DESIGUALDADE

O prefeito de uma pequena e isolada cidade estava muito feliz. Os dados mostravam que no ano anterior, um quarto dos moradores tinha reformado ou reconstruído sua casa. Com efeito, bastava caminhar pela cidade para notar que havia menos casas velhas e feias, e mais casas novas e bonitas.

A alegria do prefeito foi estragada pela visita de uma comissão de estudiosos, representantes de ONG´s e um alto comissário das Nações Unidas. A comissão disse ao prefeito que, pelos índices oficiais, sua cidade estava despencando no ranking. O prefeito saiu da reunião encucado. Que estatística maluca era aquela que dizia que a cidade estava pior, quando as melhoras estavam tão visíveis?

Naquela mesma noite, um terremoto chacoalhou a região. O prefeito saiu de casa e viu, apavorado, que a cidade havia sido destruída. A maior parte das casas havia desabado, algumas poucas ainda tinham uma ou duas paredes em pé. Enquanto vagava pelas ruas, o prefeito encontrou-se com a comitiva, que saía do que restava do único hotel da cidade. Completamente desorientado, o prefeito ouviu o chefe da comissão dizer:

“Meus parabéns, prefeito! O senhor é um homem sortudo! Nossa opinião desfavorável foi corrigida por este capricho da natureza. Agora, os índices estão muito próximos da perfeição, e sua cidade é um exemplo para o mundo!”

Por incrível que pareça, idéias como estas existem, bem como o tal índice: chama-se “Indice Gini”, ou “Coeficiente de Desigualdade”. Segundo este conceito, se três pessoas moram em uma rua, e as três ganham casas novas, sendo uma delas melhor que as outras duas, o índice piora. Por outro lado, se as três pessoas perderem tudo que tem, o índice não apenas melhora como atinge seu valor máximo.

Claro que se pode dizer que o índice é apenas uma ferramenta matemática, que deve ser analisado juntamente com outros dados, etc, etc. Mas, na prática, o índice é usado da forma que nosso hipotético prefeito testemunhou: é melhor todos serem iguais na pobreza do que todos serem ricos, mas alguns serem mais ricos que outros. Como o progresso, quase sempre, começa pequeno e se espalha aos poucos, os “adoradores de Gini” são quase sempre inimigos do progresso.

Os avanços tecnológicos das últimas décadas tem reduzido a pobreza em todo o mundo de uma forma inédita na história. Segundo o Banco Mundial, 85% da população mundial vivia em “extrema pobreza” em 1800. O índice caiu para 70% por volta de 1900, atingiu 50% em 1966 e em 2017 era de apenas 9%, mesmo com a população tendo triplicado nas últimas sete décadas. Para os políticos e intelectuais cuja carreira depende do populismo, a bandeira da “pobreza” está rapidamente se tornando inútil. Sua substituta é a bandeira da “desigualdade”.

Qualquer pessoa suficientemente cética sabe que é mais fácil conquistar pessoas usando a emoção do que a lógica, e que as emoções “negativas” são ainda melhores. Que fazem então os sedentos por poder? Vão direto aos instintos básicos: a inveja e a cobiça, que não se chamam Pecados Capitais à toa.

Todos conhecem o método: se os mais pobres são os que mais se beneficiam do progresso e da liberdade econômica, não importa: importa que o Neymar ou o Bill Gates ou a Lady Gaga são “ricos demais”. Não importa que um pobre na favela tenha arranjado um emprego, comprado um carro usado, trocado seu barraco feito de tábuas velhas por uma casa de tijolos: importa é que os donos do Wal-Mart ou do Google ganham X vezes mais do que ele. Não importa que um pai possa comprar um computador para seu filho e com isso dar a ele a chance de aprender o que quiser, de uma forma que ele, pai, nunca sonhou: importa é reclamar que em alguma loja de Paris existe algo que o pobre pai nunca vai poder comprar.

A Amazon, maior empresa de comércio on-line do mundo, permitiu a milhares de pessoas no mundo virarem empreendedores, produzindo algo e vendendo através da plataforma Amazon. O Google dá a qualquer pessoa do mundo (exceto as cubanas e norte-coreanas) acesso a uma quantidade quase inimaginável de informação (e de graça!). Mas para alguns é intolerável que seus donos sejam ricos: eles não conseguem perceber que Jeff Bezos e Larry Page não ficaram ricos tirando dos outros, mas sim oferecendo aos outros algo que eles não tinham.

A indústria do entretenimento é uma prova óbvia da redução da pobreza: pessoas não gastariam dinheiro com diversão se não tivessem suas necessidades básicas atendidas. Além disso, é uma grande geradora de empregos e de oportunidades para milhões de pessoas. Novamente, alguns se mostram ofendidos ao saber que as grandes celebridades desta indústria (esportes, música, cinema) ganham muito.

É óbvio que a tal “igualdade” que muitos pedem (exigem, na verdade) é materialmente impossível: como a Apple faria para produzir sete bilhões de iPhones? De onde tirar bilhões de Ferraris para que todos tenham o mesmo “direito” de ter uma Ferrari? Provavelmente é uma vontade que sequer existe: eu com certeza não quero ter uma Ferrari, e não me preocupa nada saber que tem gente que tem dez ou vinte delas. Um dos conceitos básicos da economia diz que o preço de algo depende da relação entre oferta e procura, e é natural e inevitável que existam coisas que não existam em quantidade suficiente para que todos possam ter.

As consequências desta mentalidade aparecem em uma juventude infeliz e ressentida, que é incapaz de apreciar a felicidade porque é obcecada em tentar destruir qualquer pessoa que seja “mais feliz” que alguma outra. Levada às últimas consequências, a ideologia da desigualdade diz que todas as pessoas devem ser tão infelizes quanto a pessoa mais infeliz do mundo.

