EXTREMA GRATIDÃO

Passados 74 anos desde o fim da II Guerra Mundial cidadãos italianos das comunidades de Camaiore, Montese, Massarosa, Stafolli, Fornovo de Toro e outras, externam gratidão aos combatentes brasileiros, reverenciando as suas memórias.

Sete monumentos atinentes aos feitos de pracinhas do Regimento Sampaio, integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB), estão espalhados por essas localidades.

Dos 25 mil expedicionários enviados para a Itália para libertar o país do nazifascismo, 465 morreram e cerca de 1.300 ficaram feridos. Apenas na sangrenta batalha de Montese, que durou quatro dias, 34 soldados morreram e 375 resultaram feridos.

A FEB desembarcou na Itália no dia 2 de julho de 1944. A partir daí começou a ofensiva que libertou várias cidades das regiões da Toscana e Emília-Romanha, sendo o momento mais crítico a tomada de Monte Castelo, numa batalha que durou quase três meses.

Um cemitério em Pistóia abrigou por 15 anos os soldados mortos em combate no solo italiano. Em 1960, os restos mortais foram exumados e transferidos para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro.

No dia 2 de novembro de todos os anos são realizadas solenidades em homenagem aos soldados da FEB, responsáveis pela libertação das cidades acima citadas, do jugo alemão. Em Montese, adultos e crianças reunidos ao ar livre, cantam o hino da FEB, em português.

Isso mesmo. Todas as crianças do ensino básico aprendem letra e música do belo hino da Força Expedicionária Brasileira, numa manifestação pública de extrema gratidão para com o nosso país, por haver emprestado soltados para arriscar a vida em outro continente, para livrar comunidades italianas do jugo alemão.

Agora, façamos uma pausa sobre a nossa história e foquemos no que realmente almeja esta matéria. As crianças de outro hemisfério que homenageiam brasileiros cantando o hino da FEB, certamente, conhecem e cantam, também, os hinos que representam a Itália.

E no Brasil, como funciona essa questão? Aqui, temos quatro principais hinos: Hino Nacional do Brasil, Hino à Bandeira, Hino da Independência e Hino da Proclamação da República. Eu aprendi todos eles quando estudei em escolas municipal, estadual e de orientação católica. Fez-me bem tal prática, pois elevou meu sentimento patriótico.

Hoje, as crianças do meu Brasil varonil sequer concluem corretamente os versos e estrofes da letra do hino nacional, autoria de Joaquim Osório Duque Estrada. Isso porque a prática sistemática de interpretar o hino nacional brasileiro nas escolas, simplesmente acabou-se.

Animei-me quando soube que voltaríamos a cantar o nosso hino, diariamente, nas escolas. Tão logo lançada a ideia, forças contrárias ao ato cívico atuaram, e ela morreu no nascedouro. Se visitarmos Montese, e alguma criança da comunidade pedir para cantarmos um dos hinos brasileiros, com que cara ficaremos?

Só nos resta agradecer a extrema gratidão daquele povo por cultuar nossos heróis ali tombados e, até hoje lembrados.

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LEMBRANÇAS DE ONTEM

Manhã de domingo e eu, sozinho, dirigindo e ouvindo música pela Rota do Sol em direção à praia de Cotovelo, na Grande Natal. Remoía preocupações, quando a emissora sintonizada iniciou programação com sucessos dos anos 60. Vi-me adolescente novamente. Lembrei de dois amigos, ambos na faixa dos 16 anos de idade, que me ajudavam a surrupiar o carro da família para aventuras noturnas insensatas.

Aprendi a dirigir num Jeep Willys 1957. Curtia a liberdade de passear no domingo à noite, após deixar pai e mãe no Cine Rio Grande para a sessão das oito. Isso me concedia duas horas para estripulias junto com Aldemir Vilar e Ivan Brandão.

Numa dessas fugas, seguimos para a Av. Alexandrino de Alencar onde paquerávamos umas garotas. Na volta, preocupado em deixar os amigos em casa e ir apanhar os pais no horário aprazado, cruzei a Hermes da Fonseca em alta velocidade. Por questão de não mais que um segundo deixamos de ser abalroados por outro veículo com velocidade muito superior à nossa.

Reverbera até hoje nos meus tímpanos, com todas as letras e entonações, a descompostura impublicável emanada daquele motorista revoltado com minha irresponsabilidade.

