
Não me entrego sem lutar.

Querem botar água no meu chope,
Mas eu não vou deixar,
Vou usar as armas que tiver,
Até o jogo virar.

A gente, tentando vencer nessa vida,
Enfrenta batalhas com fé e destemor,
Jogando o jogo, em cada partida,
Buscando a felicidade e o amor.

Mas, tem uma coisa que, quando acontece,
É causa de muita preocupação.
É quando a ameaça ou perigo
Tem forma de fogo amigo,
E a gente descobre a armação. (Que decepção!)

REFRÃO

Se a gente consegue o que muito queria,
E põe, no domingo, o chope pra gelar.
Prepara o churrasco, com toda alegria,
E chama os amigos pra comemorar.

Periga que venha alguém nessa festa,
Com a alma repleta de má intenção.
Se pega você descuidado,
Põe água em seu chope gelado,
Fique sempre atento, meu irmão. (Não relaxa, não!)

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

DIAGNÓSTICO PRECOCE

No consultório, sentado diante do médico, o paciente mantinha o olhar direcionado para o busto de Hipócrates posicionado sobre a mesa que havia entre eles. Um sinal de timidez, nada surpreendente em um rapaz tão jovem, mal saído da adolescência propriamente dita. Talvez indo pela primeira vez sozinho a uma consulta.

Depois de fazer as perguntas iniciais de praxe, e de digitar no computador algumas anotações, o médico indagou:

– Bem, meu caro J*, eu vou me permitir lhe chamar de você, por causa da sua idade. Há algum motivo especial para você ter vindo se consultar com um psiquiatra?

O rapaz respondeu rápido. Como se ansiasse por aquela pergunta:

– Doutor, eu queria saber se tem algum remédio pra não ter raiva. Pra eu queria nunca sentir raiva de ninguém.

– Pra raiva?… por quê?… você tem sido agressivo com as pessoas?

– Não, doutor! Deus me livre!… É por causa de um poder que eu tenho… que é muito perigoso…

– Um poder? – interessou-se o médico. – que tipo de poder?

– É porque eu tenho o poder de matar uma pessoa, só com o olhar. Basta eu ter uma raiva. Se eu olhar com raiva pra pessoa, ela morre na hora.

O psiquiatra olhou detidamente para o rapaz franzino, carente de melanina e sol, e foi difícil imaginar aquela criatura tirando a vida de um semelhante. Tampouco considerou provável que daqueles olhos, fixos no busto de Hipócrates, pudesse sair algum raio mortífero.

Depois de refletir sobre a melhor forma de levar aquela conversa adiante, prosseguiu:

– E… como foi que você ficou sabendo que tem esse poder? Até agora seu olhar ainda não matou ninguém… eu espero…

– Faz tempo que eu sei, doutor. Tem uns seres de outro planeta que me acompanham desde pequeno. Eles me disseram.

– Ah, sim! De outro planeta… – comentou o médico, tentando demonstrar naturalidade. Nem precisaria, no entanto, preocupar-se com isso, porque, a essa altura, o paciente estava mergulhado em seus próprios pensamentos.

– É… Parecem com os humanos, mas são mais altos. Têm as mãos grandes… Eles controlavam meu poder… Mas já vinham me avisando, que quando eu fizesse 18 anos, eu ia ficar por minha conta. Aí, ano passado, eu completei 18… e não tenho mais coragem de olhar pra ninguém…

– Bem, J*, nós precisamos investigar isso, talvez com sessões de psicanálise, se você concordar. Por enquanto, eu vou receitar um estabilizador de humor, pra você já ir tomando, mas é importante a gente buscar a causa desse seu sentimento de que pode matar as pessoas.

– Investigar, doutor? – perguntou o jovem, surpreso, olhando pela primeira vez para o médico.