P.S. Embora eu tenha evitado, neste texto, associar a falácia da desigualdade a um determinado lado político, é óbvio que você, leitor, percebeu que eu estava falando da esquerda. Talvez seja interessante saber que o Coeficiente de Gini, que a esquerda adora citar, foi desenvolvido por Corrado Gini (1884-1965), matemático e sociólogo italiano. Gini apoiou o governo de Mussolini (publicou em 1927 um artigo intitulado As Bases Científicas do Fascismo) e fundou em 1944 o Movimento Unionista Italiano, que pregava a união de “todos os países democráticos” sob um governo mundial. Coincidência?

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CONSTITUIÇÕES

No Brasil pensamos que Constituição resolve tudo, desde pobreza até unha encravada, e se tem algo que ainda não foi resolvido é porque faltou “vontade política”. Se algo não está funcionando, é só mudar a constituição que tudo se resolve. Matutando sobre isso, achei um site chamado “Comparative Constitutions Project”, que faz umas comparações interessantes entre as mais de duzentas constituições que existem no mundo hoje.

Por exemplo: quais as constituições mais longas? Somos bronze! A lista das “dez mais” é a seguinte: India, Nigéria, Brasil, Malásia, Papua-Nova Guiné, México, Paquistão, Zimbábue, Equador e Gana. As mais curtas? Mônaco, Islândia, Laos, Letônia, Japão, Micronésia, Bósnia, Guiné Equatorial, Luxemburgo e Turcomenistão.

De cara, parece que constituições longas não garantem prosperidade: não há nenhum país daqueles de causar inveja na lista das maiores. Parece também que constituições curtinhas não são necessariamente um problema.

Outra informação que dá o que pensar é sobre a idade e o número de constituições. Nem todos pensam que mudar a constituição seja solução, e é possível que eles estejam certos. As constituições mais antigas em vigor são: EUA(1789), Noruega(1814), Holanda(1815), Bélgica(1831), Nova Zelândia(1852), Canadá(1867) e Luxemburgo(1868), além do Reino Unido, que não tem constituição. Vários destes países ainda estão na primeira, o que me faz pensar que a estabilidade pode ser uma coisa boa: nenhum destes países pode ser chamado de pobre ou de sub-desenvolvido.

Por outro lado, na lista dos países que mais trocaram de constituição, nossa América Latina reina soberana: República Dominicana(32), Venezuela(26), Haiti(24), Equador(20), Bolívia(19), Honduras(17), El Salvador(17), Nicarágua(14), Peru(12), Brasil(8). Você não leu errado, a República Dominicana já teve 32 constituições. Me perdoem se pareço arrogante, mas não parece que tantas trocas tenham resolvido muito a situação de nenhum destes países.

Uma outra análise interessante deste projeto é sobre o número de “direitos” garantidos por cada uma. Foi montada uma lista com 117 direitos, e o site mostra quantos deles são explicitamente citados por cada constituição. Novamente, os países no topo da lista não são o que se chamaria de “exemplos”: Equador(99), Sérvia(88), Bolívia(88), Cabo Verde(87), Portugal(87), Armênia(82), Venezuela(82), México(81), Angola(80) e Brasil(79).

E os países com menos direitos “garantidos” pela constituição? Alguns deles são bem razoáveis: Tailândia(2), Brunei(2), Israel(6), Austrália(11), França(11), Líbano(14), Áustria(15), Arábia Saudita(15), Singapura(18) e Dinamarca(21). Mônaco, Holanda e Luxemburgo estão por perto. Pessoalmente, eu não me importaria de morar em vários destes, mesmo sabendo que estaria “desprotegido”.

Claro que a fé na constituição é só um reflexo da fé nos políticos, que por sua vez é uma faceta da fé no governo. É como se uma parte do cérebro das pessoas permanecesse na primeira infância, quando somos dependentes da mamãe para comer, beber e vestir. Assim como nenhum bebê questiona a sua situação, alguns adultos também mantém uma convicção inabalável de que o governo nos dará sempre tudo que precisamos, e como duvidar de um governo tão bonzinho que até escreve na constituição todos nossos direitos?

Sobre a fé e o costume de achar que uma nova constituição ou novas leis poderão, sozinhas, modificar um país, só resta lembrar da velha expressão: papel aceita tudo.

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MEU PITACO SOBRE A PREVIDÊNCIA

Minha mulher me disse: “Legal a estória das melancias, mas você podia falar da previdência, que é o assunto do momento.”

Bem, para explicar a previdência nem precisa de melancias:

O João tem dois irmãos e duas irmãs. Quando seus pais ficarem velhinhos, o João sabe que a tarefa de cuidar deles será dividida entre os cinco. Além disso, o pai dele tem irmãos e vários sobrinhos, e a mãe dele também, então sempre vai ter alguém para dar uma mãozinha.

No outro lado do mundo, o Wu é filho único. O pai dele é filho único e a mãe dele também. O Wu sempre pensa que quando os pais dele se aposentarem, ele vai ter que cuidar deles e do vovô e da vovó e do outro vovô e da outra vovó, sozinho.

A situação da previdência do Brasil não é mais a do João. Ainda não é a do Wu, mas está indo nesta direção. Em palavras diretas: tem cada vez mais gente aposentada e cada vez menos gente trabalhando para sustentar a todos. (se fosse para continuar o tema da minha última coluna, todo mundo acha que tem direito a ganhar melancia, mas tem cada vez menos gente plantando).

Se é tão simples, porque parece tão complicado?

Primeiro: Brasileiro gosta muito de privilégio, nem que seja pequeno. Todo mundo gosta de saber que tem um “direito” a mais que o vizinho.

Segundo: Brasileiro acredita que o governo “dá” coisas para nós. Não é uma questão de lógica, é uma questão de fé.

Terceiro: Brasileiro gosta muito de achar culpados. Quando falam que o governo vai mexer no bolso dele, é grande a tentação de sair gritando “a culpa é dos políticos”, “a culpa é dos militares”, “a culpa é dos corruptos”, “a culpa é de sei lá quem, mas minha não é”.