Ao completar 17 anos o carro da família era um utilitário Rural Willys 1959, branco e azul. Meu pai não dirigia nem tínhamos motorista para o dia a dia. Eu, como o mais velho dos filhos, era o faz-tudo da casa. Detestava ser acordado de madrugada para levar minha mãe Laura à feira do Alecrim, aos sábados – hoje, eu a levaria todos os dias da semana se fosse para tê-la outra vez entre nós.

Os Vilar eram nossos vizinhos, daí o bem querer de nós todos por todos eles. Estreamos a Rural, eu e Aldemir, numa daquelas folgas de domingo. Paramos o carro na Praia do Forte e ficamos sentindo a brisa amena vinda do mar na companhia de duas frequentadoras da antiga Praça Pedro Velho, ambas complacentes e compreensivas para com dois estudantes sem drogas sem álcool e sem dinheiro.

A vida melhorando e aos 18 anos eu dirigia um Simca Chambord, 1960. No primeiro passeio oferecido às minhas irmãs atropelei uma criança que atravessara correndo a Avenida Circular, em direção à praia. Levíssimas escoriações, mesmo assim meu pai pagou uma nota preta pelas possíveis consequências psicológicas acarretadas ao acidentado. Fiquei privado de dirigir o belo sedan durante semanas.

Ao passar no vestibular fui presenteado com um fusca. A família perdeu um motorista amador, e eu ganhei o primeiro carro. Meu fusca tinha a cor de vinho, era de segunda mão e não recordo o ano de fabricação. Mas nada disso interessava. Ele era o meu fusca. Registrado em meu nome. Minha propriedade.

Lamento, nunca ter externado ao meu pai com um abraço apertado e um beijo na face, a felicidade que ele me proporcionou com aquele presente. Outros fuscas vieram. Acho que foram quatro ao todo, mas nenhum deles foi tão importante quanto o da cor de vinho. Naquele fusquinha eu levei a primeira namorada para o primeiro jantar no Restaurante Xique-xique, pago com o meu primeiro salário.

Cheguei ao meu destino no exato momento em que a emissora terminava a programação alusiva àqueles anos dourados. Não me importei com a interrupção e guardei as lembranças de ontem na gaveta das boas recordações, porque, uma música, um odor ou uma foto que caracterize a época, as libertarão outra vez.

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CRÔNICAS E CRONISTAS

Deleito-me com a leitura de uma boa crônica, e me encanta a facilidade, criatividade e inteligência de quem bem as escreve. O Brasil é um celeiro inesgotável de bons cronistas. Nós os encontramos esgrimindo essa habilidade literária em cima de diferentes situações do cotidiano.

São escritores que sugam a seiva de fatos corriqueiros ou de menor significado, para manufaturá-la em textos elaborados com leveza, graça e conteúdo. Mentes privilegiadas capazes de transformar trivialidades em grandes temas.

Tenho predileção especial pelas crônicas de Rubem Braga, o escritor nascido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, falecido em 1990 aos 77 anos de idade. Através dele a crônica se tornou um estilo literário de fato. Trancado na sua sisudez guardava uma alma sensível e poética.

Mário Prata – cronista mineiro de Uberaba -, descrevendo sua tietagem a Rubem Braga no badalado restaurante Pirandello, ponto de referência da sociedade paulista no começo dos anos 80, nos dá ideia do humor mordaz e inteligente do capixaba.

Durante o encontro entra no recinto uma mulher horrorosa e vai se admirar num dos espelhos da casa, quando o quase setentão Rubem comenta: “Os espelhos deveriam refletir melhor antes de refletirem certas imagens!”. Na minha opinião, quem melhor traduziu a diferença entre crônica e artigo foi Rubem Braga, ao dizer: “crônica é contar um caso e artigo é explicar o caso”.

Ao contrário das constantes exaltações ao cronista Machado de Assis, pouco se fala no pernambucano Antonio Maria, jornalista, compositor e repórter esportivo fulminado por um infarto aos 43 anos de idade, em 1964. Com mais de 3.000 crônicas publicadas nos principais jornais do Rio de Janeiro, seus escritos foram referência de leitura na época áurea da radiofonia nacional.

