JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

PÁTRIA AMADA BRASIL

Hoje eu plagiei o folclorista Câmara Cascudo, na sua criativa exaltação ao nosso povo, quando afirmou que “o melhor do Brasil é o brasileiro”. Apropriei-me, também, de ditado do jornalista Nelson Rodrigues para montar o meu próprio axioma: “O melhor para o Brasil é o brasileiro, desde que liberto do seu complexo de vira-lata”.

Vejam se não procede tal linha de raciocínio. Alguém já parou para analisar a versatilidade que um povo resultante da miscigenação de índios, portugueses e africanos, teve de lançar mão para desbravar e conservar um território continental de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, e se tornar a quinta maior nação do planeta.

Como ao longo de 500 anos, esse mesmo povo conseguiu manter o país unido e falando o mesmo idioma, embora sendo dilapidado de suas riquezas naturais pela cobiça de nações poderosas; ou, ainda manter a soberania de um território inóspito como o da Amazônia, sem possuir poderio bélico condizente para tanto.

Ah, quanto ganho teríamos obtido se abandonado fosse o complexo de inferioridade estagnado na nossa índole, e vermos exaltado o verdadeiro orgulho de ser brasileiro! Como teria sido diferente se, séculos atrás, tivéssemos nos livrado do câncer do colonialismo.

Em qual patamar de desenvolvimento estaríamos hoje se, desde o início do Brasil-república, houvéssemos investido numa educação de qualidade para pavimentar o futuro desse povo alegre por natureza e criativo por vocação.

Deixei-me invadir por essa onda de nacionalismo em decorrência do clima de pátria amada Brasil, que aflora no mês de setembro. É difícil para o brasileiro incutir na cachola a excepcionalidade da qual é portador para extrair resultados positivos em benefício próprio. Citemos apenas duas iniciativas de engajamento da nação num processo de criatividade, que serviram de exemplos para o mundo.

O primeiro deles foi na luta contra a Aids. Em junho de 1981, ano do descobrimento do vírus HIV, o grau de letalidade da doença detinha expectativa de vida de apenas 5,8 meses, o que a transformou no mal do planeta. Em 1996, enquanto o mundo, ainda perplexo, não sabia como controlar a então “doença dos gays”, o Brasil tomou a iniciativa de oferecer tratamento público para todas as pessoas infectadas.

Para tanto, peitou poderosas companhias farmacêuticas multinacionais, quebrando patentes brasileiras de remédios antiAids para atender a população portadora do vírus. O modelo brasileiro virou referência mundial por adotar, precocemente, uma ação integrada de prevenção e tratamento da doença.
O outro exemplo foi no combate ao fumo. Relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgado em julho último, no Rio de Janeiro, sobre a Epidemia Mundial do Tabaco, aponta o Brasil como referência mundial no combate ao tabagismo.

Esse resultado é constatado no cotidiano de cada brasileiro. Um país tomado pela epidemia viciante do fumo, conseguir sobressair-se das demais nações do planeta no controle do mal, é motivo, sim, de orgulho e esperança para nós brasileiros.

Apontam o Brasil como um país protegido pelos deuses do universo. Enquanto na maioria das nações do planeta ocorrem desastres naturais de toda ordem; aqui, desastres de verdade, somente os produzidos por nossa política devastadora.

Entrementes, acredito que apelando para a nossa criatividade no enfrentamento dessa problemática, também encontraremos a solucionática adequada.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

BRUNA SURFISTINHA

Bastou o presidente Bolsonaro afirmar não financiar filmes como Bruna Surfistinha com dinheiro público, para os olhares se voltarem, novamente, para Raquel Pacheco e a sua história de vida.

A paulista de Sorocaba, agora com 35 anos de idade, suou bastante trabalhando na profissão mais antiga da humanidade, porém, deu-se bem entre as mulheres de vida fácil – ou será vida difícil? Divulgando o seu trabalho e contando com a curiosidade pública pôde tirar proveito da fama, comercializando suas atividades laborativas.

Agindo assim protagonizou filmes pornográficos e produziu roteiros, participou de reality show, foi entrevistada no programa Jô Soares, atuou como disc jockey e como escritora, até conseguir ser notícia no New York Times.

Não tenho conhecimento se já lhe atribuíram rótulos depreciativos, escrachados ou maldosos, mas o que ninguém pode dissociar dela é o aguçado senso de oportunidade e a coragem de se expor ao ridículo e ao preconceito contra o seu trabalho.

