FORTALEZA – 293 ANOS E UM CRESCIMENTO FANTÁSTICO

Praça do Ferreira “ícone” de Fortaleza

Eram muitas as direções do andar, do ir e do vir. Onde eu morava, se resolvesse ir para o Oeste, iria para o Pan-Americano; se fosse para o Sul-Sudeste, iria para a Casa do Português; se fosse para o Nordeste, iria para o Benfica, pela avenida João Pessoa; se fosse para o Norte, e era para onde mais eu ia, acabava indo para o Liceu, via Bezerra de Menezes e Otávio Bonfim.

Pequena ainda – no tempo que lá morei -, concentrando seu dia a dia urbano num raio também pequeno, Fortaleza, a “Loira desposada do sol”, fundada a 13 de abril de 1726, era também naqueles anos 40/50 e 60, apenas uma cidade cheia de problemas. Todos de cunhos administrativos e soluções idem.

Chegada das jangadas na Praia do Meireles

Na configuração urbana, na verdade, existiam apenas quatro grandes avenidas: a Bezerra de Menezes, iniciando a saída ou entrada para o rumo de Sobral; a João Pessoa, iniciando a entrada e a saída para os rumos de Maracanaú e Maranguape; a rua Rio Branco, iniciando a saída e a entrada para Messejana e demais municípios e estados limítrofes; e a Santo Dumont, beirando o riacho Pajeú em direção à Aldeota e as praias do Futuro e outras, ainda virgens. Era esse, sem tirar nem pôr, o croquis da cidade que hoje completa 293 anos. (JOR)

“Casa do Português” iniciou mudanças arquitetônicas em Fortaleza

“Fortaleza é um município brasileiro, construído pelos holandeses durante sua segunda permanência no local, entre 1649 e 1654. O lema de Fortaleza, presente em seu brasão, é a palavra em latim Fortitudine, que, em português, significa “força, valor, coragem”.

Está localizada no litoral Atlântico, a uma altitude média de dezesseis metros, com 34 km de praias. Fortaleza possui 313,140 km² de área e 2 643 247 habitantes estimados em 2018, além da maior densidade demográfica entre as capitais do país, com 8 390,76 hab/km². É a maior cidade do Ceará em população e a quinta do Brasil. A Região Metropolitana de Fortaleza é a sexta mais populosa do Brasil e a primeira do Norte e Nordeste, com 4 051 744 habitantes em 2017. É a cidade nordestina com a maior área de influência regional e possui a terceira maior rede urbana do Brasil em população, atrás apenas de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Fortaleza foi em 2016 a décima cidade mais rica do país em PIB e a 2ª mais rica do Nordeste, com 60 bilhões de reais. Possui, ainda, a terceira região metropolitana mais rica das regiões Norte e Nordeste. É importante centro industrial e comercial do Brasil, com o oitavo maior poder de compra municipal da nação. No turismo, a cidade alcançou as marcas de segundo destino mais desejado do Brasil e quarta cidade brasileira que mais recebe turistas de acordo com o Ministério do Turismo. É sede do Banco do Nordeste, da Transnordestina Logística e do DNOCS. A BR-116, a mais importante rodovia do país, começa em Fortaleza. O município faz parte do Mercado Comum de Cidades do Mercosul.

Orla marítima da “nova” Fortaleza

Batizada de Loira Desposada do Sol pelos versos do poeta Paula Ney, a metrópole cearense é a terra natal de brasileiros de grande renome como o ex-presidente Castelo Branco e Dom Hélder Câmara, assim como Capistrano de Abreu, Gustavo Barroso, Casimiro Montenegro Filho, José de Alencar, Karim Aïnouz, Maurício Peixoto e Rachel de Queiroz. É a capital brasileira mais próxima da Europa, a 5 608 km de Lisboa, em Portugal.” (Transcrito do Wikipédia)

Foto 5 – Estádio Municipal Presidente Vargas no Benfica

Saí de Fortaleza, exatamente há 50 anos. Saí para o Rio de Janeiro em 1969, depois de, em 1967, ter passado alguns dias para “sentir o clima e a possibilidade de uma vida nova”. Quando saí, a cidade era essa que descrevi, e praticamente eu não sabia nada da vida.

Tenho voltado à Cidade Luz poucas vezes, pois a idade já não permite mais esse “para cima e para baixo” com mais assiduidade. Vou quando me dá saudade, e quando a situação financeira permite.

