JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AS FRUTAS E SUAS UTILIDADES

Há muita hipocrisia neste momento. Há muita gente “torcendo contra”, da mesma forma que há a pecha mentirosa que diz defender a democracia. A sua democracia. A democracia dos outros que vá à merda e continuar com ela nada mais é que ser fascista.

Essa diversidade de conceitos favoráveis ou contra isso e aquilo é o que miscigena e, às vezes, dificulta o desenvolvimento desta imensidão continental que detém cerca de 65% do continente sul-americano.

E é exatamente nesses 65% que “frutificam” as nossas riquezas. Alimentaríamos o mundo, em todos os sentidos e em todos as vertentes da economia, se tivéssemos tido a sorte de termos sido “comandados” por competentes em pelo menos metade da nossa existência. Infelizmente não fomos. É ariscado afirmar, que um dia seremos.

Deixando um pouco de lado essas reflexões ainda amarradas à política e à administração, pois como afirmava minha sábia e falecida avó Raimunda Buretama, “falar de como dirigir o Brasil, é a mesma coisa que peidar dentro d´água, tomando banho num açude. Não vale de nada.”!

Hoje, continuando a ideia de “enxugar gelo”, quero lhes apresentar uma fruta pouco conhecida nesse país continental. Falo do “marmelo”, que está se tornando uma febre entre os agricultores maranhenses; e a pupunha, esta, mais conhecida em meio aos habitantes e conhecedores da região amazônica.

1 – Marmelo

Marmelo maduro

Estivemos há cerca de 15 dias sofrendo as agruras e enfrentando as verdades maranhenses no conhecimento de algumas estradas estaduais. No caso, a MA-014 que, nos impôs uma viagem de sete horas, quando o normal e sem atropelos chega a apenas quatro horas. Fomos a São Vicente Férrer, município situado na Baixada Maranhense.

Ali, iniciamos a produção de uma matéria jornalística especial tendo como foco um “jovem senhor vicentino” que, no próximo dia 4 de setembro completará, com a graça de Deus, 100 anos de vida e boas ações. Um verdadeiro cidadão ainda lúcido, que em meio aos seus e na comunidade goza de respeito.

Pois, foi em São Vicente Férrer, que viemos a conhecer o “marmelo”, uma fruta que ainda não chegou ao conhecimento de muitos. Aparência e cheiro de goiaba, mas não é. Claro! Formato e cor de pera, mas também mão é.

Uma raridade que precisa de mais investimento no Maranhão. Começa atingir patamar de preferência em meio aos agricultores familiares, pela fartura de cada colheita.

Dá para desconfiar que, o marmelo é a fruta que produz a marmelada, doce que existe há centenas de anos. Quem, no Brasil, não conhece a “Marmelada Colombo”?

Marmelada – consumida há anos no Brasil

“Propriedades/Benefícios do Marmelo:

1 – Hidratação: O Marmelo possui baixa calorias, apenas 25 kcal a cada 100 gramas. Ele tem uma elevada quantidade de água em sua composição, ajudando a manter o corpo hidratado. Isso é muito importante para todos nós, mas favorece ainda mais aqueles que estão tentando perder peso.

2 – Auxílio na digestão: A fruta possui muitas fibras solúveis e a pectina. Elas ajudam no processo de digestão dos alimentos, prevenindo a desidratação quando ocorrem episódios de vômitos. Elas também ajudam no tratamento de doenças do estômago.

3 – Controle do colesterol: O consumo desta fruta é recomendado para pessoas que têm problemas de controle no nível de colesterol. Como o marmelo é uma fonte de fibras solúveis, elas ajudam na redução da taxa de colesterol no sangue.

4 – Combate o ácido úrico: O gosto amargo do marmelo se dá pela presença de ácido málico, o qual auxilia na neutralização do ácido úrico no organismo. É importante ter em conta que o ácido úrico, em níveis elevados, causa acidentes cardiovasculares. Ele também estimula a formação de cristais que podem se localizar em várias áreas do corpo, como os rins, por exemplo.

5 – Tratamento da diarreia: A grande quantidade de uma substância chamada de tanino, encontrada principalmente em suas sementes, apresenta função adstringente, sendo uma ótima opção para tratar e diarreia (para isso, deve-se comer a fruta crua).

6 – Prevenção de cãibras: O marmelo é uma grande fonte de potássio, protegendo os músculos e auxiliando na prevenção de cãibras e no controle da pressão arterial.

7 – Tratamento para inflamação de garganta: O marmelo também pode ser usado para a realização de gargarejos. Assim ele alivia os sintomas de inflamação de garganta. Na preparação dos gargarejos, é preciso cozinhar a fruta inteira em uma água com açúcar. Em seguida, é preciso coar e armazenar o líquido em um vidro que tenha boa vedação. O gargarejo será feito com uma colher do líquido mais um copo de água morna.

8 – Prevenção ao câncer: Isso acontece porque a fruta tem propriedades antioxidantes que combatem radicais livres responsáveis pelo estresse oxidativo. É esse tipo de estresse que causa diversos tipos de câncer.

9 – Auxílio para quem tem constipação: O marmelo possui grande quantidade de fibras, sendo um laxante natural. Assim ele se torna um grande auxílio para quem sofre com constipação. É importante ter em conta que todo e qualquer alimento, se consumido em excesso, pode trazer prejuízo para a saúde. No caso específico do marmelo, como ele geralmente não é consumido in natura e sim na forma de doces e compotas, as pessoas diabéticas devem moderar em seu consumo. Isso porque uma dose exagerada de doces pode levar ao aumento da glicose no sangue.” (Informações transcritas do Wikipédia)

2 – Pupunha

Por anos, alguns questionavam se a pupunha era uma fruta, com características e serventia alimentares, ou se deveria servir apenas para o caule produzir o palmito.

Estudos feitos na própria região amazônica concluíram que há sim, serventia para os dois casos. O fruto tem alto poder nutritivo e o caule é matéria prima para a industrialização do palmito.

