JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILERIOS: Assis Chateaubriand

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu em Umbuzeiro, PB, em 4/10/1892. Jornalista, advogado, empresário e político. O nome Chateaubriand é prenome e não sobrenome familiar. Seu avô paterno, apreciador do escritor François Chateaubriand, registrou os filhos com este prenome Teve uma infância difícil, com problemas psicológicos, devido a uma gagueira e uma grande timidez. A família mudou-se para Belém do Pará e deixou-o aos cuidados do avô materno. Na convivência com os avós, melhorou bastante e voltou a viver com seus pais, em 1901, quando se estabeleceram no Recife. Foi alfabetizado em casa, aos 10 anos, pelo tio, utilizando antigos exemplares do “Diário de Pernambuco”. O destino de jornalista e magnata da imprensa estava sendo traçado.

Em 1903, foi estudar em Campina Grande, PB, indo morar com o tio e padrinho Chateaubriand Bandeira de Melo. Em 1904, retornou ao Recife e prestou exame de admissão na Escola Naval. O curso secundário foi realizado no tradicional Ginásio Pernambucano. Por esta época passou a estudar alemão com os frades do convento de São Francisco e tornou-se um leitor compulsivo. Com o destino de jornalista traçado, seu primeiro emprego foi na “Gazeta do Norte”, recortando anúncios classificados. Em 1908, ingressou na Faculdade de Direito do Recife e, durante o curso, foi trabalhar como aprendiz de repórter no jornal “A Pátria”. Trabalhou também no “Jornal do Recife”, no “Diário de Pernambuco” e no “Jornal Pequeno”. Aos 21 anos, ao formar-se em Direito, já era editor e redator-chefe do “Diário de Pernambuco”, cujo proprietário era o conselheiro Rosa e Silva, influente político da época. Em 1915 foi para o Rio de Janeiro e fez amizades com pessoas influentes. Colaborou nos jornais “A Época”, “Jornal do Commercio”, “Correio da Manhã” e na edição vespertina d’ “O Estado de São Paulo”. Seu sonho era “adquirir um jornal, como primeiro elo de uma cadeia”. Para conseguir o dinheiro, instalou uma banca de advocacia e com seu bom relacionamento com pessoas importantes, conseguiu vários clientes e associados.

Chegou a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores, como consultor para leis de guerra, no governo Nilo Peçanha, mas deixou o cargo para ser redator-chefe do “Jornal do Brasil”.A carreira de jornalista foi se consolidando até 1919, quando foi convidado pelo “Correio da Manhã” para ser correspondente internacional na Europa. De volta ao Brasil, adquiriu o “O Jornal” em setembro de 1924, dando início à cadeia nacional de jornal e rádio dos “Diários Associados”, que iria revolucionar o jornalismo brasileiro. Casou-se com Maria Henriqueta Barroso do Amaral, filha do juiz Zózimo Barroso do Amaral e teve três filhos: Fernando, Gilberto e Teresa. Em 1934 desquitou-se e uniu-se a jovem Corita, com quem teve uma filha. Logo depois, a jovem decidiu deixá-lo e levou a filha. Ele ficou enfurecido e sequestrou a própria filha. O caso foi parar na polícia e deixou-o acuado. Foi quando proferiu uma de suas frases célebres: “Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei”. Assim, conseguiu de Getúlio Vargas a promulgação de um decreto que lhe deu direito à guarda da filha.

Em seguida, adquiriu o “Diário de Pernambuco”, ampliando o império jornalístico, Chatô, como alguns o chamavam, foi se tornando poderoso e temido pelos poderosos. A partir deste poderio, o “Cidadão Kane tropical”, teve enorme influência na política brasileira, sobretudo por ter apoiado a Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder. Desenvolveu com Getúlio uma proximidade contraditória, de apoios e reveses, e agiu empresarialmente com uma ética própria, ameaçando ou gratificando inimigos e aliados, inclusive lançando campanhas contra ou a favor deles em seus jornais. Farto de ver seu nome na lista de insultos, o industrial Francisco Matarazzo ameaçou “resolver a questão à moda napolitana: pé no peito e navalha na garganta”. Chatô devolveu: “Responderei à moda paraibana, usando a peixeira para cortar mais embaixo”. Sua ligação com Vargas durou pouco; na Revolução Constitucionalista de 1932, tomou partido por São Paulo e teve que ser exilado por algum tempo. Reabilitado, promoveu a Campanha Nacional da Aviação, com o lema “Deem asas ao Brasil”, na qual foi criada a maioria dos atuais aeroclubes pelo interior do País.l

