QUASE CARETAS

Volta e meia retomo com minha mania de fazer comparações entre hábitos de ontem e de hoje. Não sou retrógrado. Talvez um pouco conservador com relação aos bons costumes de antigamente. Acato, na sua totalidade, o pensamento de Stephen Hawking – cientista britânico falecido em 2018, aos 76 anos de idade. Ele sentenciou que “Inteligência é a capacidade de se adaptar à mudança”.

Alardear não ser preconceituoso e exaltar a parte negativa que induz determinadas práticas para desestabilizar a unidade familiar não é modernismo, no mínimo, é burrice. Nada substitui o poder dos bons costumes da tradição familiar, consolidado na transferência desses conceitos de pai para filho, geração após geração.

Tentar romper essa formidável conexão invisível é promulgar o enfraquecimento da célula mãe da sociedade. Os exemplos estão aí à solta para nos mostrar o estrago decorrente de levar adiante essa prática perniciosa.

No meu entender, a pílula anticoncepcional foi o pivô determinante da mudança comportamental deflagrada na segunda metade do século passado. Em 50 anos vimos ruir condutas ancestrais, com a mesma facilidade do desmonte de castelos de areia. Claro! Era o progresso no seu processo evolutivo.

Instada a ter o domínio do próprio corpo a jovem pôde dar o seu brado de independência e trilhar caminhos nunca dantes imaginados. A música rebelde, as drogas alucinógenas, o Festival de Woodstock e 1968 – “o ano que não terminou” -, aceleraram o processo de fomentar a revolução sexual em ebulição.

Delinearam-se no seio da família duas opções distintas: aceitar a alteração de costumes proposta pelo momento e manter o lar intato ou fingir nada ver. A partir daí começou a complexa adaptação ao novo padrão de conduta feminino.

Num primeiro instante fumar e parecer fútil diante dos pais, usar saias mínimas, ir a festas a sós ou na companhia apenas de amigas ou de namorados, viajar no falso encanto das drogas e dançar ao som dos Beatles e dos Rolling Stones.

Em estágio mais avançado a jovem quis viver a sua própria vida. Morar sozinha ou com o “namorido” de ocasião, parir ou abortar produções independentes sem ligar para opiniões alheias e experimentar emoções diferentes enfrentando desafios em plagas desconhecidas. O limite? Igualar-se ao sexo oposto quanto a oportunidades e direitos.

Sim, a mulher chegou ou quase alcançou, na totalidade do desejado, o patamar que almejava. Já o patriarca, com receio de o núcleo familiar se esfacelar, a duras penas procurou se amoldar à nova realidade. Tornou-se… Como diremos?… Um quase careta! Isto mesmo, pois quase sempre discorda, estrebucha, reclama, mas, quase sempre capitula e acata a mudança em nome do bem-estar no lar.

Acontece que a jovem após desfrutar da liberdade conquistada, quase sempre deseja casar – o véu e a grinalda podem ser caretas, porém, para elas, são essenciais na ocasião. Espera constituir família e orientá-la à sua maneira sem os traumas de infância que alega não esquecer. Entretanto, condena nos filhos as práticas deturpadas que ela própria experimentou, gostou, abusou e depois rejeitou. Aleluia!

“Criam-se filhos negando-lhes as vontades!” – ouvi certa vez de um pai de criação rigorosa. Nem tanto nem tão pouco. Eliminando excessos, os bons costumes familiares de antigamente marcarão positivamente a existência dos filhos, agora e sempre. Ser um quase careta, se bem não fizer, mal também não fará.

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ONDE ESTARÁ O NÓ GÓRDIO?

Durante anos – e ponha anos nisso! – eu pastoreei a malha rodoviária do Rio Grande do Norte na condição de engenheiro. E não foram poucas as vezes que ouvi dizerem: “A malha rodoviária da Paraíba é a melhor do Nordeste; e põe a do Rio Grande do Norte no chinelo”. Aquelas vozes alardeavam a pura realidade dos fatos.