Um dos vários tipos de “pupunha”

A fruta pupunha, que é o fruto da pupunheira, continua a ser consumida cozida e servir de matéria-prima para outros produtos, com seu cultivo e consumo concentrados nos estados do Amazonas e Pará. Nessas regiões, é comum comer pupunha cozida no café da manhã ou saborear uma pupunha com café no lanche da tarde.

A pupunha só pode ser consumida cozida (leva de 50 a 80 minutos para cozinhar) porque o fruto cru contém cristais de oxalato de cálcio (ácido oxálico) que produzem uma sensação desagradável ao paladar e inibem a digestão, sobretudo em crianças.

Existe uma técnica, muito usada no Pará, para acertar o ponto de cozimento da pupunha fruta. Coloca-se as frutas na panela ainda presas ao cacho, acrescenta-se água e leva-se ao fogo para que cozinhem. Quando as pupunhas se soltam facilmente do cacho, ao sacudi-lo levemente, quer dizer que estão quase no ponto certo. Após o cozimento, retira-se a casca e a semente da pupunha.

Mesa posta para o café matinal

“Benefícios da pupunha: O consumo da pupunha proporciona vários benefícios à saúde, entre os quais podemos citar:

1 – Fortalece os ossos. A pupunha é rica em cálcio e ferro, dois minerais essenciais para a manutenção da saúde óssea e prevenção de problemas como a osteoporose;

2 – É um antioxidante poderoso. A pupunha contém um grande percentual de carotenoides, substâncias que combatem os radicais livres, causadores de doenças e aceleradores do envelhecimento;

3 – Fortalece a imunidade. Os antioxidantes presentes na pupunha também atuam no fortalecimento do sistema imunológico, responsável por proteger o corpo de infecções por vírus, bactérias e fungos;

4 – É boa para a visão. Os carotenoides presentes na pupunha são essenciais para que o organismo consiga sintetizar a vitamina A, nutriente fundamental para manter a saúde dos olhos e prevenir problemas como degeneração macular e catarata. A vitamina A também é importante para manter a saúde do tecido epitelial, mucosas e tecidos moles do corpo.” (Informações transcritas do Wikipédia)

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

COISAS DAS “FRUTAS”!

Jabuticabeira – um antro de semvergonhice

Aquele calor matinal, com a temperatura beirando os 30 graus. De repente, sem mais nem menos, começa cair uma neblina que, aos poucos vai aumentando de intensidade, e acaba se transformando numa chuva gostosa. E, para não fugir à regra, muitas coisas gostosas são sempre rápidas, inesperadas, e às vezes até em situações inconvenientes. Sem direito a muitas escolhas de conforto.

Pois, certo dia, visitando um sítio de um amigo, o silêncio era tão grande que, passada aquela chuvinha gostosa, pude ouvir uma conversa não muito comum, entre duas jabuticabas. Pela intimidade da conversa, deu para perceber que tudo estava acontecendo entre uma jabuticaba fêmea e um jabuticaba macho, se é que fruta tem sexo ou se é tudo igual aos anjos:

– Eita neguinha gostosa, zulive! Rasgou elogios o jabuticaba macho!

– Como sabes disso, se nunca me comestes? Indagou a jabuticaba fêmea, torcendo por mais provocação.

– Um dia, quando eu crescer, ainda vou ficar por cima de ti, pois nós, os machos, somos maiores! Disse com segurança o jabuticaba macho!

– Santo Deus, fazei correr os dias e o tempo! Disse, ansiosa pelo encontro futuro, a jabuticaba fêmea!

* * *

O HOMEM QUE VIROU LAGARTA

Dodô o “malfazejo” da roça de milho

Por conta de duas cabras, um bode e três cabritos que encontraram um buraco na cerca do roçado e por ali entraram e fizeram um salseiro nas ramas da batata doce e nos recém brotados pés de feijão, Dorival, também conhecido por Dodô, passou uns tempos sem os costumeiros cumprimentos com Vovô e Vovó.

Na roça do interior, ficar sem falar com outro é algo que ninguém aprova – todos, sem exceção, vivem precisando uns dos outros.

Há um “ditado popular” no interior do Ceará, sobre o relacionamento juvenil de meninos e meninas, essas ficando mais afoitas quando os peitinhos se avolumam exigindo o uso do sutiã, e as xanas se avolumam pelo crescimento dos pelos pubianos, ou pelo uso de absorventes. Coisas da idade. Tudo coisa normal. É nesse período que os pais de meninos, glosando os pais de meninas, dão o aviso: “compadres, prendam suas cabritas, pois os meus cabritos estão soltos e sedentos.”

Pois, o ar rarefeito após qualquer chuvisco que “agita” a roça e expele pela clorofila odores que atraem os animais que se alimentam das folhas. Foi isso que aconteceu, quando bodes, cabras e cabritos encontraram um buraco na cerca de encheram a pança nas ramas de batatas da roça de Dodô.

Aquilo fez com que Dodô mudasse o comportamento. Não cumprimentava mais ninguém, vivia cabisbaixo – há quem afirme que arquitetava uma vingança contra Vovô e Vovó.

Foi após esse acontecido que, nas noites de lua cheia Dodô bebia chá de sumiço e muitos vizinhos garantiam que, no silêncio da noite escutavam uivos distantes de um animal que parecia ser um cão ou um lobo. Nasceu a conversa que Dodô, nas noites de lua cheia virava “lobisomem”. Zulive!

O que se sabia, realmente, afirmavam os vizinhos, era que, de tanto projetar vingança, Dodô atraiu para si alguns espíritos malignos, numa verdadeira parceria com o 666. Cruz credo! Zulive e zulive!

Eis, finalmente, que o inverno chegou, antevendo boa safra do que fora plantado. Vovô semeava milho, feijão, fava, abóbora, quiabo e maxixe. Aquelas coisas que fazem nossas alegrias durante a colheita.

