JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

MALUCOS BELEZA DE NATAL

Dizia Ariano Suassuna que, no Nordeste, cidade interiorana que se prezasse deveria possuir o doido, o bêbado e o mentiroso oficiais. Eram figuras conhecidas de todos na comunidade e protagonistas de situações hilárias no cotidiano da municipalidade. Em Natal, no meu tempo de jovem, também existiram figuras exóticas que caracterizaram a face cômica de uma época inesquecível.

Sobre alguns desses perfis inusitados descrevo aqui singularidades que os popularizaram. Citando tais personagens tento grudar na lembrança dos natalenses suas presenças marcantes e atitudes peculiares na fase em que integraram o panorama da Cidade do Sol.

Severina – A Administradora Geral do Estado e prima da rainha Elizabeth II da Inglaterra, esbanjava autoridade. A mensagem escrita na faixa puída cruzada no seu peito expressava bem a ideia de sua importância: Embaixatriz do Brasil. Severina entrava em qualquer gabinete de autoridade da capital para fazer cobranças do tipo: Você já recebeu o dinheiro que eu mandei o governador transferir para pagamento dos funcionários? Em seguida pedia: Pode me arranjar o dinheiro do pão?

Velocidade – Um dos poucos homossexuais assumidos de Natal nos anos 60 era uma figura popular e respeitosa. Quando provocado não revidava, apenas sorria. Sonhava em ter um filho. Caminhava pelas ruas num passo miúdo a acelerado, daí o apelido que o fez conhecido na cidade.

Cambraia – Jornaleiro vendedor do antigo Jornal de Natal, propriedade do ex-prefeito Djalma Maranhão. Ficou conhecido pela forma exagerada e surreal de como divulgava as manchetes do dia, tipo: Leiam a história do homem que roubou um trem e trocou por um jumento no Alecrim. Quanto mais extravagante o anúncio, mais jornais ele vendia.

Maria Boa – A paraibana de Campina Grande, Maria de Oliveira Barros, foi dona do mais famoso bordel da capital. Nas tardes de domingo, ela e suas meninas de conversível e motorista particular, passeavam pelo Grande Ponto para a satisfação de marmanjos e repulsa das dondocas. Foi homenageada com o seu nome pintado na fuselagem de bombardeiro B-25, baseado em Parnamirim durante a 2ª Guerra Mundial, pelos bons serviços que ela e suas meninas prestaram aos soldados norte-americanos.

Zé Areia – O natalense José Antonio Areias Filho possuía rapidez de raciocínio aliado a humor ferino. Era barbeiro de profissão, vendedor de bilhetes de loterias por opção e boêmio por vocação. Amigo de potiguares ilustres colecionou passagens hilárias e antológicas. Poeta e repentista é dele esta quadrinha: Embora tudo aconteça/De valente não me gabo/De peixe quero a cabeça/De mulher prefiro o rabo.

Lambretinha – Desequilibrado mental que fantasiava ser um motorista de automóvel. Mãos para frente segurando uma sucata de volante percorria a cidade de alto a baixo. De sua garganta saía um ronronar de motor, e dos lábios uma imitação de buzina. Era um brumm! brumm! bip! bip! ao mesmo tempo gozado e triste.

Garapa – Outro tipo inesquecível, do qual não se sabia nome nem sobrenome. Maltrapilho, mendigava sem molestar ninguém pelas ruas da cidade. Isso até que qualquer moleque gritasse: Água! E outro acrescentasse: Açúcar! Ele então perdia a compostura e destemperado gritava: Mistura, seu filho de rapariga! Mistura para ver o que acontece!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

MEUS DIREITOS

Nunca fui militar, mas guardo certa disciplina nas atividades do dia a dia. Essa postura engloba também o entendimento de que meus direitos acabam onde se iniciam os direitos alheios. Entretanto, está cada vez mais difícil conviver com a quebra dos preceitos que balizam o ordenamento da vida em sociedade. Se buscarmos com atenção encontraremos a qualquer hora, provas desse desrespeito para com o próximo.

A fila. Essa idéia criada para organizar o caos é também uma das causadoras do desrespeito para com o direito do outro. Calcado em quais premissas um indivíduo cria uma vaga à sua frente para beneficiar outrem, sem a anuência de dezenas de integrantes da mesma fila postados à sua retaguarda. A suposta gentileza ofertada a uma única pessoa resvala como grosseria atirada no rosto de muitos cidadãos.