Entristecia-me notar a diferença entre as duas malhas, considerando que utilizávamos a mesma tecnologia construtiva, os mesmos materiais e procedimentos ditados pelas normas técnicas e, às vezes, calhando de construtoras responsáveis por obras semelhantes trabalharem nos dois estados, simultaneamente.

Ainda assim, permanecia um asfalto reluzente e sem defeitos na Paraíba, enquanto aqui o desgaste aparentava ser maior e mais intenso. Debrucei-me sobre o problema para descobrir a razão da diferença.

O nó górdio surgiu na minha frente, claro como a luz do dia. Embora o nosso estado possuísse características similares as do nosso vizinho, a Paraíba dispunha de um orçamento federal para manutenção e recuperação de rodovias, bem maior do que o destinado ao Rio Grande do Norte, todos os anos, durante décadas.

Manter uma boa infraestrutura rodoviária na Paraíba era, decerto, um ponto de honra para os seus parlamentares. Situação e oposição sempre se mantiveram unidas, caso a tratativa fosse buscar recursos para as estradas do estado. Creio que o mesmo comportamento ainda vigora por lá. Enquanto aqui…

No âmbito da aeronáutica a situação ganhava contornos diferentes. Natal dispunha de aeroporto pequeno, bem situado e acesso fácil ao centro da cidade; ao passo que João Pessoa, capital da Paraíba, era servida por um aeroporto nada funcional, mal localizado e operando reduzido número de voos regulares. Daí a preferência de paraibanos pelos terminais daqui e de Recife para suas viagens.

O encantamento do turista chegado a Natal, por via aérea, se iniciava ao deixar o Augusto Severo. Dava logo de cara com uma rodovia com seis faixas de tráfego, canteiro central florido, ausência de favelas no percurso, boa iluminação e acesso fácil aos principais bairros da capital. Um cartão-postal perfeito para o visitante.

Quantas e quantas vezes escutei comentários elogiosos, deste tipo: “Vocês possuem a mais bela entrada rodoviária de todo o Brasil”. Quem afirmava isso, também não falseava a realidade.

Eis que, em 2014, entrou em operação o Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante, o primeiro aeroporto privatizado do país, avaliado dois anos depois pela Secretaria de Aviação Civil como o melhor do país. Tudo levava a crer estarmos presenciando o nascimento do Eldorado dos aeroportos brasileiros.

Cinco anos depois de inaugurado, o entusiasmo inicial parece ter desaparecido. O ansiado hub da Latam ficou em Fortaleza; a distância entre o aeroporto novo e o centro da cidade, além da falta de segurança no percurso, são complicadores para seus usuários; e, por último, o alto custo das passagens desviando, vergonhosamente, nossos viajantes para embarques em terminais de estados vizinhos.

Treze anos atrás, operavam-se aqui, 23 voos charters semanais trazendo turistas de vários países da Europa sem dispor da estrutura aeroportuária de agora. Hoje, quantos são?… Natal caiu do 2º para o 5º lugar no ranking das operadoras de turismo, como o destino mais procurado do Nordeste. Não estará na hora de localizar e desatar o nó górdio que trava o crescimento do turismo no estado?

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É DE ARDER!

Passear pela verve contista de Nelson Rodrigues é entreter-se com dramas e tragédias de personagens envoltos nas piores encarnações morais que o gênero humano já concebeu. Por outro lado, é também uma maravilhosa viagem ilustrativa aos usos e costumes dos anos 50 e 60 retratados com sotaque da época, despidos de qualquer pudor ou censura.

O que torna deliciosa essa leitura é poder resgatar expressões e gírias escondidas há muito nas sombras de nossas lembranças, que escapolem, aos borbotões, das páginas daquele imaginário livresco e se nos apresentam tão vívidas e atuais como no tempo dos escritos de cada cena das histórias do autor.

Cinquenta anos atrás era comum externar surpresa dizendo: Carambolas! Papagaio! Mostrava-se desagrado afirmando: É de arder! Acho pau! É espeto! É de morte! Ora, que pinóia! Será o Benedito? Se algo nos era agradável manifestávamos a satisfação exclamando: Bonito! É uma bola! É um biju! Um brinco! Uma tetéia! Bonita como uma Estampa! Bacana!