O milho nasceu, cresceu e começou a cachear. Brotaram os primeiros sabugos e bonecas, e sem muita demora, logo as espigas foram se enchendo de grandes e suculentos caroços. A manutenção da roça se fazia necessária, e era o que Vovô passava o dia fazendo, retirando as ervas daninhas como maliças e carrapichos.

Vovô trabalhou até o meio dia do sábado. Limpou e guardou as ferramentas de roçar. Verificou se os “espantalhos” estavam todos de pé e em condições de espantar os pássaros que se alimentavam do milho verde. Tudo em ordem, ele foi para casa.

Domingo era dia de missa pela manhã, um almoço de carne bovina cozida e um bom caldo, antes da madorna da tarde.

Na manhã seguinte, a volta à rotina na roça. Roupa de trabalho, chapéu de palha na cabeça, cabaça d´água no ombro e a direção do roçado. Ao passar a cerca e levantar o olhar, Vovô teve um princípio de enfarte. Não acreditava no que estava vendo. O milharal literalmente destruído. Nenhuma espiga estava incólume. A lagarta comeu tudo. Destruiu tudo!

Soube-se, meses depois que, sem lua cheia para virar lobisomem, Dodô entrou em metamorfose e se transformou numa lagarta. Lagarta da pior espécie, e resolveu se vingar de Vovô e Vovó, que eram os donos das cabras, dos bodes e dos cabritos que, anos antes haviam devorado as ramas das suas batatas.

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AS DOCES LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA

Tenho estreitas e excelentes lembranças da infância. Da minha infância, recheada de aprendizado e de convivência que formou meu caráter – ao lado dos irmãos, primos, e parentes próximos. Não tenho nenhum motivo para me envergonhar.

Tudo que vivi, e que ainda lembro, repetiria sem qualquer sentimento de culpa ou de arrependimento. Meus avós e pais me ensinaram tudo – e, me posiciono como bom aluno na escola da vida.

Hoje, relembro, como se tudo tivesse sido um interminável período de férias – cheia de alegrias, doces brincadeiras e guloseimas das melhores qualidades, porque feitas com muito carinho.

I – Puxa-puxa

Puxa-puxa que obrigava a limpeza dos dentes com os dedos

Minha mãe era uma mestra no “fazer puxa-puxa”, porque deixava queimar no ponto exato que atingia o paladar e o cheiro. Ela, que aprendera com minha Avó, separava o leite líquido, açúcar cristal, bicarbonato de sódio e um pouco de sal.

Numa panela ou “alguidar” de barro, aquecia até queimar, 1 Kg de açúcar, acrescentando o leite, e os demais ingredientes, sem parar de mexer. Botava mais açúcar até “dar o ponto”. Tirava do fogo e deixava esfriar afim de cortar em pedaços (tipo pequenos bombons).

De tanto olhar, eu ganhava de presente, a panela. Era maravilhoso passar parte da tarde raspando a panela.

II – Quebra-queixo

Quebra queixo tinha formato e gosto de infância

O quebra queixo já garantiu e ainda garante o sustento de muita gente que, por algum motivo não conseguiu se especializar e fazer algo melhor e mais rentável.

E muitos locais das grandes cidades ainda é possível encontrar algum ambulante cortando e vendendo “quebra queixo”, doce caseiro que faz parte da culinária dos nossos antepassados.

Aprendi fazer “quebra queixo”, também com a Vovó Raimunda Buretama, que tinha o costume de afirmar que, “carregado de açúcar, até o cu da jumenta é doce”!

Ela sentava num tamborete (aquele mesmo com assento feito de couro de bode, que ela mandara fazer um buraco no meio para facilitar as “bufas”) e debaixo da bunda colocava um “raspa-côco” e raspava até deixar as quengas limpinhas. Depois pegava uma porção de açúcar (ela ainda usava o mascavo), água e duas bandas de limão.

Levava tudo ao fogo no alguidar de barro que usava também para torrar o grão do café. Açúcar, suco do limão e um pouco d´água até garantir a transformação de tudo naquela calda cheirosa. Depois era só acrescentar o coco ralado, continuar mexendo e tirar do fogo. Ela usava um tabuleiro de alumínio, ou colocava sobre uma tábua e espalhava para esfriar.

III – Alfenim

Alfenim era sempre o doce mais doce do sertão

Desses três doces, o único totalmente “orgânico” é o alfenim. É feito diretamente da cana de açúcar, ainda em estado líquido. Essa forma de fazer é mais demorada e, por isso, menos utilizada.

Há, entretanto, quem use açúcar refinado, suco de limão, água e goma (polvilho) de mandioca.

Nessa forma de fazer, em quase nada é diferente da preparação do puxa-puxa, embora haja a preocupação de não deixar açucarar. Leve ao fogo os ingredientes, depois de espalhar a goma (polvilho) sobre uma tábua ou folha de bananeira verde. Após a fervura da calda, deite sobre a goma (polvilho) e, se preferir, mexa. Mas o melhor é misturar tudo e espalhar para esfriar. Está pronto o alfenim.

Minha Avó tinha o hábito de levar ao sol (nunca entendi essa necessidade), dizendo que o doce ficava mais doce – enquanto eu achava que ficava enjoativo (eu era o “provador oficial” dessas guloseimas, pelo fato de ser criança).

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PALAVRAS DIFERENTES – MAS SIGNIFICADOS IGUAIS

Lá pelos primeiros anos da década de 60, ainda residindo em Fortaleza, e após ter ingressado na Faculdade de Filosofia do Ceará (FAFICE), naquele tempo localizada na avenida Luciano Carneiro, tive iniciações de conhecimento de Antropologia, uma das matérias da grade curricular.

Antropologia e Sociologia, lembro bem, passeavam muito pela heterogênea formação da população brasileira. Nascidos na Rússia vivendo e Santa Catarina; italianos e japoneses, em São Paulo; portugueses e espanhóis, no Rio de Janeiro.