O trânsito é também mostruário de registros intoleráveis. A diferença consiste nos absurdos ali cometidos, que podem derivar para situações de agressividade explícita com conseqüências imprevisíveis. No trânsito pessoas cordatas transformam-se em monstros de insensibilidade quando posicionadas ao volante de um carro.

Não lembro se quando jovem, numa sessão de cinema, perturbei o assistente do filme à minha frente, empurrando sua poltrona com os joelhos em busca de meu conforto, mesmo irritando o desavisado espectador. Essa prática já é contumaz. Porém, como se não satisfeitos com o abuso, muitos jovens e marmanjos, insolentemente, apóiam as pernas em cima do espaldar das cadeiras postadas à frente.

Isto mesmo! Impõem o mau cheiro dos seus cascos ao olfato do assistente sentado na poltrona ao lado das que eles apoiam suas patas. Pior: quem se rebelar contra o incômodo sofrerá alguma represália seja violenta ou, no mínimo, uma chacota formulada em alto e bom som, para constrangimento da pessoa agredida.

Estar acima dos 60 anos oferece alguns privilégios – pudera, né? Um deles é dar o direito de, em algumas situações, assumir a cabeça da bendita fila. Sempre que procurei usufruir dessa prerrogativa me dei mal. A última tentativa foi numa seção eleitoral. Próximo do meio-dia, calor inclemente, fila imensa, todos os condicionantes para reclamar meus direitos.

De longe antevi, na porta da seção, uma amiga organizando a fila dos votantes. Aproximei-me com o título e a identidade na mão e falei: “Oi, Fulana! Tenho mais de 60 anos, posso me adiantar na fila?”. “Não senhor! Eu lhe conheço e sei que não tem essa idade”. Estarrecido quis contra-argumentar mostrando a identidade, mas sem qualquer sucesso.

Passado de vergonha perante a desaprovação dos integrantes da fila tratei de desaparecer dali. Voltei lá pelas duas da tarde, e procurando não ser notado, enfrentei a fila. Ao entrar na sala localizei o presidente da mesa e o questionei: “Eleitor com mais de 60 anos tem prioridade para votar?”. “Claro!” – foi a sua resposta. “Então desejo registrar uma queixa contra aquela secretária!”. Contei o ocorrido apontando para a dita, estupefata, retribuindo-lhe o constrangimento que horas atrás havia me imposto.

Imagino que tudo foi creditado a uma brincadeira de péssimo gosto. Convenhamos, nenhum dos integrantes da fila interpretou assim o fato. Restou-me naquela hora, o desconforto da certeza de ter sido tachado de velho descarado e aproveitador. A partir de então não acumulei mais coragem para reclamar meus direitos em qualquer outra fila.

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O AMOR É LINDO!

Vitor Belafonte, Belafonte ou simplesmente Bel sempre foi considerado um gajo simpático e conquistador. Trabalhava no Ministério da Fazenda, em Goiânia, quando conheceu Letícia, sua futura esposa.

Ele com 45 anos e ela com 38. Letícia possuía espírito empreendedor e o canalizou para uma empresa de roupas infantis. Ela nunca descuidou do corpo escultural, tanto é que na juventude foi selecionada como a segunda colocada num dos concursos de Miss Goiás, representando a sua cidade natal.

Estavam casados há dez anos quando Letícia propôs a Belafonte largar o emprego para tocarem, juntos, um negócio familiar. Ao aceitar o convite, Belafonte provou confiar no trabalho da esposa e isso reforçou os laços afetivos entre ambos.

Beirando os 55 anos e sem filhos, Belafonte ainda mantinha o físico sarado compatível com a idade, altura e peso. Cabelos pretos com entradas brancas nas têmporas destacavam o charme que ele sabia explorar com competência invejável.

Para largar o emprego impôs uma única condição à esposa: dispor de uma noite por semana para jogar sinuca com os amigos. Mesmo relutando, Letícia fixou as quintas-feiras.

Vestindo calça jeans, camisa polo, alpercatas, boina francesa e, lógico, um primoroso taco, Belafonte saía de casa quinze para as oito e retornava por volta de uma da madrugada. Religiosamente. Letícia no começo estranhou ficar sozinha no apartamento, mas com o tempo se acostumou.