Receio se expressava assim: Estou frito! Algum bode? Fizeram minha caveira! Para combinar um negócio recorria-se a ditos como: No duro! De fio a pavio. Uma mulher rica era Cheia da gaita. Ir ou vir depressa se cobrava com um: Chispando! Mentira afirmava-se: É potoca! O gabola era um Garganta pura.

Pessoa franzina não passava de um Espirro de gente. Recém-casado chamava-se Casadinho de fresco. Ser rigoroso era Entrar de sola. Pedia-se calma com um Sossega o periquito! Externava-se alguma contrariedade dizendo: Comigo não, violão! Para cobrar um segredo recorria-se a Desembucha, anda!

Diante da possibilidade de um namoro comentava-se: Ela te dá bola! Faz fé com a tua cara! Pode dar em cima! Para acusar alguém de esnobismo ou afetação era comum dizer: Não me venhas com chiquê! Com nove horas!

Usava-se o termo, Até aí morreu o Neves para insinuar que o tempo para determinada providência se esgotara. Para definir uma pessoa sonsa ou de dupla personalidade, dizia-se: Mas que mascarado você é! E nesse ritmo seguia-se.

No fundo, as gírias de hoje traduzem o mesmo significado de outrora, com a diferença de estarem maquiadas com um vocabulário pesado, sem originalidade e, em muitas situações, chulo.

Soltando a imaginação, até que seria pitoresco um trabalho cotejando expressões idiomáticas extraídas do cotidiano do brasileiro, relacionadas a diferentes épocas de nossa história contemporânea. Tal trabalho, lido por algum saudosista, deixaria escapar esta exclamação de apoio: É um número! Digno de almanaque!

Um dos vocábulos mais utilizados nas crônicas de Nelson Rodrigues é Batata. Tanto para cobrar um compromisso quanto para expressar um acerto: Nós nos encontraremos mais tarde, Batata? A tal pergunta respondia-se com outro: Batata! E estava empenhada a palavra.

Fico imaginando qual seria a reação de adolescentes, de alguma comunidade funk brasileira deste século XXI, diante do questionamento: Batata? Certamente entenderiam diferente a manifestação e responderiam algo do tipo:

Yes brother, manda o treco, mas, tem que ser passado num óleo esperto, com um sanduba de penosa e uma breja no grau que pinguim gosta!

– É de arder!

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EXTRAVAGÂNCIA, MANIA OU DOENÇA

Não sei se está enquadrado como extravagância, mania ou doença, o desejo compulsivo de esbanjarmos dinheiro para nos assemelharmos a astros e estrelas do cinema ou a destaques do mundo esportivo. Desconheço a razão para se acumular centenas de um mesmo tipo de objeto sem qualquer finalidade mercantil.

É difícil distinguir entre extravagância, mania ou doença quem dedica a existência montando coleções com o fito de alimentar o ego, direcionando afeição desmesurada para um objeto, e se reservando o exclusivo direito do usufruto. Realmente, existem pessoas portadoras de procedimentos um tanto excêntricos, difíceis de serem processados por nós outros, meros e desconhecidos normais.

Aqui abro parênteses. Eu procurei incentivar um dos meus netos a jogar tênis, quando ele completou sete anos de idade. Mostrei-lhe jogos de um ás na modalidade, na época, Rafael Nadal. As mungangas do jogador de esfregar a mão no nariz, nas orelhas e, por fim, puxar a cueca para desalojá-la de onde se metera, suponho que tenha desestimulado o moleque para tal esporte. Talvez, ele tenha imaginado que a mania – ou doença -, fosse uma das regras do jogo. Fecho parênteses.

É sabido existirem esquesitices decorrentes de distúrbios comportamentais, porém, o que pensar de quem garimpa e cataloga tudo o que se refere ao seu ídolo, numa ânsia ilógica, comprometendo a própria identidade?