Atualmente, em Vargem Grande, interior do Maranhão, existem várias famílias procedentes do Paraná vivendo da plantação e colheita da soja. Registre-se que, tanto a Agricultura quanto a Pecuária, tiveram crescimento importante no Estado. A Agricultura com a soja, e a Pecuária com bovinos e ovinos, isso sem contar com a crescente qualidade na produção das aves. Como dito antes, com procedências de países europeus, eles certamente colaboraram de várias formas, mas também sofreram como as misturas dos significados das palavras que usamos na vivência diária.

Mostramos, a seguir, três palavras escritas de formas diferenciadas, mas praticamente com o mesmo significado, de acordo com cada Estado ou região.

I – Saliente

No Maranhão, diz-se que Jô Soares está sendo saliente

Significado de saliente: Significa, pessoa assanhada, metida, atirada, abusada e muito intrometida. Além de não ter noção do seu comportamento inadequado nos ambientes em que se encontra.

No Maranhão, além de todos os adjetivos listados acima, acr4escenta-se mais um: pessoa “imoral” que vive atentando ao pudor e “saindo da linha” independentemente de quando e onde esteja.

II – Abusado

Criança “abusada” e sem respeito

O “abusado”, que tem o mesmo significado de “saliente” e “enxerido”, é mais e costumeiramente utilizado no Rio de Janeiro, para rotular e identificar pessoas que não se comportam de forma adequada, ou não dão muita atenção ao respeito pelos outros.

Sinônimo de abusado: ousado, audacioso, destemido, valente, corajoso, bravo, impávido, intrépido, arrojado, audaz, resoluto, temerário, atirado, afoito. insolente, petulante, desaforado, descarado, folgado, abusado, desabusado, confiado, sem-vergonha, desavergonhado, irreverente, arrebitado, impertinente grosseiro, cínico, desfaçado, desabrido, saído, abelhudo, intrometido, metediço prepotente, pedante, petulante, presumido, pretensioso, presunçoso, arrogante, convencido, metido, marrento, emproado, empolado, afetado, snob, esnobe, topetudo, gabarola, prosa, orgulhoso, vaidoso, vanglorioso, presuntuoso, soberbo.

III – Enxerido

Macaco “enxerido” aboletando os seios da visitante

Pessoa que se intromete em assuntos que não lhe diz respeito ou que não foi convidada. Pessoa metida. Intrusa. Penetra.

Rico em imaginação para a “invencionice” e mais ainda para a deturpação dos significados, o brasileiro nascido tanto no Rio Grande do Sul, em Pernambuco, no Rio de Janeiro, no Ceará ou em São Paulo, vai inventando coisas que, às vezes, só ele sabe o significado.

Poucos sabem com qual sentido o brasileiro rotula alguém de “engolidor de espadas”, e muitos ainda desconhecem o sentido pejorativo do “queimador de roscas”.

Vagina, xereca, priquita, xona, xana, vulva, perseguida, passarinha, periquita, genitália, rachada, priquito, significam a mesma coisa em qualquer lugar do Brasil. No Maranhão, nos últimos anos, inventaram também o tal do “toucinho de porco”.

Da mesma forma, nos bares da vida, detratando a escolha dos baitolas, já toma conta do palavreado, dizer que, certos coloridos “estão fazendo regime, e não comem toucinho”, preferindo paio defumado.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

PIPAS E RAÍZES

I – O FAZEDOR DE PIPAS

Fazendo pipa – “engenharia” infantil

Três palitos e um grande pedaço de linha eram suficientes.

Palitos limpos. O primeiro, em forma de cruz com o principal, este na vertical. Amarrado.

Partia para o segundo, na mesma posição, mas mais abaixo. Também amarrado.

Agora, a linha unia as seis pontas, formando o esqueleto.

Grude de goma, quase sempre feito numa colher aquecida na chama da vela ou na lamparina; papel colorido ou não, colado com grude.

Agora a rabiola, feita com muitos pedaços de pano velho, leves, sempre com mais de dois metros. O cabresto, em diagonal com uma das pontas altas.

Tudo pronto!

Um bom lugar, lugar aberto e muita linha sem cerol, ainda no carretel. Empinando, empinando, empinando.

A pipa está no ar. Bons e fortes ventos. Lanceando, lanceando, lanceando. Velhos tempos.

* * *

II – NOSSAS RAÍZES

Raízes da árvore da vida

Raízes de mim, raízes de ti
Raízes de nós, nossos ramos
Nossas flores, nossos frutos,
Raízes de mim e de ti.
Nossas raízes, raízes de muitos passados
Raízes de nós, nossos ramos
Nossas sombras, nossos frutos
Raízes de mim e de ti.
Nossas raízes, nossas folhas
Raízes de nós, nossas árvores
Nossas sementes, nossos frutos
Raízes de mim e de ti – raízes da vida

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

POUPANÇA – DIA DE MATAR O PORQUINHO

Foi com essa moeda que alimentei meu porquinho pela primeira vez

Nunca soube que existisse neste planeta Terra, alguém mais ingênuo e inocente que uma criança – e, um idoso, não é uma criança “ao contrário”, pois já enfrentou e sabe muitas coisas.

Lembro bem que, certa vez, “chutando latas” (forma antiga que a gente dizia de quem não fazia nada, quando andava pelas ruas) pelo bairro onde conheci adolescência e juventude, encontrei ao lado do meio-fio uma moeda. Não lembro com certeza o ano que isso aconteceu, e, assim, também não lembro qual valor aquela moeda teria na moeda atual.

Como tinha o hábito de ler a revistinha do Pato Donald, aprendendo as travessuras de Zezinho, Huguinho e Luisinho – que nunca procurei saber de quem eram filhos, para serem “sobrinhos” do Donald – sabia da arengas do Pato Donald e de Huguinho, Luisinho e Zezinho com o Tio Patinhas.

Sabia, também por ler as histórias, que Tio Patinhas tinha a sua “moeda da sorte”, princípio de qualquer poupança que certamente levaria à riqueza extrema. Nunca li história dizendo que Tio Patinhas ficou pobre.