Quem não recorda Sérgio Porto – o Stanislaw Ponte Preta – e suas crônicas satíricas? E do Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País? Também partiu prematuramente, vitimado por um infarto, aos 45 anos de idade, em 1968. Isso sem esquecer as duas divas da literatura brasileira, Clarice Lispector e Cecília Meireles, que trabalharam a língua portuguesa com preciosismo ímpar, em suas crônicas.

Carlos Drummond de Andrade e Nelson Rodrigues dispensam comentários, pois tudo o que se acrescentar sobre o trabalho de ambos já foi dito. Fernando Sabino, aquele “que nasceu homem e morreu menino”, conforme diz a inscrição da lápide de seu jazigo, saiu do palco em definitivo, um dia antes de completar 81 anos de vida. Nunca entendi a razão de ele escrever “Zélia uma paixão”.

Acrescento à minha lista de preferências Carlos Heitor Cony e Luis Fernando Veríssimo. O primeiro, falecido em 2018 aos 92 anos, passeou por romances, contos, jornalismo, cinema, ensaios biográficos, documentários e, como não poderia deixar de ser, pelas crônicas.

O segundo, na opinião de Jaguar, “é uma fábrica de fazer humor”. A produção do escritor é de tirar o fôlego, tal o tamanho e a variedade de sua obra. É gaúcho de Porto Alegre, 83 anos, e filho do também escritor Érico Veríssimo.

O Rio Grande do Norte é também um celeiro de bons cronistas. Podemos enumerar dezenas deles. Particularmente, admiro os dons de Valério Mesquita, Diógenes Cunha e Armando Negreiros.

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PRECISO ACREDITAR

A desconfiança continua tumultuando o oceano de incertezas do povo brasileiro. A esperança deu lugar ao sentimento de desamparo. A falta de convicção no atual governo reflete em setores políticos, econômicos e sociais. A descrença nas instituições permanece em alta. Afinal, no que ou em quem acreditar?

Essa pergunta martela-me a cachola com certa insistência. E por mais que eu tente amenizar seus efeitos deletérios, ela ganha força e ocupa todos os meus neurônios em busca de respostas. Preciso acreditar em algo concreto para balizar minha expectativa de vida.

Não é possível conviver no vácuo da escassez de esclarecimentos e de resultados. Este é o panorama que visualizo neste momento repleto de questionamentos diante dos descaminhos detectados no que diz respeito aos destinos do nosso querido Brasil.

“No final tudo dará certo; se ainda não deu certo é porque não chegamos ao final” – ouviremos dos otimistas; “Já passamos por situações tão ou mais vexatórias do que esta, e delas saímos ilesos” – testemunharão os indiferentes; “Vão-se os anéis, ficam os dedos” – dirão os acomodados.

Admito a disposição de espírito que leva indivíduos a ver sempre o lado bom das coisas, porém, desde que haja sinais suficientes e claros para focar objetivos palpáveis, e não sonhos ou promessas vazias.

“O olho do dono é o que engorda o boi” ou “Não se pode gastar mais do que se ganha”. Essas eram algumas regras simples, ensinadas pelos nossos antepassados, para bem gerir negócios e os lares. E sempre deram certo. A mesma simplicidade poderia ser aplicada na gestão da coisa pública: justiça no arrecadar, lucidez no planejar e eficiência no aplicar.

Trata-se, afinal, de materializar a responsabilidade do governo para com a sociedade. Justamente o contrário do que foi praticado nas duas últimas décadas: arrecadações leoninas, planejamentos nebulosos e aplicações desastrosas.

Lembro trecho do Evangelho segundo Lucas narrando uma das parábolas de Jesus. Falava o Filho de Deus aos discípulos da necessidade de rezar sempre e nunca desistir. A figuração do exemplo consistiu no diálogo entre um juiz que não temia a Deus e uma viúva carente de justiça.

– Será que Deus fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por Ele? Ou será que vai fazê-los esperar? – perguntou o juiz injusto à viúva em desespero.

Jesus então esclareceu aos discípulos a moral do ensinamento:

– Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa. Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda encontrará fé sobre a terra?

No povo brasileiro, essa falta de fé embora um tanto abalada no que tange aos designíos sagrados, vem se manifestando efetivamente quanto se trata do comportamento e de certas “boas” intensões de cabeças coroadas da nação.