Além dos “Diários Associados” chegou a possuir 10 fazendas agropecuárias e laboratórios farmacêuticos. Seus empreendimentos abrangiam 34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 emissoras de TV, uma agência de notícias, uma revista semanal (O Cruzeiro), uma mensal (A Cigarra), várias revistas infantis e a editora O Cruzeiro. Comandava o império das comunicações com mão de ferro. Conta-se que seu funcionário, o escritor Joel Silveira, escreveu um editorial que ele não gostou e chamou-o ao seu gabinete. “Como é que o sr. escreve um negócio desse?” indagou. “Bem, é essa a minha opinião. O sr. não gostou?”. “Não, sr. Joel. Não gostei e vou lhe dizer uma coisa: se quiser ter opinião, o senhor adquira um jornal. Quem tem opinião aqui sou eu”. Ficou conhecido, também, como o cocriador e fundador, em 1947, do Museu de Arte de São Paulo (MASP), junto com Pietro Maria Bardi. Negociou belos quadros no mundo todo e depois pedia aos grandes empresários para pagarem. Dizia que eles estavam doando ao futuro museu. Se não quisessem pagar, poderiam sofrer uma campanha difamatória através de seus jornais e revistas. Essa é uma história que se conta a seu respeito. Outra mais real é que ele pedia aos empresários para pagarem os quadros e fazia contratos de publicidade no valor estipulado do quadro e as empresas passavam a ter anúncios nos jornais, rádios e TV com base naquele valor “doado”. Foram tantos quadros e negócios feitos nesta base que isto se constituiu num dos fatores que levaram seu conglomerado à falência. Os valores eram tão altos que a coleção de quadros foi colocada, na gestão do presidente Juscelino Kubitschek, sob a custódia de uma fundação, em troca de auxílio governamental ao pagamento de parte da astronômica dívida do Condomínio Diários Associados.

Seu maior feito na área das comunicações, foi trazer a televisão para o Brasil ao criar a TV Tupi em 1950. Na época o aparelho de TV era quase inexistente no Brasil e a criação da emissora representou uma revolução nas comunicações. No campo pessoal, serviu para alçar novos patamares, lançando-se na política. Em 1952, foi eleito senador pela Paraíba e, em 1955, pelo Maranhão, em duas eleições escandalosamente fraudulentas. Seu posicionamento político era controverso como tudo em sua vida. Embora fosse um representante típico da burguesia nacional emergente da época, tinha uma postura pró-capital estrangeiro e pró-imperialismo, primeiro o britânico, depois o norte-americano. Admirava tanto a Inglaterra que renunciou ao mandato de senador para se tornar embaixador naquele país. Era temido pelas campanhas jornalísticas que promovia, como a defesa do capital estrangeiro e contra a criação da Petrobrás. Na área literária não escreveu nada. Porém, publicou cerca de 12 mil artigos assinados em seus jornais. Não havia um dia sequer que não saisse um texto seu na imprensa. Na literatura e na pintura abriu seus jornais para nomes ainda desconhecidos, que depois se tornaram famosos: Graça Aranha, Millôr Fernandes, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Cândido Portinari entre outros. Tal influência neste métier levou-o à Academia Brasileira de Letras, em dezembro de 1954.

Suas duas últimas criações foram o jornal “Correio Braziliense” e a TV Brasília, fundadas em 21/4/1960, no mesmo dia da fundação de Brasília. Meses depois, sofreu um derrame cerebral ficando paralítico. Mesmo assim, viajou muito dentro e fora do País, mantendo-se informado de tudo e dirigindo suas empresas e jornais. Comunicava-se apenas por balbucios e uma máquina de escrever adaptada. Suas últimas ações foram dirigidas a criação de um museu de arte em sua terra. Em agosto de 1967 entregou ao reitor da Fundação Universidade Regional do Nordeste (hoje Universidade Estadual da Paraíba- UEPB), o primeiro acervo do Museu Regional de Campina Grande, com 120 peças. Em seguida, o museu passou a ser chamado de “Museu de Arte Assis Chateaubriand”. Faleceu em 6/4/1968 e foi velado ao lado de duas pinturas dos grandes mestres: um cardeal de Ticiano e um nu de Renoir, simbolizando, segundo Pietro Maria Bardi, as três coisas que mais amou na vida: O poder, a arte e a mulher pelada. Junto com ele morria também seu império, que se esfacelava diante do surgimento do reinado de Roberto Marinho, com a rede Globo. Seu cortejo fúnebre reuniu mais de 60 mil pessoas pelas ruas de São Paulo, onde foi sepultado no Cemitério do Araçá.