Acontece que o jogo era o pretexto dele para curtir a noite movimentada da capital. No Goiânia Atlético Clube dispunha de armário onde guardava blazers, calças, camisas finas e mocassins, segundo ele, o “kit sedução”. Jogava uma ou duas partidas de sinuca e partia para o furor da boate Amor Bandido.

De tão popular no recinto, os frequentadores o apelidaram de Bel, o Traquinas. Mão aberta, educado, engraçado e sedutor era o queridinho de solteiras, separadas, casadas espevitadas e viúvas. Elas o adoravam e ele a todas cedia, de bom grado, as intimidades que as sedentas por carinho procuravam.

O sucesso de Bel naquela casa noturna chegou à outra boate da cidade, a não menos famosa Média Luz. Ali reinava outro mito: uma mulher elegante e reservada conhecida por Cinderela, porque desaparecia do ambiente pontualmente à meia-noite.

Ao sair ela deixava de lembrança para seu acompanhante um chaveiro contendo miniatura, em acrílico, de um sapato de cristal. Todos que a viram garantiam se tratar de mulher bastante atraente. De tanto ouvir falar de Bel a curiosidade tomou conta de Cinderela.

Com a aquiescência das duas boates ela organizou um evento o qual denominou de Quinta Maior, onde frequentadores de ambas as casas confraternizariam, cabendo às mulheres dar o clima de mistério ao encontro usando máscaras.

Compareceu à festa a fina flor das duas boates, cabendo a Bel a representação da boate Amor Bandido. Cinderela então conheceu Bel, o Traquinas. Ela de máscara; ele quase embriagado. Com o ardente desejo satisfeito, Cinderela saiu da festa no horário habitual sem se curtirem. Mesmo assim, Bel cobrou e ganhou um chaveiro de consolação.

Dias depois, forte enxaqueca acometeu Letícia, e Belafonte assumiu a tarefa caseira de ir às compras. Com o seu carro em revisão, ele utilizou o da mulher. Ao acomodar os pacotes no porta-malas achou uma caixa escondida sob os tapetes. Abriu-a e nela encontrou máscaras e chaveiros com miniaturas de sapatos, em acrílico.

Bel nunca comentou a descoberta no carro de Letícia, nem ela disse que o reconhecera no evento da Quinta Maior. Ele deixou de jogar sinuca, e ela de distribuir chaveiros. Prevaleceu o bom-senso, e eles continuam juntos e felizes.

Alguém tem dúvida de que amor é lindo?

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

BELA DA TARDE DE COTOVELO

Veranear durante 90 dias seguidos? Isso mesmo! Houve uma época, em Natal, que era esse o procedimento padrão. Proprietários de casas de praia, as mantinham fechadas durante nove meses no ano, para ocupa-las no início das férias escolares da molecada, somente retornando à capital após o Carnaval.

Relaxar e descansar nesse intervalo de tempo era quase impossível diante da movimentação intensa de veranistas e amigos que se visitavam em perene confraternização. Por outro lado, a trabalheira doméstica multiplicava-se para desespero das donas de casa que se valiam da mão-de-obra de moradores da região para ajudar na administração das residências de verão.

Veraneávamos na praia de Cotovelo, vizinho ao povoado de Pium, onde conhecemos Ina, nosso apoio técnico durante alguns anos. Morena-clara, esbelta, beirando 20 anos de idade, dizia-se noiva de Toinho, motorista de ônibus da linha Natal-Pirangi. Ina trabalhava cantarolando as músicas mais tocadas nas rádios.

Em 1991, Alceu Valença lançou o LP “7 Desejos” onde o carro-chefe era La belle de jour. Um sucesso estrondoso! E haja Ina a cantar sem parar: “…Era a bela da tarde/Seus olhos azuis como a tarde/Na tarde de um domingo azul/Labele diju!…”.

Perguntei-lhe se entendia o significado do termo La belle de jour, título da música. “Não senhor!” – respondeu-me e, curiosa, aguardou o que eu tinha a dizer. Então, resumi para ela o filme Belle de jour do diretor espanhol Luis Buñuel, lançado em 1967, com Catherine Deneuve no papel da erótica Séverine.

