CONCURSO DE DANÇAS

Anúncio de festa dançante na Lapinha

Está definitivamente confirmado que, dançar, nos dias atuais, tem relação muito maior com “malhar” ou “fazer ginástica” que propriamente sentir o prazer da dança ao lado do par.

Nas festas, já são muito poucos os momentos para “dançar a valsa”, seja num aniversário de 15 anos ou num casamento. Poucos sabem dançar.

A moda passou a ser, literalmente, “pular” – que é o que resolveram chamar de “dançar funk”.

Valsas vienenses desapareceram. Samba-canção, bolero, tango, samba, também. Com esses ritmos desapareceram também as famosas danceterias como Elite, onde a gafieira tinha valor inestimável. Acrescentaram à palavra samba, e resolveram chamar de samba-gafieira. Foi o início da caminhada para o desaparecimento.

Agora a moda é “funk”, e já há, também, quem saia de casa não para “dançar funk” – mas para “pular funk”, quase que com a mesma conotação de “pular carnaval.”

Mas, no passado, dançar era outra coisa. Dava prazer e muitos se orgulhavam de saber fazer isso. Eu sempre fui um poste – mas, confesso, na primeira vez que ouvi e vi uma apresentação de bumba-boi, o clima era tão envolvente, que acabei dançando, sem saber.

Participar de uma festa, num clube, onde estivesse tocando uma “Orquestra”, tipo Severino Araújo, Ivanildo, e outras tantas, era uma glória alcançada. Da mesma forma que, sair de casa para ir dançar numa gafieira.

Lembro bem que, naqueles passados anos, esses locais de festas e danças até realizavam concursos para oferecer um troféu e premiação em espécie ao par que melhor dançasse, além de conferir, também, quem dançava melhor de forma individual.

Houve até, na então muito conhecida casa de danças “Lapinha”, na capital paraense, por anos seguidos os concursos de danças. Eram convidados os melhores dançarinos e dançarinas dos estados vizinhos, com todas as despesas de passagens e hospedagens pagas por uma semana. Era importante conhecer a cidade, o clima, ter informações dos concorrentes.

Certa vez, o melhor dançarino de São Luís, Luizinho do Chapéu (apelido fictício) recebeu um convite para participar desse concurso. Não esperou muito para decidir viajar e competir. Após algumas “eliminatórias” chegou o dia da grande final. A final de melhor dançarino, envolvendo um paraense, da tradicional família Malcher e o representante maranhense, de São Luís, Luizinho do Chapéu.

Começada a festa e a disputa, tudo caminhava para uma decisão no cara ou coroa. Mas, o jurado, escolhido a dedo e composto por figuras importantes nas noites paraenses, reparavam em tudo, nos mínimos detalhes. Desde a forma de vestir, de modos de educação, no comportamento pessoal, na forma de beber e até na bebida escolhida durante a competição. Tudo contava ponto.

Sapato “furado” na sola era inaceitável

Como qualquer competição para pessoas, havia também os momentos de descanso e descontração, para garantir o ar de cavalheirismo aos dançarinos.

Eis que, num desses momentos de descontração, Luizinho do Chapéu sentou para ingerir uma bebida e, descontraidamente, cruzou a perna. Ao cruzar a perna, sem se dar conta, Luizinho do Chapéu acabou exibindo o solado do sapato.

E, pasmem, o sapato de Luizinho do Chapéu estava furado. Furado no solado. Foi eliminado na hora e sequer voltou ao salão.

Vitorioso, o representante da família Malcher voltou ao salão apenas para continuar dançando amistosamente, e receber o troféu e a rica premiação.

Como é que alguém que é bom de dança não consegue perceber que o solado do sapato está furado?

No bom maranhensês, “Zulive”!

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QUATRO TEMAS PRO DOMINGO

1 – CRESCER E MULTIPLICAR

Família reunida dá pausa na multiplicação

Trabalhar é o caminho e a solução para quase tudo. Inclusive, para esquecer a realidade e as coisas simples que a Natureza divina nos oferece, todos os dias. Muito provavelmente, foi pensando assim, que os gestores públicos do passado criaram “férias” para quem se dedica tanto nas obrigações trabalhistas assumidas e, como castigo disso, acaba esquecendo a família que está construindo.

Felizmente, não era assim que pensava Antônio Luciano, homem rude em todos os sentidos e, felizmente, correto e honesto em todos os seus propósitos – coisa rara neste Brasil que rouba a si próprio – que conseguia ver que, todos os dias têm 24 horas, mas a noite, infelizmente, só têm 8.

E era esse mesmo Antônio Luciano que afirmava com conhecimento prático e acadêmico:

– Se, dessas oito horas da noite a gente aproveitar todo dia, pelo menos duas fazendo malinagens “capatroa”, ela nunca vai sentir dor de cabeça, nem ter tempo para sofrer depressão. A gente economiza na compra de remédios!

Era essa a filosofia do viver de Antônio Luciano, casado de papel passado com a Tia Maria. Tia Maria, teve ano que pariu duas vezes. Uma em fevereiro e outra em dezembro. Se doaram inteiros na “multiplicação”, embalados, nos tempos dos anos 50, pelas sinfonias de cigarras, grilos e corujas.

Fizeram tantos filhos que, certa tarde de domingo, esperando o café com cuscuz depois da madorna do almoço, Antônio percebeu que, no cio, a jumenta Brilhosa aporrinhava o jumento Fabrício, se negando a ter e dar prazer, e resolveu chamar o filho Zé Luciano para soltar a jumentinha. De repente, um rapaz e um menino se postaram na frente dele e, uníssonos disseram:

– Sim, pai!

Pois, eram tantos filhos, que Antônio Luciano esqueceu e, na hora do batizado, repetiu o nome. Dois filhos com o mesmo nome.

E essa foto aí mostra a exata realidade do sertão cearense. O pai se preparando para ir ao trabalho, encostado no jumento; o cachorro pirento e cheio de pulgas todo enrolado, deitado; a mulher prenha, com três filhos pequenos e o mais velho sentado ao lado da mulher que já pariu dois (estranhamente, um moreno e um mais clarinho – não se espantem, pois é que ela bebia muito café durante a gravidez) na despedida do pai.