Deixou os Diários Associados para um grupo de 22 funcionários, atualmente liderados por Álvaro Teixeira da Costa. O grupo Diários Associados é a terceira maior empresa de comunicações do país e mantém a Fundação Assis Chateaubrind, desde 1989, para atuar sem fins lucrativos na área de responsabilidade social. A memória de Chatô ficou registrada na biografia escrita por Fernando Moraes – Chatô, o Rei do Brasil – publicada em 1994, na qual são narrados os modos pouco ortodoxos que ele utilizou para construir seu império jornalístico. Foi retratado, também, no cinema. Marcos Manhães Marins escreveu, e dirigiu o filme Chateaubriand: Cabeça de Paraíba, em 2000, tendo sido selecionado para quinze festivais e mostras no Brasil e no exterior. Antes disso, o ator Guilherme Fontes decidiu adaptar a biografia escrita por Fernando Morais para o filme homônimo. O filme levou 20 anos para ser realizado, devido a interrupções decorrentes com problemas com a falta de verbas para sua conclusão, mas lançado em 2015.

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AS BRASILEIRAS: Patrícia Galvão (Pagu)

Patrícia Rehder Galvão nasceu em São João da Boa Vista, SP, em 9/6/1910. Escritora, poeta, dramaturga, jornalista, tradutora, cartunista e musa dos “modernistas”, quando ingressou no “Movimento Antropofágico”, em 1928. Filha de Thiers Galvão de França, jornalista e advogado, e Adélia Rehder Galvão, mudou-se para São Paulo, aos 3 anos. Aos 15 passou a colaborar no “Brás Jornal”, assinando “Patsy” em seus artigos. Foi diplomada professora pela Escola Normal Caetano de Campos, em 1928, enquanto estudava literatura e arte dramática no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, dirigido por Mario de Andrade.

Aos 19 anos teve um de seus desenhos publicado na “Revista de Antropofagia” e conheceu seus editores, o casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. O comportamento extrovertido encantou os intelectuais modernistas e ganhou o apelido “Pagu”, a partir do poema –Coco de Pagu- de Raul Bopp. Apesar da pouca idade, era uma mulher avançada para os padrões da época, dada a algumas “extravagâncias”, como fumar na rua, usar blusas transparentes, cabelos curtos e falar palavrões. O poema alavancou sua carreira artística, pois foi publicado em vários jornais, foi interpretado por ela mesma no Teatro Municipal, em 1929, e virou letra de uma toada gravada por Laura Suarez em 1930. Oswald de Andrade ficou entusiasmado com a moça e em pouco tempo estavam namorando, mesmo casado com Tarsila. Em seguida, ele rico, boêmio e famoso, causou um escândalo na sociedade conservadora de então. Em 1930 separou-se de Tarsila e casou com a bela jovem. Para melhorar (ou piorar) o escândalo, o casamento se deu no Cemitério da Consolação, diante do jazigo da família Andrade.

No mesmo ano nasceu o filho Rudá e pouco depois viajou para Buenos Aires, onde participou de um festival de poesia. Antes disso, o casal já era filado ao PCB-Partido Comunista Brasileiro e ela aproveitou a viagem para um contato com Luiz Carlos Prestes, que se encontrava exilado, mas só conseguiu o intento pouco depois em Montevidéu. Aproveitou, também, para contatar o pessoal da revista “Sur”: Jorge Luís Borges e Victoria Ocampo. Voltou ao Brasil entusiasmada com o ideal comunista e o casal funda o tablóide “O Homem do Povo”, em 1931, que dura apenas 8 números. Sua coluna -“A Mulher do Povo”- fazia duras críticas à burguesia paulistana. Nesta época tornou-se também cartunista e passou a ilustrar a “Revista de Antropofagia”. Em agosto de 1931, ao participar de uma greve de estivadores em Santos, foi presa inaugurando uma série de 23 prisões ao longo da vida. Solta 15 dias após, passou a dedicar-se a escrita de um romance – Parque industrial -, publicado em 1933, sob o pseudônimo de Mara Lobo. Trata-se de um dos 10 pseudônimos que usava em seus textos É considerado o primeiro romance proletário do Brasil, traduzido mais tarde e publicado nos EUA e na França.