Falei-lhe da insatisfação de Séverine com o marido médico, e de como ela mantinha uma vida dupla marcando encontros à tarde para concretizar suas estripulias amorosas, daí o nome do filme. Fascinada com o que escutara, Ina perguntou: “A moça se chamava mesmo Severina?”. “Sim. Em francês, Severina escreve-se Séverine, com ‘e’ no final” – expliquei-lhe.

Dia seguinte, ela nos informou da impossibilidade de continuar trabalhando na casa, porque cuidaria de uma tia enferma. Gostávamos e precisávamos do trabalho de Ina, por isso insistimos numa negociação e acordamos que sua jornada diária terminaria à uma da tarde. Assim acertado, assim cumpriu-se o trato.

Quarta-feira de Cinzas, enquanto arrumávamos as tralhas para retornar à normalidade da vida na capital, soubemos da preocupação de Ina diante de uma possível gravidez. Lamentamos a ansiedade da moça.

Alguns meses depois, num feriado prolongado, convocamos Ina para o apoio costumeiro na casa de praia. Ela apareceu com uma barriga saliente e mantivemos este papo: “Para quando será o parto? Você já casou?”. Ela respondeu com incrível naturalidade: “Em outubro… Já o noivado acabou quando Toinho descobriu que não era ele o pai da criança”.

“Ah, entendi! Escolheu o nome do pirralho?” – perguntei.

“Se for homem será Alceu; se for mulher, Severine!”

“Por que Severine?” – insisti. “Ina é apelido. Meu nome é Severina. Então…”. Fiquei perplexo porque Ina assumira, literalmente, o comportamento da personagem de Buñuel, embalando seus sonhos eróticos na música de Alceu Valença.

Nunca mais vimos Ina. Ainda hoje me bate a dúvida se agi corretamente deixando a moça a par das safadezas da ninfomaníaca Belle de Jour.

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GENINHA

O autor deste texto somente recebeu a anuência de publicá-lo após assumir o compromisso de mesclar as identidades dos envolvidos na história.

Geninha, divorciada, sem filhos, amava a vida, os homens e a liberdade. Há três anos deixara sua Natal querida para matar a saudade do Rio de Janeiro de onde guardava boas recordações do tempo de casada. Beirando os 50 anos possuía a vitalidade de uma mulher de 30.

Romildo, o seu último relacionamento, ficou lambendo as feridas por ser abandonado e atenuando as mágoas com a leitura do Evangelho. Ao passo que ela se esbaldava esbanjando amor e vitalidade. Por ser independente superava facilmente as decepções decorrentes dos envolvimentos afetivos. Amargou várias desilusões amorosas, em contrapartida, destroçou inúmeros corações apaixonados por ela.

E assim deixava a vida lhe levar. Geninha jamais imaginou enfrentar o revés que o destino lhe engendrou utilizando o mesmo fio das teias nas quais subjugava as suas conquistas. Há seis meses namorava, simultaneamente, dois solteirões na faixa dos 40 anos de idade, moradores da Zona Sul do Rio.

Caio, ela conheceu explorando trilhas na Floresta da Tijuca; Abel, em curso de bioenergética e danças circulares em Saquarema. Sobre ambos, ela repetia serem boas pessoas, porém com temperamentos e personalidades totalmente opostos.

Caio gostava de aventuras ecológicas e de esportes radicais; Abel, de tênis, ciclismo e fotografia. A agitação de Caio o direcionava para embalos, música pesada e a companhia de muitos amigos. A tranquilidade de Abel o conduzia para peças de teatro, bons restaurantes e vinhos de qualidade.

Abel adorava Geninha, mas ela era vidrada em Caio. Enquanto Abel se declarava encantado por ela, Caio se esquivava evasivo. Meses passaram sem que o triângulo amoroso alcançasse a dualidade.

De tanto Abel insistir para Geninha conhecer a sua família, ela finalmente capitulou e lá se foi compartilhar uma feijoada na casa dos pais do namorado apaixonado. Ao entrar na morada, e antes de ser vista pelos anfitriões, notou uma silhueta bastante conhecida sua, embora postada de costas para ela.

Quase desmaiou ao apresentarem Caio como irmão de Abel. Caio não moveu um músculo sequer, mas Abel desconfiou da reação de Geninha. A desunião se instalou no seio da família dos dois filhos únicos, com os pais abnegando o dúbio relacionamento e cortando relações sociais com Geninha, considerada amoral, aventureira e doidivanas.