Quarto: Seguindo uma longa tradição, a comunicação do governo trata o brasileiro como idiota. A TV deveria mostrar algo como “Nossa previdência gasta X e nossa arrecadação é Y; X está crescendo Y não; se continuar assim o país vai quebrar”, mostrando os números e os fatos. Ao invés disso, o governo faz comerciais com pessoas sorridentes e frases vazias dizendo “a nova previdência é boa porque o governo sempre está certo; você só precisa confiar cegamente.” A burrice é tanta que ao invés de usar a expressão certa, “reduzir o déficit”, usam “fazer economia”, o que já induz uma reação negativa: “vão fazer economia com a minha aposentadoria?”

Quinto: Temos um monte de gente que, na falta de algo melhor para inflar sua auto-estima, decidiu ser “resistência”, ou seja, ser contra o governo sempre, não importa o quê seja. É uma grande massa de tolos repetindo slogans sem sentido que leram nas redes sociais. Na próxima vez que você escutar alguém gritando “Regime de capitalização nunca! Olhem o Chile!”, pergunte: “É mesmo? O que aconteceu no Chile?”. Provavelmente você verá um jovem engasgado, porque só disseram para ele repetir “Olhem o Chile!”, sem explicar. Se ele tiver um pouco de iniciativa, vai repetir alguns clichês sobre “prejudicar os pobres”, “enriquecer os banqueiros” e coisas assim. Provavelmente estes clichês serão fundamentados apenas em uma enorme esperança de que sejam verdade, porque na verdade o pobre jovem não é capaz de dizer uma só frase contendo fatos sobre a previdência chilena.

Um conselho? Procure pelos FATOS e pelos NÚMEROS. Sem números, as pessoas dizem “é só tirar daqui e colocar lá”, sem ter idéia de quanto tem aqui ou de quanto precisa lá.

Então, para ajudar (e lembrando que não sou especialista em coisa nenhuma), alguns fatos e números:

– O governo arrecada dinheiro sob dois nomes principais: “impostos” e “previdência”. No fundo é a mesma coisa: o governo – que não produz nada – tomando de quem produz.

– O governo usa o dinheiro que arrecadou em duas coisas: Pagar seus próprios salários (e gabinetes, carros oficiais, lagostas e vinhos premiados) e fornecer serviços que as pessoas pensam que é “de graça”, incluindo aposentadorias.

– Em 2018, o governo gastou 10 bilhões em segurança, 100 bilhões em educação, 110 bilhões em saúde e 716 bilhões em aposentadorias. (leia de novo, com calma: o governo gastou com aposentadorias mais que o triplo de saúde e educação juntas). Tem gente que argumenta que contabilmente não há déficit da previdência, o que há é que o governa desvia recursos da previdência para outras áreas. Em outras palavras, para resolver o problema da previdência é só tirar da saúde, da educação, da segurança e de onde mais precisar.
– Estes 716 bilhões representaram 53% das despesas primárias do governo federal em 2018.

– Se o sistema atual for mantido, daqui a sete anos esta despesa atingirá 80%. (Isto não é um chute: é só pegar o cadastro dos contribuintes e somar quantas pessoas vão atingir as condições para se aposentar).

– Para resolver isso, ou se gasta menos (é o que a reforma quer fazer) ou se arrecada mais (aumentando impostos). Caso alguém diga “dá para arrecadar mais se a economia crescer”, pergunto: fácil assim? como?

– Para comparar: O Brasil gasta 13% do PIB em aposentadorias, contra 10% da Alemanha e 9% do Japão. Há países que gastam tanto ou mais que o Brasil? Sim: França, Portugal, Itália e Grécia. Todos estão quebrados. Note também que todos estes países tem uma população idosa muito maior que o Brasil, o que significa que eles não tem muito como piorar, enquanto nós sim. Note também que em todos eles a idade mínima para se aposentar já é acima dos sessenta há décadas. No Brasil, a idade média das aposentadorias por tempo de serviço é 54 anos.

Importante: estes números deveriam estar sendo divulgados todo dia na TV. Ao invés disso, o governo coloca nos seus sites balanços enormes tão cheios de rubricas e sub-rubricas, que dá para tirar um monte de números diferentes para cada coisa, dependendo do que incluir ou não em cada um. Por isso, não estranhe se você encontrar na internet números diferentes destes que eu mostrei.

Concluo com minha opinião pessoal: o problema não é a previdência, é a mania de achar que o governo nos dá coisas de graça. Solução: capitalização individual, privada, com a maior liberdade possível, garantida por uma rede privada de seguros e resseguros. E para quem não tem capacidade de organizar sua própria vida e seu próprio futuro, salário mínimo pago pelo governo, com o nome de assistência social, não previdência.

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A ILHA DAS MELANCIAS

Era uma vez um arquipélago no Pacífico Sul. Um dia, um grupo de pessoas desembarcou em uma ilha desabitada com a idéia de fundar um novo país. Os novos moradores logo descobriram que naquela ilha nasciam melancias deliciosas. Naturalmente, veio a idéia de cultivá-las, e em pouco tempo cada família da ilha tinha sua plantação de melancias. Havia fartura para todos.

Lógico que as pessoas desejam outras coisas além de melancias. Aos poucos, algumas famílias foram mudando de ramo: alguns se especializaram em construir casas; outros, em confeccionar roupas; também surgiram sapateiros, ferreiros e carpinteiros. Mas como a melancia continuava sendo a comida do dia-a-dia, foi natural que ela também virasse a moeda de troca. O sapateiro trocava um par de botas por dez melancias, o carpinteiro pedia vinte melancias por uma cadeira, e assim por diante.

Nem todos os serviços tinham o mesmo preço: um casaco bonito e com enfeites custava mais melancias que um casaco simples. Mas cada um escolhia o que achava melhor, e ninguém brigava. Pode-se dizer que todos viviam felizes.