O sucesso começou, em 2005, ao postar em um blog suas peripécias amorosas como garota de programa no cotidiano da prostituição. Nele, tal qual o diário de uma adolescente, a jovem discorria sobre costumes e preferencias de seus parceiros de cama, o que aumentou o número de visitas ao site.

A página ganhou popularidade na internet e a tornou uma celebridade. Aproveitando o embalo da fama decorrente de seu blog, Raquel lançou o livro “O Doce Veneno do Escorpião – O diário de uma garota de programa”. Os picos de vendagens abriram-lhe espaço para publicar, em 2006, “O que aprendi com Bruna Surfistinha”, o segundo livro.

“Na cama com Bruna Surfistinha” foi o terceiro, em 2007, destinado exclusivamente ao público adulto – dá para imaginar o conteúdo, né! Não li nenhum dos três, mas assisti ao filme “Bruna Surfistinha”, subvencionado pela Ancine, até então ligada ao Ministério da Cultura. Sucesso estrondoso de bilheteria.

Agora, mulher experiente e bem-sucedida na vida, Raquel não perde oportunidade de ser notícia para não cair no esquecimento público, embora afiance querer voltar para o anonimato. Pois sim! Seus vídeos pornôs continuam na internet e não deixam dúvidas de que dominava bem a profissão, tamanho a sua desenvoltura.

No programa “A máquina” da TV Gazeta, ela deixou escapar esta polêmica declaração: “Eu comecei a me masturbar entre os cinco e seis anos. No programa Rá-Tim-Bum – exibido pela TV Cultura entre 1989 e 1992 – passava uns meninos pelados tomando banho e eu ficava sentada na madeira da cama, assistindo e me masturbando”.

Raquel é favorável à prostituição legalizada. Numa colocação digna de psicólogo-sexólogo ou de conselheiro matrimonial, afirma: “O que a mulher não faz em casa, o homem procura fora!”.

Tratar de sexo abertamente e com seriedade é saudável e necessário. O conhecimento de suas peculiaridades controlará excessos e eliminará preconceitos. Já disseram que “O sexo é chama indispensável quando somente aquece a paixão. Complica tudo quando incendeia a razão e se torna o ópio da vida, a fera que o ser humano não pode domar”.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

BASTA DE POLARIZAÇÃO

No estudo da Física aprende-se que polarização é uma propriedade das ondas eletromagnéticas, na qual elas são selecionadas e divididas de acordo com a sua orientação de vibração. Uma das maravilhas da ciência pura.

Contudo, a polarização contempla outras interpretações não tão fenomenais quanto a do exemplo citado, notadamente, se direcionada para o estudo científico da organização e do funcionamento das sociedades humanas. Trato aqui da polarização extremada na religião e na política.

É quando vem à baila a ação do papa Gregório IX, ao formar tribunais na Igreja Católica que perseguiram, julgaram e prenderam ou condenaram à morte judeus e praticantes de outras seitas, no combate à heresia. Entre os séculos XV e XIX o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, atuando na Espanha e em Portugal, sacrificou cerca de 17 mil pessoas com requintes de crueldade.

Nada, porém, comparável com os números alarmantes de vítimas decorrentes de posicionamentos políticos polarizados, ou seja, a maldita polarização política. E não são poucos os exemplos escabrosos de mazelas, preconceitos, ódios e comportamentos coletivos irracionais, quando o assunto discorre sobre divergências de atitudes políticas entre extremos ideológicos.

Em Cuba (1959), quando Fidel Castro liderou a guerrilha para apear Fulgêncio Batista do poder e acabar com a corrupção no país, polarizou a nação em torno do seu nome. Instalado no governo mostrou a sua verdadeira face e a razão de ali estar empoleirado – consta que 80 mil cubanos morreram afogados tentando escapar da ilha sob o jugo do ditador comunista.

A Alemanha polarizada em torno de Hitler, anestesiada pelo sonho de dominação do mundo e da instalação de uma raça ariana pura, exterminou 6 milhões de judeus e de outras minorias tidas como inferiores. Destruída, levou consigo outras duas nações – Itália e Japão – integrantes do Eixo na II Guerra Mundial.

Stálin para consolidar o comunismo, na Rússia, sacrificou 25 milhões de pessoas; e, Mao Tse Tung, na China, ceifou 70 milhões de vidas. Isso para citar apenas alguns exemplos conhecidos das mazelas causadas por polarizações inconsequentes.