Li, em algum lugar, que um morador de Hong Kong adquiriu por 4,3 mil dólares um chumaço de cabelo de John Lennon; que três radiografias do tórax de Marilyn Monroe foram vendidas por 45 mil dólares; que uma unha postiça da cantora Lady Gaga, despregada de seu dedo num show em Dublin, foi vendida por 300 mil dólares; e, que um lenço de papel, usado por Scarlett Johansson por conta de uma gripe transmitida por Samuel L. Jackson, foi arrematado em leilão por 6,6 mil dólares.

O lençol utilizado na noite de núpcias de Sean Pean e Madonna foi vendido por milhares de dólares. Cá entre nós: que fantasia elucubrou tal colecionador para curtir a peça usada no enlace relâmpago daqueles famosos astros de Hollywood?

Porém, deveras estarrecido eu fiquei, ao saber que o penico utilizado por Napoleão Bonaparte fora leiloado, em maio de 2005, com lance inicial de mil dólares. Impossível esse fato passar despercebido por meu caçuá de questionamentos.

O que o bendito comprador fez com o penico de Napoleão? Expôs o dito na sala de visitas de sua casa como um troféu irrefutável dos embates intestinais do imperador corso? Quem sabe utilizou o utensílio de alcova para se imaginar tão poderoso quanto o general de tantas vitórias ou tentou vencer a guerra contra os próprios desarranjos intestinais oriundos de suas necessidades fisiológicas.

Com tamanha preciosidade em mãos, o comprador do penico de Napoleão, poderia se deleitar antevendo o famoso ex-proprietário acocorado majestosamente na peça, bolando estratagemas para evacuar o exército inimigo de posições privilegiadas no próximo embate a ser travado.

Caso desejasse emoções mais fortes poderia relembrar, aboletado no penico, a derrota esmagadora de Napoleão na batalha de Waterloo, quando foi defenestrado de território de domínio inglês pelo duque de Wellington, sendo evacuado ele mesmo, em seguida, do trono francês.

O certo é que o livre arbítrio nos permite explorar manias inaceitáveis para uns e de naturalidade estrondosa para outros… Até mesmo colecionar penicos.

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OS COOPISTAS DO BOSQUE

Denominam de coopistas a praticantes do exercício aeróbico criado pelo médico norte-americano Kenneth Cooper – o Teste de Cooper. Na verdade, um apelido para a popular corrida de rua. Pois bem, o Bosque dos Namorados, no Parque das Dunas de Natal, tornou-se o local predileto para coopistas de todas as idades.

Aquele espaço que preserva um pouco do que restou da Mata Atlântica no litoral do país é considerado o maior parque urbano sobre dunas do Brasil, que além de contribuir para a recarga do lençol freático e na purificação do ar da cidade, presta-se como moldura adequada para a prática do Cooper.

Eu não sou coopista, mas gosto de caminhar no Bosque. Pertenço à turma dos madrugadores, porém, ando sozinho sem ouvir música e envolto nos meus pensamentos. Acontece de sempre nos depararmos com grupos em papos animados, que mais conversam do que correm ou caminham.

Ali se exercita o falar alto onde, concordando ou não, nos faz cúmplices de desagradáveis indiscrições. Os frequentadores do Bosque não precisam adquirir jornais ou revistas, tampouco ouvir ou ver noticiários de rádio ou Tv. Todas as informações presentes, passadas e futuras do estado e do mundo, eles as recebem em primeira mão bastando retirar os fones dos ouvidos – isso sem falar nas fofocas.

Em determinada caminhada, sem querer querendo, presenciei engraçadíssima prosa entre dois senhores nos quais logo percebi traços de pessoas letradas e abonadas financeiramente. Eu terminara a série de exercícios e diminuíra o ritmo da marcha, e assim pude escutar o colóquio onde o tema era viagens.

