OS BRASILEIROS: Joaquim Nabuco

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu no Recife, em 19/8/1849. Advogado, político, orador, memorialista e diplomata reconhecido como um dos maiores homens públicos do Brasil. Liderou a campanha Abolicionista, tendo nascido e criado no meio da aristocracia escravista. Viveu até os oito anos, com a madrinha no engenho Massangana. Em seguida mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio Pedro II. Em 1865, foi morar em São Paulo, onde fez os três primeiros anos do curso de Direito e concluiu no Recife, em 1870. Foi colega de Castro Alves, que lhe incutiu as bases de seu caráter literário e abolicionista. Aos 20 anos, ainda estudante, assumiu o caso de um escravo acusado de assassinato, defendendo-o perante o tribunal do júri de Recife.

Em 1873, durante uma viagem à Europa, manteve um relacionamento amoroso com a investidora financeira e filantropa Eufrásia Teixeira Leite, detentora de uma das maiores fortunas do mundo na época. Ela herdou, em 1872, uma fortuna equivalente a 5% do valor das exportações brasileiras. O romance durou até 1887 e dois anos depois, aos 38 anos, casou-se com Evelina Torres Soares Ribeiro. Foi adido de primeira classe na Embaixada de Londres e depois em Washington, de 1876 a 1879. Como era filho do Senador José Tomás Nabuco de Araújo e de Ana Benigna Barreto Nabuco de Araújo, estava destinado a ter uma atividade política. Porém se opunha aos interesses dos poderosos senhores de engenho, e isto dificultou sua entrada na vida política. Começou escrevendo artigos abolicionistas para diversas revistas.

Em 1878, com a volta ao poder do Partido Liberal, onde seu pai era influente, foi eleito deputado geral e lutou pela eleição direta, pela participação dos não católicos no Parlamento e, principalmente, pela abolição total da escravidão sem indenizações aos donos de escravos. Criou a Sociedade Anti-Escravidão Brasileira, escrevendo um manifesto; fundou o jornal “O Abolicionista”: e viajou pelo exterior para divulgar a causa e obter apoio. Teve o apoio imediato da Inglaterra, uma das nações que mais combatia a escravidão, que se constituía num empecilho à sua expansão industrial e comercial em todo o mundo. Porém, mesmo assim, não conseguiu demover o conservadorismo na política nacional e foi derrotado nas eleições seguintes. Foi morar em Londres, onde viveu entre 1882-1884, e escreveu O abolicionismo, livro em que aproveitou para expor suas ideias sobre a reforma agrária. Seu plano era perfeito: beneficiar os negros libertos com terras para viver e trabalhar. Se fosse implantado, hoje o Brasil estaria noutro patamar de desenvolvimento.

De volta ao Brasil foi novamente deputado, e continuou com sua campanha abolicionista escrevendo diversos livretos antiescravagistas. Noutra viagem à Londres, apresentou uma proposta na Associação de Direito Internacional e, em Roma, fez uma visita ao Papa Leão XIII, que chegou a lhe prometer uma encíclica em favor da abolição. Apesar das ideias progressistas, mantinha o ideal monarquista com receio da perda da unificação territorial, como ocorreu com a América espanhola desmembrada em 18 repúblicas. No entanto, o ideal republicano crescia a cada dia. Para defender a monarquia, apresentou, em 1885, um projeto de monarquia federativa, defendendo a descentralização do poder para dar mais autonomia às províncias. Tal estratégia visava atender os anseios republicanos sem abrir mão da monarquia. Ele não via contradição política neste posicionamento, pois admirava o sistema presidencialista dos EUA e a monarquia parlamentar inglesa. Deixou registrado seu apreço pela monarquia no livro Por que continuo a ser monarquista (1890).

Em 1888, com fim da escravidão, recebeu o título de visconde, mas recusou a comenda do governo imperial. Em seguida, com a proclamação da República, em 1889, passou a dedicar-se mais à vida de escritor memorialista. Nessa fase de espontâneo afastamento, viveu no Rio de Janeiro, exercendo a advocacia e fazendo jornalismo. Frequentava a redação da Revista Brasileira, onde estreitou relações e amizade com altas figuras da vida literária brasileira, Machado de Assis, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, de cujo convívio nasceria a Academia Brasileira de Letras. Ele foi o fundador da Cadeira nº 27 e secretário-geral até 1899 e de 1908 a 1910.

Nesse período publicou duas de suas obras mais importantes: Um estadista do Império (1897-1899), em 3 volumes, uma biografia de seu pai e relato da história do Brasil naquele período e Minha formação (1900), livro de memórias. Na época o Brasil ainda não tinha embaixadas em outros países; o que havia eram legações para discutir questões diplomáticas. Mas, com a República era preciso estreitar os laços com outras nações através de embaixadas. Em 1900, o Presidente Campos Sales conseguiu convencê-lo a aceitar o posto de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário em missão especial em Londres, na questão do Brasil com a Inglaterra, a respeito dos limites da Guiana Inglesa. Em 1901, foi acreditado em missão ordinária, como embaixador do Brasil em Londres e, a partir de 1905, foi indicado pelo barão do Rio Branco, para assumir a primeira embaixada brasileira no exterior, em Washington, onde permaneceu até a morte. Ao lado de tantas atividades, vale acrescentar que, junto com Rui Barbosa, assumiu posição de destaque na luta pela liberdade religiosa no Brasil. Na época, a religião católica era oficial, fazendo do Brasil um Estado confessional. Ele defendia a separação entre Estado e Religião, bem como a laicidade do ensino público.

Em 1906, veio ao Rio de Janeiro para presidir a 3ª. Conferência Pan-Americana, em companhia do Secretário de Estado norte-americano Elihu Root. Ambos eram defensores do pan-americanismo, no sentido de uma ampla e efetiva aproximação continental. Foi muito prestigiado não apenas junto ao governo norte-americano, bem como ao povo e a comunidade acadêmica. Proferiu diversas palestras nas universidades sobre a cultura brasileira e foi um grande propagador dos Lusíadas, de Camões. Tais incursões na área literária lhe garantiram o grau de “doutor em letras” pela universidade de Yale. Quando faleceu, em Washington, em 17/1/1910, seu corpo foi reverenciado em solenidade excepcional, conforme fotos abaixo, e trasladado para o Brasil, no cruzador North Caroline. Do Rio de Janeiro foi transportado para o Recife, onde foi sepultado no Cemitério de Santo Amaro. As solenidades de sepultamento em Washington, Rio de Janeiro e Recife duraram em torno de um mês.

Após o falecimento, as homenagens são frequentes até agora. Em 1949 foi criada a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), vinculada ao Ministério da Educação, com o propósito de preservar seu legado histórico-cultural; na década de 1990, o Engenho Massangana, onde ele passou a infância, foi tombado pelo Patrimônio Histórico sob o nome de Parque Nacional da Abolição. Em seguida, a FUNDAJ criou em suas dependências o Centro Científico e Cultural Engenho Massangana (CCEM). Outras homenagens: na data de seu nascimento, 19 de agosto, comemora-se o Dia do historiador; a lei nº ei nº 11.946, de 15/6/2009, instituiu o ano de 2010 como “Ano Nacional Joaquim Nabuco”; em 2/6/2014, seu nome foi inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria”, pela Lei nº 12.988; em 28/9/1915, seu nome passou a designar uma das praças públicas mais importantes do Recife, onde se encontra sua estátua.

Praça Joaquim Nabuco e sua estátua frente ao Restaurante Leite, o mais antigo do Brasil

Cenas do funeral de Joaquim Nabuco em Washington, em abril de 1910:

Na primeira foto: Chegada do ataúde, numa carreta de artilharia, à Igreja de São Mateus. Na segunda: O Presidente dos EUA, William H. Taft e a Sra Taft chegando à Igreja.

Na primeira foto: Os marinheiros do North Carolina formados em frente ao Palácio Monroe. Na segunda: As representações oficiais ao saírem do Palácio Monroe, onde ficou exposto o corpo de Joaquim Nabuco.

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AS BRASILEIRAS: Nise da Silveira

Nise Magalhães da Silveira nasceu em Maceió, AL, em 15/2/1905. Médica psiquiatra e revolucionária dos métodos de tratamento de doenças mentais. Filha do professor de matemática Faustino Magalhães da Silveira e da pianista Maria Lídia da Silveira. Realizou os primeiros estudos no tradicional Colégio Santíssimo Sacramento e ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 21 anos, a única mulher entre os 157 homens de sua turma. Foi uma das primeiras mulheres médicas do Brasil.