No sertão, “crescer e multiplicar” não é apenas uma passagem bíblica – às vezes, a interpretação muda de figura, e é feita ao pé da letra, “triplicando”.

* * *

2 – OS PRAZERES DE IPANEMA E HIGIENÓPOLIS SÃO DIFERENTES DE TIMBAÚBA

Moderno “rebolador de barro” de Timbaúba

São muitas as afirmações de entidades envolvidas com a saúde pública, dando conta da escassez e da quase inexistência de saneamento básico na maioria das cidades brasileiras, e a má qualidade operacional desse item na saúde do povo. Virou justificativa cultural, o dizer que, “saneamento básico não aparece, por isso não dá votos, o que justificaria sua inexistência”.

Na minha Queimadas, lembro bem, quando apertava a necessidade de “rebolar o barro fora”, a gente pegava a vara de derrubar manga e caju, um sabugo de milho e se enfiava mata à dentro – a vara era para espantar os porcos e as galinhas. Se não fizesse isso, esses saborosos animais domésticos não deixavam ninguém cagar.

Agora, se a vontade de fazer isso permitisse, não precisava levar a vara. Dava tempo subir na mangueira e, de lá, “atirar merda” nas cabeças dos porcos. Pior mesmo, era o castigo imposto pela Avó: banhar os animais para retirar a bosta. Era muito trabalhoso levar dois porcos para banhar no açude. Eles eram levados soltos e, costumeiramente, se embrenhavam na mata. Era uma luta hercúlea para juntá-los e trazer de volta.

Mas, como toda regra tem exceção, na casa da tia Nezinha, na Timbaúba – um povoado nem tão distante das Queimadas, o luxo era diferente, haja vista que havia dois “water closet” – um, mandado construir na parte externa da casa, logo ao lado da camarinha, com uma porta da qual apenas ela tinha a chave; e outro, no quintal para uso geral – na realidade, um buraco no chão, protegido por um banheiro de palhas de coqueiro.

No bairro Higienópolis, na capital paulista, claro que a realidade é outra. Banheiros modernos, sempre higienizados, duchas íntimas e até equipamentos que, na descarga, transformam o odor insuportável da merda em colônias francesas. Mas, essas são as exceções da regra, e nunca somam nas estatísticas do IBGE.

* * *

3 – A BODEGA E O BODEGUEIRO DO SERTÃO

Uma bodega típica em Simplício Mendes – interior piauiense

Nunca teve lista. É, lista, Aquela relação abestalhada que muitos que querem aparecer levam para os supermercados no dia de fazer a “compra grande” do mês.
Tava tudo ali, decorado na cabeça, por força da necessidade. Biscoito de maisena, sabonete Phebo, essas coisas que a gente comprava quando era no começo do mês e a conta do caderninho ainda estava pequena.

Levava 250gr de pó de café, mil réis de pimenta do reino, mil réis de colorau (quando acabava o que era feito de urucu e vinha do interior), 100gr de banha de porco, 200gr de manteiga real, uma barra de sabão, 1 lata de leite Ninho, 1kg de feijão, 2kg de arroz, 2 kg de farinha, 1 litro de querosene, duas velas das médias, duas latas de sardinhas Coqueiro, 1 lata de Kitut fiambrada e 1 kg de sal. Essa era a compra de casa, anotada no caderninho para pagar quando o “dinheiro do papai saísse”.

A compra da Vovó, era mais ou menos essa aí, mas no lugar do leite Ninho, tinha 1 quarta de fumo em rolo; no lugar das 250gr de pó de café tinha as mesmas 250gr de café, mas em grãos. Não entravam na lista o feijão, o arroz, a farinha e o açúcar. Tudo era colhido na roça e no lugar do açúcar, a gente usava mesmo era a rapadura.

Segredos dos negócios sempre existiram. E um dos segredos guardados sob sete chaves, era a mania que Diógenes da Nêga, bodegueiro lá das beiradas do Açude Novo, na Guaiúba, tinha para comprar alguns itens em maiores quantidades, embora o consumo não fosse tão grande.

Fumo de rolo, charque, pirarucu, camurupim, rapadura, querosene, creolina, banha de porco e óleo comestível de caroço de algodão, eram itens que lotavam sempre a despensa do bodegueiro.

Charque no feijão, quase todo mundo usava, querosene toda casa consumia mais de 1 litro por semana, apenas nas lamparinas, creolina para limpar as bicheiras dos animais e fumo de rolo para suprir os cachimbos. Talvez fosse essa a justificativa dos grandes estoques.

Agora, nunca teve bodega que não vendesse fiado. Ainda que ostentando em muitas prateleiras, aquela placa tradicional de “Fiado só amanhã”!
Hoje tudo é muito diferente, com a chegada dos sacolões, dos pequenos comércios de cereais, das padarias que se triplicaram e, finalmente, com a chegada dos supermercados, sufocando e acabando quase que definitivamente com as bodegas e os bodegueiros.

* * *

4 – ROSÁRIO DOS COQUINHOS

Rosário de coquinho catolé

Coco catolé. Para as crianças, uma divertida brincadeira coroada com a satisfação da alimentação; para outros, uma alimentação, se misturada à outros ingredientes; para outros, a única fonte de renda possível de suprir as necessidades mais prementes.

Em algumas cidades do interior dos estados do Ceará, Piauí, Paraíba e Pernambuco, o “rosário de coco catolé” não permite qualquer associação religiosa. É muito forte entre o brincar comendo alguma coisa e a manutenção cultural descoberta pelos antepassados.

A venda de rosários ajuda na manutenção de famílias, como faz o menino do amendoim torrado nos trens suburbanos do Rio de Janeiro. A extração do óleo comestível e medicinal, tem se transformado numa fonte de renda no alto sertão nordestino, onde prolifera, ainda, a fome – em meio ao cântico dos sabiás.

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AFINAL – QUE COMPETÊNCIA E IMPARCIALIDADE TEM QUEM NOS JULGA?

A Justiça já operou glaucoma e catarata

O recente episódio do hacker que “jogou no ventilador” conversas captadas sabe Deus como, pode até não atingir os reais objetivos, tampouco modificar o que posto está, como fato consumado. Na culminância do imbróglio, percebe-se que a intenção da “coisa” é desmoralizar o Ex-Juiz Sérgio Moro e, num desejo muito maior, “derrubar o Presidente Jair Bolsonaro” que, pasmem, poderia ter sido favorecido no pleito eleitoral.