Um dia, desembarcou um forasteiro na ilha. Ele subiu em um caixote e começou a discursar. Os moradores daquela ilha estavam desprotegidos, disse ele. Não havia ninguém que cuidasse deles e evitasse que eles sofressem injustiças. Era necessário criar regras, e normas, e era preciso haver pessoas encarregadas de fiscalizar se as regras e normas estavam sendo cumpridas.

O forasteiro era “bom de papo”, e em pouco tempo havia convencido a maioria das pessoas. Criou-se então o cargo de fiscal de melancias, que ficou encarregado de medir, pesar, avaliar e carimbar todas as melancias antes que estas pudessem ser comercializadas. De cada cem melancias, ele ficava com uma, como pagamento pelo seu serviço.

Também surgiu o fiscal de plantações, que garantia que os pés de melancia fossem plantados da forma considerada correta; o fiscal de chapéus, que exigia que todos ao trabalhar na plantação, usassem o modelo de chapéu previamente aprovado, para evitar que o pescoço ficasse queimado de sol; o fiscal de horários garantia que ninguém trabalhasse mais do que o número de horas permitido; e o fiscal de transporte inspecionava as carroças e concedia licenças para que se pudesse transportar as melancias.

Como nenhum destes fiscais plantava nada, todos eles recebiam uma parte das melancias plantadas pelos demais. Para garantir que ninguém estava deixando de contribuir, surgiu o fiscal de arrecadação de melancias. Para definir quantas melancias cada um deveria pagar, criou-se um comitê. Para fiscalizar o comitê, criou-se uma assembléia, e para definir normas para a assembléia criou-se um conselho. às vezes o conselho não concordava com a assembléia, e então criou-se uma justiça, com tribunais de primeira, segunda e terceira instâncias.

Neste ponto, algumas pessoas começaram a reclamar. Diziam elas que havia cada vez mais gente comendo, mas cada vez menos gente plantando melancias, e que se as coisas continuassem assim, não haveria melancia para todos.

A moral da história é a seguinte:

Algumas pessoas acham bom ter um governo grande, outras não. Mas não se pode negar um fato: governos não produzem melancias, eles vivem às custas das melancias que os outros produziram.

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O QUE FALTA?

Não existem cassinos no Brasil porque o brasileiro não tem maturidade para isso.

Não podemos descriminalizar a maconha porque o brasileiro não tem maturidade para isso.

O governo precisa regulamentar a quantidade de sal, de açúcar, de gordura e de calorias na comida porque o brasileiro não tem maturidade para isso.

Precisamos de uma lei que diga o que pode e o que não pode passar na TV porque o brasileiro não tem maturidade para decidir isso sozinho.

Não podemos permitir que cada brasileiro poupe para bancar sua própria aposentadoria: não temos maturidade para isso.

O governo precisa dizer se bagagem no avião é paga em separado ou é embutida no preço porque o brasileiro não tem maturidade para isso.

Precisamos aumentar a quantidade de radares e de lombadas porque o brasileiro não tem maturidade para dirigir veículos.

Precisamos do estatuto do desarmamento porque o brasileiro não tem maturidade para ter uma arma.

O governo não pode deixar de cobrar multa para quem não usa cadeirinha porque o brasileiro não tem maturidade para cuidar de seus próprios filhos.

O que falta para cancelar a maioridade deste povo sem maturidade?

O que falta para declarar de uma vez por todas que todo brasileiro é “de menor”, e pedir para algum país adulto tomar conta de nós?

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O SOCIALISMO EM SEU ESTÁGIO MAIS AVANÇADO

Houve um tempo em que Luís Fernando Veríssimo era um escritor inteligente. Certa vez, ele escreveu, em tom de brincadeira, que o Brasil deveria adotar o socialismo, mas pular as etapas intermediárias e ir direto ao estágio mais avançado, que é reconhecer que ele não funciona.

Bem existe um país socialista no mundo que está se dando muito bem. Sabe por que? Porque adotou o capitalismo. Conheça agora o Vietnã.

O Vietnã é um país pouco maior que o estado de São Paulo, com uma população de quase cem milhões. Ocupa uma região do sudeste da Ásia conhecida como Indochina, tendo como vizinhos Laos e Camboja. No século XIX, tornou-se uma colônia da França. Em 1940, durante a II Guerra, foi invadido pelo Japão. Em 1954, foi dividido em dois países, um ao norte, ligado à China e à União Soviética, e outro ao sul, mais alinhado aos países do ocidente.

Logo após a divisão, o Vietnã do Norte começou a atacar de várias formas o governo do Vietnã do Sul, até chegar à guerra aberta. Em 1964 os EUA passaram a participar ativamente desta guerra ao lado do sul, o que durou até 1975. Quando os EUA se retiraram, o país foi reunificado sob o comando do Vietnã do Norte.

Até hoje, o Vietnã pode ser considerado uma ditadura, sob o comando do Partido Comunista do Vietnã, o único permitido pela constituição (existem vários “partidos” que disputam as eleições, mas todos eles devem ser associados ao PCV e obedecer a ele). Porém, em termos econômicos, um congresso do partido em 1986 definiu que o país deveria seguir uma “economia de mercado de orientação socialista”. Desde então, não há restrições para a propriedade privada, investimentos estrangeiros são bem-vindos, os empreendedores são incentivados e há poucas regulações governamentais sobre a economia, embora existam várias empresas estatais.

Como resultado, este pequeno país é um dos maiores exportadores mundiais de arroz e café, e o maior produtor mundial de castanha-de-cajú e pimenta-do-reino (sim, este pequeno país, 25 vezes menos que o Brasil, produz dez vezes mais castanha-de-cajú que nós). Indústrias estão se instalando. O turismo vem crescendo a passos largos. A revista inglesa The Economist afirmou que no Vietnã os “líderes comunistas são ardentemente capitalistas”.