Como jornalista escrevia sobre tudo, publicando em diversos jornais; opinava sobre política, classe operária, a sociedade, homossexualidade feminina e até histórias policiais para a revista “Detetive”, dirigida por Nelson Rodrigues. Foi correspondente de vários jornais de São Paulo e Rio de Janeiro, quando viajou pela Europa, EUA. Japão, União Soviética e países da Ásia, enviando reportagens. Na França, contatou André Breton e outros surrealistas; entrevistou Sigmund Freud e assistiu à coroação de Pu-Yi, o último imperador chinês, através do qual conseguiu sementes de soja, que foram enviadas ao Brasil. Quem poderia imaginar que tal façanha viria a ser incluída em seu curriculum: introdutora da soja no Brasil, tornando-o o segundo maior produtor do mundo. Em 1935 foi presa em Paris como comunista estrangeira portando uma identidade falsa e foi repatriada. De volta a São Paulo e após um período de brigas e ciúmes, separou-se de Oswald e retomou sua atividade jornalística e militante política. Com a “Intentona Comunista”, em fins de 1935, foi presa e passou 5 anos na cadeia, enquanto o filho Rudá era criado pelo pai. Sofreu torturas na prisão e ficou bastante debilitada, com 44 quilos e sequelas físicas e emocionais.

Ao sair da prisão, em 1940, rompeu com o PCB e passou a defender um socialismo de linha trotskista. A partir daí não quis mais ser chamada de Pagu, padecia de forte depressão e teve sua primeira tentativa de suicídio. Foi recompondo a vida com a ajuda do amigo Geraldo Ferraz, critico de arte com quem se casou em seguida. Desse casamento, nasceu o segundo filho –Geraldo Galvão Ferraz– em 1941 e passou a morar com os dois filhos e o novo marido. Foi uma feminista antes do tempo e se declarava uma “mulher de ferro, com zonas erógenas e aparelho digestivo”. Em 1945 começou a trabalhar na agência de notícias France-Presse, onde ficou por 10 anos, e passa a integrar a redação da revista “A Vanguarda Socialista”, junto com Mário Pedrosa e a nata da intelectualidade de esquerda anti-stalinista. No mesmo ano lançou novo romance: A famosa revista, escrito em parceria com o marido, denunciando as mazelas do PCB. Incentivada pelos amigos, tentou ingressar para valer na política. Nas eleições de 1950, tentou sem sucesso uma vaga como deputada estadual pelo Partido Socialista. Por esta época decidiu se dedicar mais ao teatro e passou a frequentar a Escola de Arte Dramática de São Paulo. Em 1954, o casal foi convidado para trabalhar no jornal “A Tribuna”, em Santos, onde passam a residir. Aí iniciou um movimento em prol do teatro amador, do qual participava o jovem Plínio Marcos. Montou peças e iniciou uma campanha para a construção do Teatro Municipal.

Sua preferência dirigia-se aos autores de vanguarda: Ionesco, Arrabal, Alfred Jarry, Nabokov, Becket, Ibsn, Octavio Paz etc e traduziu as peças A Cantora Careca e Fando e Liz, dos dois primeiros autores. Escrevia, também, sobre música de vanguarda nacional e estrangeira e chegou a registrar notas sobre televisão em seus primórdios. Além da profícua atividade cultural, não abandonou a participação política. Assumiu a coordenação do Teatro Universitário de Santos (1956), a presidência da União dos Teatros Amadores (1961) e fundou a Associação de Jornalistas Profissionais de Santos, incorporada ao Sindicato dos Jornalistas mais tarde. Em seguida foi acometida de um câncer. Foi se tratar em Paris, mas sem resultados positivos. Desiludida e desesperada, tentou de novo o suicídio. Sobre o episódio, escreveu: “Uma bala ficou para trás, entre gazes e lembranças estraçalhadas”. Pouco depois, ainda jovem, foi vitimada pela doença aos 52 anos, em 12/12/1962.