Por outro lado, o caos dominou a vida da moça. Ela procurando reatar com Caio, e ele a rejeitando. Abel insistindo em renovar o namoro, e ela o evitando. Cenas constrangedoras se repetiram envolvendo inclusive amigos comuns dos três amantes. Antevendo algum desfecho irreparável, a moça se viu forçada a outra decisão radical na sua vida. Rompeu os laços com a metrópole e voltou para o Nordeste.

Romildo, homem manso de coração, recebeu Geninha de braços abertos como se nada de errado houvesse ocorrido. Ela jamais explicou-lhe as razões do retorno, nem ele quis saber se ela lhe pôs chifres na testa.

Certa noite, lendo para a amada trechos de Gênesis 4, na Bíblia Sagrada, distraído, ele se referiu aos filhos de Adão e Eva como Abel e Caio. Assustou-se, mas continuou a leitura. Geninha deixou de falar em Cidade Maravilhosa, porém permaneceu curtindo a vida, a liberdade e os home… Ah, isso é problema dos dois.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

A MUSICALIDADE DE CADA UM

Eu possuía todos os predicados para ser uma criança complexada: bissexto, magrela, tímido, gago, canhoto, míope e sem qualquer habilidade esportiva. Como se não bastasse a miopia, ainda por cima usando armação de casco de tartaruga que me assemelhava ao Dr. Silvana, o vilão mais antigo de Shazan na época em que o herói ainda era chamado de Capitão Marvel.

O incompreensível de tudo isso é que nunca sofri qualquer tipo de bullying nem me puseram apelidos, talvez por estudar num colégio de viés católico. Convivia com a minha patota sem qualquer aptidão que me destacasse dentre os demais colegas. Nada disso impedia-me de ler muito, ouvir música de qualidade e sonhar. Sonhava alto. Nada de sonhos diminutos.

Um deles era imaginar-me substituindo Paul McCartney no conjunto The Beatles. Para mim, nada mais natural: eu era canhoto tal qual o dito cujo e dispunha de alguma afinação vocal. Porém, o sonho diluía-se ao lembrar dos meus cabelos crespos e da impossibilidade de corta-los ao estilo mot-top, que consistia em moldar as costeletas longas e a franja na testa no feitio tijelinha.

A timidez nunca impediu de eu enveredar por inovações no ginásio. Lembro bem da série ficcional futurística criada por mim e publicada, semanalmente, no painel de informes da escola. A trama ficou tão complicada que eu não soube como dar-lhe um final, então parei de escrever. A minha professora cobrou-me o desfecho, porque as mães dos alunos estavam ansiosas pelo epílogo da história.

Tomávamos aulas de canto orfeônico e o nosso professor classificou-me como um segunda voz. Na época, faziam sucesso no Brasil os trios Irakitan e o Los Panchos. Arvorei-me a criar um trio, e o fiz. Deu certo. Agora vem a pergunta: um gago pode cantar? Claro! Canta melhor do que fala. Vejam o exemplo de Nelson Gonçalves, gago de fazer pena, porém um cantor incomparável.

Na prova final das aulas de cântico o professor da matéria não compareceu. Coube ao diretor do ginásio, um sacerdote, assumir o comando do teste vocal, simplificado de forma que cada aluno cantasse a música de sua preferência.

Ao chegar a minha vez, o diretor, conhecedor e apoiador do nosso trio, perguntou-me: Narcelio, você conhece a música Interesseira? Eu lhe respondi já cantando o sucesso das paradas na voz de Anísio Silva:

Interesseira, não amas ninguém/Não tens coração/Só causas o mal/De quem te quer bem/Interesseira, a mim não convém/Pagar por um desejo, que é farsa do teu beijo/Que alma não tem.

Nessa linha de lamentações a letra exalta a desilusão de um amor não correspondido. As más línguas interpretaram o pedido da canção como um desabafo por decepção sentimental do clérigo na busca pela atenção de uma aluna do ginásio.

Semanas atrás, após uma baita crise de garganta, entrei numa loja e interpelei uma vendedora com voz grave e bem postada, sobre determinado equipamento de som. Antes de me responder a jovem perguntou: O senhor é locutor? Respondi-lhe: Sim. E já destruí muitos casamentos com essa minha voz radiofônica. Mostrando espanto, ela se afastou de mim exclamando: Cruz, credo!