O Brasil também vivenciou momentos dramáticos de polarização política. Esqueçamos o passado distante e nos atenhamos aos últimos 60 anos. Em 1964, ante o risco de descambarmos para o comunismo, a quase totalidade da população apoiou as forças armadas na cruzada para livrar o país da influência vermelha. O que se supunha uma operação rápida, levou 21 anos sob um regime militar controverso.

A mesma população, insatisfeita com o regime e, novamente polarizada, ergueu a bandeira das Diretas Já pela redemocratização do país. Após gestões democráticas ineficientes e um impeachment a nação, novamente, viu-se polarizada. Foram 16 anos de governo petista, o qual dispensa comentários.

Observando sem paixões o cenário nacional, sentimos certo direcionamento para uma polarização bizarra que, por melhor das boas intenções, está contabilizando atrasos para o país. Nem tanto a Deus nem tanto ao Diabo. Encontremos um meio termo. Na polarização, vozes moderadas tendem a perder poder e influência.

Precisamos achar o nosso rumo. Falta-nos o equilíbrio político sem radicalismos, onde a única bandeira a ser desfraldada seja a do Brasil da ordem e do progresso… acrescido de justiça social. Basta de tanta polarização!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O VELHO REIS MAGOS

Tomei ciência da decisão acertadíssima do Conselho de Cultura de Natal, concordando com a demolição do antigo Hotel dos Reis Magos. Abaixo reproduzo um meu artigo abordando o problema em tela, em fevereiro de 2014.

“Perguntar não ofende. Respondam-me, por favor, o que existe de tão importante na carcaça do finado Hotel dos Reis Magos que o impede de ser demolido? Sinceramente, eu não vejo nenhum valor histórico relevante naquela edificação para preservá-la com tombamento. Tudo bem! O velho hotel representa um retalho de passado não tão distante da vida de Natal e marca os primórdios do turismo no Estado. Mas, vamos e venhamos, daí até o tombamento se contabiliza uma carga de preciosismo deveras exagerada.

Finado Hotel dos Reis Magos na Praia dos Artistas em Natal

Concordo, que durante as três décadas de funcionamento do Reis Magos numa construção que hoje beira os sessenta anos, muitas recordações ficaram acumuladas e ainda estão acesas na memória de saudosistas. Afinal, desde a diversidade de personalidades ali hospedadas, passando pelos encontros dominicais à beira da enorme piscina até às celebradas noitadas na boate Royal Salute, o Hotel dos Reis Magos funcionou como um cartão postal de Natal e registro vivo de uma época.

Efetiva-se o tombamento de um bem cultural levando em consideração suas características (no caso, a riqueza arquitetônica), sua história e o valor afetivo que apresenta. Isso após a comprovação de especialistas no ramo e o endosso da sociedade. Jamais mediante ato autoritário. E tem mais: desde que o tombamento não venha “congelar” ou “engessar” a cidade impedindo sua modernização ou progresso, injustificadamente.

Uso sempre como exemplo marcante o critério urbanístico utilizado no Wembley Stadium, em Londres, na Inglaterra. O lendário estádio foi inaugurado em 1932 e demolido 80 anos depois, em 2003, para dar lugar ao moderno Estádio de Wembley. Até aí tudo bem!

Agora, demolir os 150 mil assentos da primeira grande arena esportiva do mundo e templo sagrado do futebol – o mais popular esporte do planeta -, fica difícil acreditar que tenham consumado tal proeza. Ainda por cima, para edificar um estádio capaz de acomodar apenas 90 mil pessoas ou 60% da capacidade original.

Sabemos que o velho Reis Magos é o retrato decadente de um antes festejado hotel, hoje desprovido de quaisquer características que o insira na atualidade. Deduzo ser antieconômico tentar uma restauração para adequá-lo à modernidade arquitetônica em vigência, fator essencial para mantê-lo como hotel.