O depoimento a seguir é do arquiteto e escritor João Cesar de Melo:

“Nas ruas das grandes cidades vê-se apenas capitalismo. Comércio. Milhões de pessoas comuns tentando atingir seus objetivos particulares. Milhares de empresas visando ao lucro. Publicidade por todos os lados. Grandes marcas internacionais, shoppings e bancos correlacionando-se com pequenos negócios, criando diversos níveis de renda, que criam diversos padrões de produção e de consumo, que dinamizam e fortalecem a economia como todo, distribuindo legitimamente a renda entre aqueles que trabalham. [..] Os vietnamitas levam tudo o que se pode imaginar (incluindo a família inteira) na garupa de suas motocicletas e oferecem diversos serviços (de pequenos restaurantes a barbearias) nas calçadas, sem qualquer regulamentação ou repressão.”

Interessante notar que enquanto os intelectuais brasileiros querem de todo jeito que as pessoas se movimentem através de transporte coletivo e estatal, no socialista Vietnã as pessoas preferem se locomover por conta própria em suas motos. Interessante também notar que as pessoas lá parecem saber cuidar de si mesmas, enquanto no Brasil muitos acham que a vida seria impossível sem um governo para regulamentar tudo, da quantidade de sal na comida até a lanterna da moto, passando, é claro, pelos patinetes. Continuando com o João Cesar:

“O Vietnam ilustra muito bem a correlação entre liberdade econômica e prosperidade social. Nenhum governo teria condições de oferecer aos vietnamitas o que o mercado lhes oferece hoje, principalmente o orgulho de saberem que tudo o que consomem vem do trabalho, não do estado. Num país com renda per capita anual de apenas USD 6 mil, vemos pessoas pobres bem vestidas, que se refrescam à noite com ventiladores ou aparelhos de ar-condicionado, que guardam alimentos em geladeiras, que se iluminam com lâmpadas, que cruzam as cidades em motinhos e que levam nos bolsos telefones celulares tão modernos quanto os encontrados no Japão, nos Estados Unidos ou na Europa. São coisas assim – não discursos socialistas ? que melhoram as vidas das pessoas. Visitei cidades pequenas e grandes. Cruzei o país de norte a sul de trem. Comi a comida deles nos restaurantes que eles frequentam. Passei dias inteiros andando nas calçadas. Só vi desenvolvimento baseado em comércio, em liberdade para viver, trabalhar e enriquecer. Vi pobreza em alguns lugares, mas não miséria. Vi um país inteiro trabalhando duro sem qualquer ideologia carimbada na testa. As bandeiras comunistas que pontilham a paisagem das cidades mostram-se como alegorias de um carnaval antigo. A propaganda anti-americana provoca gargalhadas quando olhamos ao redor e vemos os comerciantes preferindo dólares a dongs (moeda local), o McDonald’s lotado de vietnamitas, um grande hotel chamado Times Square, compras sendo pagas com Visa e Master Card, pessoas comuns vestindo Tommy Hilfiger, calçando Nike, bebendo Coca Cola, todas conectadas entre si e com o mundo pelo Facebook e Whatsapp.”

Nos últimos anos a inflação ficou abaixo dos 4% e o desemprego abaixo dos 3%. O PIB vem crescendo acima de 5% ao ano desde os anos 80. O mais importante: sabem quanto os vietnamitas pagam em impostos ao governo “comunista”? 14%. Sabem quanto pagamos no Brasil, para um governo que alguns reclamam ser “neo-liberal”? 38%

Podemos concluir disso tudo que o capitalismo não depende do governo, depende da liberdade. Claro que uma democracia é melhor que uma ditadura em vários aspectos, mas o livre mercado pode tornar ambas equivalentes do ponto de vista econômico. Se um regime não-democrático como o Vietnã permitir que as pessoas tenham liberdade para trabalhar, produzir, comprar e vender, haverá progresso e riqueza. Este progresso muito provavelmente acabará por conduzir o país a um sistema político mais livre.

* As citações de João Cesar de Melo são de um artigo seu publicado em Instituto Liberal

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EDISON, TESLA E OS BENS ESCASSOS

Quem é da minha idade aprendeu na escola que Thomas Edison foi um grande benfeitor da humanidade, inventor da lâmpada elétrica, do fonógrafo e de muitas outras coisas. Já quem é mais jovem provavelmente ouviu que Edison foi um capitalista malvado que roubou os inventos de Nikola Tesla, esse sim um verdadeiro gênio injustiçado.

Nenhuma das visões é mais certa ou errada em si; ambas representam diferentes visões de mundo.

Até pouco tempo, o ser humano tinha uma profunda percepção da escassez: comida, abrigo, calor, água, tudo isso eram coisas escassas, que exigiam esforço para se obter, e que certamente não existiam em quantidade suficiente para serem consumidas sem parcimônia. Com as exceções de costume, todas as pessoas tinham plena consciência do trabalho necessário para plantar e colher, e da necessidade de guardar um pouco da colheita para semear a próxima safra, e de dividir a comida com os cavalos ou bois que puxariam o arado – segundo historiadores, uma família medieval gastava um terço de tudo que colhia para alimentar seus animais durante o inverno, quando não havia pasto.

As gerações mais recentes, porém, tendem a acreditar na existência de recursos ilimitados. Afinal, os supermercados tem montes de comida, à disposição de quem quiser comprá-los. As roupas são abundantes nos Shopping Centers, bem como móveis, aparelhos eletrônicos e tudo o mais que alguém possa querer.

Nesta visão do mundo não há espaço para o mérito de inventar algo, já que o conhecimento alheio é visto como algo trivial. Um médico descobriu a cura do câncer? Não fez mais que a obrigação. Um engenheiro projetou um computador admiravelmente poderoso? É para isso que ele é pago. Nossas casas tem luz elétrica, água corrente e ar condicionado disponível ao toque de um botão? Ora, isso é tão comum, como vai ser mérito de alguém?