Até que ponto o controle desse desagrado será mantido, não sei responder. Pelo andar da carruagem, bem antes do que possamos imaginar, veremos o impacto causado pelas insatisfações redundarem em protestos nas ruas como sinais de alerta. Daí a necessidade de algo ou de alguém no que ou em quem acreditar.

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SCIENTIA POTENTIA EST

O título acima é uma expressão latina que significa conhecimento é poder. Provérbios assemelhados ao do cabeçalho são encontrados, em hebreu, no Livro dos Provérbios traduzidos como O homem sábio é forte e O homem de conhecimento consolida a força. Em resumo, a frase alega que ter e partilhar conhecimento é a base para aumentar a reputação de alguém e de influenciar outros, portanto, ter poder.

O inglês Francis Bacon (1561-1626), afiançava que O conhecimento é em si mesmo um poder. Paciência! Não enveredarei por esse caminho para não cansar meus leitores ocasionais abordando um tema que não domino. Pretendo, sim, correlacionar o ditado a fatos que vivenciei, os quais nunca esquecerei.

Nos meus 18 anos de idade, na condição de datilógrafo – quando datilógrafo era categoria funcional -, conheci um senhor que trabalhava como vigia na mesma repartição pública estadual que eu. Compenetrado e simples, seu Amarildo era capaz de discorrer, num linguajar próprio, sobre a sua compreensão da vida e da racionalidade humana com impressionante lucidez para alguém de pouca instrução.

Sem saber como nem por qual razão, ele afirmava que quando passava por dificuldades ou se desgostava da existência, sempre lhe ocorria um pensamento iluminado. E me alertava: Não esqueça, menino, “nada na vida é por acaso”. Isso, ele dizia sem recorrer a qualquer contexto espiritual ou divino, como embasamento.

A verdade é que o conhecimento intuitivo daquele vigia teve o poder de marcar profundamente a minha percepção existencial, tanto e de tal modo, que ao presenciar discussões sobre as razões de ser, disso ou daquilo, ocorrem-me sempre as lembranças dos papos com seu Amarildo enfatizando: “Nada na vida ocorre por acaso”.

Outro fato digno de registro aconteceu em 1965, quando eu era calouro na Escola de Engenharia da UFRN. No final daquele ano, a faculdade estava em ebulição por conta das festividades para a celebração de formatura da 2ª Turma da Escola onde, inesperadamente, onze concluintes ficaram reduzidos a dez.

Três dias estavam reservados para a programação comemorativa de conclusão do curso, seguida de uma viagem de lazer ao exterior. Para a maioria dos concluintes, senão para a totalidade da turma, a primeira viagem para fora do país. Porém, uma desagradável surpresa empanou um planejamento de anos.

José Moacir de Albuquerque, 23 anos de idade, transferido da Escola Politécnica de Pernambuco para Natal, em 1964, para ficar perto de sua família e se integrar à turma de concluintes de Engenharia do ano seguinte, faltou à solenidade.

Numa viagem de Nova Cruz para Natal, a serviço do órgão que o abrigava como auxiliar de engenheiro, Moacir resolveu dirigir o Jeep em que viajava, contrariando o alerta do motorista sobre o risco de ele não possuir carteira de habilitação. O desastre ocorreu na Br-226/RN, na denominada Reta Tabajara, quando efetuou uma ultrapassagem infeliz. O motorista ficou com a vida, mas ele perdeu a sua.

A consternação no meio universitário foi geral. Seus colegas, num ato magnânimo de solidariedade, doaram a importância arrecada para custear a viagem dos sonhos deles aos familiares do desafortunado concluinte.

Para mim, tal atitude, justamente nas comemorações do conhecimento recém-adquirido, serviu para aumentar a reputação dos engenheirandos perante à sociedade natalense, influenciar pessoas na prática da benevolência e, de exemplo, como melhor partilhar o ter durante a transitoriedade do que chamam poder.

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CUIDADO!

Seu Príncipe pode ser uma Cinderela. Esse é o título do livro escrito pelas jornalistas Consuelo Dieguez e Ticiana Azevedo, com o objetivo de auxiliar mulheres a identificar o verdadeiro caráter daqueles homens dos sonhos com quem vivem. Ou melhor, um guia prático para descobrir se o príncipe encantado que deita ao seu lado é um gay enrustido com receio de deixar o armário.