Se desprezadas as adaptações físicas requeridas pela legislação do setor ele não funcionará; tampouco, competirá com a rede hoteleira instalada em Natal. Daí o entendimento de que a demolição seria a solução ideal para o impasse do momento. O Hotel dos Reis Magos está desativado desde 1995. Abandonado por quase três décadas tornou-se uma nódoa incômoda num dos principais pontos turísticos da capital. Além do mais, Natal dispõe hoje de algo perto de 27 mil leitos.
Sem desmerecer a importância daquela estrutura hoteleira na história da cidade, que se guarde em arquivos escritos e fotográficos e nas gavetas da memória de cada um de nós as boas lembranças do Reis Magos. Porém, tenhamos o bom senso de permitir que ali se construam aparelhos comunitários que embelezem a cidade e tragam progresso e modernidade para o bem de nossa terra”.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O EROTISMO NA TERRA BRASILIS

Em 1900, quando Machado de Assis publicou Dom Casmurro, a libidinosidade era bastante contida porque as mulheres não davam margem à expansão desejada pelo imaginário masculino. E não era para menos, as vestimentas femininas cobriam o corpo da cabeça aos pés sem dar margem a qualquer lance erótico.

É incrível imaginar que a fixação sexual de Bentinho por Capitu – personagens do romance citado – surgiu no instante em que ele viu, de relance, um naco do calcanhar de sua futura esposa, quando ela subia num bonde, no Rio de Janeiro.
“Bah! Isso foi 120 anos atrás” – dirão alguns. Não por isso, porque nos anos 50 e 60 ainda persistia a falta de publicações específicas sobre erotismo, um tabu para a época. Viam-se mulheres despidas somente nos prostíbulos, desde que pagas pelo trabalho. Afinal tratava-se de uma das mais antigas profissões da humanidade.

A salvação da rapaziada para dar vazão a testosterona abundante eram as histórias em quadrinhos, quentíssimas, de um desenhista desconhecido chamado Carlos Zéfiro. Durante décadas os quadrinhos de Zéfiro foram a única fonte de educação sexual para adolescentes, quando a nudez era rara até em fotografia.

O desenhista pornô reinou absoluto com as edições do seu catecismo – apelido da publicação nas bancas de jornais -, até começar a circulação da revista Playboy, e antes da liberação de nudes nas revistas e no cinema. Em 1991, numa reportagem da própria Playboy, revelou-se o nome do misterioso autor: tratava-se de Alcides Aguiar Caminha (1921 – 1992), datiloscopista do Ministério do Trabalho.

A surpresa ficou por conta de o desenhista não ser um total desconhecido. O ícone dos quadrinhos pornográficos do país era, também, parceiro de Nelson Cavaquinho num dos clássicos do samba brasileiro: A flor e o espinho.

Com a publicação da Playboy, a partir de 1975, deu-se uma nova dimensão ao erotismo no Brasil. Podia-se folhear fotografias de mulheres despidas, tal qual a matriz da revista nos Estados Unidos. O ápice da evolução aconteceu quando celebridades aderiram à moda de se mostrarem nuas e cruas para o mundo.

A primeira atriz brasileira a aparecer despida para a famosa revista masculina foi Betty Faria. Acompanharam-na, praticamente, todas as integrantes do plantel global: Luíza Tomé, Bruna Lombardi, Christiane Torloni, Luíza Brunet, Flávia Alessandra e muitas outras figurinhas carimbadas das televisão, teatro e cinema nacionais.

Após posarem para a Playboy, duas atrizes ficaram gravadas no imaginário masculino, tanto ou mais do que ficaram em destaque nas paredes das borracharias do Brasil afora. Vera Fischer, a eterna musa, num ensaio de 1982; e, em janeiro de 1985, Cláudia Ohana, a beleza selvagem, quando ambas mostraram a quem duvidasse que fosse possível, a abundância de seus predicados naturais.
Hoje, Dom Casmurro se sobressai apenas pelo pioneirismo do estilo contendo ilações suaves sobre erotismo; os quadrinhos de Zéfiro perderiam a razão de existir pelas imagens toscas e pouco detalhistas; e, a Playboy, lançada há quase 43 anos, saiu de circulação pelo desinteresse popular.

Agora, não existem limites para absolutamente nada. O erotismo é tratado como uma coisa banal, o romantismo desapareceu, o imediatismo prevalece em todas as atividades humanas. Já o sexo deixou de ser visto como um ato quase sagrado, transformado numa atividade ocasional, via de regra, sem qualquer encantamento.