E foi na “moeda da sorte” do Tio Patinhas, que me inspirei para começar uma longa e demorada “poupança” – que era sempre interrompida aos domingos, para comprar o ingresso para a sessão de cinema e para comprar as revistas em quadrinhos novas.

Moeda antiga fascinava até os “colecionadores”

Por muito tempo, mesmo tendo que acordar cedo para ir à escola, só conseguia dormir após a chegada do meu Pai. Com ele, vinha também uma moeda diária de qualquer valor – o importante era depositar no cofrinho. Um porquinho de cerâmica comprado no Mercado Central de Fortaleza.

Quando algum valor precisava ser completado para garantir a compra da revistinha, não era tão difícil tirar moedas do cofrinho, sem quebra-lo.

Uma faca era colocada na ranhura, e por ali caíam quantas moedas fossem necessárias para somar o valor desejado – na realidade, o custo da revistinha.

Eis que, certa vez, no dia 30 de abril (data do meu natalício!) ganhei tantas moedas de presente dos tios e tias, avós e amigos dos pais, que consegui encher o porquinho.

Quebrei o porquinho. Eram muitas moedas. Menor de idade, minha mãe não permitiu que eu fizesse o uso que quisesse, do “meu dinheiro”. Ela se encarregou de me levar até uma agência da CEF (Caixa Econômica Federal) e ali, abri uma “Caderneta de Poupança”.

Porquinho quebrado moedas levadas à Caixa Econômica Federal

Continuei amealhando e até comprei outro porquinho onde voltaria a colocar mais moedas. Anos depois, quando fui servir ao Exército Brasileiro (no CPOR de Fortaleza), conheci e me tornei amigo do então Segundo Tenente Raimundo Luiz Bezerra, comandante da minha unidade.

Tenente Bezerra, como o tratávamos, com a nossa autorização abriu uma Caderneta de Poupança na Caixa Econômica Federal para cada um dos seus subordinados. Era o ensinamento do bom caminho.

Cofrinhos da Caderneta de Poupança da CEF

Foi a partir daí que tudo começou. Pedagogicamente, com a leitura das histórias das revistinhas do Tio Patinhas e do Pato Donald.

Nos dias atuais, para alguns, não há mais possibilidade de “ajuntar dinheiro”, nem mesmo como fazia minha falecida Avó – nas cabaças escondidas na camarinha ou nos buracos das paredes de barro.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

PATRIMÔNIO CULTURAL DO BRASIL

São Luís, capital do Estado do Maranhão é um dos melhores lugares para alguém viver. Alguém que não exija tanto de si mesmo e de seus pares.

Rios perenes, clima com variação aceitável – mas que, infelizmente, vem sofrendo com péssimas administrações desde muito tempo.

Os moradores convivem com a extrema pobreza e a única coisa abundante é a “falta de tudo”. Necessidades básicas, falta tudo. Fornecimento d´água é caótico, esgoto sanitário não existe, saúde nem pensar, transporte urbano caótico, ordenações do trânsito, uma verdadeira merda.

Mas, se por um lado falta tudo, a cultura popular é algo abundando e que, como o circo, faz o povo esquecer as necessidades básicas de uma boa saúde pública e de educação beirando o zero.

São fortes três itens da cultura popular: Tambor de crioula, Cacuriá e Bumba-boi. Esse último é tão fortemente envolvente que, alguém que jamais escutou uma “toada” de qualquer sotaque do bumba-boi do Maranhão, sairá dançando e cantando como se vivesse na cidade há anos.

Entre as toadas que viraram sucessos, destaque para “Se não existisse o sol”, cantada pelo “cantador” Chagas da Maioba, que chega a ser apresentada até por sotaques diferentes e “adversários”

Vejamos:

Se não existisse o sol

Chagas – o “cantador” da Maioba

Se não existisse o Sol
Como seria pra Terra se aquecer
E se não existisse o mar
Como seria pra natureza sobreviver

Se não existisse o luar
O homem viveria na escuridão
Mas como existe tudo isso meu povo
Eu vou guarnecer meu batalhão de novo

OBSERVAÇÃO: Atualmente Chagas não faz mais parte do Bumba-boi da Maioba, e mostra sua competência e categoria por outro “sotaque” da Ilha.

* * * 

BARRIGA DE CHORO

Mãe mandando filho “engolir o choro”

Na mais recente oportunidade que estive em Pindaré-Mirim, logo ao término da Piracema, fui comprar uns peixinhos (e só comprei peixinho mesmo, pois o grandes não estavam liberados ainda, haja vista que, eles que desovam) para comer. Comprei piaus, anojados, lírios, mandis, tapiacas.

Comprei passagem para voltar na tarde do dia seguinte. Na noite anterior choveu muito. Choveu tanto, que vi cachorro bebendo água em pé, e tendo dificuldade para nadar em algumas ruas alagadas. Com certeza, a chuva era tão forte que, dez pingos encheriam uma garrafa d´água.

Calçado com essas sandálias das propagandas, tive que tira-las dos pés, para não perdê-las na correnteza que se formava no trajeto de uns 30 metros do bar onde enxugava umas louras, até o carro do cunhado.

Foi naquele momento que viajei, e me vi na infância. Tempos bons. Quando começava a chover – coisa rara na minha Fortaleza dos anos 50/60 – a gente colocava o calção e procurava o primeiro “jacaré”, que em São Luís é chamado de “biqueira”. E tome banho e tome banho.

Quando estava de bom humor, a mãe até levava sabonete e toalha. Quando isso não acontecia, ela bradava:

– Chega! Tá bom! Tá na hora de parar! Tá querendo ficar branco, é?

E eu e os outros irmãos, todos “tremilicando” de frio, com os beiços roxos de tanto banhar, nem nos atrevíamos a reclamar.

– E fique aí mesmo! Não me venha molhar o chão da casa! Não quero mais escutar um pio!