Trata-se de um assunto social sério abrangendo o exemplo de gays que, sem a coragem de se assumir, porém desejosos de manter as aparências, encontram no casamento a válvula de escape para o seu problema. Na verdade, uma solução dissimulada porque, com a família constituída, ei-los levando uma vida dupla deplorável, e fazendo de sua mulher uma refém sentimental pela vida afora.

Amparadas em fatos verdadeiros de mulheres que vivenciaram tal situação, as autoras abordam o tema homossexualismo enrustido com seriedade, contudo, com muito senso de humor. O ponto de partida é a história de Sofia que viu seu belo marido abandonar o lar para viver com outro homem.

Uma vez ultrapassado o período de tristeza e de frustação, e já sem lágrimas para enxugar, Sofia começou a se questionar acerca de uma convivência de sete anos sem nada perceber de errado no parceiro. Na retrospectiva de sua vida a dois ela descobriu sinais, antes relevados, que materializaram a verdade nua e crua.

O livro alerta para a necessidade de usar o gaydar – invenção tirada das palavras gay e radar, que designa a percepção sensorial especial que o homossexual possui para identificar outros gays. Contudo, dá pistas a serem observadas na análise do príncipe encantado, para aquelas mulheres não familiarizadas com o gaydar.

Na sequência, algumas destas pistas:

– veja se o armário dele é bem arrumado com roupas separadas por cores e tecidos, e modelos apropriados para inverno, verão, outono e primavera, tudo com muito capricho;

– desconfie se ele tem fissura por grife, e direciona a mania para relógio, celular e óculos de marca; se ele gosta de tênis Prada e possui havaianas de todas as cores para combinar com roupas ou adereços;

– caia fora se ele admira gomos bem definidos na barriga de amigos ou se extasia com corpos sarados de homens, e não com os de mulheres;

– fique alerta se ele usa camiseta justa e é fortão; se olha-se no espelho sempre que está malhando e ajeita a sobrancelha quando vê o seu reflexo; ou, se usa camisa atochada no corpo e dobra a manga para realçar o bíceps avantajado;

– questione quando ele se lambuzar de creme, se o lado da pia dele for mais abastecido de produtos de beleza que o seu, e se ele faz escova;

– observe se quando ele bebe rebola e fica cheio de intimidades com os amigos; se já falou que esteve com uma pessoa; e, se gosta de gravar as iniciais dele em todos os seus pertences, até no sabonete do toalete;

– ponha-se na retaguarda se ele gosta exageradamente da mãe, se para ele é Deus no céu e mamãe na terra e, se ele fala que possui um cachorro de raça cujo nome é Otto, com dois tês;

– se numa conversa sobre sexualidade ele disser que foi gay, corra, pois não existe ex-gay; e nem pensar em tentar recuperá-lo pois será perda de tempo.

Na verdade, o mundo tem espaço para cada um viver a sua vida!

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QUASE CARETAS

Volta e meia retomo com minha mania de fazer comparações entre hábitos de ontem e de hoje. Não sou retrógrado. Talvez um pouco conservador com relação aos bons costumes de antigamente. Acato, na sua totalidade, o pensamento de Stephen Hawking – cientista britânico falecido em 2018, aos 76 anos de idade. Ele sentenciou que “Inteligência é a capacidade de se adaptar à mudança”.

Alardear não ser preconceituoso e exaltar a parte negativa que induz determinadas práticas para desestabilizar a unidade familiar não é modernismo, no mínimo, é burrice. Nada substitui o poder dos bons costumes da tradição familiar, consolidado na transferência desses conceitos de pai para filho, geração após geração.

Tentar romper essa formidável conexão invisível é promulgar o enfraquecimento da célula mãe da sociedade. Os exemplos estão aí à solta para nos mostrar o estrago decorrente de levar adiante essa prática perniciosa.

No meu entender, a pílula anticoncepcional foi o pivô determinante da mudança comportamental deflagrada na segunda metade do século passado. Em 50 anos vimos ruir condutas ancestrais, com a mesma facilidade do desmonte de castelos de areia. Claro! Era o progresso no seu processo evolutivo.