Por essa razão e outras assemelhadas, eu resolvi educar a voz. Espero apenas o cancioneiro Fernando Vila concluir as suas aulas de canto para juntos criarmos um dueto direcionado para dor de cotovelo. Eu, na condição do segunda voz. Claro!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

CRUDIVORISMO, A DIETA

Falar em crudívoro é como falar em vegetariano, carnívoro, mamífero, lactovegetariano, pessoas adeptas de qualquer filosofia alimentar. O crudivorismo ou “alimentação viva” é uma doutrina alimentar em que os alimentos são de origem agrícola, porém consumidos crus.

Ser crudívoro é abster-se de carboidratos, glúten e lactose. Desde já, adianto não ser eu um crudívoro nem manter qualquer pretensão de sê-lo algum dia. Vamos e venhamos concordando ou não é interessante nos inteirarmos de como funciona a dieta… Ops! Desculpem-me! Quero dizer a tal doutrina alimentar.

Nesse catecismo nada pode ser cozido ou desidratado para evitar a perda de nutrientes. A base da alimentação são frutas frescas, sementes, vegetais, grãos germinados ou brotos de trigo, arroz, cevada, centeio, aveia, lentilha, ervilha, grão de bico e algas. Nada de utilizar condimentos.

A maior parte das calorias numa dieta crudívera vem do açúcar das frutas. Azeite, oleaginosas não assadas e seus derivados, além de legumes e verduras complementam o aporte energético.

Na visão científica os alimentos crus são ricos em enzimas. As enzimas, por sua vez, são as responsáveis pelo transporte dos nutrientes às nossas células. Daí se afirmar ser a alimentação crua uma alimentação enzimática – ao cozermos os alimentos destruímos suas enzimas.

Pergunto: não será mais uma tendência ocasional? Na verdade todos esperam obter de uma alimentação equilibrada o bem-estar para uma vida saudável ou um corpo sarado e sadio para dele se orgulhar. Mas, este é também um dos objetivos das dietas: recuperar o perfil e as medidas perfeitas de antigamente.

Quem não ouviu falar das dietas da sopa, das proteínas, do homem das cavernas, da mastigação, do ovo cozido, da Lua, do limão ou da papinha de neném. Todas vão e voltam com uma facilidade incrível provocando o efeito sanfona no corpo do indivíduo. Isso mesmo, o vai e vem de emagrecer e engordar.

Passar a vida inteira comendo alimentos crus deve ser uma chatice. O indivíduo depois de ter provado pratos saborosos cozidos, assados ou refogados, suspender repentinamente a rotina para enveredar pelo crudivorismo não é fácil. E nada de dizer que a boa gastronomia não é um dos prazeres da vida, porque não cola.

E quanto aos riscos de intoxicação ou contaminação por substâncias nocivas contidas no cultivo dos vegetais? Sim, esse negócio de usar vinagre, lavar com esponja ou deixar de molho em água é balela, pois não retira coisa alguma dos agrotóxicos dos alimentos.

Entendo que a melhor opção para mim é continuar integrando a classe dos onívoros: comer um pouco de tudo com ou sem condimentos, e assando, cozinhando ou refogando os alimentos, quando for necessário.

Concordo com o filósofo americano, Alan Levinovitz, que disse o seguinte: “Comer não é somente um hábito para ser saudável e manter o peso. É também divertir-se com amigos, desfrutar cultura e história. Não podemos transformar os alimentos em remédios”.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O PRAZER DE DIRIGIR

Para mim, o prazer de dirigir consiste em viajar por uma rodovia bem conservada, com sinalização adequada e obedecendo os limites de velocidade. Porém, essa satisfação está difícil de conseguir, na atualidade, em razão dos maníacos do volante e do desrespeito à vida humana, cometendo barbaridades contra a ordem no trânsito.

Dentre os desatinos perpetrados por esses malucos das estradas, o que mais me apavora é o excesso de velocidade. Estudos apontam que a emoção obtida pelo prazer de dirigir a altas velocidades cria dependência. Trata-se de uma sensação baseada em conceitos subjetivos que, uma vez iniciada, dispara nos seres humanos uma revolução química resultando na produção de endorfina.

Dirigir esportivamente satisfaz as condições necessárias para que essa substância seja liberada, e assim permitir ao indivíduo desfrutar do bem-estar proporcionado por ela. Acontece, que o local adequado para dirigir um automóvel em alta velocidade é o autódromo… Não as estradas.