Leigo, não ouso discutir o assunto a fundo. Sou leigo, mas não sou burro.

Dito isso, convido os leitores deste pequeno e reflexivo texto à passear nas publicações das redes sociais apenas por um dia. Juristas até então ditos e tidos como renomados – que vivem julgando processos envolvendo pessoas todos os dias, portanto, decidindo-lhes os destinos – emitindo suas opiniões. Outros, nem tão leigos quanto eu, mas que permitem deduzir que conhecem o assunto, em opiniões e interpretações totalmente diferentes.

Mas, me respondam: os livros, os códigos, os estatutos e, finalmente, as Leis não são iguais? E por que são permitidas as aplicações de sanções diferentes, apenas por que alguém “interpretou” diferente?

Essa seria, por fim, a justificativa para a existências de trezentas mil instâncias e dois milhões de recursos – e os prazos concedidos para esses acabam levando as leis e as aplicações ao descrédito para leigos como eu?

Transcrevo a seguir, quatro parágrafos compilados de estudos bíblicos que poderiam encerrar o assunto, mas ainda hoje há quem discuta:

“Uma das mais falsas interpretações verdadeiros ensinos de Cristo por parte dos defensores da doutrina platônica da imortalidade da alma é uma das últimas mensagens que Cristo trouxe enquanto ainda estava em vida. Segundo os dualistas, o que Jesus disse ao ladrão ao seu lado na cruz foi que estaria naquele mesmo dia com ele no Paraíso: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (cf. Lc.23:43).

O que poucas pessoas sabem, contudo, é que temos muitas evidências de que o ladrão, realmente, não esteve no Paraíso naquele dia. Mas como não? A Bíblia não diz claramente isso? Na verdade, não. O fato é que o original grego não tinha vírgulas, e o texto original assim reza: “Kai eipen autw amhn soi legw shmeron met emou esh en tw paradeisw” (cf. Lc.23,43).

Em primeiro lugar, é bom mencionarmos logo que a adição presente em muitas Bíblias, da palavra “QUE”, não existe nos originais. O que Jesus realmente disse ao ladrão da cruz foi: “Em verdade te digo hoje estarás comigo no Paraíso”. Como o texto original não possui vírgulas e o texto deixa em aberto a questão, poderíamos colocá-la em dois lugares diferentes, entretanto é algo que mudaria completamente o significado da frase.

Esta poderia ser: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (dando a entender que estaria naquele dia no Paraíso com o ladrão da cruz) ou então: “Em verdade te digo hoje, estarás comigo no Paraíso” (ele garantia “hoje” que o ladrão estaria no Paraíso).”

Se o leitor se dignar a ler e observar para formar juízo, vai perceber que, no próprio STF (Supremo Tribunal Federal), há interpretações divergentes para o mesmo crime, e para o mesmo assunto. Mas, poucas opiniões atentam para o fato de que, o “hacker” é um criminoso, e a captação do que conseguiu foi praticando um crime.

Ao que fica evidente, está existindo verossimilhança entre as opiniões pessoais e o que determina a Lei para ser aplicada, independentemente de ser em desfavor de alguém que faz parte do meu círculo de amizade e interesses.

Afinal, “Lei” é para ser interpretada, discutida ou aplicada?
E o que se pretende dizer, quando se diz: “Lei não se discute. Cumpre-se”?

E, a partir de então, qual passa a ser o real significado do termo, “notável e reconhecido saber jurídico”, assomado nas arguições de valores e competências pelo Senado para aprovar ou não determinada indicação?

O sapo cururu que minha falecida Avó criou por muitos anos, arregalando os olhos e lançando aquela língua pegajosa para captar mosquitos e moscas, com certeza diria que, “isso tudo aí tem um único objetivo – tapar o sol capeneira para o povo se desligar das mudanças na Previdência Social.”

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A ECHARPE

Echarpe Pashmina – preferência de Clay Dolores

Clay Dolores, era o nome da moça. Cerca de 1,80m servindo de mural para uma jovem de rara beleza, pele mais macia que a própria seda, sem jamais fugir da moda vigente, e uma conta bancária que contrastava com a sua magreza elegante.

Linda! Uma jovem mulher linda!

Olhos pequenos e azuis, semelhantes aos olhos da loba branca vivendo e aparecendo furtivamente nas matas geladas do Alasca – desses aparecimentos que, ainda que não anunciados por trombetas, chamam e merecem atenção até dos pássaros que conseguem sobrevoar as áreas conservadas pela Natureza.

Herdeira, consciente que seria um dia a principal responsável pelo conglomerado empresarial que os pais construíram, num desses passeios de gôndolas por Veneza, conheceu “Raimundo”, um paraibano de Sapé – e por ele se apaixonou.

Raimundo era plantador de abacaxis em Sapé – um fruto que mais parece um torrão de açúcar, que consegue ser mais doce mais vezes que o abacaxi de Turiaçu – e certo dia cansou daquela labuta diária do plantio.

Vendeu parte do que tinha na agricultura familiar, pegou duas ou três cuecas, uma calça jeans rasgada no joelho, muito mais pelo uso que por moda, conseguiu a emissão do passaporte e entrou para um projeto de trabalhar como garçom em Veneza. Enquanto esperava o visto e a resposta do Consulado, estudou o básico do italiano nas 24 horas do dia.

Recebendo o visto, Raimundo chegou dias depois em Roma, e sequer esperou pela bênção do Papa. Num pulo só, mudou para Veneza e, em poucos dias já trabalhava na cozinha de um propagado restaurante, como Auxiliar.

Como era esforçado e não demorou a conhecer os melhores “cicchetti! (tiragosto em italiano), passou a trabalhar como Garçom. Surgia ali a oportunidade de contatos, de vivência e de conhecer melhor a cidade que o fez abandonar em definitivo a sua Sapé.

Foi exatamente quando trabalhava no “Vecio Fritolin”, um dos melhores bares e restaurantes de Veneza, que Raimundo teve o primeiro contato com Clay Dolores, à quem serviu o maravilhoso vinho “Tramin”. A gentileza com que Raimundo serviu a cliente, acabou cativando Clay, e uma nova e boa amizade estava formada.