– Sim, investigar, no sentido de buscar as causas, a origem… a psicanálise pode ajudar muito… Uma das linhas que nós podemos considerar, é a possibilidade de você ter um transtorno psicótico. Talvez até uma psicose crônica, já que você relata que desde criança tem o mesmo tipo de… digamos… delírio… Então, pode ser que, durante a adolescência, com as variações hormonais, isso tenha se agravado…

– Como assim, delírio, doutor?

– Bem… é como eu digo… precisamos averiguar… Mas, o delírio, assim como a alucinação, seria mais ou menos como a pessoa tratar como realidade uma coisa que só existe pra ela… Aí a pessoa acredita naquilo… vive como se aquilo fosse realidade…

– Então, doutor… o senhor quer dizer que esse meu poder, de matar as pessoas com o olhar, pode ser só coisa da minha cabeça?

– Bem… pode! O mais provável é que seja isso mesmo.

E o corpo do médico pendeu para a frente, até o rosto se chocar com o tampo da mesa. Estava morto.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

O JUIZ E O CANOEIRO

Muito antes de os países existirem na forma atual, com suas fronteiras bem definidas e os poderes do Estado bem delimitados, já havia reis que delegavam a cidadãos de sua confiança a tarefa de julgar as questões entre seus súditos.

Assim acontecia entre os Destros, um povo antigo, que vivia em algum ponto às margens do Mediterrâneo, antes de serem submetidos ao Império Romano, como tantos outros.

Era uma grande honra ser incumbido da função de julgador, porque todos ali sabiam que seu exercício exigia equilíbrio e sabedoria. Juízes insensatos, ou que se deixassem levar por interesses pessoais, acabavam gerando descontentamento entre a população, contribuindo, assim, para o descrédito do próprio soberano.

Sabendo disso, o destro Átrion sentiu um misto de alegria e preocupação, ao ser nomeado juiz. Afinal, tinha pouco mais de trinta anos de idade, e todos os juízes que ele conhecia eram homens de cabelos grisalhos, alguns ostentando longas barbas brancas.

É fato que havia estudado filosofia, na Grécia, e que, há mais de dois anos, era membro do Conselho de Sábios da sua aldeia, mas estaria pronto para a missão de julgar?

Durante os dias que se seguiram à sua nomeação, Átrion refletiu muito sobre isso. Por um lado, sentia-se honrado, com o reconhecimento que o rei lhe havia demonstrado; por outro lado, questionava-se se estaria preparado para decidir sobre a vida das pessoas.

Foi assim que, certa manhã, poucos dias antes da cerimônia do recebimento de sua Vara da Magistratura – um cajado que os juízes portavam, como símbolo da sua função – Átrion foi à casa de um experiente magistrado, conhecido como Mestre Aluk, cuja sabedoria era reconhecida por todos os seus pares. Buscava uma palavra que lhe acalmasse o espírito.

Mestre Aluk morava em uma chácara, em uma das muitas montanhas que havia nos arredores da aldeia onde Átrion exerceria suas funções de julgador. O velho magistrado recebeu o jovem com respeito e alegria, e o tratou com as honras de um juiz que já estivesse no exercício da jurisdição.

Encorajado pelo tratamento cordial do experiente julgador, Átrion foi o mais direto possível ao assunto:

– Mestre Aluk, tenho estado atormentado, desde a minha nomeação para o corpo de magistrados do Reino. Não questiono a escolha do Rei, nem nego os conhecimentos que adquiri ao longo de anos de estudo, e de outras funções que tenho exercido. Mas sei que sou o mais jovem dos juízes já nomeados por Sua Majestade. Tenho receio de me faltar a experiência necessária à atuação do julgador.

A partir daí, Átrion passou a tecer uma série de considerações a respeito do estudo, da experiência e da responsabilidade dos juízes.

Mestre Aluk ouviu tudo com atenção, sem demonstrar surpresa. Agradeceu a deferência de Átrion, por buscar seus conselhos, mas, sobre as preocupações expostas pelo futuro colega de magistratura, nada disse. Ao contrário, mudou de assunto e convidou o neófito para uma caminhada.