Passou uns 20 anos esquecida e a partir da década de 1980 foi adquirindo uma “tardia e crescente” popularidade com a ajuda dos filhos no resgate de seu legado. Surgiram diversas biografias, iniciando com Pagu: vida e obra, de Augusto de Campos (1982); Patrícia Galvão: livre na imaginação no espaço e no tempo, de Lucia Maria Furlani (1988); Pagu: literatura e revolução, de Thelma Guedes (2003); Pagu, de Lia Zatz (2005); Dos escombros de Pagu; um recorte biográfico de Patrícia Galvão, de Tereza Freire (2008). O resgate não ficou apenas nas biografias. Em 1988, sua vida foi contada no filme “Eternamente Pagu”, dirigido por Norma Benguell. Em 2001 Rudá de Andrade realizou o documentário “Pagu: livre na imaginação, no espaço e no tempo”. Na TV, foi personagem na minissérie “Um Só Coração” (2004), interpretada por Miriam Freeland. Em 2005, houve em São Paulo uma grande comemoração pelos 95 anos de seu nascimento, que incluiu lançamento de livros, exposição de fotos, desenhos e textos da homenageada, apresentação de um espetáculo teatral sobre sua vida e lançamento do site Pagu.

No dia exato de seu nascimento, os convidados compareceram com trajes de época a uma “Festa Pagu”, realizada no Museu da Imagem e do Som. No mesmo ano foi lançada sua autobiografia (texto inédito escrito em 1940): Paixão Pagu: A autobiografia precoce de Patricia Galvão. Em 2006, foi tema do samba enredo da Escola de Samba X-9, de Santos. Em 2010, ano do centenário de seu nascimento, foi encenado o espetáculo “Dos escombros de Pagu”, baseado no livro homônimo de Tereza Freire. A comemoração do centenário foi encerrada com a publicação do livro “Fotobiografia Viva Pagu”, de autoria de Lúcia Maria T. Furlani e seu filho Geraldo Galvão Ferraz. A Unicamp criou um centro de pesquisa sobre gênero que leva seu nome e edita os “Cadernos Pagu”. Em Santos, a Casa de Cultura também leva seu nome. Em São Paulo é mantido o Instituto Patrícia Galvão, que mantém serviços dirigidos à defesa dos direitos da mulher e uma agência de notícias. Lucia Maria T. Furlani, autora de livros e tese sobre Pagu costuma dizer que “Ela sempre foi vista como muito louca, e é essa Pagu que precisa ser desmistificada”.

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OS BRASILEIROS: Antônio Conselheiro

Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim, CE, em 13/3/1830. Líder messiânico, conhecido como “Antônio Conselheiro”. Autodenominado “o peregrino”, atraiu para o arraial de Canudos milhares de sertanejos, escravos recém libertos e índios sem aldeia. Atraiu, também, a ira dos latifundiários carentes de mão-de-obra barata; da Igreja Católica carentes de fiéis e do Exército Brasileiro, que o acusava de monarquista, que após quatro expedições militares, exterminou toda a população do arraial num combate desigual com mais de 20 mil mortos, a chamada “Guerra de Canudos”, em 1896. Segundo alguns historiadores, ali foi cometido um genocídio.

Estava destinado a seguir a carreira sacerdotal. Porém, com morte da mãe, em 1834, o sonho de se tornar padre foi preterido. Aos 25 anos, com o falecimento do pai, assumiu o pequeno comércio de secos & molhados mantido pela família. Em 1857 casou-se com uma prima e muda-se para Sobral, onde passou dar aulas no curso primário. Exerceu, também, a função de “Rábula” (advogado prático). Vagueou por alguns povoados buscando melhores condições de vida e passou a residir na Vila de Ipu. Em 1861 flagrou a esposa numa traição conjugal. Abatido e envergonhado, saiu pelo mundo e encontrou abrigo nos sertões do Cariri, uma região seca, mas fértil de penitentes e flagelados em busca de alguma esperança. Aí inicia a vida de “peregrino”, conselheiro dos pobres, construtor de casebres, capelas e cemitérios. Além do carisma, conhecia as leis e a religião, e acolhia bem os necessitados. A primeira notícia de sua aparição pública se deu em 1874, no jornal “O Rabudo”, de Sergipe. A notícia ridicularizava sua figura: “Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de hábito a forma de sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos” e desfazia seu caráter religioso: “Chegado (diz ele) do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antônio dos Mares. O que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito…”. A notícia ampliou sua fama e chegou até a Bahia.