– … Por isso não! Câmara Cascudo escrevia sobre o mundo inteiro sem sair de casa, quando nem se vislumbrava a existência de computadores. Hoje, eu viajo para qualquer localidade do mundo e conheço o que bem entender de carona na internet – afirmou o senhor de cabelos grisalhos a um questionamento do seu interlocutor.

– Você já se imaginou observando Paris do alto da Torre Eiffel, saboreando o famoso “Coq au Vin” e degustando um fenomenal vinho Borgonha?

– Não. Mesmo assim duvido que se comparasse à saudosa “Carne de Sol do Lira”, regada a generosas doses de “Murim”, que funcionou nas Rocas, no Natal de antigamente – respondeu o grisalho contrariando o seu parceiro de caminhada.

– É impossível que você não tenha vontade de conhecer a Torre de Londres e o quanto ela representa para a humanidade? – insistiu o mais viajado.

– Dou por visto! Aquilo não passa de uma prisão decadente onde os monarcas ingleses decapitavam as suas amantes. E digo mais, nenhuma daquelas rameiras amarravam sequer as sandálias das “quengas” do cabaré de Maria Boa.

– Cara, é difícil lhe agradar! Mas, se você visitasse o Coliseu de Roma aposto que mudaria de ideia diante da carga de história que o monumento detém.

– Aí é onde você se engana! Coliseu de Roma, campo de concentração nazista e cemitério, para mim não passam de antros de almas penadas.

Ao ouvir aquela opinião não contive o riso. O grisalho, percebendo minha atenção na conversa, perguntou se eu concordava com ele. Ao que respondi: Desculpe-me, mas não tenho opinião formada sobre o assunto! – e acelerei o passo para evitar entrar na discussão. Não sem antes ouvir o comentário do turrão contestador: Esse deve ser outro babaca azedo igual a você!

Calado eu ouvi, e me fui sem nada dizer… Dizer o quê?

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COVARCHISMO

Este texto parecerá uma tentativa de fazer chover no molhado, por conta da notícia de que trata a matéria ter sido divulgada pelo país à exaustão. Nem assim controlarei a revolta que se avoluma em mim, desde a difusão da imagem de Elaine Peres Caparroz (55), agredida criminosamente no dia 16 de fevereiro último.

Um encontro engendrado durante oito meses de conversas numa rede social, por pouco não resultou num feminicídio. Sucedeu, porém, em 60 pontos na boca, o nariz fraturado, maxilar quebrado, um dente arrancado, a face dilacerada por socos de um lutador de jiu-jitsu e marcas da violência sofrida por todo o corpo da paisagista.

Uma mistura explícita de covardia e machismo, algo como um covarchismo – expressão do autor da matéria -, somente admissível em mentes doentes ou pervertidas, tamanho o estrago causado – no caso, a defesa alegou problemas mentais no agressor, um bem-apessoado estudante de direito de 27 anos.

A triste realidade é que, embora com o endurecimento das leis, a violência contra a mulher não estanca. Sequer mostra sinais de abrandamento. A cada hora 500 mulheres sofrem violências físicas ou psicológicas. Uma em cada grupo de quatro mulheres padeceram algum tipo de violência nos últimos 12 meses.

Eis que, uma leitora antenada na minha cruzada virtual de respeito ao sexo belo, enviou-me interessante publicação que faço questão de compartilhar. Não sei se a notícia procede ou é fruto da criatividade praticada na internet. Porém, a ideia bem que poderia funcionar como solução extrema para o problema em tela.

Trata-se de sentença prolatada por Juiz de Direito da Villa de Porto da Folha, da Província de Sergipe, em 15 de outubro de 1833 – quase 200 anos atrás -, por conta de agressão física sofrida pela mulher de Xico Bento por um tal Manoel Duda, que a agarrou-a e a deitou no chão, “deixando as encomendas dela de fora e ao Deus dará”.

Diz o seguinte a peça condenatória transcrita ipsis litteris, ipsis verbis, supostamente obtida no Instituto Histórico de Alagoas:

“CONSIDERO: Que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ela e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana;

Que o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis também fazer conxambranas com a Quitéria e Clarinha, moças donzelas;

Que Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma cousa que atenue a perigança delle, amanhan está metendo medo até nos homens.