Na faculdade, já no 1º ano, conheceu um rapaz, com quem se casou e fizeram um acordo de não ter filhos, para poderem se dedicar exclusivamente a medicina. Ele, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, paralela a carreira de médico, publicava artigos, ressaltando as relações entre pobreza, desigualdade, promoção da saúde e prevenção da doença no Brasil. Após a formatura, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho. Em 1933, no fim da especialização em psiquiatria, estagiou na clínica do Prof. Antonio Austregésilo, pioneiro no estudo da neurologia no Brasil. Em seguida foi aprovada num concurso público e foi trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia do Hospital da Praia Vermelha. Durante essa época, manteve contatos com a elite intelectual carioca e ingressou no PCB-Partido Comunista Brasileiro, onde encontrou a amiga Rachel de Queiroz, junto com quem assinou o “Manifesto dos trabalhadores intelectuais ao povo brasileiro”.

A militância no Partidão durou pouco e acabou sendo expulsa, sob a acusação de ser “trotskista”. Durante a “Intentona Comunista” (1935), foi delatada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas e ficou presa por 18 meses no presídio Frei Caneca. Ali dividiu cela com Olga Benário e se encontrava preso o escritor Graciliano Ramos, que deixou relatado o encontro no seu livro Memórias do cárcere: “Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, em vivo constrangimento”.

Ao sair da prisão, ficou na semiclandestinidade e afastada do serviço por razões políticas até 1944. Aproveitou esse período para conhecer o filósofo Spinoza, que lhe rendeu mais tarde a publicação do livro “Cartas a Spinoza” (1995). Retomou seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II sempre discordando das técnicas agressivas aplicadas aos pacientes. Tais discordâncias levaram a sua transferência para o trabalho de “terapia ocupacional”, menosprezado pelos médicos. Desse modo, ela fundou uma seção dedicada a esta atividade. No lugar das tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela criou ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a psiquiatria então praticada no país.

Esta experiência possibilitou um vôo maior: em 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abriam novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico. Entre outros artistas-pacientes, encontramos Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Emydio de Barros e Octávio Inácio entre outros. Entre 1983 e 1985 o cineasta Leon Hirszman realizou o filme “Imagens do Inconsciente”, mostrando obras realizadas pelos internos a partir de um roteiro criado por ela. O sucesso dessa iniciativa levou-a a criação de outro projeto revolucionário: fundou a “Casa das Palmeiras”, uma clínica voltada à reabilitação de antigos internos de instituições psiquiátricas. Este projeto constituiu-se no alicerce do movimento contra os hospícios, que chegaria ao seu ápice com a Lei Antimanicomial, de 2001.

Foi pioneira também no emprego de animais em auxílio aos pacientes, prática hoje empregada em todos os tipos de doenças. Percebeu essa possibilidade de tratamento ao observar a melhoria de um paciente a quem delegara os cuidados de uma cadela abandonada no hospital, tendo a responsabilidade de tratar deste animal como um ponto de referência afetiva estável em sua vida. Chamava os animais de “co-terapeutas”. Seu interesse pela simbologia expressa nas “mandalas” desenhadas pelos pacientes, levou-a a entrar em contato com o psiquiatra Carl Gustav Jung, em 1954, iniciando uma proveitosa troca de correspondência. Assim, foi introduzida a psicologia junguiana no Brasil. Do mesmo modo, foi introduzida a psiquiatria de Nise da Silveira na Europa, estimulada por Jung. Em 1957 ela apresentou uma mostra das obras de seus pacientes – “A Arte e a Esquizofrenia” – no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique. Em seguida, passou a estudar no “Instituto Carl Gustav Jung” em dois períodos: 1957-58 e 1961-62, sob a supervisão de Marie-Louise von Franz, assistente de Jung.

De volta ao Brasil, montou em sua casa o “Grupo de Estudos Carl Gustav Jung”. Em 1974 se aposentou e fundou a Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, para garantir a permanência da instituição, ainda não integrada na estrutura do Ministério da Saúde. Carlos Drummond de Andrade deu uma força nesse sentido e publicou a crônica – A Doutoura Nise – no Jornal do Brasil, em 2/1/1975: “Não é comum ver-se um funcionário que se aposenta suscitar iniciativa desta ordem para preservar-lhe as realizações no serviço público. Deve ser mesmo caso único. Para se justificarem como entidade, os amigos do Museu, que são os amigos de Nise, precisam ficar atentos e ativos, não deixando que tal instituição seja roída pela indiferença burocrática”. Ferreira Gullar foi outro admirador e, na condição de crítico de arte, ficou emocionado quando conheceu o “Museu”. Adorava seu caráter rebelde e publicou seu perfil – Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde -, em 1996. Foi amiga também de Mario Pedrosa, outro crítico de arte e dizia: “Tive excelentes aliados na literatura e na imprensa. No entanto, poucos médicos foram meus aliados”. Ledora voraz de Machado de Assis, gostava de lembrar sua frase no conto O Alienista: “De médico e louco todo mundo tem um pouco”, para emendar outra de sua lavra: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas.”

Seu trabalho inspirou a criação de instituições similares em outros estados e no exterior: Museu Bispo do Rosário (RJ), Centro de Estudos Nise da Silveira (Juiz de Fora, MG), Espaço Nise da Silveira, do Núcleo de Atenção Psicossocial (Recife, PE), Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira, do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre, RS), Associação de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira (Salvador, BA), Centro de Estudos Imagens do Inconsciente, da Universidade do Porto (Portugal), Association Nise da Silveira – Images de l’Inconscient (Paris), Museattivo Claudio Costa (Genova, Itália). Societé Internationale de Psychopathologie de l’Expression (Paris). O psicólogo Gonzaga Leal conta que ela gostaria de passar seus últimos dias num mosteiro. “Ela dizia sempre que queria morrer como um gato, que se recolhe e morre sozinho.”. De fato, seu último livro foi “Gatos: a emoção de lidar”, publicado em 1998. Pouco depois veio a falecer em 30/10/1999. Foi homenageada em vida por diversas entidades: “Oficial da Ordem do Rio Branco”, pelo Ministério das Relações Exteriores (1987); “Prêmio Personalidade do Ano de 1992″, da Associação Brasileira de Críticos de Arte; “Ordem Nacional do Mérito Educativo”, pelo Ministério da Educação e do Desporto (1993) entre outras. Em 2014, Luiz Carlos Mello, curador do Museu do Museu de Imagens do Inconsciente, publicou uma alentada biografia Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde.

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OS BRASILEIROS: Mazzaropi

Amácio Mazzaropi nasceu em São Paulo, em 9/4/1912. Ator, cineasta e o empresário mais bem sucedido do cinema brasileiro. Durante três décadas foi considerado o maior cômico do cinema nacional no papel de Jeca Tatu. Vale ressaltar a transformação que ele realizou no personagem criado por Monteiro Lobato em sua obra-prima Urupês (1918). Trata-se de um caipira, ignorante e preguiçoso, cuja história foi parar nas páginas do “Almanaque Biotônico Fontoura”, em 1924. É uma peça publicitária que recomenda a ingestão do milagroso remédio para não se tornar um “Jeca Tatu”.

No conto de Lobato, o personagem é um ser desprezível, dependente e sem qualquer qualidade, que o autor chega a compará-lo a um cogumelo que nasce em paus podres. Desse modo, Lobato criou sem querer um preconceito em relação ao caipira, que perdurou por muito tempo. A transposição da história para o Almanaque consolidou o preconceito de forma definitiva, abrangendo todo o País. O livrinho era distribuído em farmácias e atingiu uma tiragem de 120 mil exemplares. Em alguns lugares mais remotos era a única opção de leitura e muita gente aprendeu a ler com esta publicação. Aos poucos o caipira foi assimilado como fraco, burro, preguiçoso e até antissocial. Certamente, não era essa a intenção do autor. Sua finalidade, com essa criação, foi tirar o caboclo da situação de penúria em que se encontrava; uma crítica à política governamental de abandono dirigida ao homem do campo.

Devido a popularidade do personagem em meados do século passado, Mazzaropi decidiu incorporá-lo e conseguiu a proeza de dar um novo significado ao personagem, moldando um novo caipira. Ao mesmo tempo em que satiriza sua situação, apresenta-o como um cara matreiro, sabido, dono de si e que acabava por enrolar e vencer seus detratores. Dos 33 filmes que produziu e atuou, sete têm Jeca Tatu no título. O personagem ficou grudado no ator. As relações entre o Jeca Tatu de Lobato e o de Mazzaropi já renderam algumas dissertações e teses acadêmicas. Não por acaso, tais relações incluem a mesma cidade –Taubaté– onde Lobato viveu e Mazzaropi foi morar aos dois anos e lá construiu seu império cinematográfico, a PAM Filmes. Dizem que apenas com os habitantes de Taubaté, seus filmes já pagavam os custos de produção. O que vinha do resto do País era lucro.