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Nelson Cavaquinho (A Flor e o Espinho)

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ALGUNS PERFIS FALTANTES

Eis-me retornando com os pitorescos perfis natalenses do século passado. Acabaram-se os malucos beleza de antigamente. Aquelas figuras burlescas integrantes de um cenário bucólico, de uma cidade pacata atravessando um período de anos dourados. Certamente comporiam a obra de Debret, caso coincidente fosse com a época em que o pintor perpetuou, em gravuras, imagens do Brasil Colônia.

Por onde andam tais personagens? A maioria, talvez recolhida a manicômios ou, em sinal de protesto, desapareceram devido ao burburinho maluco e sem nexo dos tempos atuais. Aqui encerro a maratona saudosista sobre o assunto.

Severino Galvão – Comerciante, publicitário, militar, político e, acima de tudo folião. Falar dos velhos carnavais de Natal é recordar o eterno Rei Momo alternativo Severino Galvão. À revelia da prefeitura municipal, ele se autonomeava soberano carnavalesco e constituía seu gabinete momesco formado por personalidades da capital.

André da Rabeca – Estrábico, olhar perdido no espaço, pouco falante, tocava uma rabeca desafinada pelos bairros da cidade em troca de alguns centavos. Não fosse o som do instrumento seria invisível, tão pouco notado procurava ser. A última vez que o vi foi na Confeitaria Atheneu. Tocou alguns acordes e seguiu para Mãe Luíza, bairro onde morava e morreu.

Joca Madureira – Derrubador de boi em vaguejada e bom de briga, impunha respeito pelo porte atlético. Contam-se dele histórias de enfrentamentos solitários e destemidos com patrulhas policiais nas noites mundanas de Natal de antigamente. Um simulacro tupiniquim do carioca “Madame Satã”.

Pecado – Foi o apelido com o qual o mossoroense Manoel Filgueira Filho angariou fama no mundo estudantil de Natal. Líder carismático e respeitado nunca passou da segunda série ginasial. Projetou-se realizando passeatas pleiteando a manutenção de benesses estudantis. Na revolução de 1964 foi acusado de dedurar colegas aos comandos militares do estado. Credita-se a ele a criação da Cooperativa dos Estudantes de Natal.

Gasolina – Garçom símbolo do Bar Dia e Noite, o bar e restaurante da Rua João Pessoa, na Cidade Alta, que nunca fechava as portas. Acolhia para o lanche da madrugada os dançantes das noitadas ocorridas nos clubes sociais Aeroclube, América e ABC. No cardápio modesto não faltavam ovos estrelados, filé e língua frita. Ali reinava Gasolina sempre prestimoso, mesmo ouvindo uma vez ou outra o pedido: “Gasolina suspenda os ovos e passe a língua!”.

Corisco – “Pai do poço, mão da lua!”, esta era a senha para deixar enfurecido o coitado fraco do juízo. O personagem cultivava paixão política por Aluízio Alves, e para vê-lo literalmente doido de atirar pedras, bastava dizer que ele beijara Dinarte Mariz.

Cu de Ouro – Estigmatizado pelas circunstâncias, este cidadão sofreu na pele o peso depreciativo do apelido. Pianista atualizado com a tendência musical da época era bastante requisitado pelos bons restaurantes da cidade, nos finais de semana. Certa feita eu presenciei o seu constrangimento quando um freguês embriagado, querendo fazer graça, o chamou pelo apelido. Apressado e de cabeça baixa, ele fechou o piano e saiu envergonhado do restaurante de cabeça baixa.

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A UNIFACEX DE ZÉ MARIA

Eu conheço José Maria Barreto de Figueiredo desde a década de 60, quanto estudamos juntos na antiga Faculdade de Ciências Econômicas de Natal, na Rua Junqueira Aires. Éramos jovens cheios de projetos e sonhos, porém, o tempo e a opção profissional de cada nos afastaram do convívio. Ficamos sem nos ver por anos.

Nos últimos meses começamos a nos encontrar com mais frequência, ensejo no qual mantínhamos ligeiros papos sobre a atualidade e as lembranças do passado. Numa dessas feitas recebi o convite para conhecer a sua UniFacex. E lá fui eu sem qualquer expectativa extraordinária do que encontraria.

Durante três horas percorremos todas as unidades que constituem o Complexo Capim Macio: laboratórios, consultórios, salas de aula e de recreação, ginásio esportivo, e tudo o mais. A cada instante uma exclamação de espanto ante o misto de simplicidade e modernidade das instalações.