O desenho que tenho é o de 50 anos atrás, com Miscelânea vendendo pastel e caldo de cana, bolachinha Ceci da Padaria Duas Nações na Rua Castro e Silva, cafezinho no Cearazinho, sessões de cinema no São Luiz e no Cine Diogo e merendas na lanchonete das lojas Romcy Magazine. Nunca esqueci o “pão d´água” (francês) comprado na Padaria Lisbonense e levado para casa no início da noite.

Nas poucas vezes que tenho ido, percebo que, da minha geração de amigos, muitos já subiram para o andar de cima, e as antigas amizades ficaram distantes.
Cachacinha na “Bodega do Antônio”, cervejinha no Caravele da avenida Luciano Carneiro, ao som do piano; feijoada no Sá Filho ou no Clube do Advogado, e o encerramento da noite com jantar no cirandinha ou no Alfredo o Rei da Peixada, são pontos fortes no cabedal da saudade.

O atual “Restaurante do Alfredo” no Meireles

Como diz o poeta, “não sei se um dia volto para lá”, pois também tenho raízes profundas em São Luís, onde cheguei há exatos 31 anos.

Para comemorar o aniversário desta cidade maravilhosa, bem que eu queria: ir ao Mercado São Sebastião, puxar uma cadeira, sentar e comer meia dúzia de atas; ir ao restaurante ao lado da Western, pedir um caldo de panelada; caminhar da Bela Vista até o Presidente Vargas para assistir o meu Vovô ganhar do Fortaleza; voltar ao Liceu e viajar no ônibus Jacarecanga; ou assistir um bom espetáculo no Theatro José de Alencar.

Como não é possível, Fortaleza, de longe, apenas te aceno fazendo o coraçãozinho do Amor, tendo consciência de que tudo isso está no passado.

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CALHA DE SABIÁ E OS POTES D’ÁGUA

Chuva da tarde caindo na casa da Vovó

Para quem nasceu e cresceu na roça, esquecer aqueles dias difíceis, não é coisa tão fácil. A infância, quase que por inteiro, e boa parte da adolescência num ambiente que marca forte a vida de muitos. E, como quase tudo foi tão bom, tão edificante, tão valorizado, porque influiu diretamente na formação do homem, é como massagear o ego, falar sempre. Reviver o bom.

E por que não falar da minha infância?

A madorna vespertina só era atrapalhada e interrompida quando, repentinamente, começava a chover. Às vezes, dizíamos até que, “chuva com sol, era casamento de raposa.”

A rotina diária era interrompida. A gente corria para tentar “aparar a água da chuva” que serviria para alguma coisa. Para lavar roupas, panelas e pratos e para molhar o canteiro cultivado com cheiro-verde, tomate e pimenta malagueta.

– Fii, essa água num seuve prumode beber. Num apare não!

Meu Avô João Buretama usava uma machadinha e ele próprio fazia as calhas colocadas ao redor da casa. Usava paus de sabiá, uma madeira que, estranhamente, tinha o “miolo” escuro, aparentemente apodrecido, mas era tão duro quanto ferro. Era ele que fazia essas calhas, e, às vezes, fazia até algumas sob encomenda.

Na ausência das chuvas, principalmente nas calhas que ficavam à sombra do sol do meio dia e nas primeiras horas da tarde, os dois gatos da casa dormiam ali, e, às vezes, aproveitavam também para fazer suas necessidades. Outros quase que hospedeiros, eram as “taruíras” (também chamadas de “troíras” ou “osga”), cuja urina se tinha como venenosa.

Gato saboreando a sombra para uma soneca

Era por essas impurezas contidas nas calhas, que a “sábia” Avó nos orientava para não aparar as primeiras águas das chuvas para beber. Urina de gato, fezes e urina de ratos, e até a urina das osgas poderiam prejudicar a saúde de alguém, num lugar onde só se conhecia a medicina dos chás e ervas.

– Mais tarde meu fii apara para encher os potes e as cabaças, viu!

E lá estavam, ao final da boa chuva, os mosquitos voando e sendo comidos pelos pássaros, principalmente as andorinhas e os bem-te-vis em mergulhos e piruetas que mais pareciam aqueles aviões “caças” nas guerras.

Três potes grandes, com panos amarrados nas bocas para coar a água (seria por isso, a justificativa do termo secular de “água potável”?) e algumas quartinhas que eram postas no parapeito das janelas para “gelar”. O pote da casa ficava sob vigilância do sapo “Merquíades”, num dos cantos da sala da casa, para evitar que osgas, baratas e moscas sujassem a água.