Filho de um imigrante italiano –Bernardo Mazzaropi- e uma portuguesa –Clara Ferreira-, a família mudou-se para Taubaté em 1914. Amácio passava longas temporadas na casa do avô materno, em Tremembé. O velho era um português tocador de viola, dançarino e animador de festas, às quais levava os netos. Aí tomou contato com a vida cultural do caipira, que incorporou mais tarde no cinema. Em 1919 retornam à capital e ele foi estudar no Colégio Amadeu Amaral, no bairro do Belém. Na escola era bom aluno, decorava e declamava poesias, e animava as festas escolares. Em 1922, com a morte do avô, voltam de novo à Taubaté. Seu pai abriu um pequeno bar e ele passou a frequentar assiduamente o circo. Os pais, tentando afastá-lo desse ambiente, mandaram-no para Curitiba para morar com um tio, onde foi trabalhar numa loja de tecidos. Aos 14 anos retornou à São Paulo e, pouco depois, ingressou na caravana do Circo La Paz. Entre uma atração e outra, ele conta causos e anedotas a troco de uma gratificação.

Em 1929, voltam a morar em Taubaté e ele passa a trabalhar como tecelão. Mas não abandona os palcos e atua nas escolas do bairro em fins de semana. Junto com a Revolução constitucionalista, de 1932, dá-se uma agitação cultural na cidade e ele estreia sua primeira peça de teatro: A herança do Padre João. Ele convence os pais a atuarem como atores e a “Troupe Mazzaropi” percorre diversas cidades do interior até 1944. Mas o ganho é pouco para manter a “companhia”. Com a morte da avó materna, recebeu uma herança e montou um barracão na capital, onde passou a exibir peças bem elogiadas pelos jornais paulistanos. No entanto, a saúde do pai complicou a situação financeira da companhia de teatro, encerrada após sua morte em 1944. Pouco depois estreou no Teatro Oberdan como ator e diretor da peça “Filho de sapateiro, sapateiro deve ser”, bem acolhida pelo público.

Em 1946, foi convidado para estrear um programa ao vivo –“Rancho Alegre”- no auditório da Rádio Tupi, dirigido por Cassiano Gabus Mendes. Em 1950 o mesmo programa inaugura a TV Tupi, tendo como coadjuvantes atores como João Restiffe e Geny Prado. Convidado por Abilio Pereira de Almeida e Franco Zampari, estreou seu primeiro filme em 1952: “Sai da frente”, produzido pela Companhia Vera Cruz, onde atuou em outros filmes sempre contando com grande sucesso de bilheteria: “Nadando em dinheiro”, “A carrocinha”, “Chico fumaça” “Chofer de praça” etc. A partir deste último filme, além de ser o protagonista, acumulou as funções de produtor, roteirista e colaborando sempre com os diretores. 1959 foi o ano da virada em sua carreira com dois fatos importantes: 1º) foi convidado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o “Boni” da TV Excelsior e depois da TV Globo, para fazer um programa que ficou no ar até 1962. 2º) começou a produzir o filme que rendeu uma das maiores bilheterias do cinema nacional: “Jeca Tatu”. Consta que o filme foi visto por um público de oito milhões.

Em 1961, com muito dinheiro, alavancou seu espírito empreendedor, comprou uma fazenda em Taubaté e construiu um estúdio cinematográfico, uma oficina de cenografia e um hotel para os atores e técnicos. Produziu seu primeiro filme em cores: “Tristeza do Jeca”, que foi também o primeiro filme exibido na TV, ganhando os prêmios de melhor ator coadjuvante (Genésio Arruda) e melhor canção (Angelino de Oliveira). Em seguida lançou mais alguns recordes de bilheteria como “O corintiano” , “O puritano da rua Augusta”, “Uma pistola para Djeca” entre outros. Todos seus filmes eram lançados em 25 de janeiro, data da fundação da cidade de São Paulo. Foi capaz de enfileirar um blockbuster atrás do outro na sua cinematografia. Seus filmes, tal como nas chanchadas, divulgava a música brasileira, muitas vezes interpretadas por ele mesmo. Não era visto como cantor, mas não cantava mal. Tanto é que quase todas suas interpretações foram reunidas e gravadas em dois LP’s: “Os grandes sucessos de Mazzaropi”, vol. 1 e 2.

Seu último filme – “Maria tomba homem” (1982) – não chegou a ser concluído por ele. Foi vitimado por um câncer na medula óssea em 13/6/1981. Deixou como legado o Museu Mazzaropi (Taubaté, SP), com mais de 20 mil itens contando a história do cinema brasileiro. Toda sua fortuna, que não era pouca, foi distribuída entre seus funcionários e os cinco filhos adotivos. Em 1990 foi inaugurada a Oficina Cultural Amácio Mazzaropi, enorme prédio localizado no Bom Retiro (SP), mantido pela Secretaria da Cultura, com uma grande variedade cursos e atividades. Em 2006 foi homenageado em grande estilo com “Tapete Vermelho”, um filme dirigido por Luiz Alberto Pereira, com Matheus Nachtergaele no papel de “Quinziho”, uma cópia fiel do próprio Mazzaropi, que fez uma promessa de levar o filho até a cidade para ver um filme antigo do comediante. Uma ótima biografia do comediante foi escrita em 2010 por Marcela Matos, lançada pela editora Desiderata: “Sai da frente!: a vida e a obra de Mazzaropi”. Em 2013 foi lançado o documentário “Mazzaropi”, dirigido por Celso Sabadin, um relato de sua vida e carreira, contando com depoimentos de grandes nomes do cinema e da TV.

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AS BRASILEIRAS: Clarice Lispector

Clarice Lispector nasceu em Chechelnyk, Ucrânia, em 10/12/1920. Escritora e jornalista, veio para o Brasil com pouco mais de um ano e se dizia pernambucana. “Na Ucrânia nunca botei os pés, só andei no colo” . Aos sete anos já era uma leitora habitual; aos oito foi ao Teatro pela primeira vez e ficou encantada com a encenação. Escreveu uma peça – Pobre menina rica – que, infelizmente, se perdeu. Aos 10 anos passou a escrever contos e se animou em enviá-los ao suplemento infantil do “Diário de Pernambuco”. Não foram publicados porque não pareciam contos infantis; não continham fadas ou piratas; referiam-se mais a sensações.

No curso primário tomou gosto pela matemática e chegou a dar aulas aos filhos dos vizinhos com dificuldades na matéria. Em 1932 entrou no Ginásio Pernambucano e no ano seguinte “tomei posse da vontade de escrever”. Nesta época, um dos livros que lhe causou impacto foi O lobo da estepe, de Hermann Hesse. Tentou escrever um conto enorme, que devido ao tamanho, não chegou a ser concluído. Também lia muito, misturando tudo e escolhendo os livros pelos títulos. Lia livros de mocinhas e Dostoiévski ao mesmo tempo. Aos 8 anos sua mãe faleceu e aos 14 seu pai mudou-se com as 3 filhas para o Rio de Janeiro. Foram morar no bairro da Tijuca, onde concluiu o ginásio no Colégio Silvio Leite. Em 1937 entrou numa escola preparatória para a Faculdade de Direito e voltou a dar aulas particulares de matemática para ajudar no orçamento familiar. Em 1939 ingressou no curso de Direito ao mesmo tempo em que trabalhava num escritório de advocacia. Mas o interesse pelo Direito foi minguando enquanto aumentava o gosto pela Literatura.

Nessa época a família passou por novos perrengues com o Estado Novo, de Getúlio Vargas, o avanço da II Guerra Mundial e o antissemitismo imperando no Brasil. Clandestinamente, seu pai arrecadava fundos para os judeus na Palestina. Em maio de 1940 publicou seu primeiro conto – Triunfo – na revista “Pan”. Em agosto seu pai faleceu e ela foi morar com a família da irmã no Catete. Insatisfeita com o trabalho de escritório, passou a circular pelas redações de revistas oferecendo seus contos. Na revista “Vamos Ler!” encontrou o jornalista Raimundo Magalhães Jr., secretário do ministro da propaganda Lourival Fontes. Mostrou-lhe o texto e ele perguntou: “de quem você copiou isto?” Ao saber que ela havia escrito, decidiu publicar. Com este contato, teve acesso ao ministro e conseguiu um emprego de tradutora e repórter na Agência Nacional.