Instada a ter o domínio do próprio corpo a jovem pôde dar o seu brado de independência e trilhar caminhos nunca dantes imaginados. A música rebelde, as drogas alucinógenas, o Festival de Woodstock e 1968 – “o ano que não terminou” -, aceleraram o processo de fomentar a revolução sexual em ebulição.

Delinearam-se no seio da família duas opções distintas: aceitar a alteração de costumes proposta pelo momento e manter o lar intato ou fingir nada ver. A partir daí começou a complexa adaptação ao novo padrão de conduta feminino.

Num primeiro instante fumar e parecer fútil diante dos pais, usar saias mínimas, ir a festas a sós ou na companhia apenas de amigas ou de namorados, viajar no falso encanto das drogas e dançar ao som dos Beatles e dos Rolling Stones.

Em estágio mais avançado a jovem quis viver a sua própria vida. Morar sozinha ou com o “namorido” de ocasião, parir ou abortar produções independentes sem ligar para opiniões alheias e experimentar emoções diferentes enfrentando desafios em plagas desconhecidas. O limite? Igualar-se ao sexo oposto quanto a oportunidades e direitos.

Sim, a mulher chegou ou quase alcançou, na totalidade do desejado, o patamar que almejava. Já o patriarca, com receio de o núcleo familiar se esfacelar, a duras penas procurou se amoldar à nova realidade. Tornou-se… Como diremos?… Um quase careta! Isto mesmo, pois quase sempre discorda, estrebucha, reclama, mas, quase sempre capitula e acata a mudança em nome do bem-estar no lar.

Acontece que a jovem após desfrutar da liberdade conquistada, quase sempre deseja casar – o véu e a grinalda podem ser caretas, porém, para elas, são essenciais na ocasião. Espera constituir família e orientá-la à sua maneira sem os traumas de infância que alega não esquecer. Entretanto, condena nos filhos as práticas deturpadas que ela própria experimentou, gostou, abusou e depois rejeitou. Aleluia!

“Criam-se filhos negando-lhes as vontades!” – ouvi certa vez de um pai de criação rigorosa. Nem tanto nem tão pouco. Eliminando excessos, os bons costumes familiares de antigamente marcarão positivamente a existência dos filhos, agora e sempre. Ser um quase careta, se bem não fizer, mal também não fará.

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ONDE ESTARÁ O NÓ GÓRDIO?

Durante anos – e ponha anos nisso! – eu pastoreei a malha rodoviária do Rio Grande do Norte na condição de engenheiro. E não foram poucas as vezes que ouvi dizerem: “A malha rodoviária da Paraíba é a melhor do Nordeste; e põe a do Rio Grande do Norte no chinelo”. Aquelas vozes alardeavam a pura realidade dos fatos.

Entristecia-me notar a diferença entre as duas malhas, considerando que utilizávamos a mesma tecnologia construtiva, os mesmos materiais e procedimentos ditados pelas normas técnicas e, às vezes, calhando de construtoras responsáveis por obras semelhantes trabalharem nos dois estados, simultaneamente.

Ainda assim, permanecia um asfalto reluzente e sem defeitos na Paraíba, enquanto aqui o desgaste aparentava ser maior e mais intenso. Debrucei-me sobre o problema para descobrir a razão da diferença.

O nó górdio surgiu na minha frente, claro como a luz do dia. Embora o nosso estado possuísse características similares as do nosso vizinho, a Paraíba dispunha de um orçamento federal para manutenção e recuperação de rodovias, bem maior do que o destinado ao Rio Grande do Norte, todos os anos, durante décadas.

Manter uma boa infraestrutura rodoviária na Paraíba era, decerto, um ponto de honra para os seus parlamentares. Situação e oposição sempre se mantiveram unidas, caso a tratativa fosse buscar recursos para as estradas do estado. Creio que o mesmo comportamento ainda vigora por lá. Enquanto aqui…

No âmbito da aeronáutica a situação ganhava contornos diferentes. Natal dispunha de aeroporto pequeno, bem situado e acesso fácil ao centro da cidade; ao passo que João Pessoa, capital da Paraíba, era servida por um aeroporto nada funcional, mal localizado e operando reduzido número de voos regulares. Daí a preferência de paraibanos pelos terminais daqui e de Recife para suas viagens.