É de arrepiar os cabelos vermos flagrantes colhidos por radares das Polícias Rodoviárias, país afora, mostrando velocidades de até 200km/h em rodovias com permissão para, no máximo, 110km/h. Tal prática é constatada, diariamente, nas estradas brasileiras tenham elas boas ou más sinalizações.

A maneira de controlar parcialmente tais absurdos são os radares e as lombadas eletrônicas. Os altos valores cobrados pelas multas inibem os contraventores nessa prática perniciosa. É duro pagar uma multa alta. Contudo, qual o valor de uma vida ceifada pela irresponsabilidade de um condutor de veículo em velocidade excessiva?

Não existem registros de quantas vidas foram salvas, desde quando se instituiu a tolerância de álcool zero no sangue de quem dirige veículos automotores pelas vias públicas brasileiras. Sabe-se apenas que, costumes foram modificados pelo receio de serem retidas ou cassadas carteiras de habilitação.

Hoje, muitas pessoas saem de casa para desfrutar de um simples drinque utilizando taxi ou Uber no trajeto de ida e de volta. O temor de serem pegas e presas por uma blitz com qualquer dosagem de álcool no sangue, aliado ao valor da multa, são motivos suficientes para desmotivar qualquer desejo de dirigir alcoolizado.

O mesmo raciocínio se aplica ao contraventor do trânsito ansioso pela emoção de apertar o acelerador além do limite estabelecido onde é proibido exercitar tal prática. Sem o radar, os obstáculos estarão eliminados para ele, e a estrada livre para as infrações. É impensável facilitarmos o trabalho dos transgressores do trânsito.

O radar exerce importante papel na segurança de quem circula em ruas e rodovias, levando-se em conta que os acidentes de trânsito são, no Brasil, a segunda principal causa de morte não natural evitável. Sobressaindo-se aí o excesso de velocidade como o maior predador.

Ultrapassagens perigosas, o descaso com o cinto de segurança, o uso do celular enquanto dirige e, lógico, a velocidade excessiva são filmadas pelos radares postados em pontos estratégicos de rodovias e ruas. Repito, tal instrumento é de fundamental importância para o controle de um tráfego seguro.

Com radares e lombadas eletrônicas em funcionamento eu terei menos pavor de me movimentar pelas rodovias do Brasil, mesmo abrindo mão do prazer de dirigir.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

GERAÇÃO EM EXTINÇÃO

A turma de Engenheiros Civis da antiga Escola de Engenharia da UFRN completará, neste ano de 2019, 50 anos de formatura. Isso mesmo, a minha turma festejará bodas de ouro no dia 11 de dezembro, Dia do Engenheiro.

Analisando nossa retrospectiva de vida durante o transcorrer desse meio século, dá para vislumbrarmos vários pontos positivos na contribuição dos engenheiros formados em 1969, para o progresso do Estado e na realização profissional de cada um dos integrantes da turma.

Basta imaginarmos o volume de água que já passou por debaixo das pontes que planejamos, ou a quantidade de carros que transitam pelas estradas que abrimos ou, ainda, o número de pessoas abrigadas nas casas e edifícios que construímos ou circulando por shoppings e logradouros públicos que erguemos.

Isso sem falar nas turmas que ocuparam as nossas vagas na faculdade, e para as quais repassamos os conhecimentos ali adquiridos, na condição de docentes universitários ou, para outros engenheiros, quando da labuta profissional diária.

Recordando o início dessa jornada, bem antes de colocarmos os pés na faculdade, descobriremos que vivenciamos momentos diversos, sem nenhuma conexão com o mundo de hoje. No nosso tempo obedecíamos aos pais, respeitávamos os professores e não deixávamos anciãos viajarem de pé em transporte público.

Tivemos a sorte de estudar em escolas e faculdades gratuitas com ensino de qualidade; não conhecemos o espectro do bullyings ou brincadeiras de consequências danosas; e, não depredamos escolas nem agredimos os nossos mestres.

Assistimos Neil Armstrong dizer “um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”, ao pisar na Lua. Vimos o nascimento da Bossa Nova, do rock‘n’roll, dos Beatles, dos Rolling Stones e acompanhamos o festival de Woodstock sem que ninguém se tornasse hippie.