Depois de quase um quilômetro andando por um caminho aberto na floresta, falando sobre outros assuntos, chegaram a uma clareira, na margem do rio que descia do topo da montanha. Naquele ponto, a água formava ondas e fazia barulho ao se chocar com as pedras, devido à forte correnteza.

Mestre Aluk sentou-se em uma pedra grande, arredondada, e orientou Átrion a sentar-se em outra, semelhante. Parecia ser um lugar para onde o velho magistrado costumava se retirar, quando queria refletir sobre algum assunto.

Depois de uns instantes em silêncio, observando a correnteza, Mestre Aluk retomou a palavra:

– Meu caro Átrion, você sabe que esse rio deságua em um lago, em cujas margens está a aldeia onde você vai morar. Se você fosse contratar um canoeiro, para levar um saca de sal, deste ponto até alguém que mora na aldeia, que comportamento você esperaria do canoeiro?

Átrion percebeu que aquela não era uma simples pergunta sobre o transporte de sal. Pensou por alguns segundos e tentou ser objetivo em sua resposta:

– Mestre Aluk… essas águas são um tanto revoltas. Eu esperaria que o canoeiro conduzisse a embarcação em segurança, sem a deixar virar. Mas também que ele usasse da necessária habilidade para, nos momentos certos, aproveitar a força da água corrente para impulsionar a canoa. Evitando encalhar em algum ponto das margens, ou demorar demais no percurso até o lago.

Mestre Aluk sorriu. Parecia satisfeito com a resposta:

– Então, meu caro Átrion, você sabe como um juiz deve se conduzir. Porque o juiz deve ser como esse canoeiro, transportando o sal. No alto dessa montanha, nasce o rio, que serve de caminho até o lago e a aldeia. As leis do nosso povo, nossos costumes e valores, são como as pedras dessa montanha, de onde brota o rio do Direito. Por ele o juiz deve conduzir sua canoa, transportando a decisão que irá resolver a controvérsia. Observe que, assim como o canoeiro, o juiz não é um ser inerte, que deixa a embarcação ser levada pelas águas, à deriva. Não! Ele atua, com seu remo, corrigindo o rumo, evitando choques com as pedras… trabalhando para que o rio do Direito o conduza ao lago da Justiça. Mas o condutor da embarcação deve ter consciência de que não pode fazer prevalecer a sua vontade sobre a força do rio. Se tentar agir assim, provavelmente naufragará. Ou, talvez, entrará tanta água na canoa que dissolverá o sal. Assim, tal qual o canoeiro, que deve usar o poder das águas no cumprimento da sua missão, o juiz deve conhecer as correntes do Direito, para as usar na busca da realização da Justiça. Jamais deve fazer isso por interesse pessoal ou de terceiros, ou mesmo para tentar impor ao povo a sua própria noção do justo. O sal da Justiça deve ser entregue ao seu destinatário, na aldeia, e não deixado nas margens do rio, ou dissolvido em suas águas.

Após ouvir aquelas palavras, Átrion olhou detidamente para o rio, imaginando-se conduzindo a embarcação sobre as águas. Vários pensamentos vieram-lhe à mente, mas se limitou a dizer:

– Espero ter a humildade necessária, Mestre Aluk, para saber conduzir minha pequena canoa, entregando o sal da Justiça às pessoas da aldeia.

– Você a terá. Tenho recebido notícias de sua conduta no Conselho de Sábios. Muitos comentam do seu equilíbrio, sua humildade e seu senso de Justiça. Agora, vamos voltar à minha casa. Deve haver um bule de chá quentinho à nossa espera.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

AS REGRAS DE TRANSIÇÃO PROPOSTAS NA REFORMA DA PREVIDÊNCIA E A PACIÊNCIA DE JÓ

Imagem:  Bússola Literária

Não, eu não tenho nada contra uma reforma da previdência.