O encantamento do turista chegado a Natal, por via aérea, se iniciava ao deixar o Augusto Severo. Dava logo de cara com uma rodovia com seis faixas de tráfego, canteiro central florido, ausência de favelas no percurso, boa iluminação e acesso fácil aos principais bairros da capital. Um cartão-postal perfeito para o visitante.

Quantas e quantas vezes escutei comentários elogiosos, deste tipo: “Vocês possuem a mais bela entrada rodoviária de todo o Brasil”. Quem afirmava isso, também não falseava a realidade.

Eis que, em 2014, entrou em operação o Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante, o primeiro aeroporto privatizado do país, avaliado dois anos depois pela Secretaria de Aviação Civil como o melhor do país. Tudo levava a crer estarmos presenciando o nascimento do Eldorado dos aeroportos brasileiros.

Cinco anos depois de inaugurado, o entusiasmo inicial parece ter desaparecido. O ansiado hub da Latam ficou em Fortaleza; a distância entre o aeroporto novo e o centro da cidade, além da falta de segurança no percurso, são complicadores para seus usuários; e, por último, o alto custo das passagens desviando, vergonhosamente, nossos viajantes para embarques em terminais de estados vizinhos.

Treze anos atrás, operavam-se aqui, 23 voos charters semanais trazendo turistas de vários países da Europa sem dispor da estrutura aeroportuária de agora. Hoje, quantos são?… Natal caiu do 2º para o 5º lugar no ranking das operadoras de turismo, como o destino mais procurado do Nordeste. Não estará na hora de localizar e desatar o nó górdio que trava o crescimento do turismo no estado?

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É DE ARDER!

Passear pela verve contista de Nelson Rodrigues é entreter-se com dramas e tragédias de personagens envoltos nas piores encarnações morais que o gênero humano já concebeu. Por outro lado, é também uma maravilhosa viagem ilustrativa aos usos e costumes dos anos 50 e 60 retratados com sotaque da época, despidos de qualquer pudor ou censura.

O que torna deliciosa essa leitura é poder resgatar expressões e gírias escondidas há muito nas sombras de nossas lembranças, que escapolem, aos borbotões, das páginas daquele imaginário livresco e se nos apresentam tão vívidas e atuais como no tempo dos escritos de cada cena das histórias do autor.

Cinquenta anos atrás era comum externar surpresa dizendo: Carambolas! Papagaio! Mostrava-se desagrado afirmando: É de arder! Acho pau! É espeto! É de morte! Ora, que pinóia! Será o Benedito? Se algo nos era agradável manifestávamos a satisfação exclamando: Bonito! É uma bola! É um biju! Um brinco! Uma tetéia! Bonita como uma Estampa! Bacana!

Receio se expressava assim: Estou frito! Algum bode? Fizeram minha caveira! Para combinar um negócio recorria-se a ditos como: No duro! De fio a pavio. Uma mulher rica era Cheia da gaita. Ir ou vir depressa se cobrava com um: Chispando! Mentira afirmava-se: É potoca! O gabola era um Garganta pura.

Pessoa franzina não passava de um Espirro de gente. Recém-casado chamava-se Casadinho de fresco. Ser rigoroso era Entrar de sola. Pedia-se calma com um Sossega o periquito! Externava-se alguma contrariedade dizendo: Comigo não, violão! Para cobrar um segredo recorria-se a Desembucha, anda!

Diante da possibilidade de um namoro comentava-se: Ela te dá bola! Faz fé com a tua cara! Pode dar em cima! Para acusar alguém de esnobismo ou afetação era comum dizer: Não me venhas com chiquê! Com nove horas!

Usava-se o termo, Até aí morreu o Neves para insinuar que o tempo para determinada providência se esgotara. Para definir uma pessoa sonsa ou de dupla personalidade, dizia-se: Mas que mascarado você é! E nesse ritmo seguia-se.

No fundo, as gírias de hoje traduzem o mesmo significado de outrora, com a diferença de estarem maquiadas com um vocabulário pesado, sem originalidade e, em muitas situações, chulo.

Soltando a imaginação, até que seria pitoresco um trabalho cotejando expressões idiomáticas extraídas do cotidiano do brasileiro, relacionadas a diferentes épocas de nossa história contemporânea. Tal trabalho, lido por algum saudosista, deixaria escapar esta exclamação de apoio: É um número! Digno de almanaque!