CONDENO: O cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher de Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa. Nomeio carrasco e carcereiro.

Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.”

Depois de meia dúzia de macetadas nos possuídos de quem praticasse tais crimes, duvido que não parassem com as chumbregâncias desautorizadas de agora. E mais: dispensaria pregar-se editais em lugares públicas, pois a propaganda via redes sociais daria o recado ligeirinho.

Em tempo: MACETE é um tipo de martelo de madeira com cabeça no formato de paralelepípedo, ainda usado por carpinteiros e escultores. Arre!!!

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EU PECADOR

José Narcelio

Considero-me membro da Igreja Católica Apostólica Romana, mas, respeito quem professa qualquer outra religião… Ou nenhuma. Abracei o cristianismo por orientação familiar. Presumo que todo credo guarda propósitos que, entre outros, visam incutir a paz interior nos indivíduos e tentar promover a concórdia entre os povos.

Na condição de ser humano sou eivado de falhas e, como cristão, repleto de pecados. Preciso manter vivo, no meu âmago, o lume da fé na crença que professo tanto quanto necessito das lufadas de ar que respiro. É verdade que diante de algumas situações ao longo de minha existência essa chama pôde ter tremeluzido, porém, jamais permiti que se apagasse.

A maior provação do cristão consiste em aceitar a palavra divina incondicionalmente. Sem precisar ver para crer. A falta de fortaleza na fé atormenta alguns e gera questionamentos noutros. Sobremaneira, naqueles seres portadores de inteligências privilegiadas, capazes de perscrutar os insondáveis mistérios do universo e de se interrogarem com as suas descobertas.

Stephen Hawking, físico inglês, falecido em 2018, assim manifestou a sua religião: “Cada um de nós é livre para acreditar no que quer e, na minha opinião, a explicação mais simples é que Deus não existe. Ninguém criou o universo e ninguém dirige o nosso destino. Isso me leva a uma percepção profunda. Provavelmente, não há céu, e não há vida após a morte também. Nós temos esta vida para apreciar o grande projeto do universo, e por isso, estou extremamente grato”.

Albert Einstein, um dos maiores gênios da humanidade, afirmava: “Sou um não-crente profundamente religioso”. O físico resumiu a razão de sua existência, assim: “Os ideais que iluminaram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade”.

Quantas vezes nos descobrimos perguntando a nós mesmo quem somos, de onde viemos e para onde iremos? Em quantas oportunidades, de tanto questionar a unificação de três divindades numa só, tememos nos aproximar da loucura? Onde encontrar a fundamentação para a fé? Na certeza (ou incerteza) da vida após a morte ou apenas no medo do desconhecido?

Todos esses questionamentos acontecem devido a nossa capacidade de pensar. Imaginar. Porém, também é fato que, sem peias nem cabrestos, a imaginação independente pode se transformar num orientador perigoso para os atos do homem, uma vez que todo o mal decorre das consequências de escolhas independentes.

E aí nova dúvida se manifesta: qual caminho trilhar para encontrar o equilíbrio na jornada da vida? Na minha busca incansável para essa pergunta uma resposta se sobressai dentre as demais: o caminho da confiança. Confiar na palavra. Confiar de coração aberto, até mesmo para absorver as dúvidas como ensinamentos de vida. O resto fica por conta de nossas descobertas e aprendizados.

Aprendermos expulsar da escuridão nossos medos para que, sob a luz da verdade, saibamos avaliar as suas reais dimensões. Descobrirmos a sensação de ser mais fácil viver com Deus do que conviver com a solidão. E, também, de encontrarmos em ateus convictos mais bondade e piedade do que em muitos fieis praticantes.

Atrevi-me escrever este texto após ler o desabafo emocionado da viúva de Ricardo Boechat, Veruska Boechat, durante o velório do jornalista, na primeira quinzena deste mês: “Meu marido era o ateu que mais praticava o amor ao próximo…”.