Pelo contrário, sou inteiramente a favor de uma reforma que venha para o bem do Brasil, resolvendo todos os seus problemas estruturais de déficit público e possibilitando ao país a retomada do crescimento econômico.

Ocorre apenas que, estando no serviço público federal desde janeiro de 1998, e já enquadrado em uma regra de transição, da reforma de 2003, é muito frustrante ver que a nova reforma propõe o desrespeito àquelas regras de transcrição, atualmente em vigor.

Afinal, são dezesseis anos acreditando nas normas fixadas para minha aposentadoria. Agora, que se aproxima o tempo de me beneficiar dessas normas, o Estado Brasileiro ameaça jogar tudo no lixo.

Diante dessa ameaça, sinto-me tentado a discursar sobre segurança jurídica, credibilidade do Estado brasileiro e coisas afins.

Mas não o farei. Sem qualquer intenção de me opor à reforma da previdência em curso, embora sentindo na pele os seus possíveis efeitos, busquei na Bíblia doses extras de resignação e paciência.

E minha fonte de inspiração foi Jó.

Não sei como é na Bíblia dos meus queridos leitores, mas, na minha Bíblia, o Capítulo 1, do Livro de Jó, diz o seguinte, a partir do versículo 23:

LIVRO DE JÓ, Capítulo 1

23 Satisfeito com a lealdade e a serenidade de Jó, o Senhor disse a Satanás: “Que belo exemplo de paciência é Jó! Ainda era praticamente uma criança quando começou a cuidar de suas tamareiras. No entanto, só colherá seus primeiros frutos daqui a cinco anos.”

24 “Para quem cultiva tâmaras, Jó não tem do que reclamar” — respondeu Satanás. “Fará a colheita com 53 anos de idade, quando muitos morrem de velhice sem colher fruto algum.”

25 “Verás que não é assim” — replicou Deus. “Farei com que os frutos de suas tamareiras só possam ser colhidos quando ele tiver 60 anos”.

26 E assim foi feito. Passaram-se os cinco anos que faltavam para as tamareiras de Jó darem frutos, e mais os sete que foram acrescentados para que ele alcançasse a idade mínima para a colheita.

27 Totalizando assim doze anos de espera para Jó, encontraram-se novamente Deus e Satanás em suas terras. Aos 60 anos, preparava-se Jó para colher os frutos de suas tamareiras, que estavam quase maduros. Sua fisionomia expressava a calma e a serenidade de sempre.

28 “Vês como Jó aguardou pacientemente a colheita, apesar dos anos extras que foram acrescentados à sua espera?” — disse Deus.

29 Mas Satanás fez novo desafio: “Aumente a idade mínima da colheita para 65 anos. Quero ver se restará nele alguma fé!”.

30 “Que assim seja!” — concordou Deus, confiante na paciência e lealdade de Jó. Imediatamente, todas as tâmaras de Jó murcharam.

31 Vendo aquilo acontecer, Jó olhou para o céu e disse: “Senhor, vejo que terei que esperar mais alguns anos para colher os frutos que venho cultivando a minha vida inteira. As tâmaras estavam quase maduras. Mas não me revolto contra Ti, porque sei que isso deve ser obra de Satanás!”.

32 E voltou Jó para casa, como fazia todos os dias, sem praguejar, sem lamentar e sem maldizer a própria sorte.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

VIRTUDES E VÍCIOS NA GRAMA JARDIM

Aproveitando o domingo de céu nublado, tirei parte da tarde para cuidar da grama do jardim. Arrancador de mato nas mãos protegidas por luvas, lá fui eu separar as plantinhas desejáveis das indesejáveis.

Habituado a observar o que se passa ao meu redor – para depois transformar tudo em contos e crônicas – logo vieram as reflexões sobre a vida. É impressionante o quanto podemos aprender, com uma atividade aparentemente tão simples.