Um dos vocábulos mais utilizados nas crônicas de Nelson Rodrigues é Batata. Tanto para cobrar um compromisso quanto para expressar um acerto: Nós nos encontraremos mais tarde, Batata? A tal pergunta respondia-se com outro: Batata! E estava empenhada a palavra.

Fico imaginando qual seria a reação de adolescentes, de alguma comunidade funk brasileira deste século XXI, diante do questionamento: Batata? Certamente entenderiam diferente a manifestação e responderiam algo do tipo:

Yes brother, manda o treco, mas, tem que ser passado num óleo esperto, com um sanduba de penosa e uma breja no grau que pinguim gosta!

– É de arder!

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EXTRAVAGÂNCIA, MANIA OU DOENÇA

Não sei se está enquadrado como extravagância, mania ou doença, o desejo compulsivo de esbanjarmos dinheiro para nos assemelharmos a astros e estrelas do cinema ou a destaques do mundo esportivo. Desconheço a razão para se acumular centenas de um mesmo tipo de objeto sem qualquer finalidade mercantil.

É difícil distinguir entre extravagância, mania ou doença quem dedica a existência montando coleções com o fito de alimentar o ego, direcionando afeição desmesurada para um objeto, e se reservando o exclusivo direito do usufruto. Realmente, existem pessoas portadoras de procedimentos um tanto excêntricos, difíceis de serem processados por nós outros, meros e desconhecidos normais.

Aqui abro parênteses. Eu procurei incentivar um dos meus netos a jogar tênis, quando ele completou sete anos de idade. Mostrei-lhe jogos de um ás na modalidade, na época, Rafael Nadal. As mungangas do jogador de esfregar a mão no nariz, nas orelhas e, por fim, puxar a cueca para desalojá-la de onde se metera, suponho que tenha desestimulado o moleque para tal esporte. Talvez, ele tenha imaginado que a mania – ou doença -, fosse uma das regras do jogo. Fecho parênteses.

É sabido existirem esquesitices decorrentes de distúrbios comportamentais, porém, o que pensar de quem garimpa e cataloga tudo o que se refere ao seu ídolo, numa ânsia ilógica, comprometendo a própria identidade?

Li, em algum lugar, que um morador de Hong Kong adquiriu por 4,3 mil dólares um chumaço de cabelo de John Lennon; que três radiografias do tórax de Marilyn Monroe foram vendidas por 45 mil dólares; que uma unha postiça da cantora Lady Gaga, despregada de seu dedo num show em Dublin, foi vendida por 300 mil dólares; e, que um lenço de papel, usado por Scarlett Johansson por conta de uma gripe transmitida por Samuel L. Jackson, foi arrematado em leilão por 6,6 mil dólares.

O lençol utilizado na noite de núpcias de Sean Pean e Madonna foi vendido por milhares de dólares. Cá entre nós: que fantasia elucubrou tal colecionador para curtir a peça usada no enlace relâmpago daqueles famosos astros de Hollywood?

Porém, deveras estarrecido eu fiquei, ao saber que o penico utilizado por Napoleão Bonaparte fora leiloado, em maio de 2005, com lance inicial de mil dólares. Impossível esse fato passar despercebido por meu caçuá de questionamentos.

O que o bendito comprador fez com o penico de Napoleão? Expôs o dito na sala de visitas de sua casa como um troféu irrefutável dos embates intestinais do imperador corso? Quem sabe utilizou o utensílio de alcova para se imaginar tão poderoso quanto o general de tantas vitórias ou tentou vencer a guerra contra os próprios desarranjos intestinais oriundos de suas necessidades fisiológicas.

Com tamanha preciosidade em mãos, o comprador do penico de Napoleão, poderia se deleitar antevendo o famoso ex-proprietário acocorado majestosamente na peça, bolando estratagemas para evacuar o exército inimigo de posições privilegiadas no próximo embate a ser travado.

Caso desejasse emoções mais fortes poderia relembrar, aboletado no penico, a derrota esmagadora de Napoleão na batalha de Waterloo, quando foi defenestrado de território de domínio inglês pelo duque de Wellington, sendo evacuado ele mesmo, em seguida, do trono francês.

O certo é que o livre arbítrio nos permite explorar manias inaceitáveis para uns e de naturalidade estrondosa para outros… Até mesmo colecionar penicos.

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