Os dois campus da UniFacex – Capim Macio e Deodoro – abrigam mais de 11.000 alunos que, se desejassem, começariam os estudos na Educação Infantil e sairiam pós-graduados, porque, além do básico, são oferecidos 20 cursos de graduação e 30 de pós-graduação.

O embrião de ensino criado em 1972, tornou-se o Centro Universitário Facex – UniFacex, uma referência na educação do Brasil. Em 2017, veio o reconhecimento do INEP, elevando a UniFacex ao patamar dos melhores Centros Universitários do país. Ainda hoje se conserva entre as principais instituições de ensino superior do estado.

Zé Maria é um administrador presente e perfeccionista, quando se trata de ensino de qualidade, organização e limpeza. Seu estilo despojado começa no vestir-se e continua no gabinete que ocupa, uma sala de não mais que 12 metros quadrados de área, repleta de velhas lembranças e nenhum luxo.

Diz o dito que o olho do dono é que engorda o boi. Pois bem, não será por falta de vigilância do dono que a UniFacex vai definhar. Todos os dias, Zé Maria faz a sua caminhada pelo campus observando e anotando cada detalhe, físico ou operacional, que requeira ajuste ou conserto.

Por sugestão dele fui visitar a capela Imaculada Conceição, integrante do Campus Deodoro, no antigo Colégio Imaculada Conceição, o primeiro estabelecimento de ensino privado de Natal, adquirido e restaurado pela UniFacex.

Naquela capela foi celebrada a missa inaugural do colégio das irmãs Dorotéias, em fevereiro de 1902, pelo arcebispo da Paraíba dom Adauto Aurélio, acompanhado do padre João Maria, pároco de Natal, 117 anos atrás.

Um tesouro de conhecimento guarda as duas bibliotecas – Jessé Pinto Freire e Nísia Floresta – com 100 mil livros. No espaço Nísia Floresta se encontra o acervo do extinto Jornal de Hoje, doado pelo jornalista Marcos Aurélio de Sá.

O trabalho desenvolvido pelo amigo extrovertido da minha juventude é hoje motivo de orgulho para o Rio Grande do Norte. Um modelo de empreendedorismo e coragem, que consumiu uma vida de sacrifícios dedicada a um sonho. Foram 47 anos de labuta para moldar uma história de sucesso.

Parabéns, Zé Maria, pela lição de vida; e, obrigado pela boa surpresa que me proporcionou a visita. Conhecer a UniFacex vale cada minuto do tempo gasto.

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OUTROS TIPOS FOLCLÓRICOS

Para montar narrativas de heróis e personagens históricos não faltam biógrafos; exaltar a vida de pessoas simples do povo é outra conversa. Falar de indivíduos que sem pretensão representaram papeis modestos, porém marcantes, no teatro da vida de cada comunidade é algo gratificante.

Daria uma enciclopédia nomear todos os protagonistas notáveis do dia a dia de Natal de antigamente. Cito aqui, outra leva de figuras peculiares que fizeram parte da história de nossa capital, os quais eu tive o prazer de conhecer.

Zé Menininho – José Ildefonso Freire de Souza, nascido no Ceará. Em Natal trabalhou como barbeiro de crianças, daí o apelido que o popularizou. Largou a profissão e enveredou pela música tocando sanfona. Caixão de Gás foi sua composição famosa e legado maior para o forró nordestino. É nome de rua em Natal.

Restinho – Frequentador assíduo das soirées do Aeroclube da capital. Não parava sentado, pois convidava para dançar todas as moças desacompanhadas da festa. De mansinho, se aproximava da vítima e tascava um Vamos dançar esse restinho? O restinho aludido era o da música em andamento no momento. Não o incomodava ser o recordista em levar foras, porque sempre surgia uma alma piedosa para ser-lhe o par.

Caju – Desequilibrado mental que mendigava pelas ruas da cidade sem incomodar ninguém. Porém, se algum moleque gritasse Caju, cadê a castanha? Ele, em desespero, segurando os órgãos genitais, gritava: Tá aqui. Venha segurar seu filho da p…! Quanto mais ele reclamava, mais ouvia a pergunta.

Maria Mula Manca – Esmoler com defeito físico que a fazia mancar. Andava apoiada num cajado. Passava o dia inteiro no Grande Ponte onde alardeava sua admiração por Dinarte Mariz. Chamada de Mula Manca destilava um festival de impropérios impublicáveis. Dizem que saiu de Natal depois da derrota de Dinarte para Aluizio Alves, no pleito para governador do Estado, em 1960.