Primeiro, o necessário gesto de se ajoelhar diante da natureza (ou do seu Criador). Arrancar mato é um trabalho que requer concentração, paciência e algum conhecimento do que deve ou não ser arrancado. Mas, sem se pôr de joelhos, sua execução fica bem difícil. O gesto adquire, assim, um simbolismo de humildade.

Joelhos no chão, comecei a ver semelhanças entre nossas virtudes e a grama. E entre as ervas indesejáveis e os nossos vícios.

Lembrei que a grama nós precisamos plantar, adubar, regar, até que ela se fixe e estabilize na terra. O mato não. O mato simplesmente aparece, sem qualquer esforço nosso. E, se não cuidarmos da arrancá-lo regularmente, ele cresce e sufoca a grama.

É assim, por exemplo, com o egoísmo. Se não cultivarmos o altruísmo e a solidariedade, ele vai achando em nós o seu espaço. E aos poucos nosso estímulo para pensar no outro, para abrir mão de algo em favor do outro, parece desaparecer completamente.

Talvez seja assim também com a raiva, o ressentimento e tantas outras ervas daninhas que parecem nascer espontaneamente em nosso ser. Ao contrário da serenidade e da compaixão, que precisam ser plantadas e cuidadas.

Não vejo isso como uma falha nossa, mas como um efeito colateral do nosso instinto de sobrevivência, vindo lá dos nossos primórdios, quando a necessidade de cuidar primeiro de si mesmo era bem maior que a disposição para ajudar o outro. Isso ainda acontece hoje, felizmente com menor frequência.

Estamos aprendendo, evoluindo, nos aperfeiçoando, mas ainda temos muito a caminhar.

Segui com meu trabalho dominical e observei que algumas dessas ervas indesejáveis são mais fáceis de arrancar, enquanto outras misturam suas raízes de tal forma às raízes da grama, que é impossível extraí-las sem arrancar um pouco de grama junto. E acaba ficando um buraco no lugar. Uma ferida aberta que somente com o tempo poderá cicatrizar.

No caso do jardim, esperamos que a grama renasça naquele espaço vazio, ou a replantamos, mas sempre há o risco de ali brotar novamente o mato. Porque basta ficar uma semente, ou um pouco da raiz da erva daninha, para que ela renasça. Como os nossos vícios.

Depois de algumas horas de trabalho, minha principal conclusão foi a de que precisamos observar constantemente o que sentimos, pensamos e fazemos, para irmos nos livrando dos nossos vícios e reforçando nossas virtudes. Porque em nosso jardim há sempre um matinho para arrancar e algum trechinho de grama para repor.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

FÁBULA

UMA FÁBULA SOBRE LOBOS, OVELHAS E PASTORES (EM DOIS ATOS)

Marcos Mairton

Imagem de Fábulas Edificantes

PRIMEIRO ATO

Em uma noite fria e úmida – dessas em que só sai de casa quem tem algum motivo muito forte – um lobo solitário vagava na floresta, quando viu, em meio às árvores, a silhueta de uma ovelha.

A noite era de lua cheia, mas a visibilidade estava prejudicada pelas muitas nuvens que havia no céu. As copas das árvores, frondosas naquela época do ano, também formavam sombras que atrapalhavam a visão, mesmo para os olhos de um caçador noturno.

O lobo, então, moveu-se furtivamente – como bem sabem fazer os lobos – até chegar o mais perto possível do seu alvo. Sua boca já salivava, diante da possibilidade de uma refeição fácil, mas estava desconfiado com a presença da ovelha naquela parte da floresta. Ainda mais àquela hora da noite.

E foi-se o lobo, esgueirando-se nas sombras, o mais silenciosamente possível, até chegar a uma distância da sua potencial vítima, que seria facilmente transposta por um de seus poderosos saltos.

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