Encontros em dias de folga. Passeios e convivência que acabaram levando a outro tipo de envolvimento. Algo forte, seguro e com perspectivas de boa culminância. Como dizia minha falecida Avó, passaram a transar oficiosamente.

Eis que, em pleno período invernoso, quando a echarpe é mais útil que a calcinha, Clay Dolores recebeu um comunicado familiar, solicitando sua presença sem demora – problema grave de saúde na família.

Em meio às tantas preocupações e soluções imediatas, Clay Dolores não demonstrava tanta aflição, preocupada exclusivamente com quem deixara momentaneamente em Veneza, em meio a tanta alegria de viver, bons vinhos, bons restaurantes e gente bonita. A vida – pelo menos a dela – enfim!

Em segredo familiar, foi quase que obrigada a revelar o motivo de tamanho alheamento pela situação presente, em detrimento dos momentos vividos em terras italianas. A certeza da felicidade pessoal lhe deu coragem e essa a levou à revelação:

– Estou amando. Literalmente apaixonada. Me sentindo mulher completa, gente, feliz!

– E, podemos saber quem é esse príncipe? Indaga a aflita Mãe.

– É uma criatura ma-ra-vi-lho-sa. É o Bill!- Mas, filha, o Bill que está ao seu nível, é o Bill Clinton! E esse é casado com a Hillary! Afirma, ainda mais preocupada, a Mãe.

– Não “mama”! Na realidade, Bill é um tratamento carinhoso. É o Raimundo!

– Rai, o quê? Quase tendo um infarto, incrédula pela paixão da filha, quer saber mais a Mãe.
– “Mama”, é uma história muito longa. Coisas do amor que a vida nos prepara.

Clay Dolores a empresária salva pela echarpe

O doente da família, hospitalizado havia dias, não resistiu muito e acabou atendendo chamado do Criador para voltar ao barro. Passados alguns dias, missas de encomenda da alma, apoio espiritual à viúva, Clay Dolores retorna à Veneza para chorar no ombro do agora, Bill.

Passado aquele período de luto e sofrimento, a vida precisava ser tocada e o funcionamento do conglomerado de empresas tinha que voltar ao normal.

O toque da campainha na residência de Clay, a fez levantar do confortável sofá, abrir a porta e receber uma mensagem:

– Volte, imediatamente. Preciso de você, pois perdi forças e vontade de viver!

A intimação, na realidade, era para que Clay Dolores assumisse o comando das decisões empresariais, que não poderiam ficar sem direção e sem um norte.

Mas, havia Bill. E a relação com ele era mais forte. Era a sua vida que estava sendo dividida.

Clay arrumou apenas uma das muitas malas, com poucas roupas e a intenção de demorar muito pouco. O destaque na mala, uma echarpe “Pashmina”, uma das menos usadas na Itália, por conta do alto custo. A facilidade e rapidez do transporte a levou de volta à casa em poucas horas.

As conversas entre Mãe e filha aconteciam dentro de uma normalidade, de acordo com a casualidade. A mãe, enfim, se interessou por saber mais detalhes sobre Bill, ou, Raimundo.

Clay não tinha motivos para esconder detalhes, haja vista que a situação financeira do namorado muito pouco ou quase nada lhe interessava – o que ela queria e amava, era ele, o sujeito. Para ela, provavelmente, o primeiro e único amor verdadeiro de sua vida.

– Mãe, ele é um homem simples, trabalhador, honesto e muito carinhoso. É Garçom!

– O quuuêêê?

Como poderia, uma jovem com tamanha estrutura patrimonial, com dinheiro para ser consumido por cinco ou seis gerações, se bem administrado, se apaixonar por um Garçom?

– Volte hoje ainda e, por respeito, termine esse relacionamento e venha cuidar do que construímos durante anos para você.

Clay Dolores pegou a mesma bagagem que trouxera e saiu de casa. Em vez de voltar para Veneza e cumprir o desejo da matriarca, foi para Torino, mais distante de tudo. Entregou-se literalmente à bebida e a vulnerabilidade psicológica acabou por leva-la às drogas.

Viciou-se. Tornou-se dependente das drogas químicas. Suas contas bancárias rarearam e algumas tiveram saldos zerados. Nunca mais se comunicou com a mãe – e preferia não ter que encontrar Bill para não ter que contar-lhe o que a mãe lhe impusera.

Dormir nas sarjetas passou a ser sua melhor hospedagem. Nenhuma alimentação, nenhum banho, nenhuma comida. Só droga, droga e mais droga. Chegou a um avançado estágio de anorexia.

Por outro lado, a família começou a se preocupar. Telefonemas, mensagens de todos os tipos, e nada de resposta. Parentes mais próximos foram até Veneza, em vão. Continuaram as buscas e a procura, agora também por “Bill”, o Garçom.

Bill não existia. Era um tratamento carinhoso entre os dois, Clay Dolores e Raimundo. Nenhuma notícia. De ninguém. A Itália começou a ser literalmente “revirada” com distribuição de fotos por todas as instituições de segurança e hospitais. Nada. Nenhuma pista.

Como que estivessem esgotando todas as formas de procura e investigação, a Polícia italiana resolveu investigar as compras feitas através do cartão de crédito.

Alguns anos atrás – seis, para ser mais preciso – a emissão de uma venda estranha, principalmente pelo valor pago por uma única peça: uma echarpe.

Com a informação foi criada uma nova pista, e quem passou a ser procurada foi “a moça da echarpe”. Echarpe Pashmina, peça fabricada com lã e seda pura, com a qual os usuários se protegem do clima frio exagerado.

As buscas continuaram, agora com novas pistas. Até que, numa vivência comunitária de drogados com dependência química em Torino, foi encontrada uma jovem, já não tão jovem por conta do uso das drogas, que, para se proteger do frio, continuava usando uma echarpe. Echarpe Pashmina. Era Clay!

Após meses seguidos de tratamento intenso, Clay Dolores condicionou sua volta para casa, e para o gerenciamento dos negócios da família, com a aceitação de Bill, agora como seu marido.