Aí conheceu Lucio Cardoso, por quem ficou enamorada, mas não foi correspondida, pois o rapaz era homossexual. Porém, a amizade progrediu e passou a integrar o círculo de jornalistas e intelectuais. Como repórter viajou pelo País e deixou textos publicados em diversas revistas e jornais. Em 1941 intensificou a publicação de matérias e contos, revelando uma tendência, onde os conflitos familiares e amorosos são realçados. O primeiro livro – Perto do coração selvagem – surgiu em 1942. O título foi sugerido por Lucio Cardoso e o crítico Álvaro Lins classificou-o como “o primeiro romance brasileiro dentro do espírito e da técnica de James Joyce e Virginia Woolf”. O livro causou certo furor no circuito literário; foi eleito o romance do ano pela Fundação Graça Aranha e suscitou comparações com Joyce, Sartre e Proust, causando estranheza na autora, que afirmou não ter lido nenhum destes autores.

Em 1943 obteve a naturalização e casou-se com o futuro diplomata Maury Gurgel Valente. No final do ano os dois formam-se em Direito, mas não foram colar grau. No ano seguinte o casal mudou-se para Belém, devido ao serviço do marido como vice-cônsul. Em julho de 1944, logo após a II Guerra Mundial, o casal foi transferido para Nápoles, onde passou a fazer trabalho comunitário junto às enfermeiras de um hospital norte-americano, auxiliando no tratamento dos feridos em guerra. Em fins de 1945 recebeu carta de Manuel Bandeira criticando sua poesia, fazendo com que ela queimasse todos seus poemas. Mais tarde Bandeira se desculpou e lamentou: “Até hoje tenho remorso do que disse a respeito dos versos que você me mostrou. Você interpretou mal as minhas palavras […] Faça versos, Clarice, e se lembre de mim”. Em 1946, foi publicado “O Lustre” e ela passou três meses no Rio de Janeiro para rever amigos e fazer outros. Conheceu Paulo Mendes Campos, com quem manteve um romance mais tarde, ao separar-se do marido.

De volta à Europa, o casal foi morar na Suíça, para onde o marido foi transferido. Enfrentando novas dificuldades de adaptação, passou a frequentar cinemas quase diariamente e a ler novos autores, como Ibsen, Theodore Dreiser, Jean Cocteau e Simone de Beauvoir. Nesse meio tempo, continua enviando contos para o jornal carioca “A manhã”. Em 1947 os dissabores com a vida diplomática e constantes mudanças levaram-na ao psicoterapeuta Uysses Girsoler. Mas o tratamento não prosseguiu devido a paixão que ele passou a sentir por ela. Em 1948 veio o primeiro filho, Pedro, e em 1953, o segundo Paulo. Ao entrar na adolescência, Pedro foi diagnosticado como esquizofrênico e abalou a estrutura familiar. Cansada da vida de eterna viajante, do ciúme do marido e querendo cuidar melhor do filho, separou-se em 1959 e voltou a morar no Rio de Janeiro com os dois filhos.

Retomou a carreira de escritora profissional com uma coluna “Correio feminino – Feira de Utilidades”, no “Correio da Manhã” sob o pseudônimo de Helen Palmer. No ano seguinte, assumiu a coluna “Só para mulheres”, do Diário da Noite, como ghost-writer da atriz Ilka Soares. Em 1966, foi dormir com um cigarro aceso e provocou um incêndio no quarto. Ficou mal durante três dias, quase teve a mão direita amputada e ficou hospitalizada por dois meses. Em 1975 participou do 1º Congresso de Bruxaria, em Cali, Colômbia, fez palestra sobre o conto “O ovo e a galinha” e foi bem recebida pelo público. Ao voltar ganhou fama como a grande bruxa da literatura brasileira. Otto Lara Resende falou: “não se trata de literatura, mas de bruxaria”. Seja o que for, o fato é que em seguida lançou mais um sucesso de crítica e público: A hora da estrela (1977), romance que veio a ser filmado.

Em fevereiro de 1977 deu uma entrevista na TV Cultura onde se apresentou de modo circunspecto, melancólica e muito séria. A conversa enveredou sobre o tema da morte e o entrevistador, sentindo o clima tenso, perguntou: “mas você não se renova a cada trabalho novo?” . A resposta exprimiu certo desencanto com vida: ““Bom, agora eu morri… Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto eu estou morta… Estou falando do meu túmulo”. A entrevista pode ser vista clicando aqui. Em 9/12/1977 faleceu de verdade. Mas eis que surge o milagre: poucos anos depois, ela renasce como uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira. Surgiram diversas biografias aqui e no exterior, obras póstumas, relançamentos, análises de suas obras, além de inúmeras dissertações e teses acadêmicas sobre sua obra. A Editora Rocco mantém até hoje um blog contendo toda sua obra e uma minuciosa cronologia biográfica: Editora Rocco

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MEMORIAL DOS BRASILEIROS: Santos Dumont

Alberto Santos Dumont nasceu em 20/7/1873, em Palmira, MG, que atualmente leva seu nome. Foi aeronauta, alpinista, balonista e “Pai da Aviação”. Ainda hoje permanece a polêmica se foi ele ou os Irmãos Wrigth os inventores do avião. Com apenas um ano de idade, sua brincadeira era furar balõezinhos de borracha para ver o que tinham dentro. Oriundo de uma rica família de cafeicultores, seu pai – Henrique Dumont – era engenheiro formado em Paris e a mãe – Francisca de Paula Santos – teve oito filhos. Alberto era o sexto.

Em 1879 a família mudou-se para Ribeirão Preto (SP) e adquiriu uma fazenda de 1.200 alqueires, criou a empresa “Dumont Coffe Company” e passou a plantar, beneficiar e exportar café. Em pouco tempo tornou-se o maior estabelecimento agrícola do País. Na fazenda tinha ampla liberdade para criar engenhocas de todo tipo na oficina do pai. “Vivi ali uma vida livre, indispensável para formar o temperamento e o gosto pela aventura”. Aos sete anos guiava carroças; aos doze brincava nas locomotivas e ensaiava invenções. Ao tomar contato com as obras de Julio Verne, ficou entusiasmado. “Com o Capitão Nemo explorei as profundidade do oceano; com Fileas Fogg fiz em 80 dias a volta ao mundo…”. Era fascinado pela tecnologia: construía pequenos aeroplanos movidos por uma hélice acionada por molas de borracha torcida; nas festas juninas fazia pequenos balões e soltava sobre as fogueiras para ver sua subida aos céus.

Em 1891 viajou pela Europa com os pais e três anos depois retornou sozinho. Aperfeiçoou o inglês em Londres e na França escalou o Monte Branco, de 5.000 metros. Passou a se interessar pela mecânica, particularmente o motor de combustão interna, que estava surgindo. Viu que na França inventaram os balões a hidrogênio e que era ali onde a navegação aérea haveria de prosperar. Em 1897 mudou-se para Paris e dedica-se inteiramente à aeronáutica. Projetou, construiu e voou nos primeiros balões dirigíveis movidos à gasolina. Com isto ganhou o Prêmio Deutsche em 1901. Seu dirigível nº 6 contornou a Torre Eiffel e ele ficou famoso no mundo. Recebeu cumprimentos de altas personalidades e reportagens em diversas revistas. O presidente Campos Salles deu-lhe um prêmio em dinheiro e uma medalha com uma efígie e uma alusão a Camões: “Por céus nunca dantes navegados”; o príncipe de Mônaco fez um convite e ofereceu um hangar para suas experiências; foi convidado para viajar aos EUA, onde foi recebido pelo presidente Theodore Roosevelt. Em 1904 relatou suas experiências no livro “Dans l’air”, lançado no Brasil com o título “Os meus balões”, em 1938.

Em 23/10/1906 foi, de novo, o primeiro a decolar a bordo de um avião com motor à gasolina. Voou 60 metros a uma altura de dois a três metros com o “14 Bis” no Campo de Bagatelle, em Paris. 20 dias depois voou 220 metros a uma altura de seis metros com o “Oiseau de Proie III”, batendo o próprio recorde. Foram os primeiros voos homologados pelo Aeroclube da França. Foi a primeira demonstração pública de um veículo levantando voo sem uma rampa de lançamento. “O homem conquistou o ar!”, gritavam as pessoas em terra firme. Pela façanha, ele recebeu o prêmio de três mil francos da FAI-Federation Aeronautique Internationale. Nesta ocasião, os irmãos Wright mantinham em segredo sua invenção, apesar dos convites para que fossem demonstrá-la. Um dos motivos da recusa foi que seu avião usava uma catapulta que impulsionava o aparelho para o voo, o que estava fora dos parâmetros dos europeus.