Se o mérito não vai para quem realizou algo, vai para quem? Ora, vai para quem simboliza essa visão de mundo: os visionários, os sonhadores, os que vivem em mundos de fantasia. E para os que possam posar de “injustiçados”, para que dessa forma o mérito reverta em proveito próprio: “Vejam, eu defendo os injustiçados, porque eu sou um cara bacana!!”

Voltamos a Edison e Tesla. Edison era sem dúvida um capitalista: suas invenções vieram de pesquisas, e estas pesquisas dependiam de laboratórios, de materiais, e de muita gente trabalhando no assunto. E tudo isso dependia de capital, isto é, de dinheiro. Nada do tipo “gênio que passeava pelo campo quando, de repente, teve uma idéia”. É de Edison a frase “A genialidade é 1% inspiração e 99% transpiração”, isto é, suor, trabalho.

Tesla, por outro lado, se adapta melhor ao conceito oposto: sua inteligência era mais teórica que prática; era muito bom em matemática e extremamente criativo em suas invenções, mas não era tão bom em transformar suas idéias em produtos comercialmente viáveis. Como foi funcionário de Edison, virou o personagem perfeito para a narrativa do “inventor genial roubado pelo empresário inescrupuloso”. A cereja do bolo desta narrativa é o sonho de Tesla de transmitir energia elétrica pelo ar. Na sua idéia (jamais concretizada), não seriam necessários postes e fios: cada casa teria uma espécie de “antena” que receberia energia da mesma forma que recebemos rádio ou tv.

Para certos grupos, as implicações são óbvias: a idéia de Tesla foi boicotada pelos capitalistas malvados para impedir que as pessoas recebessem energia de graça e fossem obrigados a pagar por ela para estes mesmos capitalistas. É a teoria da conspiração ideal, e até mesmo a morte de Tesla é incluída nela. Claro que nenhum dos defensores desta idéia sabe explicar de onde viria esta energia. Da mesma forma que ninguém mais se preocupa em saber de onde vem ou como é produzida nossa comida e nossos smartphones, simplesmente assume-se que esta energia viria de algum lugar, e seria não apenas gratuita como também ilimitada (alguém economizaria algo que recebe de graça?). Afinal, estas mesmas pessoas acreditam que água, telefone e internet poderiam e deveriam ser ilimitadas e gratuitas, e só não são por causa (adivinhem?) dos capitalistas malvados (e dos governos que não tem “vontade política”). Elas também costumam acreditar que já foram inventados o carro movido a água, o sabonete que nunca acaba, o celular que não precisa de bateria e a vacina que cura todas as doenças, e que isto só não está à venda nas lojas por causa de uma grande conspiração dos “poderosos” para explorar a humanidade.

Para estas pessoas, lógica e ciência são coisas terrivelmente chatas. Se você tentar explicar que para distribuir energia elétrica gratuitamente (seja pelo ar ou por fios) esta energia precisa vir de algum lugar, e que isto certamente terá custos, você provavelmente será xingado de alienado. Para um sonhador, coisas como o Princípio da Conservação da Energia ou as Leis da Termodinâmica são reacionárias e fascistas. Outra característica importante: ao atacar os opositores e defender seus favoritos – Tesla, neste caso – eles desfilarão uma série de argumentos e afirmações provando que tudo que aconteceu de errado na vida do pobre Tesla foi culpa dos outros, jamais dele mesmo: exatamente o mesmo que eles acreditam sobre suas próprias vidas.

A consequência desta falta de consciência sobre a escassez e os limites dos recursos é visível em nosso dia-a-dia: a cultura do desperdício e do descartável. A falta de preocupação com o futuro. O foco no consumismo imediato e vazio. A incapacidade de se satisfazer: quem acredita que sempre pode ter mais, nunca estará satisfeito com o que têm.

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NOSSA CIVILIZAÇÃO FALHOU

A rua que eu mais uso para ir da minha casa ao centro da cidade tinha duas lombadas quando eu me mudei, vinte anos atrás. Hoje tem nove.

A rua onde ficava minha microempresa também tinha duas lombadas no caminho até o centro. Hoje tem dez.

O presidente quer acabar com os radares. O povo esbraveja nas redes sociais, afirmando que sem fiscalização e punição, os motoristas serão irresponsáveis e imprudentes.

Permitir a posse de armas, então nem pensar. De posse de uma arma, os brasileiros vão sair pelas ruas matando-se uns aos outros, dizem.

Na opinião de muitos, sobre alguns assuntos não se pode sequer falar: não temos maturidade para discutir coisas como legalização de drogas ou de cassinos.

Quando penso em tudo isso, apenas uma coisa me vem à cabeça: Não deveríamos, como sociedade, andar para a frente? Não deveríamos, já que recebemos tanta coisa pronta de nossos antepassados (e bem sabem eles a trabalheira que deu), partir daquele ponto para melhor? Não deveríamos, já que temos mais recursos, mais facilidades, mais tecnologia, tornarmo-nos melhores, mais civilizados, mais responsáveis, mais adultos? Não deveríamos, por uma simples questão de respeito ao trabalho que nossos pais e avós tiveram em deixar um mundo melhor para nós, seguir seus padrões de ética, de moralidade, de respeito, de decência?

Mal completei cinquenta anos, mas sinto-me um velho centenário quando penso que em minha infância, as pessoas adultas dirigiam carros de forma responsável, não por medo de multa, mas porque era o certo a fazer (e mesmo com os automóveis menos sofisticados de então, os acidentes eram poucos). Da mesma forma, era normal que os homens adultos (como meu pai) tivessem em casa uma arma, que serviria para defender sua família em caso de necessidade, e isso não significava mais crimes, pelo contrário. Não se passaram milênios, mas apenas algumas décadas, desde o tempo em que aprendi na escola que os deveres vem antes dos direitos e que deve-se fazer o certo porque é o certo, não apenas por medo de punição.