Novas buscas em Veneza, agora para encontrar “Bill”, digo, Raimundo. No restaurante “Vecio Fritolin”, onde acontecera o primeiro encontro de Clay com o então Raimundo, mais tarde “Bill”, foi dada a informação que, Raimundo voltara para o Brasil, mais propriamente para Sapé, para gerenciar uma fábrica de beneficiamento de abacaxis, que havia sido comprada por uma família de italianos.

Como o comprador italiano falecera poucos anos atrás, ……. bem, aí já é outra história.

* * *

Este é um dos 50 contos que comporão meu segundo livro, “Cinquenta contos de réis” que está em fase de conclusão.

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PAPUA GUINÉ – E A SÍNDROME DE DOWN

A charge desse gênio Sponholz diz tudo da “evolução”

Lembro que foi lá pelos idos dos anos 60, ou pouco antes, quando cursava o terceiro ano ginasial, que comecei a ler e estudar com vontade a natureza, o homem e, num todo, as Ciências Naturais. Foi naquele ano que, pela primeira vez ouvi o nome Charles Darwin – teórico da evolução humana.

Começando a entender alguma coisa daquilo que o professor ensinava (e conseguia!), perguntávamos ao Mestre (“tio” é coisa de abestalhado – além de ser, normalmente, irmão do meu pai ou da minha mãe), desde quando e de onde se tinha informações concretas dos primeiros homens, depois, claro, de Adão e Eva.

“Na Papua Guiné”! Respondeu o Professor. E aquela informação ficou gravada e permanece até hoje. Ninguém discutiu a veracidade ou não. Mais uns anos, e entramos nos estudos da Antropologia, dessa feita, já na Universidade, mais propriamente no curso de Filosofia. Chegara a hora de estudar o “Homo Sapiens” – a “Mulher Sapiens” teria sido coisa inventada pela ensacadora de vento.

Vendo e convivendo com tudo isso, todas essas teorias, mudanças e estagnações dos jovens que cada dia mais se transformam em idiotas úteis (e, alguns, até inúteis), li há poucos dias uma informação, não lembro onde. Na verdade, eu não quis gravar na memória, como gravei naquele dia que o Professor informou para a classe, que as notícias mais antigas da existência do Homem, eram da Papua Guiné.

Foi naquele dia, também, que o Professor nos disse: “com problema no aleitamento, e entendendo que o bebê precisava comer algo sólido, a mãe mastigava o alimento disponível, e colocava na boca da criança. Como fazem alguns pássaros.”

Duas informações recentes, não sei se as mesmas: um homem, provavelmente pai biológico, teria abusado sexualmente de uma filha portadora da Síndrome de Down. Depois, soube-se ser verdadeira a informação, mas foram preservadas as identidades dos envolvidos.

E aí eu pergunto: que merda de “evolução humana” foi essa? O que é que é para fazer com um FDP desses? Sei. Prender uns dias, colocar uma tornozeleira, e liberar para ir embora. E, se preso for por condenação, soltar temporariamente para visitar a filha no Dia dos Pais.

E tem quem ache que, mudando o Presidente, um país como o Brasil consegue resolver seus problemas.

* * *

A RESSURREIÇÃO DO PADRE

Manoel dos Santos Neto recebendo premiação de um concurso literário

Escrever não é algo que possamos classificar de “fácil”. Tanto quanto tocar piano, jogar futebol, pintar quadros de forma diferenciada e qualificada, “escrever” é um dom divino. Escrever de forma que todos que leem entendam, gramaticalmente correto, e sem que seja necessário consultar dicionários para compreender os significados das palavras, é algo divino que coroa a busca do fazer sempre o melhor com responsabilidade.

Pois, é assim que faz o Jornalista MANOEL DOS SANTOS NETO, com absoluta certeza um dos mais completos profissionais da área, no Maranhão. Responsável, correto, honesto em defesa da verdade e da qualidade da palavra. E mais: simples, como deveríamos ser todos nós.

Nesse foco de responsabilidade, “MANOELZINHO” – como os da intimidade do dia a dia do trabalho o chamam – pesquisou, escreveu, e com toda responsabilidade e domínio de conhecimento, lança na noite dessa sexta-feira, 31 de maio, o livro resultado de um trabalho minucioso de sua autoria, retratando a vida religiosa e literária do falecido padre João Mohana – “A ressurreição do padre”.

Com tintas fortes do sucesso que certamente será, e da qualidade responsável do autor, o lançamento vai acontecer na Livraria AMEI (Associação Maranhense de Escritores Independentes), onde todos poderão adquirir um ou mais exemplares dessa obra que, com certeza, é mais um pedaço na estrada que está levando “MANOELZINHO” à Academia Maranhense de Letras, num futuro bem próximo.

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EVITA – O MUSICAL

Elenco do musical Evita

Sabe aqueles momentos que marcam a gente – mais que qualquer e definitiva tatuagem?

Pois foi. Vi, numa semana só, três vezes o mesmo musical, e, embora fossem a mesma coisa, a cada dia uma emoção diferente. Como se estivéssemos em Buenos Aires, vivendo e convivendo com tudo aquilo que aqueles anos nos impuseram. A vida de Evita Perón!

Todas as apresentações, com o Teatro João Caetano superlotado, ainda que com os ingressos vendidos de forma antecipada, e cada um respeitando o direito do lugar do outro.

Ao final de cada apresentação, os acordes nos levavam à cantar juntos, fazendo daquilo um verdadeiro coral.

Fantástico! Às vezes, viver ou morar no Rio de Janeiro tem suas vantagens.

Não Chores por Mim Argentina – CláudIa

Será difícil de compreender,
Que apesar de estar hoje aqui,
Eu sou povo e jamais poderei me esquecer,
Peço me creiam,
Que os meus luxos apenas disfarçam,
Mais nada que um jogo burguês,
São regras do cerimonial,

Eu tinha que aceitar, então mudar,
E deixar de viver sem ilusão,
Sempre atrás da janela sempre
Atrás do portão.
Busquei ser livre,
Mas eu jamais deixarei de sonhar,
Que um dia irei merecer o amor
Que sentem por mim.