Assim inicia a polêmica sobre quem inventou o avião. O fato é que a exigência da FIA era que o aparelho fosse mais pesado que o ar; que pudesse ser controlado por um piloto e que decolasse e pousasse sem a ajuda de nenhum outro equipamento. Os irmãos Wright alegaram que conseguiram esse feito em 1903. Eles pilotaram o “Flyer” por quase 37 metros e disseram que estavam alcançando distâncias maiores. O problema é que eles não deixavam ninguém ver esses voos, por medo de que copiassem a ideia. Tal demonstração só foi realizada em público em 1908, voando mais de 100 Km. na França. Foi nesse instante que eles mostraram a foto do primeiro voo em 1903. Porém, surge outro problema: os modelos dos irmãos Wright não atendiam a um dos critérios da FIA, que era decolar e pousar por conta própria. Eles utilizaram equipamentos como trilhos e catapultas, enquanto “14 Bis” não fez uso destes equipamentos, utilizando apenas um sistema de duas rodas. Para finalizar a polêmica, a FIA deu o crédito do invento aos irmãos Wright com o voo ocorrido em 1903 no Flyer. Mas a polêmica se mantém até hoje devido ao fato de o “14 Bis” ter uma decolagem autopropulsionada, reconhecida pelo público e jornalistas, e homologada pela FAI.

A tecnologia aeronáutica evoluiu e em 25/7/1909 Louis Blériot atravessou o Canal da Mancha num voo. Santos Dumont parabenizou-o numa carta: “Esta transformação da geografia é uma vitória da navegação aérea sobre a navegação marítima. Um dia, talvez, graças a você, o avião atravessará o Atlântico”. Recebeu como resposta: “Eu não fiz mais do que segui-lo e imitá-lo. Seu nome para os aviadores é uma bandeira. Você é o nosso líder.”. A partir daí passou a sofrer de esclerose múltipla, encerrou a carreira de inventor e afastou-se do convívio social. Outro de seus inventos foi o relógio de pulso, um recurso essencial para controlar o tempo de marcha sem desviar as mãos do comando. Outro dado, ainda menos lembrado, é sua importância na criação do Parque Nacional do Iguaçu e suas cataratas. Entre 24 e 27/4/1916 esteve lá a convite de Frederico Engel, Ao visitar o local ficou encantado com a paisagem e a queda d’água. Não se conformou com o fato daquele local ser uma propriedade privada: “Posso dizer-lhe que esta maravilha não pode continuar a pertencer a um particular”, disse ao anfitrião e na volta, “quando passei por Curityba, fui falar com o presidente do Estado [Afonso Camargo] sómente sobre o lguassú: pedir-lhe que se interesse pelo salto, o torne mais fácil e commoda a excursão… ” relatou mais tarde. Providências foram tomadas e, em 19/1/1939, um decreto do Governo Vargas criou o Parque Nacional do Iguaçu.

Em 1918 escreveu uma autobiografia e lançou o livro “O que eu vi, o que nós veremos”, relatando suas experiências e as perspectivas da tecnologia aeronáutica. Deixou registrado no livro suas cartas dirigidas ao Presidente sobre o atraso da indústria aeronáutica militar no Brasil. Porém, mais arrependeu-se dessa sugestão e apelou, em 1926, à Liga das Nações (futura ONU) para que se impedisse o uso de aviões como armas de guerra. Em 1928, de volta ao Brasil no navio Capitão Arcona, foi recebido festivamente. Um hidroavião que participava da solenidade sofreu um acidente ao sobrevoar o navio. Não restou sobreviventes entre os ilustres tripulantes. Abatido, ele suspendeu as festividades e retornou a Paris. Por essa época já apresentava um quadro de depressão profunda, que não foi atenuada nem com a condecoração que recebeu do Aeroclube de Paris como Grande Oficial da Legião de Honra da França, em 1930. No ano seguinte foi internado em casas de saúde no sul da França. Enquanto isso, a Academia Brasileira de Letras preparava-se para incorporá-lo ao seu quadro, como imortal em junho de 1931, mas não chegou a tomar posse da cadeira nº 38. De volta ao Brasil, passou alguns dias em Araxá, outros no Rio de Janeiro e instalou-se no Grand Hotel La Plage, em Guarujá, em maio de 1932. Dois meses depois estourou a Revolução Constitucionalista. Conta a história que os aviões de combate sobrevoaram o litoral paulista. Tal visão agravou seu estado depressivo, levando-o ao suicídio em 23/7/1932.

O espaço aqui não comporta todas as homenagens que recebeu, mas vale ressaltar que sete dias após o falecimento, a cidade de Palmira, onde nasceu, teve seu nome mudado para Santos Dumont. Em 1936 foi decretado o dia 23 de outubro (seu primeiro voo) como o “Dia do Aviador”. No mesmo ano o aeroporto do Rio de Janeiro foi batizado com seu nome. Em 1956 o correio do Brasil e Uruguai lançaram uma série de selos comemorativos e sua casa em Cabangu (MG) foi transformada em “Museu Casa de Santos Dumont”. Em 1959 foi condecorado como Marechal-do-Ar pelo Ministério da Aeronáutica. Em 1976 a União Astronômica Internacional deu seu nome a uma cratera lunar (27,7°N 4,8°E). A partir de 1984 passou a ser o “Patrono da Aeronáutica Brasileira”. Para finalizar esta concisa biografia e, talvez, a polêmica sobre quem inventou o avião, se foram os irmãos Wright ou Santos Dumont, o presidente dos EUA, Bill Clinton, esteve no Brasil em 13/10/1997, e discursou referindo-se a ele como o “Pai da Aviação”.

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MEMORIAL DAS BRASILEIRAS: Lucia Miguel Pereira

Lucia Miguel Pereira nasceu em Barbacena, MG, em 12/12/1901. Escritora, tradutora e destacada crítica literária, integrante de uma família de escritores. “Carioca de Minas”, pois nasceu por acaso em Barbacena, numa das fugas de sua mãe, Maria Clara Tolentino Pereira, do calor do Rio de Janeiro. Ela estava grávida e não houve tempo para retornar ao Rio. Filha do conhecido médico Miguel da Silva Pereira, esposa do escritor Otávio Tarquínio de Souza, prima de Antônio Cândido e tia do poeta Bruno Tolentino. Durante as décadas de 1920 e 1930 constituiu-se numa referência do ensaísmo feminino e uma das principais biógrafas de Machado de Assis.

Escreveu muitos artigos e ensaios em revistas e jornais da época, e pediu à família que, em caso de morte, todos seus escritos inéditos só poderiam ser publicados com a autorização do marido. Na falta deste, deveriam ser incinerados. Como os dois faleceram num desastre aéreo, em 22/12/1959, a família atendeu seu pedido. Seus textos publicados foram reunidos na década de 1990 em dois volumes: A Leitora e seus personagens (1992) e Escritos da maturidade (1995) resgatando suas colaborações, entre 1931 e 1959. Um terceiro volume póstumo foi publicado em 2015: O século de Camus – Artigos para jornal, 1947-1955. São textos de crítica literária, que revelam uma aguda erudição e capacidade de percepção da arte e da vida.

Seu pendor ensaístico e biográfico foi despertado no Colégio Sion, onde, junto com as colegas criaram a revista “Elo” e passou a escrever artigos transmitindo suas impressões de leitura. Publicou o ensaio “Isabel, a redentora”, sobre a escravidão e outro sobre Euclides da Cunha: “Um bandeirante”, em 1927. Porém, foi no “Boletim de Ariel”, famosa revista literária dirigida por Gastão Cruls e Agripino Grieco, que saíram os primeiros artigos de crítica literária e permaneceu até 1937. Antes disso, publicou seus dois primeiros romances em 1933: “Maria Luísa” e “Em surdina”, editados por Augusto Frederico Schmidt e José Olympio, antigos amigos de seu pai. Em 1934, foi inaugurada a Livraria José Olympio no centro do Rio de Janeiro, que ela passou a frequentar e fazer amigas, como Adalgisa Nery, Dinah Silveira de Queiroz e Rachel de Queiroz, escritora já consagrada com o romance “O Quinze”.

Em 1936 despontou no circuito literário com sua obra-prima: “Machado de Assis (estudo crítico e biográfico)”, publicada pela Companhia Editora Nacional. O livro foi um sucesso de público e crítica, agraciado com o Prêmio da Sociedade Felippe d’Oliveira. Provocou uma revirada na interpretação psicológica do autor e renovou o interesse pela obra de Machado. Até hoje seu trabalho é considerado um clássico da fortuna crítica do autor, contando com oito edições e integrando grandes coleções de estudos brasileiros. A carreira de crítica literária foi consolidada na “Revista do Brasil”, no período 1938-1943, e prosseguiu nos jornais “Correio da Manhã” e “O Estado de São Paulo”, onde pontificou no Suplemento Literário com excelentes textos e análises literárias. Foi na Livraria do seu amigo José Olympio que conheceu Octávio Tarquínio de Souza, quarentão desquitado, historiador e Ministro do TCU-Tribunal de Contas da União. Octávio ficou encantado com a morena atraente e intelectual sofisticada; conversa vai e vem, veio o namoro seguido de casamento em 1939. Foram morar no alto do bairro do jardim Botânico, onde ficaram até 1948.