Cícero Enfermeiro – Vestimenta branca, cigarro na piteira, aplicava injeções numa clientela variada e cativa, no tempo em que enfermeiro era uma raridade em Natal. Todo adolescente portador de doença sexualmente transmissível sabia o endereço certo para encontrar a cura: o consultório de Ciço na Rua Princesa Isabel.

Cuíca – Pedinte amalucado que fazia ponto no Alecrim. Quando agraciado com uma esmola batia forte com a cabeça numa parede, no chão ou em qualquer outro local para externar a sua gratidão. Aquela atitude grotesca e surreal deixava o piedoso doador além de pasmo, apavorado.

Bernardão – Lutador de Vale Tudo nos anos 60 e 70. Fuzileiro naval, 110 kg de músculos, impunha respeito pelo porte avantajado. Trabalhou como leão de chácara em clubes e boates da cidade sem nunca usar de violência. Possuía um passe para circular sem pagar nos ônibus da capital. Na época, a estudantada divulgava esta pérola de diálogo: “O seu passo por favor!” – pedia o cobrador do ônibus ao lutador. “O nome não é passo, é passe! Passo são os bichos que avoam! – respondia Bernardão.

Geraldo – Sabia-se dele apenas ser originário de Lagoa Salgada. Era portador de defeito congênito na coluna vertebral, que o fazia locomover-se como um quadrúpede. Nas mãos, calosidades idênticas às dos pés sempre descalços. Naquela posição atípica apostava e vencia corridas disputadas com indivíduos em postura normal. Parava atritando as mãos no chão como se fossem os pneus de um carro.

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MALUCOS BELEZA DE NATAL

Dizia Ariano Suassuna que, no Nordeste, cidade interiorana que se prezasse deveria possuir o doido, o bêbado e o mentiroso oficiais. Eram figuras conhecidas de todos na comunidade e protagonistas de situações hilárias no cotidiano da municipalidade. Em Natal, no meu tempo de jovem, também existiram figuras exóticas que caracterizaram a face cômica de uma época inesquecível.

Sobre alguns desses perfis inusitados descrevo aqui singularidades que os popularizaram. Citando tais personagens tento grudar na lembrança dos natalenses suas presenças marcantes e atitudes peculiares na fase em que integraram o panorama da Cidade do Sol.

Severina – A Administradora Geral do Estado e prima da rainha Elizabeth II da Inglaterra, esbanjava autoridade. A mensagem escrita na faixa puída cruzada no seu peito expressava bem a ideia de sua importância: Embaixatriz do Brasil. Severina entrava em qualquer gabinete de autoridade da capital para fazer cobranças do tipo: Você já recebeu o dinheiro que eu mandei o governador transferir para pagamento dos funcionários? Em seguida pedia: Pode me arranjar o dinheiro do pão?

Velocidade – Um dos poucos homossexuais assumidos de Natal nos anos 60 era uma figura popular e respeitosa. Quando provocado não revidava, apenas sorria. Sonhava em ter um filho. Caminhava pelas ruas num passo miúdo a acelerado, daí o apelido que o fez conhecido na cidade.

Cambraia – Jornaleiro vendedor do antigo Jornal de Natal, propriedade do ex-prefeito Djalma Maranhão. Ficou conhecido pela forma exagerada e surreal de como divulgava as manchetes do dia, tipo: Leiam a história do homem que roubou um trem e trocou por um jumento no Alecrim. Quanto mais extravagante o anúncio, mais jornais ele vendia.

Maria Boa – A paraibana de Campina Grande, Maria de Oliveira Barros, foi dona do mais famoso bordel da capital. Nas tardes de domingo, ela e suas meninas de conversível e motorista particular, passeavam pelo Grande Ponto para a satisfação de marmanjos e repulsa das dondocas. Foi homenageada com o seu nome pintado na fuselagem de bombardeiro B-25, baseado em Parnamirim durante a 2ª Guerra Mundial, pelos bons serviços que ela e suas meninas prestaram aos soldados norte-americanos.

Zé Areia – O natalense José Antonio Areias Filho possuía rapidez de raciocínio aliado a humor ferino. Era barbeiro de profissão, vendedor de bilhetes de loterias por opção e boêmio por vocação. Amigo de potiguares ilustres colecionou passagens hilárias e antológicas. Poeta e repentista é dele esta quadrinha: Embora tudo aconteça/De valente não me gabo/De peixe quero a cabeça/De mulher prefiro o rabo.