Não chores por mim Argentina,
Minha alma está contigo,
A vida inteira eu te dedico,
Mas não me deixes. Fica comigo,
Jamais o poder ambicionei,
Mentiras falaram de mim,
Meu lugar é do povo
A quem sempre eu amei,
Eu só desejo sentir bem de perto
O seu coração batendo por mim com fervor,
Que nunca…

Não chores por mim Argentina,
Don’t cry for me Argentina,
The truth is I never left you
All through my wild days,
My mad existence
I kept my promise,
Don’t keep your distance
Eu falei demais, mas foi só pra convencê-los
Desta verdade, se ainda querem duvidar,
É só pra dentro de mim, meu olhar…

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ALCÂNTARA – ALÉM DO CLA

Pomba branca da Paz – símbolo da Festa do Divino

Situada numa Ilha marítima e fundada em 8 de setembro de 1612, São Luís, capital do Maranhão tem características diferentes de algumas capitais brasileiras que estão situadas na orla marítima. O mar que banha São Luís tem marés também diferentes durante todo o ano e, durante a “sizígia” sofre bastantes danos. O mar lhe proporciona, além de todas essas diferenças da Natureza, um convívio nada benéfico com a quantidade de salitre, elemento que lhe destrói uma quantidade significativa de elementos metálicos usados na construção civil.

Mas isso não é tudo. A Ilha de São Luís está localizada entre as baías de São Marcos e de São José, garantindo à capital o privilégio da navegação, às não tão boa por conta das altas e baixas das marés. Do lado da baía de São José, está a cidade de Icatu, fundada no dia 10 de abril de 1614, primeira capital do Maranhão. Do lado da baía de São Marcos, está a cidade de Alcântara, com nuances ligadas à história do escravismo brasileiro, fundada em 22 de dezembro de 1648. É nessa região de Alcântara, mormente nos municípios vizinhos, Guimarães, Mirinzal e Bequimão que estão fincados em maior número, os quilombos. Todos, e sem exceção, resquícios da escravidão.

Dito isso, é impossível ficar definitivamente desvencilhado do passado. Trazidos pelos portugueses anos antes, que chegaram para expulsar os franceses da convivência com os índios tupinambás, escravos negros foram utilizados de qualquer jeito como reforços aliados da coroa portuguesa na expulsão dos franceses. Asssim era comum que, após a saída dos portugueses, os que ali ficaram com os benefícios da Lei Áurea, se expandissem e mudassem para municípios limítrofes, levando consigo também alguns hábitos culturais. E não foi diferente com a religiosidade.

Alcântara é um município que nos dias atuais faz paprte da da Região Metropolitana de São Luís. Tem uma população estimada de 21 652 habitantes, segundo o censo de 2014 processsado pelo IBGE.

A povoação foi elevada a vila de Santo António de Alcântara em 1648, tendo sido sede da Capitania de Cumã. Durante o período colonial, foi um importante centro agrícola e comercial. No século XIX, a cidade entrou num período de decadência, permanecendo como testemunho do seu período áureo o acervo arquitetônico de seu Centro Histórico, tombado pelo IPHAN, em 1948.

Fiéis conduzem o “mastro” em sacrifício

Pois, em 1982, o governo brasileiro construiu em Alcântara, um centro espacial do qual são lançados os veículos lançadores de satélites no âmbito da Missão espacial completa brasileira. É o CLA – Centro de Lançamento de Alcântara. Na América Latina, o CLA é o único concorrente do Centro Espacial de Kourou situado na Guiana Francesa, mas, ao contrário deste, o centro espacial brasileiro não opera lançamentos constantes em razão de atrasos logísticos e tecnológicos.

“A origem remonta às celebrações religiosas realizadas em Portugal a partir do século XIV, nas quais a terceira pessoa da Santíssima Trindade era festejada com banquetes coletivos designados de Bodo aos Pobres com distribuição de comida e esmolas. Tradição que se cumpre em algumas regiões de Portugal. Há referências históricas que indicam que foi inicialmente instituída, em 1321, pelo convento franciscano de Alenquer sob proteção da Rainha Santa Isabel de Portugal e Aragão.

A celebração do Divino Espírito Santo no planeta teve origem na promessa da rainha, D. Isabel de Aragão, por volta de 1320. A Rainha prometera ao Divino Espírito Santo peregrinar o mundo com uma cópia da coroa e uma pomba no alto da coroa, que é o símbolo do Divino Espírito Santo, arrecadando donativos em benefício da população pobre, caso o esposo, o rei D. Dinis, fizesse as pazes com o filho legítimo, D. Afonso, herdeiro do trono. De acordo com os documentos, D. Isabel não se conformava com o confronto entre pai e filho em vista da herança pelo trono, pois era desejo do rei que a coroa portuguesa passasse, após sua morte, para seu filho bastardo, Afonso Sanches. Diante do conflito, a rainha Isabel passou a suplicar ao Divino Espírito Santo pela paz entre seu esposo e seu filho. A interferência da rainha teria evitado um conflito armado, denominado a Peleja de Alvalade.

Caixeiras do Divino Espírito Santo em Alcântara

Essas celebrações aconteciam cinquenta dias após a Páscoa, comemorando o dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu do céu sobre a Virgem Maria e os apóstolos de Cristo sob a forma de línguas como de fogo, segundo conta o Novo Testamento. Desde seus primórdios, os festejos do Divino, realizados na época das primeiras colheitas no calendário agrícola do hemisfério norte, são marcados pela esperança na chegada de uma nova era para o mundo dos homens, com igualdade, prosperidade e abundância para todos.

A devoção ao Divino encontrou um solo fértil para florescer nos territórios portugueses, especialmente no arquipélago dos Açores. De lá, espalhou-se para outras áreas colonizadas por açorianos, como a Nova Inglaterra, nos EUA, e diversas partes do Brasil.

No Maranhão, o culto ao Divino Espírito Santo teve início com os colonos açorianos, portugueses e seus descendentes, que desde o início do século XVII chegaram para povoar a região. A partir de meados do século XIX, a tradição da festa do Divino começou a estar firmemente enraizada entre a população da cidade de Alcântara, de onde se espalhou para o resto do Maranhão.