Mudaram-se para a cobertura no recém-inaugurado e moderno conjunto do Parque Guinle, projetado por Lúcio Costa. Como o casal gostava de receber amigos, as reuniões que se davam na casa do Jardim Botânico foram intensificadas na cobertura, tonando-se ponto de encontro da então intelectualidade do Rio de Janeiro. Entre os frequentadores assíduos encontravam-se desde o pensador católico Alceu Amoroso Lima até o comunista Astrojildo Pereira, que chegou a se utilizar do apartamento como refúgio, diversas vezes, para não ser preso. Em 1945 foi convidada pelos portugueses para organizar “O Livro do Centenário de Eça de Queiroz”, publicado em Lisboa pela editora Dois Mundos. Em 1950 mergulhou na história e escreveu “História da Literatura Brasileira: Prosa de Ficção, de 1870 a 1920”, que veio integrar, como volume XII, a “História da Literatura Brasileira”, dirigida por Álvaro Lins.

Em seguida lançou mais uma biografia, “A Vida de Gonçalves Dias”. em 1952, dando um novo significado sobre o autor e o indianismo na literatura brasileira. Para ela, o gênero biografia tinha uma importância fundamental no momento em que o País carecia de boas referências para a construção de uma identidade nacional. Só assim, segundo ela o gênero seria “capaz de fazer com que os brasileiros se interessem pelas figuras de sua terra”. Sua competência como biógrafa foi ressaltada pela professora Maria Helena Werneck, no excelente ensaio “Lúcia Miguel Pereira e a tradição da biografia no Brasil”, publicado na Revista Semear, nº 9, 2003, da PUC/RJ.

Outro aspecto de sua personalidade é o pioneirismo ao enforcar o “Feminismo”, quando o termo ainda não estava em voga. Tratou do assunto no ensaio “A valorização da mulher na sociologia histórica de Gilberto Freyre”, inserido no livro “Gilberto Freyre: sua ciência, sua filosofia, sua arte”, publicado pela José Olympio Editora, em 1962. Quanto ao papel da mulher na literatura, ela achava que as escritoras tinham visão diferente da realidade que refletia em sua escrita. Não se trata de ser uma literatura melhor ou pior e sim de um olhar renovado, revelador e diferenciado trazido pelas escritoras. Tinha um grande senso de responsabilidade com a escrita: ”Penso que o intelectial tem obrigação de escrever limpa e conrretametne. Há uma grande distância, porém, entre bom estilo e o estilo enfeitado”. Inovou também na literatura infantil, publicando belos livros: A fada menina (1939), A floresta mágica (1943), Maria e seus bonecos (1943) e A filha do rio verde (1943), acrescentando conteúdo ao trabalho de Monteiro Lobato e colaborando com o empenho de Cecília Meireles na função de cristalizar uma literatura para crianças. .

O casal não teve filhos, mas na prática foram os pais de Antonio Gabriel de Paula Fonseca, neto do primeiro casamento de Octávio. Lúcia foi mais que avó postiça, cuidando do menino como verdadeira e devotada mãe. O rapaz soube retribuir tais cuidados cultivando sua memória. Em sua Fazenda Monte Alegre, no município de Paty do Alferes, ele criou um parque de esculturas que batizou com o nome de Lucia Miguel Pereira. A grande biógrafa também teve sua biografia publicada em 2017 pela Outubro Edições, de Brasília. “Lúcia: uma biografia de Lucia Miguel Pereira”, escrita por Fabio de Souza Coutinho, seu parente e “a pessoa ideal para levar a efeito essa grande navegação biográfica”, conforme o poeta Anderson Braga Horta escreveu no prefácio. A biblioteca do casal encontra-se hoje, e pode ser consultada pelo público, no acervo da Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro.

Numa época em que a mulher adquire empoderamento, como se diz hoje, seu nome anda esquecido no limbo da história brasileira. Foi uma mulher que não se prendeu as limitações impostas no seu tempo. Uma pequena lembrança ainda resta no nome da Escola Municipal Lucia Miguel Pereira, localizado no bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro. Os interessados em conhecê-la melhor, numa conversa descontraída, podem acessar sua entrevista concedida a Homero Senna e publicada em 1944. Clique aqui para  ler.

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MEMORIAL DOS BRASILEIROS: Lampião

Virgulino Ferreira da Silva nasceu em Serra Talhada, PE, em 4/6/1898. Conhecido como “Rei do Cangaço”, por ser o mais bem sucedido líder cangaceiro da história, ganhou o apelido “Lampião” devido a sua capacidade de disparar consecutivamente, iluminando a noite. Desde criança demonstrava certa habilidade como vaqueiro, cuidava do gado, trabalhava com artesanato de couro e conduzia tropas de burros na região da caatinga. Por volta dos 19 anos, chegou a trabalhar para Delmiro Gouveia transportando algodão e couro para a fábrica da Pedra, hoje município homônimo do empresário que o fundou. Esse conhecimento precoce dos caminhos do sertão foi valioso para o futuro cangaceiro.

Era visto como um garoto inteligente, alfabetizado e usava óculos, características incomuns para a região. Ainda menino, ganhou um presente de seu tio, a biografia de Napoleão Bonaparte. Ficou admirado com o traje do imperador, de tal modo que mais tarde adotou o formato do chapéu em meia lua. Copiou também, de Napoleão algumas táticas de combates como a formação de grupos armados e chegou a inovar em algumas táticas de fuga. Ainda hoje conta-se no Nordeste, que ele inventou o “sapato que anda pra trás”. Colocava o salto na frente do sapato, deixando marcas no chão indicando o sentido contrário de suas fugas. As milícias no seu encalço, seguiam o rastro indicando o caminho oposto.

Sua história começa com a família travando uma disputa de terras, quando seu pai foi morto em confronto com a polícia em 1919. Virgulino jurou vingança e, junto com dois irmãos, passou a integrar um bando chefiado pelo cangaceiro Sinhô Pereira. Em 1922, tornou-se líder do bando, nomeado pelo próprio chefe, que resolveu se afastar do bando, devido a dura perseguição da polícia. No mesmo ano matou o informante que entregou seu pai à polícia, e realizou o maior assalto da história do cangaço àquela altura, contra a Baronesa de Água Branca, em Alagoas. A partir daí sua fama vai se alastrando como salteador de pequenas cidades e fazendas em cinco estados do Nordeste.

Foi acusado de roubo de gado, sequestros, assassinatos, torturas, estupros e saques. Entretanto e paradoxalmente, a fama de justiceiro foi se afirmando até se tornar uma espécie de Robin Hood do sertão, que roubava de fazendeiros, políticos e coronéis para dar aos pobres miseráveis. Tal contradição permanece no imaginário popular até hoje. Não se sabe quantos crimes cometeu, mas calcula-se em torno de 200 assaltos, saques, invasões etc. Em 1926, Juazeiro do Norte (CE), não foi saqueada devido a intervenção do Padre Cícero, que o convenceu a não molestar os habitantes. Lampião vinha de uma família católica e tinha admiração e respeito pelo “Padim Cíço”, com o qual manteve certo relacionamento, que foi além do aspecto religioso.

O Padre era um habilidoso e influente político que mantinha boas relações com Floro Bartolomeu, deputado federal pelo Ceará. Por essa época, a Coluna Prestes avançava pelo Nordeste e ameaçava o Governo de Arthur Bernardes. Para o Padre Cícero, só havia em todo Nordeste uma pessoa que poderia derrotar a Coluna e indicou o nome de Virgulino ao deputado. Assim, Floro Bartolomeu organizou uma força de combate composta de sertanejos e jagunços do Cariri, denominada “Batalhões Patrióticos”, e escreveu uma carta convidando Lampião para o combate. Mas antes de enviá-la, pediu ao Padre Cícero para endossar o pedido e enviar ao cangaceiro. Pergunta-se, mas como se deu isso, se Lampião era um bandido procurado pela polícia? O fato é que naquela época a politica local era o que imperava, e o pragmatismo (e oportunismo) politico também. Lampião viu ali uma boa oportunidade para largar o cangaço e seguir a vida como respeitável homem do Governo.

Em 12/3/1926, seguiu para Juazeiro com 50 homens e ficou acampado próximo a cidade. Padre Cícero foi ao seu encontro em comitiva e lhe outorgou uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um funcionário do Ministério da Agricultura, ou seja, um documento sem valor algum. Além dele, os capangas receberam patentes inferiores e todo o grupo recebeu fuzis automáticos, muita munição e cem contos de réis. Um conto equivale mais tarde a mil cruzeiros. O agora “Capitão Virgulino” parte para o confronto com a Coluna Prestes. Como não era ingênuo, resolveu testar sua autoridade. Mandou um recado aos seus desafetos em Pernambuco (Vila de Nazaré), querendo saber como seria recebido na condição de oficial do Exercito Patriótico. A resposta dos nazarenos foi concisa: “à bala”.