Arre égua! Como era bom aquele tempo. Até mesmo quando a gente apanhava, e era obrigado a escutar:

– Engole o choro! Eu engoli tanto choro, que hoje minha barriga é grande.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A SEREIA DO UNA

Cachoeira do Arruda – lugar paradisíaco

Única capital brasileira fundada pelos franceses a 8 de setembro de 1612, São Luís, quatrocentos e sete anos depois, ainda convive com algumas dúvidas, quanto aos primeiros habitantes.

Ilha, separada do oceano por duas baías (São José e São Marcos) e um rio (Rios dos Cachorros), acabou sendo ponto de referência e objeto de estudos para entendimento de algumas cidades localizadas na própria ilha e outras mais afastadas, mas que formam nos dias atuais a RMSL (Região Metropolitana de São Luís).

Do lado Norte, a Ilha de São Luís (Upaon-Açu) tem sua região metropolitana na cidade de Alcântara separada pela Baía de São Marcos; do lado Sul, separada das cidades de Rosário, Presidente Juscelino, Morros, Axixá e Icatu (esta, a primeira capital do Estado).

As cidades de Presidente Juscelino, Morros, Axixá e Icatu fazem parte da “Região do Munim” – principal rio que banha os quatro municípios através de alguns afluentes. Como o caudaloso rio Una, que é a principal atração turística de Morros.

Conta a história de São Luís que, holandeses, portugueses e franceses foram os principais responsáveis pelas explorações (em todos os sentidos, inclusive os piores) no Estado. Com eles foram trazidos da África, vários escravos que foram os primeiros condutores dos “balancins”, primeiro meio de transporte a funcionar na Ilha, carregado por quatro escravos.

Mas, a história também conta que, provenientes da Bahia, vieram também os indígenas (Tupinambás), que entraram na Ilha com suas embarcações nativas pelas baías de São Marcos e São José.

Os negros, logo depois da assinatura da Lei Áurea, se embrenharam para as cidades mais próximas da capital e ali formaram comunidades, hoje rotuladas de quilombos.

Sem muros, com poucas barreiras impedindo a entrada de quem desejar se estabelecer definitivamente, o Brasil é hoje o país onde, provavelmente, reside a maior quantidade de sírios, libaneses, árabes e, acreditem, espanhóis. E essa gente gosta muito das cidades do interior, onde provavelmente existe mais espaço para todos e são grandes as possibilidades econômicas de crescimento.

A “região do Munim”, no passado, recebeu famílias provenientes da Espanha, destaque para a “Muñoz”, que acabou sendo transformada na atual “Muniz”, que também leva a acreditar numa estreiteza com o nome do rio, “Munim”.

Emancipado a 28 de abril de 1898, Morros tem hoje uma população superior a 25 mil habitantes fixos, número que quase duplica nos fins de semanas prolongados, quando muitos se utilizam do maravilhoso banho do rio Una.

Sua geografia é caracterizada por uma grande quantidade de morros, com lindas paisagens de mata nativa, recoberta por formações vegetais distintas. O município faz parte da bacia do Munim e é banhado pelos rios Munim e seus afluentes: Una, Mocambo, Axuí e outros. Dada a influência das marés que penetra pela foz, o rio é propício para a pesca tanto de água doce como de água salgada e apresenta uma navegabilidade em toda sua extensão no mu nicípio, tornando um atrativo de grande beleza.

O Rio Una possui uma beleza considerável por ter águas límpidas. Seu leito é formado de areia fina, alguns trechos de rochas e pedras; e as suas margens, compostas de uma vegetação exuberante. Podendo ser apreciado tanto em passeios de barcos pequenos ou canoas que levará o visitante também a conhecer outros balneários como: Una do Mato Grosso, Balneário Una dos Paulinos, Balneário do Bom Gosto, Una Grande, trilha ecológica, Una das pedras, Una das mulheres, Una dos escoteiros, Una dos Moraes, Una da Fazenda, Una dos Bois e a cachoeira do Arruda, o mais bonito de todos balneários. Afastada da cidade e de acesso difícil, reservado apenas a carro traciona do, através de trilhas, a cachoeira do Arruda é um lugar paradisíaco, formado por uma pequena queda d’água e piscinas naturais, que proporcionam momentos mágicos a todos que ali chegam.

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Doraleia a sereia que vive na Cachoeira do Arruda

Morros está localizado a poucos quilômetros de Barreirinhas e Paulino Neves, dois municípios maranhenses que abrigam a “Região dos Lençóis”, hoje um dos principais equipamentos de apelo turístico do Maranhão.

Os antigos moradores garantem que, há mais de 150 anos a quantidade de rios que serpenteiam os municípios da região era bem maior, que foi separada pela necessidade da construção de estradas estaduais objetivando acabar com o isolamento das comunidades.

Esses antigos moradores contam, ainda que, descendente de espanhóis, Doralena Muñoz, moça de belos seios, ancas volumosas, cabelos negros e uma pele branca como o luar, conheceu a logo se apaixonou por um jovem negro que se assemelhava com uma pintura de beleza abstrata.

Infelizmente, a família “Muñoz”, hoje abrasileirada para Muniz, não aceitou o relacionamento dos dois. Resoluta, Doralena fugiu para Morros e, para não ser descoberta pelos familiares, passou a se encontrar com o jovem negro no lado formado pela Cachoeira do Arruda, onde banhavam nus.

Descoberta meses depois, Doralena decidiu que não largaria aquela vida e aquele paraíso. Resolveu cometer suicídio, mergulhando na parte mais profunda do lago. Meses e anos depois soube-se que Doralena não morrera. As águas límpidas do Una e da Cachoeira do Arruda a transformaram numa sereia.
Doralena acabou se encantando e transformando em Doraleia, a sereia da cachoeira.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CONCURSO DE DANÇAS

Anúncio de festa dançante na Lapinha

Está definitivamente confirmado que, dançar, nos dias atuais, tem relação muito maior com “malhar” ou “fazer ginástica” que propriamente sentir o prazer da dança ao lado do par.