O que aconteceu para que os adultos de hoje não sejam capazes de agir como os de ontem? Como nos tornamos uma civilização de crianças grandes, que sabem apenas exigir, aos berros, seus brinquedos e sua mamadeira? Como abandonamos a idéia de que ser adulto implica ter responsabilidades e deveres?

Como aceitamos ser uma sociedade que diz de si mesma: “Somos imaturos! Necessitamos ser vigiados e controlados! Não sabemos nos comportar! Alguém deve tomar decisões por nós!”

Falhamos como civilização?

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PORQUE O SOCIALISMO É UMA UTOPIA

Você já ouviu falar da Alemanha? E você lembra que entre 1945 e 1989 existiam duas Alemanhas, a “ocidental” e a “oriental”? Bem embora ambas fossem habitadas pelo mesmo povo, falassem a mesma língua, compartilhassem o mesmo passado e a mesma cultura, elas eram bem diferentes.

Na Alemanha Ocidental, fabricava-se Mercedes, BMW, Porsche e Audi, nomes que até hoje povoam sonhos pelo mundo inteiro. Enquanto isso, ali ao lado, a Alemanha Oriental fabricava apenas um carro: o Trabant.

Para quem não conhece: o Trabant é um carro menor que um Fiat 147, com a carroceria feita de resina plástica. Tinha um motor dois tempos de 0,6 litros e 25 cv. Ficava longe de satisfazer as normas ocidentais sobre poluição e segurança (um exemplo: o tanque de combustível ficava junto do motor). Outra diferença importante: enquanto do lado ocidental um alemão podia entrar em uma loja e sair dirigindo seu carro, no lado oriental o Trabant tinha uma fila de espera de aproximadamente dez anos (você não leu errado: dez anos). Por isso, um Trabant usado valia o dobro, ou mais, do que um novo.

Qual a explicação? É simples: a Alemanha Ocidental era um país capitalista. Lá, pessoas podiam criar empresas e estas empresas podiam fabricar e vender produtos, obtendo lucro. Havendo várias empresas, as pessoas podiam escolher qual produto comprar, por isso as empresas se esforçavam para oferecer produtos melhores que a concorrência (entenda-se “melhor” no sentido de qualidade ou preço, ou ambos); a empresa que não oferecesse um bom produto, não conseguiria lucro. Como sabemos, a indústria alemã era tão competente que seus automóveis eram (e são) cobiçados no mundo inteiro.

Por outro lado, a Alemanha Oriental era um país socialista. Na economia socialista, as pessoas não podem almejar lucro: elas trabalham para o governo, e o governo paga quanto quer, já que não há alternativa. Como o salário não pode aumentar, não há nenhum incentivo para inovar ou mesmo para trabalhar com mais qualidade ou eficiência do que a média. O governo era o dono da única fábrica de automóveis, e não precisava agradar a ninguém: ou o consumidor comprava um Trabant, ou ficava sem nada. Por isso, o Trabant permaneceu praticamente igual de 1957 até 1989, e só parou de ser produzido porque a Alemanha Oriental deixou de existir.

A definição clássica diz que o socialismo é a “ausência de propriedade privada dos meios de produção”. Não é uma boa definição: diz apenas o que o socialismo não é. Faltou dizer o que é, e como funciona. Afinal, no socialismo os meios de produção continuam existindo. O importante não é definir de quem são, é definir quem os administra e controla.

Empresas como a Mercedes ou BMW têm literalmente milhares de donos, já que suas ações são negociadas em bolsa. Qualquer um pode ser dono de um pedaço delas. Não é a propriedade delas que importa. O que importa é que há presidentes, diretores e gerentes que tem responsabilidades definidas e incentivos claros: se trabalharem bem, podem ser promovidos e ganhar mais. Se trabalharem mal, podem ser demitidos.

Na fábrica da Trabant a história era outra. Todos ali eram empregados do governo. Ninguém tinha incentivos para produzir um carro melhor. O comportamento esperado dos funcionários não era inventar novidades que iam dar mais trabalho para todos: era acomodar-se à burocracia, cumprir as normas, não arranjar problemas e não mexer no que estava quieto (se você que me lê foi ou é funcionário público vai entender o que estou dizendo). Aliás, mesmo que um diretor qualquer tivesse a boa vontade de querer atender melhor o consumidor, como faria? Como ele poderia saber o que as outras pessoas preferem, sem o mecanismo do mercado para informar? Se houvesse um pouco de verba disponível para melhorar o Trabant, seria melhor colocar freios a disco ou marcador de gasolina? Na dúvida, o Trabant não tinha nem um nem outro.

Algum admirador do socialismo dirá que mostrei um capitalismo perfeito, mas que no mundo real existem injustiças, corrupção e todo tipo de defeitos. Concordo. O ser humano não é perfeito, ao contrário. Mas é o que temos. O capitalismo não foi feito para anjos, foi feito para humanos imperfeitos. Por isso mesmo, fornece os mecanismos para se auto corrigir, concedendo a todos o poder de ser consumidores e de escolher. É exatamente por isso que o governo deve se manter afastado do mercado: não pode haver concorrência justa se um dos concorrentes é o dono do poder. Afinal, o governo também é formado por pessoas imperfeitas e sujeitas à tentação.

O socialismo, por outro lado, funcionaria bem com anjos. Porque, na ausência de incentivos e de mecanismos de correção, seu funcionamento depende de pessoas imunes a qualquer tipo de mau comportamento, e suficientemente altruístas para fazerem sempre o melhor sem esperar nada em troca. E é exatamente por depender de condições que no mundo real não existem, é que o socialismo é um sistema utópico.