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A MÃO ENVELHECIDA E MACHUCADA

Mãos envelhecidas postas em oração

Não sei que horas eram, mas sei que era noite. Um estado febril desconhecido me nocauteou, após uma tarde inteira de brincadeiras no quintal da casa.

Como que saindo de uma penumbra, tive lucidez para perceber por detrás daquela fumaça que saía da xícara de chá, uma mão envelhecida que dirigia a xícara para a minha boca, enquanto a outra forçava meus ombros para facilitar a ingestão do milagroso chá de erva cidreira e uma pílula.

Chá bebido, aquelas mesmas mãos envelhecidas me acomodaram sobre o travesseiro macio e cheiroso, ao mesmo tempo que puxava o lençol para me cobrir por inteiro, e me dar mais conforto.

A porta da camarinha ficou entreaberta, o que me permitia, antes de fechar os olhos, ver a movimentação na cozinha.

Aquelas mesmas mãos envelhecidas cuidavam de pôr em ordem as tralhas usadas no dia a dia da cozinha. Em seguida, as mãos envelhecidas limpavam uma mesa, e sobre ela, estendiam uma toalha, depois mais outra e finalmente um lençol branco. Em seguida, aquelas mesmas mãos punham carvão num ferro de engomar, aproveitando para abanar com o abanador de palha, e garantir o ponto de passar do ferro.

Devo ter adormecido e não vi o que aconteceu depois. Mas, como o estado febril não me deixava dormir, acordei no meio da noite, e vi, ao lado do meu catre, uma cadeira de balanço com alguém sentado. Não vi quem era. Mas vi que, as mesmas mãos envelhecidas dos atos anteriores coziam em remendos umas roupas velhas de trabalho do meu pai.

O dia seguinte já estava claro, quando acordei e vi aquela mesma mão envelhecida, sobre a minha face, e em seguida na garganta, verificando se a febre continuava. Pude perceber que a mão cheirava a pó de café, e, além de envelhecida, tinha também muitas estrias de bondade.

Mãos envelhecidas que falavam sem soltar um único som. Que diziam tudo, ao mesmo tempo que não diziam nada – apena faziam. E, vi que, em muitas ocasiões, postas, serviam também para orar, conversando com Deus, como fazem todas essas mãos envelhecidas, calejadas e nobres.

Eram as envelhecidas mãos da minha mãe.

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UM MENINO E A BOLA

Menino e o sonho de ser jogador profissional

Naquele lugar estranho, com tanto sol e pouca sombra, às vezes o calor impunha o ócio, como se fosse algo hipnótico. A pouca água que se tinha notícia, naqueles dias, era o suor de quem se expunha ao sol.

Mas, com um objetivo, Badiu não dava muita atenção às intempéries – e até conseguia esquecer o calor, por vezes bebendo o suor que lhe corria pelas faces negras, e ao mesmo tempo, molhando o sal que o corpo expelia. Como se árvore fosse, e estivesse vivendo o processo de fotossíntese.

Entre o calor que queimava, o suor salgado que corria pálpebras abaixo, e a falta de uma pequena sombra que fosse, Badiu optava por correr atrás da bola.
Era a sua bola. A bola feita por ele – com pedaços de papel velho, e barbantes recolhidos no lixo.

Não era a bola que ele queria e sonhava. Mas, era uma bola sim!

– “Um dia desses serei um jogador bom, famoso, e com dinheiro suficiente para sustentar minha mãe, e comprar muitas bolas para as crianças”!

A bola na Badiu mantinha suas esperanças

Badiu aprimorava seu estilo de jogar, a cada dia. Jogava só. Não tinha adversários além do calor, e da falta de sombras.

Certo dia resolveu construir os traves, para onde mandaria a bola e faria vários gols. Golaços. Paus velhos, tiras velhas e pedaços de plásticos – o que garantiria aquele som inconfundível e uníssono das torcidas, quando acontece um gol do time preferido.

Eis que, num fim de manhã, ao chegar ao local do “treino”, Badiu encontrou seus traves destruídos, jogando ao léu todo seu esforço e ansiedade para um dia se tornar um jogador profissional.

Traves erguidas pela imaginação e carência infantil

No lugar do suor que caía pelo rosto, lágrimas tomaram o lugar. No lugar da alegria, o desespero por sentir que estava perdendo a chance de um dia ser alguém.