Lambretinha – Desequilibrado mental que fantasiava ser um motorista de automóvel. Mãos para frente segurando uma sucata de volante percorria a cidade de alto a baixo. De sua garganta saía um ronronar de motor, e dos lábios uma imitação de buzina. Era um brumm! brumm! bip! bip! ao mesmo tempo gozado e triste.

Garapa – Outro tipo inesquecível, do qual não se sabia nome nem sobrenome. Maltrapilho, mendigava sem molestar ninguém pelas ruas da cidade. Isso até que qualquer moleque gritasse: Água! E outro acrescentasse: Açúcar! Ele então perdia a compostura e destemperado gritava: Mistura, seu filho de rapariga! Mistura para ver o que acontece!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

MEUS DIREITOS

Nunca fui militar, mas guardo certa disciplina nas atividades do dia a dia. Essa postura engloba também o entendimento de que meus direitos acabam onde se iniciam os direitos alheios. Entretanto, está cada vez mais difícil conviver com a quebra dos preceitos que balizam o ordenamento da vida em sociedade. Se buscarmos com atenção encontraremos a qualquer hora, provas desse desrespeito para com o próximo.

A fila. Essa idéia criada para organizar o caos é também uma das causadoras do desrespeito para com o direito do outro. Calcado em quais premissas um indivíduo cria uma vaga à sua frente para beneficiar outrem, sem a anuência de dezenas de integrantes da mesma fila postados à sua retaguarda. A suposta gentileza ofertada a uma única pessoa resvala como grosseria atirada no rosto de muitos cidadãos.

O trânsito é também mostruário de registros intoleráveis. A diferença consiste nos absurdos ali cometidos, que podem derivar para situações de agressividade explícita com conseqüências imprevisíveis. No trânsito pessoas cordatas transformam-se em monstros de insensibilidade quando posicionadas ao volante de um carro.

Não lembro se quando jovem, numa sessão de cinema, perturbei o assistente do filme à minha frente, empurrando sua poltrona com os joelhos em busca de meu conforto, mesmo irritando o desavisado espectador. Essa prática já é contumaz. Porém, como se não satisfeitos com o abuso, muitos jovens e marmanjos, insolentemente, apóiam as pernas em cima do espaldar das cadeiras postadas à frente.

Isto mesmo! Impõem o mau cheiro dos seus cascos ao olfato do assistente sentado na poltrona ao lado das que eles apoiam suas patas. Pior: quem se rebelar contra o incômodo sofrerá alguma represália seja violenta ou, no mínimo, uma chacota formulada em alto e bom som, para constrangimento da pessoa agredida.

Estar acima dos 60 anos oferece alguns privilégios – pudera, né? Um deles é dar o direito de, em algumas situações, assumir a cabeça da bendita fila. Sempre que procurei usufruir dessa prerrogativa me dei mal. A última tentativa foi numa seção eleitoral. Próximo do meio-dia, calor inclemente, fila imensa, todos os condicionantes para reclamar meus direitos.

De longe antevi, na porta da seção, uma amiga organizando a fila dos votantes. Aproximei-me com o título e a identidade na mão e falei: “Oi, Fulana! Tenho mais de 60 anos, posso me adiantar na fila?”. “Não senhor! Eu lhe conheço e sei que não tem essa idade”. Estarrecido quis contra-argumentar mostrando a identidade, mas sem qualquer sucesso.

Passado de vergonha perante a desaprovação dos integrantes da fila tratei de desaparecer dali. Voltei lá pelas duas da tarde, e procurando não ser notado, enfrentei a fila. Ao entrar na sala localizei o presidente da mesa e o questionei: “Eleitor com mais de 60 anos tem prioridade para votar?”. “Claro!” – foi a sua resposta. “Então desejo registrar uma queixa contra aquela secretária!”. Contei o ocorrido apontando para a dita, estupefata, retribuindo-lhe o constrangimento que horas atrás havia me imposto.

Imagino que tudo foi creditado a uma brincadeira de péssimo gosto. Convenhamos, nenhum dos integrantes da fila interpretou assim o fato. Restou-me naquela hora, o desconforto da certeza de ter sido tachado de velho descarado e aproveitador. A partir de então não acumulei mais coragem para reclamar meus direitos em qualquer outra fila.