Portal (Altar) do Divino Espírito Santo em Alcântara

Hoje, a devoção ao Divino é uma das mais importantes práticas religiosas do Maranhão, a festa, igualmente a que ocorre em Paraty (Rio de Janeiro) seja talvez uma das mais tradicionais de todo o território brasileiro, conservando ainda à risca aspectos do período colonial, mobilizando a cada ano centenas de pessoas em todo o Estado. Embora possa envolver gente de todos os extratos sociais, quase todos os participantes são pessoas humildes, de baixo poder aquisitivo, que se esforçam para produzir uma festa rica e luxuosa, onde não podem faltar as refeições fartas, a decoração requintada e caras vestimentas para as crianças do império (ver abaixo). Por se tratar de uma festa longa, custosa e cheia de detalhes, sua preparação e realização levam vários meses e envolvem muita gente, construindo assim uma grande rede de relações entre todos os participantes.

Toda a festa do Divino gira em torno de um grupo de crianças, chamado império ou reinado. Essas crianças são vestidas com trajes de nobres e tratadas como tais durante os dias da festa, com todas as regalias. O império se estrutura de acordo com uma hierarquia no topo da qual estão o imperador e a imperatriz (ou rei e rainha), abaixo do qual ficam o mordomo-régio e a mordoma-régia, que por sua vez estão acima do mordomo-mor e da mordoma-mor. A cada ano, ao final da festa, imperador e imperatriz repassam seus cargos aos mordomos que os ocuparão no ano seguinte, recomeçando o ciclo.

A festa se desenrola em um salão chamado tribuna, que representa um palácio real e é especialmente decorado para este fim. A abertura e o fechamento desse espaço marcam o começo e o fim do ciclo da festa, durante o qual se desenrolam as diversas etapas que, em conjunto, constituem um ritual extremamente complexo, que pode durar até quinze dias: abertura da tribuna, busca e levantamento do mastro, visita dos impérios, missa e cerimônia dos impérios, derrubamento do mastro, repasse das posses reais, fechamento da tribuna e carimbó de caixeiras.

Entre os elementos mais importantes da festa do Divino estão as caixeiras, senhoras devotas que cantam e tocam caixa acompanhando todas as etapas da cerimônia. As caixeiras são em geral mulheres negras, com mais de cinquenta anos, que moram em bairros periféricos da cidade. É sua responsabilidade não só conhecer perfeitamente todos os detalhes do ritual e do repertório musical da festa, que é vasto e variado, mas também possuir o dom do improviso para poder responder a qualquer situação imprevista.”

Os últimos nove parágrafos foram compilados do Wikipédia.

Neste ano de 2019, os festejos do Divino Espírito Santo, em Alcântara, Maranhão, acontecem a partir do dia 29 de maio, se prolongando até o dia 9 de junho. Em outros municípios maranhenses onde os festejos também acontecem, as datas serão diferentes.

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CEBOLINHA & ALENCAR – ARTILHEIRO DE FUTEBOL TEM QUE NASCER EM MARACANAÚ

Everton “Cebolinha” o cearense artilheiro do Grêmio/RS

Aquele corte especial do cabelo diz tudo. Quem vê o serelepe Everton vestindo a gloriosa camisa do Grêmio de Porto Alegre, fica feliz com a desenvoltura do atacante, incrédulo com o apelido de “Cebolinha” (mas, entende por conta do corte de cabelo especial), além de apostar todas as fichas numa provável convocação para as disputas da Copa América pela seleção brasileira de futebol.

Com certeza, é olhando adiante, que Renato Portaluppi libera Everton para a flutuação em quase todas posições do ataque gremista, aparecendo, literalmente, em qualquer lugar do campo e se posicionando bem para o arremate ao gol. Todas as posições – mas, voltado exclusivamente para um bom posicionamento na hora da conclusão ao gol adversário. Isso tem feito do “Cebolinha” o principal jogador do time gaúcho.

Nascido em Maracanaú, antigo povoado transformado em Município nos anos 40/50, e hoje integrante da RMF (Região Metropolitana de Fortaleza), Everton tem sido o melhor jogador do tricolor gaúcho, mormente quando Luan enfrenta fase de rendimento negativo.

Cebolinha “detona” os adversários gremistas

Pois, saibam meus amigos seguidores que, esse nome estranho, Maracanaú, foi um pródigo povoado de relevante importância para os cearenses. Ali, durante anos, funcionou um hospital para recuperação de tuberculosos, quando essa doença causava preocupações para os gestores da saúde.

Além disso, foi ali onde nasceram alguns jovens, que, jogando futebol, se tornaram artilheiros famosos. Lembro de Wellington, um traquinas jogador que foi meu contemporâneo no Liceu do Ceará, na mesma sala e estudando juntos por sete anos. Wellington foi artilheiro no Ferroviário dos bons tempos, e depois, no meu Ceará Sporting.

Alencar (Joaci) artilheiro no Ceará, no Bahia e no Palmeiras

Foi em Maracanaú que nasceu, também, um dos maiores artilheiros do futebol brasileiro, iniciando no Ceará Sporting, passando para o Esporte Clube Bahia, depois Palmeiras e, finalmente, Ferroviária de Araraquara, onde encerrou a carreira, antes de retornar para a Bahia, onde faleceu.

Pois, Alencar, que nada tinha de Alencar, pois nasceu Joaci, foi campeão brasileiro pelo Bahia, enfrentando e derrotando o então fabuloso Santos, com Pelé e demais gênios do futebol brasileiro, dentro da Vila Belmiro, com os gols da vitória sendo de autoria do cearense “Alencar” – e esse feito garantiu sua contratação pelo Palmeiras.

Alencar formando no Esporte Clube Bahia

Na foto anexada acima, o atacante cearense Alencar (Joaci) é o segundo agachado da esquerda para a direita. Está entre Marito e Léo. Destaques, ainda, do campeão baiano e brasileiro, o lateral-direito Leone, o zagueiro Henrique e o ponta Biriba.

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PARECIDO E O BESOURO

“Parecido” fingindo dormir

A casa era pobre de mobília. Nem mesmo aquela tradicional cristaleira para acomodar um bule, uns copos que pareciam de luxo e de cristal, um açucareiro e uma leiteria. Se não tinha cristaleira, para que ter essas coisas?

Mas, havia sim um cambito e, pousado sobre ele, uma sela que vez por outra Vovô usava no cavalo quando amanhecia o domingo com vontade ir à Missa. Nos armadores da sala, ficavam penduradas as esporas e os arreios das montarias.

Agora, destacado mesmo, num dos cantos da sala da casa, principalmente onde menos o sol “batia”, ficava o altar do pote – coberto com uma peça feita de renda; logo ao lado, um porta-caneca.