Ali onde Badiu aprendia na solidão, tendo como adversários o calor e a falta de sombra, seria erguido um conjunto residencial.

É sempre assim!

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NOS TEMPOS DA BALADEIRA

Baladeira de menino macho

Como sempre tiveram o rabo muito comprido, os tempos da saudade e da malinagem dos meninos dos anos que ainda estão se bulindo dentro dos caixões de madeira, ainda podem ser alcançados, pois estão acabando de dobrar a última esquina. Percure e verás!

Mas, percure mesmo, como se estivesse bulindo nessa porra de telefone celular. E, se tu não achar, é por causa que é uma besta quadrada. Ou nunca fostes criança!

As férias do final do ano eram as mais melhor, apois duravam quase que o final do mês de dezembro, o mês de janeiro todinho, e mais a premêra semana de fevereiro. Contanto nos dedos das duas mãos e nos dedos todinhos dos dois pés, ainda vai faltar dedo prumode dar certim.

Aí a gente se danava a malinar, caçando passarinho. A gente fazia espeto de passarim prumode ajudar Vovô e Vovó no dicumê que dá sustança.

Nós era uma primaiada só. Do lado dos fios da Tia Maria com Tio Antônio, era uma reca grande, mas tinha mais mulher. Homem mesmo, eram apenas três: Zé Luciano, Raimundo Lúcio e Sebastião. Os outros irmãos era tudo mulher. Adispois nós soube que quase tudo deu pra rapariga. Teve até uma (Elzidan) que botou venda de auferecer xiri em Casa Amarela, bem no centrim de Recife.

Sebastião, dos três primos machos, era o que mais sabia caçar de baladeira, e tinha boa pontaria. Tinha preferência pra matar beija-flor, apois gostava de procurar a bichinha se debatendo entre as folhas secas, pegar as duas partes do bico, rasgar e engolir o coração das bichinhas.

– Zé, é prumode ficar caçador melhor, e com mais sorte!

Esse era o dizer dele, Sebastião. Os outros passarinhos, quando a gente matava ia botando dentro do bornal carregado à tiracolo.

Quando a gente chegava em casa ia pelar os bichos. Tinha rolinha, tinha sabiá, tinha papa lagarta, e, às vezes, tinha até camaleão. Dava uma boa espetada e ajudava sim, a acompanhar o feijão de corda com rapadura raspada, farinha seca, tudo misturado com maxixe e jerimum – nunca comemos comida mais saudável, pois ninguém nem sabia que diabos era agrotóxico.

Foto 2 – Beija-flor para a enfiada no espeto

O camaleão a gente tinha que comer no mesmo dia, pois a clorofila que saía do monstrengo ficava parecendo “pus” – minha Avó não comia, pois tinha nojo. Era sabida, e ao mesmo tempo abestaiada.

A gente que fazia a própria baladeira. Cortava as câmaras inservíveis de pneus, fazia as tirinhas e estava pronta a baladeira, com uma funda de couro velho e um bom cabo de jucá. As “balas” eram pedras catadas com esmero na beirada do açude, e todas tinham que caber na funda, para garantir melhor impulsão.

Sebastião tinha uma mania: a cada 100 passarinhos que matasse, fazia uma marca com canivete no cabo da baladeira. Contava até 100, com castanhas de caju, que separava em duas latas de leite Ninho.

Tínhamos dois momentos diferentes nas férias: de alegria, quando elas começavam, e tinha até quem fosse nos esperar no ponto do ônibus; e, de tristeza, quando chegava a última semana, e a gente sabia que as aulas recomeçariam.

Tanto uma coisa (a chegada), quanto a outra (o término), ainda fazem lacrimejar os olhos. Malinagens de crianças que sabiam o que era a felicidade.

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A PAÇOCA QUE VENCE QUALQUER MASTER CHEF

Pilando paçoca

A nuvem acinzentada vem, e traz consigo os primeiros e inconfundíveis sinais do anoitecer – para corroborar, o som das badaladas dos chocalhos das cabras e bodes no chiqueiro.

É o sertão. É avida que a gente viveu e que quase mata de saudade.

As “oiças” se voltam para um som, também rítmico, que só os que ali nasceram conseguem identificar:

– Tuf-tof! Tuf-tof! Tuf-tof! Tuf-tof!

É a batida no pilão preparando a paçoca. Paçoca de carne seca (carne seca, cebola roxa, pimenta do reino, farinha à vontade), que vai ser comida com café preto torrado em casa, para uns e com aquele maravilhoso baião de dois “grolado” para outros.