Belo exemplo, todavia, ainda acredito em ninguém estar aqui por acaso!

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GERAÇÃO CIBERNÉTICA

José Narcelio

Final de semana passada visitei um casal amigo, veranista de uma das belas praias do litoral potiguar. Além de curtir o estonteante panorama do recanto, pude me divertir com a espontaneidade e inteligência de Marina, uma criança de quatro anos de idade, neta do casal anfitrião, autênticos avós-corujas.

Marina pertence àquela geração que nos espanta pela sagacidade e rapidez de raciocínio tão comum nas crianças da atualidade. Geração essa familiarizada com a internet, consumidora da programação infantil das TVs, de revistas Recreio, de jogos eletrônicos, do telefone celular, privilegiadas portadoras de perspicácia acima da média estabelecida como padrão nas avaliações escolares.

Conversar com Marina lembrou-me o convívio com meu neto mais velho – hoje com 11 anos -, quando da mesma idade da neta do casal amigo. Luís Filipe – esse é o seu nome – perguntou-me certa vez: “Vovô, por que o peixe prego tem medo de água salgada?” Sem pensar duas vezes, respondi: “Deve ser por receio de enferrujar”. E ele: “Errou!”. Complementando em seguida: “É por medo do tubarão martelo”.

Isso não teve qualquer relevância diante da próxima pergunta:” Vovô, você sabe o que é hipopotomonstrosesquipedaliofobia?” Perplexo, eu larguei a revista que folheava e exclamei: “O que! Você pode repetir essa aberração?”. E o moleque repetiu soletrando, pausadamente, cada uma das 15 sílabas da palavra de 33 letras. Deixei escapar um “Não sei!” cauteloso. Então ele esclareceu: “É o medo irracional de pronunciar palavras grandes ou complicadas”.

Não convencido com a explicação do neto, disfarcei minha incredulidade e, sorrateiramente, entrei na internet e constatei a existência daquela monstruosidade gramatical da nossa língua, assim como me foi perguntado por Filipe.

Esse meu neto agora tem predileção por História Universal. Ano passado ele preparou uma explanação sobre a Primeira Guerra Mundial para apresentação em sala de aula, e se propôs reprisar a palestra para o avô. Acontece de ele não avisar que o trabalho fora elaborado para a sua turma do Open Doors e, como não poderia deixar de ser, em inglês. Vi-me obrigado a declinar do convite para não decepcionar Filipe, novamente, hoje fluente naquele idioma.

É impressionante a carga de informações imputada aos jovens da atualidade por diferentes meios de comunicação. Bem como a facilidade de aprendizado por artifícios eletrônicos, recursos inimagináveis para a juventude de outrora.

Longe de mim invejar não haver desfrutado do atual progresso educativo. Se assim fosse, eu não guardaria na lembrança momentos maravilhosos decorrentes das brincadeiras inocentes, porém envolventes, da minha época de criança.

Embora sem haver desfrutado, na infância, de embates com jogos eletrônicos ou demais recursos cibernéticos, meus netos, em contrapartida, não sentiram o prazer das peladas com bolas de meia ou de pegas com carrinhos de madeira ou em cavalos de pau produzidos artesanalmente. Tampouco conseguem admitir a possibilidade de criação de batalhas impagáveis dispondo apenas da imaginação e de um punhado de soldadinhos de chumbo.

O único sentimento a permanecer inalterado é o instinto maternal das meninas. Brincar com bonecas, sejam molambos ou modelos sofisticados, guardará o mesmo encantamento antes, agora e sempre. É essa sensação que Marina e minhas netas, Gabriela e Ana Júlia, transmitem quando embalam, em êxtase, as suas bonecas.

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ALGO QUE DEU CERTO

José Narcelio

Chico Anysio, em dezembro de 2008, participando do programa de entrevistas “3 a 1”, da TV Brasil, ouviu de sua colega comediante Heloísa Perissé a seguinte indagação:

– Se o tempo voltasse atrás, o que você mudaria na sua vida?