Nas festas, já são muito poucos os momentos para “dançar a valsa”, seja num aniversário de 15 anos ou num casamento. Poucos sabem dançar.

A moda passou a ser, literalmente, “pular” – que é o que resolveram chamar de “dançar funk”.

Valsas vienenses desapareceram. Samba-canção, bolero, tango, samba, também. Com esses ritmos desapareceram também as famosas danceterias como Elite, onde a gafieira tinha valor inestimável. Acrescentaram à palavra samba, e resolveram chamar de samba-gafieira. Foi o início da caminhada para o desaparecimento.

Agora a moda é “funk”, e já há, também, quem saia de casa não para “dançar funk” – mas para “pular funk”, quase que com a mesma conotação de “pular carnaval.”

Mas, no passado, dançar era outra coisa. Dava prazer e muitos se orgulhavam de saber fazer isso. Eu sempre fui um poste – mas, confesso, na primeira vez que ouvi e vi uma apresentação de bumba-boi, o clima era tão envolvente, que acabei dançando, sem saber.

Participar de uma festa, num clube, onde estivesse tocando uma “Orquestra”, tipo Severino Araújo, Ivanildo, e outras tantas, era uma glória alcançada. Da mesma forma que, sair de casa para ir dançar numa gafieira.

Lembro bem que, naqueles passados anos, esses locais de festas e danças até realizavam concursos para oferecer um troféu e premiação em espécie ao par que melhor dançasse, além de conferir, também, quem dançava melhor de forma individual.

Houve até, na então muito conhecida casa de danças “Lapinha”, na capital paraense, por anos seguidos os concursos de danças. Eram convidados os melhores dançarinos e dançarinas dos estados vizinhos, com todas as despesas de passagens e hospedagens pagas por uma semana. Era importante conhecer a cidade, o clima, ter informações dos concorrentes.

Certa vez, o melhor dançarino de São Luís, Luizinho do Chapéu (apelido fictício) recebeu um convite para participar desse concurso. Não esperou muito para decidir viajar e competir. Após algumas “eliminatórias” chegou o dia da grande final. A final de melhor dançarino, envolvendo um paraense, da tradicional família Malcher e o representante maranhense, de São Luís, Luizinho do Chapéu.

Começada a festa e a disputa, tudo caminhava para uma decisão no cara ou coroa. Mas, o jurado, escolhido a dedo e composto por figuras importantes nas noites paraenses, reparavam em tudo, nos mínimos detalhes. Desde a forma de vestir, de modos de educação, no comportamento pessoal, na forma de beber e até na bebida escolhida durante a competição. Tudo contava ponto.

Sapato “furado” na sola era inaceitável

Como qualquer competição para pessoas, havia também os momentos de descanso e descontração, para garantir o ar de cavalheirismo aos dançarinos.

Eis que, num desses momentos de descontração, Luizinho do Chapéu sentou para ingerir uma bebida e, descontraidamente, cruzou a perna. Ao cruzar a perna, sem se dar conta, Luizinho do Chapéu acabou exibindo o solado do sapato.

E, pasmem, o sapato de Luizinho do Chapéu estava furado. Furado no solado. Foi eliminado na hora e sequer voltou ao salão.

Vitorioso, o representante da família Malcher voltou ao salão apenas para continuar dançando amistosamente, e receber o troféu e a rica premiação.

Como é que alguém que é bom de dança não consegue perceber que o solado do sapato está furado?

No bom maranhensês, “Zulive”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

QUATRO TEMAS PRO DOMINGO

1 – CRESCER E MULTIPLICAR

Família reunida dá pausa na multiplicação

Trabalhar é o caminho e a solução para quase tudo. Inclusive, para esquecer a realidade e as coisas simples que a Natureza divina nos oferece, todos os dias. Muito provavelmente, foi pensando assim, que os gestores públicos do passado criaram “férias” para quem se dedica tanto nas obrigações trabalhistas assumidas e, como castigo disso, acaba esquecendo a família que está construindo.

Felizmente, não era assim que pensava Antônio Luciano, homem rude em todos os sentidos e, felizmente, correto e honesto em todos os seus propósitos – coisa rara neste Brasil que rouba a si próprio – que conseguia ver que, todos os dias têm 24 horas, mas a noite, infelizmente, só têm 8.

E era esse mesmo Antônio Luciano que afirmava com conhecimento prático e acadêmico:

– Se, dessas oito horas da noite a gente aproveitar todo dia, pelo menos duas fazendo malinagens “capatroa”, ela nunca vai sentir dor de cabeça, nem ter tempo para sofrer depressão. A gente economiza na compra de remédios!

Era essa a filosofia do viver de Antônio Luciano, casado de papel passado com a Tia Maria. Tia Maria, teve ano que pariu duas vezes. Uma em fevereiro e outra em dezembro. Se doaram inteiros na “multiplicação”, embalados, nos tempos dos anos 50, pelas sinfonias de cigarras, grilos e corujas.

Fizeram tantos filhos que, certa tarde de domingo, esperando o café com cuscuz depois da madorna do almoço, Antônio percebeu que, no cio, a jumenta Brilhosa aporrinhava o jumento Fabrício, se negando a ter e dar prazer, e resolveu chamar o filho Zé Luciano para soltar a jumentinha. De repente, um rapaz e um menino se postaram na frente dele e, uníssonos disseram:

– Sim, pai!

Pois, eram tantos filhos, que Antônio Luciano esqueceu e, na hora do batizado, repetiu o nome. Dois filhos com o mesmo nome.

E essa foto aí mostra a exata realidade do sertão cearense. O pai se preparando para ir ao trabalho, encostado no jumento; o cachorro pirento e cheio de pulgas todo enrolado, deitado; a mulher prenha, com três filhos pequenos e o mais velho sentado ao lado da mulher que já pariu dois (estranhamente, um moreno e um mais clarinho – não se espantem, pois é que ela bebia muito café durante a gravidez) na despedida do pai.