– Tuf-tof!! Tuf-tof! Tuf-tof!

Continuam as batidas, agora mais lentas. A paçoca está pronta.

No fogão tocado a lenha, uma lata presa ao teto por um arame, ferve a água para o café que será coado no bule de ágata. À mesa, as cumbucas e as colheres, e um alguidá “capaçoca”.

– Comam à vontade, mas não esqueçam dos outros! Diz a avó, que, com aquela receita ganharia de lavagem qualquer Master Chef.

Lá fora, no alpendre frontal da casa, o lampião à gás está repleto de mariposas. O silêncio é tão profundo, que dá para escutar aquela distante e interminável sinfonia de apenas duas cigarras.

Mas, nos tímpanos de quem muito escutou aquilo, embora muitos anos tenham se passado, continua o aviso rítmico:

– Tuf-tof! Tuf-tof! Tuf-tof!

Paçoca de carne seca

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O DUELO

José Ramos

Maracanã superlotado ao fundo – torcedores privilegiados assistem Garrincha “matando” Jordan

Tardes de domingo, Maracanã superlotado. Áreas externas sem espaços para estacionamento de veículos, e as torcidas continuavam entrando pelas duas rampas de acesso.

Dia de clássico. Dia de Mané. Dia de duelo entre Mané e Jordan – os dois mais diletos e respeitosos adversários que o futebol já mostrou no mundo inteiro. Mané, vestido com o manto do “Glorioso” Botafogo; e Jordan, vestido de Flamengo, como um touro “sofrendo” espetadas em Madri.

Garrincha nunca foi um atleta na acepção da palavra. Era uma pessoa que gostava de brincar com a bola, de se divertir com os amigos, de passar o tempo entre os amigos de Pau Grande, povoado onde nasceu e continuou por anos, morando, criando passarinhos e fazendo filhas. Fez uma reca delas – nem sei quantas.

Aos domingos “descia” para General Severiano, onde se juntava ao compadre Nilton Santos, ao Bob, ao Manga, ao Pampoline e ao Quarentinha, para descerem para o Maracanã e encontrar o amigo Jordan, de quem mais uma vez “roubaria” o bicho da feira da semana seguinte.

De um lado, Valdir Amaral, e do outro, Doalcey Bueno de Camargo, nas narrações radiofônicas afirmavam:

– Lá vai Mané com a bola para cima do Jordan. Hoje ele é só alegria. Balança, faz que vai, mas não vai. Volta e dá outra balançada… e Jordan dança, hora na frente, hora de lado, mas na maioria das vezes, atrás. Levanta, e volta a cair com novo drible. Esse Mané não tem jeito!

Era esse, sempre, o “script” do duelo que mais tinha de magia e beleza plástica, como se fora uma cena do cinema mudo de Chaplin. Tudo calmo, todo mundo observando e ao mesmo tempo rindo! Rindo sem que houvesse um palhaço fazendo graças.

Era apenas um gênio se divertindo, e brincando de jogar bola no Maracanã, diante do compadre Jordan.

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A PIPA

Pipa – poesia no fazer e no botar no ar

Eu nunca quis muito – e sempre tive mais da metade do que merecia. Privilégio divino, creio!

Três palitos de coqueiro, alguns pedaços de linha, panos velhos, e liberdade para escrever os versos da minha poesia, numa pipa, ou numa arraia – como aprendi a falar na minha terra.

Mas, ainda há quem a chame de papagaio???!!!

Bem amarrados, como num primeiro soneto, os palitos montados formavam o “esqueleto” e tomava forma do que eu, criança ainda, imaginava ser a êxtase da liberdade. Quase, ou muito próximo do orgasmo.

Papel fino, grude de goma feito numa colher aquecida na chama da lamparina. Tudo formava o segundo soneto – e a poesia da vida em liberdade estava quase pronta.

A rabiola, nada mais era que pedaços de pano velho rasgado e reunidos, agora por uma linha, e tudo junto para dar equilíbrio à minha primeira obra poética a caminho dos ares.

Linha, muita linha e um bom lugar onde o vento pudesse, levar ao ar, como uma pintura de Vincent van Gogh, a poesia concluída com ingenuidade e liberdade.