– Eu não fumaria. O cigarro é a pior coisa que a pessoa pode fazer por si mesma. Fumar é uma das maiores idiotices da vida. Eu sou zerado em todas as taxas indicativas de saúde, mas, o meu pulmão é um desastre porque o cigarro acabou com ele. Eu tenho apenas 40% da capacidade do pulmão… Quanto ao restante de minhas ações eu não mudaria nada, porque aprendi com os meus erros – respondeu Chico.

Chico Anysio faleceu em 2012, aos 80 anos de idade, quatro anos depois da entrevista acima em decorrência de falência nas funções respiratórias, e de outros órgãos, tudo isso produzido pelo fumo.

O tabaco é considerado o grande mal do mundo moderno. A nicotina vicia mais que a cocaína. Bastam de sete e 14 dias para o fumante ficar dependente… E, largar o cigarro é muito difícil. Estima-se que dentre 1,3 bilhão de fumantes no mundo, 650 milhões morrerão, prematuramente, por causa do tabaco.

No Brasil ainda existem algo em torno de 18 milhões de fumantes, embora os números tenham diminuído ao longo dos últimos 25 anos. Sendo o segundo maior produtor e o maior exportador de tabaco, ainda assim, o Brasil conseguiu desenvolver ações para controlar o tabagismo, o que lhe tem conferido o reconhecimento e a liderança internacional pelo trabalho nessa área.

Estudos apontam que quase 80% dos fumantes acenderam o primeiro cigarro na adolescência, por isso, hoje, o público alvo das cruzadas contra o tabaco são os jovens. Mais de 30 anos transcorreram desde o lançamento das primeiras campanhas contra o fumo. No início de forma modesta, mostrou-se eficiente à medida que aumentava a agressividade do material publicitário veiculado.

Vários fatores explicam a diminuição da adesão de homens e mulheres ao vício do cigarro. Eis alguns deles: impostos mais altos, restrição ao tabaco em lugares fechados, alertas e informações acerca dos efeitos deletérios do cigarro para a saúde, campanhas fomentadas em escola e universidades, divulgação na mídia e, principalmente, imagens chocantes nas embalagens do produto.

A melhora dos números obtidos no Brasil serve de motivação para aumentar e intensificar campanhas com o objetivo de incentivar mais e mais brasileiros abandonarem a dependência do tabaco de forma definitiva.

Insere-se aqui a pergunta que não quer calar. Se o Programa de Controle de Tabagismo no Brasil vem apresentando resultados positivos, por que não criar algo assemelhado para tentar combater as drogas pesadas? Está evidenciado que o esclarecimento foi o fator motivador de adesões à batalha contra o fumo. Por que não experimentar o mesmo remédio contra as demais drogas?

É verdade que o inimigo, no caso das drogas ilícitas, atua na clandestinidade, daí tornar-se mais complexo o seu enfrentamento. Decerto, a propaganda maciça e constante, como no caso do cigarro, traria efeitos positivos. Nada pode acontecer de imediato, porém a médio ou longo prazo visualizaremos a meta planejada, contudo, iniciemos o trabalho com algo que está dando certo.

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IDADISMO

José Narcelio

Pouca gente está familiarizada com o termo que intitula esta matéria. Porém, ao lado do racismo e do sexismo é uma das três maiores formas de discriminação do mundo moderno: envelhecer sofrendo preconceito social. Talvez não percebamos, mas a segregação do idoso aumenta na proporção que avança a expectativa de vida de homens e de mulheres.

Numa sociedade que privilegia a juventude, a beleza, a velocidade e a tecnologia, pessoas com 60, 70, 80 ou 90 anos de idade tendem a ser marginalizadas em razão das limitações de suas aptidões físicas, mentais, sentimentais e até sexuais.

Não tratamos aqui de idosos acometidos de males que os incapacitam para as mínimas tarefas corriqueiras ou atividades que requeiram exercícios de raciocínio. Prendemo-nos àqueles habilitados, mental e corporalmente, excluídos por atingirem a idade limite tida como tabu.

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