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PRESIDENTES

Como todos sabem, o Brasil tem em sua história uma longa ditadura. Foram 15 anos, de 1930 a 1945. Começou disfarçada, como é usual, com promessas de nova constituição e de eleições próximas. Pouco a pouco, foram aparecendo o autoritarismo, a censura à imprensa, o desaparecimento de opositores, a repressão a qualquer idéia discordante. O ditador, todos sabem, era grande admirador do fascismo de Mussolini.

Encerrada a ditadura, o Brasil passou a decidir seus rumos através de eleições. Vamos passear um pouco pela história e relembrar as escolhas que fizemos.

– Nosso primeiro presidente após a ditadura Vargas foi um militar, o Marechal Eurico Dutra. O fato mais conhecido de seu mandato foi a proibição, numa canetada, dos cassinos e jogos de azar, levando muita gente à falência e ao desemprego.

– De forma provavelmente inédita no mundo, elegemos o ex-ditador que havia sido deposto cinco anos antes. Envolto pelo mar de lama, saiu da vida para entrar na história, suicidando-se com um tiro no coração.

– O próximo foi Juscelino Kubitschek. Assim como Quéops gravou seu nome na história construindo sua pirâmide, Juscelino construiu sua cidade. Para isso, quebrou a previdência, multiplicou a divida do país por cinco e aumentou a inflação. Para a classe média, crédito farto para comprar carro, TV e eletrodomésticos. Para os pobres, emprego farto nas fábricas que produziam os bens que a classe média comprava. Como sempre acontece com crescimento econômico baseado em crédito, a bolha estourou, mas seu mandato já havia acabado.

– Em 1960, elegemos Jânio Quadros. Em apenas sete meses, este doido tomou medidas importantes como proibir o biquíni e o lança-perfume, além de condecorar Che Guevara e receber agentes da KGB em Brasília para negociar uma aproximação com a União Soviética. Também mandou que o exército conquistasse a Guiana Francesa. Como não tinha apoio do congresso e por isso não conseguia governar, renunciou achando que o povo se mobilizaria para mantê-lo no poder. Não sabia ele que a única coisa capaz de provocar este grau de mobilização no povo brasileiro é o futebol.

– Seguem-se dois anos e meio de confusão sob o governo de João Goulart, e vinte e um anos de “ordem e progresso” (a ordem mantida à força, e o progresso, bancado por endividamento e inflação) sob uma nova ditadura, desta vez chefiada por militares.

– A ditadura entregou o poder para Tancredo, mas quem levou foi José Sarney. Veio uma nova constituição, a pior de nossa história, e cinco anos de uma corrupção e um desgoverno tão toscos que chegam a ser engraçados – menos para quem sofreu suas consequências, lógico.

– Primeiro presidente eleito pelo povo depois de trinta anos: Fernando Collor. Mais corrupção, mais incompetência, mais desgoverno. Queria governar sem o congresso, como Jânio, mas não tentou o golpe da renúncia. Afundou no mar de lama, mas não se suicidou como Getúlio, desperdiçando a chance de entrar para história como herói, como este (e Tiradentes – nosso país adora heróis perdedores).

– Próximo presidente: Fernando Henrique, o garboso. Embora tenha sido abertamente de esquerda durante toda sua vida, o PT, derrotado na eleição, passou a afirmar que ele era de direita – para o PT, tudo que não seja o PT é direita. Como nossa imprensa repete tudo que o PT fala, FHC e seu partido (que tem social-democrata no nome) passaram a ser considerados “direita”. A maior qualidade dos dois governos de Fernando Henrique foi não estragar muito a economia, que havia recebido um conserto importante com o plano real. A corrupção continuou aumentando, a qualidade do ensino continuou caindo, a balbúrdia institucional criada pela constituição de 88 continuou aumentando.

– Próximo: Lula, o divino. Dono de uma sorte invejável, Lula herdou o trono quando a crise da Ásia já havia passado, a China estava no auge de seu impulso desenvolvimentista e o mau governo de George W. Bush nos EUA enfraquecia o dólar. Tudo isto somado colocou o Brasil em um surto de prosperidade que foi, naturalmente, desperdiçado. A dívida foi multiplicada por cinco, como fez Juscelino. A corrupção continuou aumentando, agora mais rápido que no governo anterior. A qualidade do ensino começou a despencar, ao invés de apenas cair. A balbúrdia institucional superou a era Sarney.

– Próximo: Dilma, a inarticulada. Caso único de falta de lógica e raciocínio, não percebeu que os anos de bonança internacional que beneficiaram Lula já haviam passado. Como achava que entendia de economia, tomou uma série de medidas que colocaram o Brasil na pior recessão de sua história. Levou cartão vermelho por incompetência e vive, ao que parece, do rachid dos oito assessores que tem à sua disposição.

A situação atual: A recessão da era Dilma talvez esteja terminando, ou talvez esteja se agravando novamente. A corrupção nunca foi tão grande nem tão bem amparada, com um amplo time de defensores no Congresso, no Supremo, no Ministério Público e em vários outros órgãos públicos. A situação do ensino atingiu um novo marco: não são apenas os alunos que são analfabetos funcionais, mas os professores também. As instituições praticamente não existem mais, exceto para defender seus próprios interesses. O governo não governa, o legislativo não legisla, o judiciário não faz justiça: os três poderes se dedicam unicamente à política e à disputa por poder.

O presidente? No momento, parece seguir os passos de Jânio Quadros e Fernando Collor. Não tem apoio no Congresso e aparenta não saber como consegui-lo. Gostaria de mandar sozinho e impor suas decisões, mas não tem força para isso. Ao invés de se dedicar aos grandes problemas, aumenta a confusão com polêmicas inúteis sobre porte de arma, hino nacional nas escolas e crianças vestidas de azul ou rosa. É adorado por uma parte da população e odiado por outra parte. Uma terceira parte, cada vez maior, se preocupa com o futuro: teremos outro Jânio (renunciando), outro Collor (sendo destituído) ou outro Sarney (arrastando-se até o final do mandato para entregar ao sucessor um país em frangalhos)?

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