No sertão, “crescer e multiplicar” não é apenas uma passagem bíblica – às vezes, a interpretação muda de figura, e é feita ao pé da letra, “triplicando”.

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2 – OS PRAZERES DE IPANEMA E HIGIENÓPOLIS SÃO DIFERENTES DE TIMBAÚBA

Moderno “rebolador de barro” de Timbaúba

São muitas as afirmações de entidades envolvidas com a saúde pública, dando conta da escassez e da quase inexistência de saneamento básico na maioria das cidades brasileiras, e a má qualidade operacional desse item na saúde do povo. Virou justificativa cultural, o dizer que, “saneamento básico não aparece, por isso não dá votos, o que justificaria sua inexistência”.

Na minha Queimadas, lembro bem, quando apertava a necessidade de “rebolar o barro fora”, a gente pegava a vara de derrubar manga e caju, um sabugo de milho e se enfiava mata à dentro – a vara era para espantar os porcos e as galinhas. Se não fizesse isso, esses saborosos animais domésticos não deixavam ninguém cagar.

Agora, se a vontade de fazer isso permitisse, não precisava levar a vara. Dava tempo subir na mangueira e, de lá, “atirar merda” nas cabeças dos porcos. Pior mesmo, era o castigo imposto pela Avó: banhar os animais para retirar a bosta. Era muito trabalhoso levar dois porcos para banhar no açude. Eles eram levados soltos e, costumeiramente, se embrenhavam na mata. Era uma luta hercúlea para juntá-los e trazer de volta.

Mas, como toda regra tem exceção, na casa da tia Nezinha, na Timbaúba – um povoado nem tão distante das Queimadas, o luxo era diferente, haja vista que havia dois “water closet” – um, mandado construir na parte externa da casa, logo ao lado da camarinha, com uma porta da qual apenas ela tinha a chave; e outro, no quintal para uso geral – na realidade, um buraco no chão, protegido por um banheiro de palhas de coqueiro.

No bairro Higienópolis, na capital paulista, claro que a realidade é outra. Banheiros modernos, sempre higienizados, duchas íntimas e até equipamentos que, na descarga, transformam o odor insuportável da merda em colônias francesas. Mas, essas são as exceções da regra, e nunca somam nas estatísticas do IBGE.

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3 – A BODEGA E O BODEGUEIRO DO SERTÃO

Uma bodega típica em Simplício Mendes – interior piauiense

Nunca teve lista. É, lista, Aquela relação abestalhada que muitos que querem aparecer levam para os supermercados no dia de fazer a “compra grande” do mês.
Tava tudo ali, decorado na cabeça, por força da necessidade. Biscoito de maisena, sabonete Phebo, essas coisas que a gente comprava quando era no começo do mês e a conta do caderninho ainda estava pequena.

Levava 250gr de pó de café, mil réis de pimenta do reino, mil réis de colorau (quando acabava o que era feito de urucu e vinha do interior), 100gr de banha de porco, 200gr de manteiga real, uma barra de sabão, 1 lata de leite Ninho, 1kg de feijão, 2kg de arroz, 2 kg de farinha, 1 litro de querosene, duas velas das médias, duas latas de sardinhas Coqueiro, 1 lata de Kitut fiambrada e 1 kg de sal. Essa era a compra de casa, anotada no caderninho para pagar quando o “dinheiro do papai saísse”.

A compra da Vovó, era mais ou menos essa aí, mas no lugar do leite Ninho, tinha 1 quarta de fumo em rolo; no lugar das 250gr de pó de café tinha as mesmas 250gr de café, mas em grãos. Não entravam na lista o feijão, o arroz, a farinha e o açúcar. Tudo era colhido na roça e no lugar do açúcar, a gente usava mesmo era a rapadura.

Segredos dos negócios sempre existiram. E um dos segredos guardados sob sete chaves, era a mania que Diógenes da Nêga, bodegueiro lá das beiradas do Açude Novo, na Guaiúba, tinha para comprar alguns itens em maiores quantidades, embora o consumo não fosse tão grande.

Fumo de rolo, charque, pirarucu, camurupim, rapadura, querosene, creolina, banha de porco e óleo comestível de caroço de algodão, eram itens que lotavam sempre a despensa do bodegueiro.

Charque no feijão, quase todo mundo usava, querosene toda casa consumia mais de 1 litro por semana, apenas nas lamparinas, creolina para limpar as bicheiras dos animais e fumo de rolo para suprir os cachimbos. Talvez fosse essa a justificativa dos grandes estoques.

Agora, nunca teve bodega que não vendesse fiado. Ainda que ostentando em muitas prateleiras, aquela placa tradicional de “Fiado só amanhã”!
Hoje tudo é muito diferente, com a chegada dos sacolões, dos pequenos comércios de cereais, das padarias que se triplicaram e, finalmente, com a chegada dos supermercados, sufocando e acabando quase que definitivamente com as bodegas e os bodegueiros.

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4 – ROSÁRIO DOS COQUINHOS

Rosário de coquinho catolé

Coco catolé. Para as crianças, uma divertida brincadeira coroada com a satisfação da alimentação; para outros, uma alimentação, se misturada à outros ingredientes; para outros, a única fonte de renda possível de suprir as necessidades mais prementes.

Em algumas cidades do interior dos estados do Ceará, Piauí, Paraíba e Pernambuco, o “rosário de coco catolé” não permite qualquer associação religiosa. É muito forte entre o brincar comendo alguma coisa e a manutenção cultural descoberta pelos antepassados.

A venda de rosários ajuda na manutenção de famílias, como faz o menino do amendoim torrado nos trens suburbanos do Rio de Janeiro. A extração do óleo comestível e medicinal, tem se transformado numa fonte de renda no alto sertão nordestino, onde prolifera, ainda, a fome – em meio ao cântico dos sabiás.