Em que pese o tamanho do pote, o maior espaço era reservado para “Parecido” – um sapo que minha Avó resolveu adotar e criar, na tentativa que moscas, mosquitos e outros insetos caíssem dentro do pote, apesar desse estar sempre coberto.

Pois, “Parecido” era uma figura. Devia ter parentesco próximo com alguma coruja, pois olhava, olhava e olhava muito para a gente, e nunca “dizia” nada. Calado que só, ainda que na linguagem que usava para se comunicar. Aquela língua pegajosa e comprida jogada para fora duas vezes, era o sinal característico de que alguma coisa estava acontecendo, com ele, ou com alguém da casa.

Quando jogava a língua para fora três vezes ou mais, era um desespero. Era, claramente, algum pedido de socorro. Na forma de falar deles, os sapos.

Vovô precisava concluir a limpeza de uma área no roçado, onde pretendia plantar umas ramas de batata doce. Após a limpeza, para garantir que algumas pragas terrenas não se alojariam ali, resolveu fazer uma coivara com o material que havia roçado. Tocou fogo. O fogo espantou os insetos, e, entre esses, aquele famoso besouro “rola-bosta”. (Digitonthophagus gazella é um besouro rola bosta, coprófago que pertence à família Scarabaeidae. Esta espécie tem grande importância econômica, pois foi introduzida em todo o mundo para controle biológico de mosca-dos-chifres e melhoria de pastagens.)

Besouro rola-bosta na sua tarefa incansável

Depois do fogaréu imposto à coivara, seria difícil encontrar lugar “mais fresco” que o pé do pote da casa da Vovó. A Natureza é sabia, e transmite aos insetos a sua sabedoria na luta pela sobrevivência.

E o besouro, sem perder tempo, deu um voo rasante para o lugar adequado. Infelizmente, não contava que, o pé daquele pote era guardado por “Parecido”, o sapo cururu da estima do meu Avô.

Claro que o besouro não teve sucesso. Antes mesmo de pousar no barro úmido do pé do pote, foi agarrado por aquela língua grande e pegajosa de “Parecido”, o sapo vigia.

Qualquer besouro, ao ser tocado, emite um odor insuportável. Quando “Parecido” se deu conta, o besouro já estava chegando no intestino grosso dele.

E agora?

Quem conhece sapo cururu, sabe que não é qualquer coisa que “consegue passaporte de saída”. Se um trem passar por cima de um sapo cururu, ele expele tudo pela boca – pelo ânus, nadica de nada fora da hora apropriada. Nem vento!

Foi só então, passados alguns minutos, que, ao tentar beber água, Vovó percebeu a aflição de “Parecido”, lançando a língua pegajosa várias vezes (foram tantas, que nem deu para contar). Olhos arregalados, quase saindo da órbita.

E, rola-bosta, quando encontra o material preferido, faz desacertos quando começa trabalhar.

E agora?

Fazer o que, se pelo lugar comum em outros seres vivos, jamais o besouro sairia.

Resultado da faina: amigo é para qualquer hora. Na tentativa de aliviar o sofrimento de “Parecido”, Vovô pegou uma bengala feita de jucá e, preferiu sacrificar “Parecido”, em vez de vê-lo sofrer tamanho aperreio.

DETALHE: Por que o sapo recebera o nome de “Parecido”? Por que, em represália, o sapo tinha uma aparência com um antigo namorado de minha Avó. Era assim que Vovô e Vovó se tratavam.

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O CHEIRO DO SARRO DE CACHIMBO

Um pequeno cantil ajudava encher os tonéis

Com certeza, eu sou um dos poucos netos entre alguns criados pela Avó, que não viraram baitolas ou contraíram os vermes da idiotice. Sempre gostei dos paparicos, mas, quando ela os fazia em mim, logo desencaminhava qualquer sintoma de viadagem.

Hoje, ser baitola, gay, frango, xibungo é a coisa mais normal e está virando moda. Os assumidos, quando isso acontece, dizem que saíram do armário. E tudo começa em casa. É ali, com o apoio velado de alguns pais (pai/mãe) que a semente da viadagem brota e cresce.

Nunca ninguém vai me convencer que, “queimar rosca” pode levar alguém a sentir prazer. Tem quem goste, sei disso.

Pois, no auge da vovozagem (esta palavra estou inventando agora e quero dar o mesmo sentido de paparicagem), eu sentia sim, prazer em deitar a cabeça na perna esquerda dela, ambos sentados no chão da latada na frente da casa, sentindo aquele cheiro maravilhoso do sarro do cachimbo de barro que ela carregava sempre no bolso esquerdo do vestido. Eu até adormecia ali tomando cafunés.

Mas, logo que eu terminava de tomar o desjejum, escutava aquela voz de comando vinda da cozinha:

– Fiii, cherôso, vá buscar um camin d´água prumode eu lavá a lôça, vá!

A “lôça” (louça) nada mais era que, alguns poucos pratos de barro, uma panela também de barro, uma panela velha de alumínio toda amassada, umas colheres que, de tão velhas e usadas pareciam espátulas, e umas duas ou três canecas de alumínio que usávamos para beber água do pote.

Na verdade, o “camin d´água” era, trazer do açude, que ficava distante da cassa uns 2 mil metros, três tonéis cheios. Para isso, eu precisava preparar o jumento “Beiçudo”, colocando os cambitos – o que acabaria inviabilizando a montaria e me obrigando a ir caminhando pela boa distância – para facilitar o transporte do líquido.

E lá vinha outro comando, em alto e bom som:

– Minino, cuide! Espie, vô cuspir no chão, visse!

Aquele código que poucos conhecem, “cuspir no chão”, nada mais era que uma ameaça, do uso da correia pendurada no armador da rede, se o “cuspe do chão” secasse e eu não tivesse voltado. Santa correia, elemento servil que ajudou a me tirar do caminho das maldades.

Arre égua!

Enquanto o jumento terminava de beber água no açude, nu como vim ao mundo, eu dava meus “ligeiros” mergulhos na água, um bom banho, brincava de galinha d´água, vestia de novo as calças de suspensórios, pegava as rédeas do animal e, lépido e fagueiro voltava à casa.

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