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A PIRACEMA E O SEGURO DEFESO

José de Oliveira Ramos

Peixes nadando (às vezes, contra a correnteza) para a “desova” – piracema

Como muitos têm conhecimento, a piracema, conhecida por ser a época de reprodução dos peixes, teve início no Maranhão, embora as datas do início variem de rio para rio. Durante esse período é proibida a pesca e a comercialização do peixe pescado nesse rio. No caso específico do rio Pindaré, um dos mais piscosos do Estado, situado na região do Vale do Pindaré, a proibição teve início no dia 1º de dezembro e vai até o dia 30 de março de 2019.

Já nos rios Tocantins e Gurupi a piracema começou no dia 1º de novembro, e vai até 28 de fevereiro. Na bacia hidrográfica do Parnaíba a proibição da pesca começou em 15 de novembro e segue até 16 de março.

Lei 10.779, de 25 de novembro de 2003 – Dispõe sobre a concessão do benefício de seguro desemprego, durante o período de defeso, ao pescador profissional que exerce a atividade pesqueira de forma artesanal.

Serviço que permite ao pescador profissional artesanal solicitar ao INSS o pagamento do benefício de Seguro-Desemprego do Pescador Artesanal durante o período de defeso, ou seja, quando fica impedido de pescar em razão da necessidade de preservação das espécies.

Nos rios genuinamente maranhenses a proibição da pesca segue a mesma data do Rio Pindaré. Durante este período os pescadores só podem capturar os peixes utilizando apenas linha e anzol, vara, caniço e não podem pescar mais de cinco quilos, além de um exemplar de qualquer tamanho dentro das medidas permitidas para cada espécie. Como, por exemplo, o surubim que não pode ser capturado com menos de 50 cm.

Em numerosos cardumes os peixes seguindo para uma desova segura

A novidade este ano no Vale do Pindaré é que está acontecendo uma rigorosa fiscalização realizada pela Polícia Militar, usando, inclusive, embarcações velozes. A fiscalização está sendo feita também por terra para coibir o comércio ilegal dos peixes que são capturados no rio Pindaré.

Três problemas:

I – A concorrência desigual

Tudo que for dito neste texto a partir daqui, não poderá ser imaginado como algo que acontece sempre e em qualquer lugar. É algo específico do rio Pindaré.

A cidade, como muitas dos Maranhão, não possui um local apropriado e com o nível de higiene que é exigido para a comercialização do pescado. Tudo acontece na “beirada” do rio e numa imprópria rampa.

Pois, nessa rampa, qualquer peixe produzido em tanques (tambaqui, tilápia, tucunaré, curumatã, piau, bagrinho e outras espécies) é vendido livremente, sem que o vendedor (ou o comprador) seja importunado.

Isso não parece igual para todos, embora esse tipo de pescado não “dependa da piracema” para a reprodução, mas, exclusivamente dos alevinos colocados nos tanques.

Pescado produzido em tanques ou cativeiros

II – O murumuru (ou mururu)

O murumuru (ou “mururu”) prejudicial à desova da piracema

Conhecido como murumuru, o também popular no Maranhão como “mururu”, é uma planta aguapé que brota e prolifera nas margens dos rios brasileiros, que em alguns lugares evita o assoreamento – mas, em outros pode ser também prejudicial.

O estado do Maranhão é localizado numa região pré-amazônica, com clima, humidade e muitas outras diferenças ambientais que facilitam e ao mesmo tempo dificultam a vida de espécies aquáticas, da fauna e da flora.

O estado possui uma imensidão de rios, muitos dos chamados “rios de maré” (aqueles que aumentam o volume d´água e “sobem” quando as marés estão altas) – nesses, o “mururu” não é comum. Mas, o estado possui também inúmeros rios com nascentes próprias e aumentam o volume da água no período chuvoso. Têm fortes correntezas. Neste atual período, as fortes chuvas enchem os leitos dos rios e a força da correnteza arranca e arrasta o “mururu” que nasce nas margens, formando verdadeiros tapetes verdes.

Para alguns pescadores profissionais, o “mururu” serve de esconderijo para a desova dos peixes, em alguns casos, mas, em outros dificulta as ações da natureza, quando o leito do rio está totalmente coberto pelo “mururu”.

Seguro defeso sem defesa

O seguro defeso é garantido por lei (Lei 10.779, de 25 de novembro de 2003) – mas é um verdadeiro paraíso para fraudes. Pessoas que sequer conhecem um anzol ou uma rede de pesca conseguem fraudar dados e são registrados como “pescadores” de algumas colônias.

É uma fraude que precisa ser investigada, até para fazer justiça aos verdadeiros profissionais que tiram dos rios e açudes o sustento das suas famílias.

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