Desapontado com sua pseudolegalidade, quis falar com o Padre Cícero, mas não foi recebido. Interrompeu sua curta carreira militar de defensor público e retoma a vida de cangaceiro, agora mais rico e bem mais armado, aterrorizando os sertões nordestinos. Vendo assim, o próprio “Estado” colaborou significativamente para o sucesso posterior do cangaço. Confiando em sua tropa armada com fuzis automáticos, decidiu atacar a grande cidade de Mossoró (RN), em 13/6/1927. O bando entrou na cidade dividido em quatro subgrupos. Avisado previamente do ataque, o prefeito Rodolfo Fernandes organizou uma tropa, distribuiu seu pessoal em quatro torres da cidade e derrotou o bando. Até hoje a cidade mantém orgulhosa o “ Memorial da Resistência”, que retrata a história da única cidade que botou o bando de Lampião para correr. As invasões e ataques nas cidades e fazendas seguiram seu curso em outros estados chegando até a Bahia, onde o bando incorporou novos cangaceiros e uma namorada: Maria Bonita. .

Em dezembro de 1929, entrou em Queimadas (BA); cortou os fios do telégrafo; sequestrou os telegrafistas e pediu um resgate de 500 mil réis. Depois, foi até a cadeia, prendeu o sargento e sete soldados. Foi almoçar e depois voltou para a cadeia e soltou todos os presos. Mandou os soldados ajoelharem e matou todos. Pela tarde, saqueou o comércio, conseguindo 20 contos de réis. À noite foi ao cinema e depois mandou fazer um baile. Como se vê, o cabra era violento, vaidoso e festeiro. Pouco depois invadiu a cidade de Quinjigue. Após o saque e matar alguns, fez outro baile e distribuiu dinheiro entre a população carente. Pelo visto, era também caridoso. Foi na Bahia, na cidade de Santa Brígida (Raso da Catarina), em dezembro de 1930, que ele conheceu Maria Bonita, casada com um sapateiro, mas apaixonada pelo cangaceiro. Ela juntou-se ao grupo, sendo a primeira mulher a participar do cangaço.

No mesmo ano sua fama chegou aos EUA, numa reportagem publicada no “New York Times”, sobre a violência no Brasil. Em 1931, Corisco, seu fiel escudeiro, também encontrou uma namorada – Dadá – logo incorporada ao bando. A partir daí a presença feminina no bando é constante. Em 1932, Maria Bonita teve uma filha: Expedita Ferreira Nunes. Na Bahia os ataques prosseguem em diversas cidades e fazendas. A certa altura recebeu uma informação para tomar cuidado, pois a volante do Capitão Bezerra estava no seu encalço. “Diga a ele que não tenho medo nem de boi velhaco, quanto mais de bezerra”, foi sua reposta. O Governo baiano espalhou um cartaz oferecendo uma recompensa de 50 contos de réis para quem entregasse, “de qualquer modo, o famigerado bandido”. Seria algo como 200 mil reais hoje em dia, e isto fez com que retornassem à Sergipe. A legislação da época, que proibia a polícia estadual de agir além de suas fronteiras, favorecia a ação do bando, que ficava permanentemente viajando ente os estados do Nordeste.

O ex-secretário do Padre Cícero, Benjamin Abraão, fotógrafo e metido a cineasta conseguiu um encontro com Lampião, em 1936, e convence-o a se deixar fotografar e filmar junto com todo o bando. Foram vários encontros com o fotógrafo e em 6/3/1937 saiu uma reportagem na revista “O Cruzeiro” intitulada “Filmando Lampião”, que irritou Lourival Fontes, chefe do DIP-Departamento de Imprensa e Propaganda, do Governo Vargas. O filme foi apreendido e fez com que o Governo desse ordens expressas de capturar o famigerado cangaceiro. Em 27/6/1938, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. Por volta das 5hs. do dia 28, os cangaceiros levantaram para rezar o ofício e se preparavam para tomar café, quando um cangaceiro deu o alarme. Era tarde demais. Os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis, e os cangaceiros não tiveram chance de defesa.

Foram todos decapitados e suas cabeças fizeram um “tour” por diversas cidades. No trajeto, o tenente Bezerra exibia as cabeças por onde passava, atraindo uma multidão de pessoas. Os “troféus” estiveram em Piranhas, onde foram arrumados na escadaria da Prefeitura, junto com armas e apetrechos dos cangaceiros, e fotografados. Depois seguiram para Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da UFBA. Em seguida ficaram expostas no Museu Antropológico Estácio de Lima, do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues por mais de 30 anos. Durante muito tempo, as famílias de Lampião, Corisco e Maria Bonita lutaram para dar um enterro digno a seus parentes. O economista Sílvio Bulhões, filho de Corisco e Dadá, em especial, empreendeu esforços para sepultar os cangaceiros e parar, de uma vez por todas, aquela macabra exibição pública.

O enterro dos restos mortais só ocorreu depois do Projeto de Lei nº 2.867, de 24/5/1965. Tal projeto teve origem nos meios universitários de Brasília, logo reforçado por pressões sociais e do Clero. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram sepultadas no dia 6/2/1969. Tais fatos contribuíram para ampliar e eternizar o mito, que antes mesmo já era conhecido internacionalmente. Em 1953, o filme O Cangaceiro, dirigido por Lima Barreto, foi o primeiro a conquistar as telas do mundo e ganhou o prêmio de melhor filme de aventuras e de melhor trilha sonora, com a música Mulher Rendeira.

Um fato interessante e pouco divulgado é que Mulher Rendeira é uma música composta pelo próprio Lampião. Isto foi confirmado por alguns biógrafos e recebeu a chancela de Câmara Cascudo, segundo o qual Lampião teria escrito a letra em homenagem ao aniversário de sua avó, que era rendeira, em 1922. Tornou-se um hino de guerra dos cangaceiros, tendo inclusive relatos de que muitos ataques às cidades teriam sido feitos com os cangaceiros cantando Mulher Rendeira.

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AS BRASILEIRAS: Inezita Barroso

José Domingos Brito

Inezita Barroso (Mar/1925 – Mar/2015)

Ignêz Magdalena Aranha de Lima nasceu em São Paulo, em 4/3/1925. Cantora, atriz, folclorista, violeira, professora, bibliotecária e apresentadora de rádio e TV, é reconhecida como a mais antiga e mais importante expressão artística da música caipira do País. Descendente de uma tradicional família paulista e rodeada por várias influências musicais, desde cedo interessou-se pela música e aos oito anos já fazia apresentações em recitais de violão no Clube Germânia. Morava no bairro da Barra Funda, na Rua Lopes Chaves, ao lado da casa de Mario de Andrade, a quem admirava e ficava esperando ele passar todo dia enquanto brincava na calçada. Aprendeu a tocar violão aos sete anos e piano aos onze. Por esta época entrou em contato com as modas de viola durante as férias escolares em fazendas de parentes.

Na fazenda “eu fugia com meus primos para irmos ver os caipiras, os colonos tocarem. Inventava: vou com o Geraldo ver a vaca nova que chegou, dizem que é linda; vou lá e já volto. Já volto nada, eu ia para a roda de viola”, contou numa entrevista. Assim, durante sucessivas férias na fazenda, cresceu em contato com dois universos musicais bem diferenciados. Na cidade, fazia parte de grupos de criança tocando violão e cantando o repertório da época: Francisco Alves, Orlando Silva, tangos e valsas. Optou pelo caminho mais difícil, pois se naquela época violão era um instrumento masculino, imagine pontear uma viola caipira. Estudou na Escola Caetano de Campos e aos 10 anos tomou gosto pelos livros. Montou uma biblioteca na garagem, encadernava os exemplares, emprestava para os amigos, lia para os primos e mergulhou na obra de Monteiro Lobato.

Na mesma escola, concluiu o curso de Biblioteconomia em 1946 e passou a devorar as obras de Graciliano Ramos, Jorge Amado e do seu vizinho Mario de Andrade. No ano seguinte casou-se com Adolfo Barroso, advogado e irmão do ator Mauricio Barroso. Promoviam encontros e saraus no Centro Acadêmico XI de Agosto, onde Inezita se destacava cantando e tocando violão. Desde os tempos de namoro, ela convivia com essa turma de boêmios e artistas como Paulo Autran, Tônia Carrero e Paulo Vanzolini. Com o casamento ela incorporou não apenas o sobrenome Barroso, mas encarou a vida artística de forma profissional. Em seguida foi para o Nordeste e passou dois meses recolhendo músicas folclóricas. Foi no Recife que teve seu primeiro trabalho remunerado. Convidada pela Radio Clube, interpretou músicas colhidas por Mario de Andrade na década de 1930.