Na nossa época não existia planos de saúde, mas dispúnhamos de assistência médica e hospitalar satisfatórias às expensas do Estado. Brincávamos o Carnaval em clubes e blocos de rua sem drogas, furtos ou crimes, pois havia segurança pública de verdade.

Frequentávamos bailes de debutantes, gozávamos férias nas praias onde os veraneios duravam 60 ou mais dias. E como namorávamos! Muitos de nós se casaram com os primeiros romances de suas vidas e estão unidos até hoje. Aos domingos, visitávamos os pais para pedir-lhes a benção e abençoarem os netos.

Conseguimos sobreviver sem a parafernália eletrônica que veio no encalço da internet e, como entorpecentes viciantes, aprisionou crianças aos computadores absorvendo-lhes o tempo antes dedicado ao relacionamento familiar.

Não se falava em aquecimento global, devastação de floresta, poluição de água e do ar, tampouco em eliminação de espécies do mundo vegetal ou animal. Tentamos construir um mundo melhor para nossos descendentes, porém esse mundo tornou-se irreal pela insanidade da agressão à natureza.

A verdade é que, sem percebermos, fazemos parte de uma geração em extinção, que mitiga a decepção do esquecimento, por conta de alterações profundas em costumes, conceitos e valores de outrora.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

EXTREMA GRATIDÃO

Passados 74 anos desde o fim da II Guerra Mundial cidadãos italianos das comunidades de Camaiore, Montese, Massarosa, Stafolli, Fornovo de Toro e outras, externam gratidão aos combatentes brasileiros, reverenciando as suas memórias.

Sete monumentos atinentes aos feitos de pracinhas do Regimento Sampaio, integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB), estão espalhados por essas localidades.

Dos 25 mil expedicionários enviados para a Itália para libertar o país do nazifascismo, 465 morreram e cerca de 1.300 ficaram feridos. Apenas na sangrenta batalha de Montese, que durou quatro dias, 34 soldados morreram e 375 resultaram feridos.

A FEB desembarcou na Itália no dia 2 de julho de 1944. A partir daí começou a ofensiva que libertou várias cidades das regiões da Toscana e Emília-Romanha, sendo o momento mais crítico a tomada de Monte Castelo, numa batalha que durou quase três meses.

Um cemitério em Pistóia abrigou por 15 anos os soldados mortos em combate no solo italiano. Em 1960, os restos mortais foram exumados e transferidos para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro.

No dia 2 de novembro de todos os anos são realizadas solenidades em homenagem aos soldados da FEB, responsáveis pela libertação das cidades acima citadas, do jugo alemão. Em Montese, adultos e crianças reunidos ao ar livre, cantam o hino da FEB, em português.

Isso mesmo. Todas as crianças do ensino básico aprendem letra e música do belo hino da Força Expedicionária Brasileira, numa manifestação pública de extrema gratidão para com o nosso país, por haver emprestado soltados para arriscar a vida em outro continente, para livrar comunidades italianas do jugo alemão.

Agora, façamos uma pausa sobre a nossa história e foquemos no que realmente almeja esta matéria. As crianças de outro hemisfério que homenageiam brasileiros cantando o hino da FEB, certamente, conhecem e cantam, também, os hinos que representam a Itália.

E no Brasil, como funciona essa questão? Aqui, temos quatro principais hinos: Hino Nacional do Brasil, Hino à Bandeira, Hino da Independência e Hino da Proclamação da República. Eu aprendi todos eles quando estudei em escolas municipal, estadual e de orientação católica. Fez-me bem tal prática, pois elevou meu sentimento patriótico.

Hoje, as crianças do meu Brasil varonil sequer concluem corretamente os versos e estrofes da letra do hino nacional, autoria de Joaquim Osório Duque Estrada. Isso porque a prática sistemática de interpretar o hino nacional brasileiro nas escolas, simplesmente acabou-se.

Animei-me quando soube que voltaríamos a cantar o nosso hino, diariamente, nas escolas. Tão logo lançada a ideia, forças contrárias ao ato cívico atuaram, e ela morreu no nascedouro. Se visitarmos Montese, e alguma criança da comunidade pedir para cantarmos um dos hinos brasileiros, com que cara ficaremos?

Só nos resta agradecer a extrema gratidão daquele povo por cultuar nossos heróis ali tombados e, até hoje lembrados.