Em 1950 foi convidada por Evaldo Rui para estrear como cantora na Radio Bandeirantes, em São Paulo. Em seguida participou da transmissão inaugural da TV Tupi e atuou como cantora exclusiva da Radio Nacional e da Radio Record. No mesmo ano participou do filme “Ângela”, dirigido por Tom Payne e Abílio Pereira de Albuquerque. O primeiro disco veio em 1951, com as músicas “Funeral de um Rei Nagô”, de Hekel Tavares e Murilo Araújo e “Curupira”, de Waldemar Henrique. Em 1954 retornou à Radio Record para comandar o programa “Vamos falar de Brasil”, onde permaneceu até 1961. Em 1957 separou-se do marido e passou a viver mais livremente, dedicando-se também ao cinema. Trabalhou em oito filmes, chegando a receber o Prêmio Saci de melhor atriz, no filme “Mulher de verdade”, de Alberto Cavalcanti, em 1958. Mas seu talento principal estava mesmo na música, confirmado com o primeiro sucesso em 1953. Neste ano gravou “Marvada pinga”, de Ochelsis Laureano, e, no lado B, o samba “Ronda”, de Paulo Vanzolini, que só veio a fazer sucesso na década seguinte com outra cantora. O famoso samba paulista foi totalmente eclipsado pela engraçada moda de viola.

Depois de algumas premiações como cantora de rádio, veio o primeiro LP “Inezita Barroso” em 1955, lançado pela Copacabana, seguido de alguns sucessos, como “Viola quebrada”, de Mario de Andrade; “Mineiro tá me chamano”, de Zé do Norte, entre outras. Em 1956 gravou mais três LPs: “Coisas do meu Brasil”, “Canta Inezita” e “Lá vem o Brasil”, cujos títulos indica seu apego à música de raiz. No mesmo ano publicou o livro “Roteiro de um violão”, consolidando uma carreira de artista e pesquisadora. Outros sucessos, como “lampião de gás” e “Fiz a cama na varanda” vieram em 1958. Uma sucessão de LPs foram surgindo: “Eu me agarro na viola”, “Danças gaúchas”, “Canto da saudade” etc. Com a fama consolidada, recebeu um telefonema de Juscelino Kubitschek, em meados de 1959, convidando-a para animar o ambiente em Brasília. Bateu o telefone na cara do interlocutor achando que fosse trote. O presidente teve que ligar novamente. Em 1962 gravou o LP “Clássicos da música caipira”, vol. 1, e o vol. 2 em 1972. Três anos depois gravou o LP “Inezita de todos os tempos”, incluindo pontos de candomblé, músicas folclóricas do Mato Grosso, “Negrinho do pastoreio”, de Barbosa Lessa e “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Pouco antes viajou pelos EUA, Rússia, Israel realizando cantorias e conferências sobre o folclore brasileiro. Em Portugal recebeu o título de Doutora Honoris Causa, da Universidade de Lisboa.

Gravou quase todas as músicas sertanejas e folclóricas mais conhecidas e lançou centenas de cantores e duplas regionais no programa da TV Cultura no período 1980-2015, “Viola minha viola” o melhor e mais longevo programa da TV brasileira. Neste período lecionou Folclore durante 14 anos na Universidade de Mogi das Cruzes e durante alguns anos, também, na Faculdade Capital de São Paulo. Em 1985, gravou um LP com músicas escolhidas pelos fãs: “Inezita Barroso: a incomparável”. A partir de 1990 passou a acumular mais um programa de rádio – “Estrela da manhã” – na Rádio Cultura, das 5 às 7hs. da manhã. Em 2003, foi condecorada pelo Governo de São Paulo Geraldo com a medalha “Ordem do Ipiranga”, recebendo o título de comendadora da música folclórica brasileira. Em 2010 recebeu o Grande Prêmio da Crítica em MPB, da Associação Paulista dos Críticos de Arte e no ano seguinte foi lançada parte significativa de sua obra numa caixa com 6 CDs: “O Brasil de Inezita Barroso”.

Em 2013 o pesquisador Arley Pereira publicou sua biografia “Inezita Barroso: a história de uma brasileira” e o ano seguinte foi pleno de realizações e reconhecimentos pelo seu trabalho: entrou para a APL-Academia Paulista de Letras e foi eleita pelo ICCA-Instituto Cultural Cravo Albin como uma das 12 cantoras-compositoras mais importantes do Brasil. Neste ano foi publicado outra biografia: “Inezita Barroso: Rainha da Música Caipira” do jornalista Carlos Eduardo Oliveira, mas narrada em primeira pessoa por ela mesma. Em dezembro levou um tombo na casa de sua filha, em Campos de Jordão; foi internada no Hospital Sírio Libanês em fevereiro de 2015 e faleceu em 8 de março, no Dia Internacional da Mulher. Sua carreira artística durou mais de 60 anos e deixou 80 discos 78 rpm, LPs e CDs. Notabilizou-se não apenas como defensora ferrenha das raízes da música regional brasileira, mas também como uma antropóloga ou etnóloga da música regional brasileira, seguindo os passos de seu antigo vizinho Mário de Andrade.

Em setembro de 2017, o Itaú Cultural dedicou a 36ª edição de sua “Ocupação” com uma grande amostra de seu legado, quando foi apresentada sua vídeo-biografia, um documentário de 85 minutos, realizado pela TV Cultura e dirigido por Helio Goldsztein. Na ocasião foi lançado seu site oficial, onde pode se ver uma galeria de fotos e ouvir toda sua obra.

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OS BRASILEIROS: Anísio Teixeira

José Domingos Brito

ANÍSIO TEIXEIRA

Anísio Spínola Teixeira nasceu em Caetité, Bahia, em 12/7/1900. Jurista, escritor e essencialmente educador, foi pioneiro na implantação da escola pública no Brasil. Filho do médico Deocleciano Pires Teixeira, líder político de Caetité e oriundo de uma tradicional família baiana. Os primeiros estudos se deram em colégios jesuítas em sua cidade natal (Colégio São Luís Gonzaga) e em Salvador (Colégio Antônio Vieira). Cogitou entrar para essa Ordem Religiosa, mas foi dissuadido pelo pai, que já havia projetado uma carreira política para o garoto. Dotado de uma inteligência excepcional, aos 17 anos foi convidado por Teodoro Sampaio, destacado intelectual da época, a proferir uma palestra no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia.

Em 1918 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso de Direito e retornou à Salvador. Foi convidado pelo governador Góes Calmon a assumir o cargo de Inspetor Geral do Ensino, em 1924, e enfrentou com determinação o problema da educação. No ano seguinte partiu para a Europa com a finalidade de conhecer o sistema educacional de alguns países e na volta implementou várias reformas no ensino do estado. Assim, deu início a uma profícua carreira de pedagogo e administrador público. Em 1927 foi conhecer o ensino público nos EUA e tomou contato com as ideias do filósofo e pedagogo John Dewey. De volta à Salvador quis fazer algumas mudanças no sistema de ensino, mas foi impedido pelo novo governador. Pediu demissão do cargo e viajou de novo para os EUA, onde fez curso de pós-graduação, na Universidade de Columbia, com John Dewey, em 1928, que exerceu uma influência decisiva em sua carreira de educador. Sua ideia fundamental baseou-se na ampliação do sistema educacional, privilegiando a formação do professor.

Tornou-se discípulo do filósofo americano e traduziu para o português dois dos seus trabalhos. Isto levou-o a publicar seu primeiro livro em 1928: “Aspectos americanos de educação”, em 1928 pela Tipografia de São Francisco. Em 1931 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ocupou o cargo de diretor da Instrução Pública do Distrito Federal, com a missão de reorganizar o ensino público. Neste cargo instituiu a integração da “Rede Municipal de Educação”, abrangendo desde o ensino fundamental até a universidade. No mesmo ano acumulou o cargo de presidente da ABE-Associação Brasileira de Ensino e junto com Fernando de Azevedo, Lourenço Filho entre outros, elaborou o “Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova”, em 1932, um documento que propunha uma escola gratuita, laica e obrigatória, sofrendo forte oposição da Igreja Católica. Os pressupostos da “Escola Nova” tinham como princípio a ênfase no desenvolvimento do intelecto e na capacidade de julgamento, em preferência à memorização. Em seguida assumiu a Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro. Na condição de amigo íntimo do prefeito Pedro Ernesto Batista, estimulou a criação de novos estabelecimentos de ensino e criou a UDF-Universidade do Distrito Federal, em 1935. O fato gerou forte oposição do Ministro da Educação Gustavo Capanema e de alguns expoentes do pensamento católico conservador, como Alceu Amoroso Lima.

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