O ano de 1877 foi marcado como uma das maiores secas na história do Nordeste. Era grande o número de flagelados perambulando pelas estradas É nesta situação de desespero que sua figura de “santo” e “milagreiro” se agiganta, pois acolhia a todos, sabia conversar, dar-lhes conselhos e a promessa de um mundo melhor, mais justo e, sobretudo, cristão. Em pouco tempo, passou a ser chamado de “Bom Jesus” e “Antônio Conselheiro”, um profeta enviado por Deus. Em 1888, com o fim da escravidão, ex-escravos sem meios de subsistência e os índios com suas aldeias desfeitas, passam a vagar pelos sertões, onde vão encontrar aconchego com o “enviado” de Deus. Assim, a figura do “Conselheiro” e seu movimento vão tomando vulto. Em 1893, em Massaté, BA, seus seguidores entraram em conflito com a polícia local, pois se recusavam a pagar impostos à recém-criada República. Neste ano, decidiu se fixar nas margens do Rio Vaza-Barris, no vilarejo de Canudos. Ali os desabrigados constituíram uma comunidade, onde tinham a propriedade comum da terra, tida como um “lugar sagrado”. Em pouco tempo o local foi tomado por mais de 20 mil habitantes. Não foram apenas pequenos jornais, como “O Rabudo”, que denegriam sua imagem. A imprensa em geral dos primeiros anos da República, segundo Walnice Nogueira Galvão, em sua tese de livre-docência e publicada no livro No calor da hora: a Guerra de Canudos nos jornais, todos os jornais adotaram a versão do militares e as reportagens desconheciam a humanidade do “inimigo”. Desse modo e querendo ou não, justificavam o genocídio ocorrido em seguida.

O Arraial de Canudos passou a preocupar o poder da recente Republica e o clero que perdia fiéis. Em 24/11/1896, o Exercito enviou uma expedição militar para acabar com o “movimento”. A tropa foi surpreendida num combate corpo a corpo, onde foram mortos mais de 150 conselheiristas. O Exército achou que tinha vencido a guerra, mas venceram apenas uma batalha. Em 29/12/1896 uma segunda expedição militar foi debelada pelos fiéis. A terceira expedição, comandada pelo capitão Antônio Moreira Cesar, foi reforçada, mas o capitão foi abatido logo no início da batalha e sua tropa fugiu em disparada, deixando armamentos e munição à disposição dos beatos. O fato reforçou a convicção da santidade e do poder do seu líder. Em 5/4/1897 inicia a quarta e última expedição. Desta vez, munidos de canhões, cercaram o povoado e foram implacáveis. Até mesmo muitos dos que se renderam foram mortos. Eliminar Canudos e abater o “Conselheiro”, tornou-se uma questão de honra para o Exército. Em outubro de 1897 foram mortos os últimos defensores do povoado. No dia seguinte encontraram seu cadáver enterrado no Santuário de Canudos.

Convenhamos que o Conselheiro era um “louco” bem diferenciado, conforme pode se ver nos seus manuscritos encontrados em Canudos “Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Salvação dos Homens”, uma coletânea de reflexões e relatos diversos sobre como proceder na vida. Só mais tarde este documento foi transcrito e divulgado, possibilitando novas interpretações sobre o fato. Em 1986 a Fundação Casa de Rui Barbosa publicou “Canudos: subsídios para sua reavaliação histórica”, de José Augusto Vaz Sampaio Neto, citando os “Apontamentos” e reivindicando a necessidade de uma revisão na história da Guerra de Canudos. Tal revisão foi ampliada pelo prof. Pedro Lima Vasconcellos no livro “Antonio Conselheiro por ele mesmo”, publicado pela É Realizações em 2017. São dois volumes, onde o primeiro traz os “Apontamentos” na íntegra e o segundo – Arqueologia de um monumento: os apontamentos de Antonio Conselheiro – apresenta um estudo sobre o conteúdo das reflexões mostradas no primeiro volume.

Euclides da Cunha não teve acesso a este documento e escreveu uma série de reportagens n’O Estado de São Paulo assumindo o ponto-de-vista republicano, de combate ao Conselheiro. Só mais tarde, quando foi enviado à Canudos, no final do combate, é que se inteirou da situação e, conforme o historiador Jorge Caldeira, ‘convenceu-se de que tinha defendido uma posição errada”. A partir daí, ele “obriga-se a escrever um livro no qual a versão dos derrotados pudesse ser mostrada”. Cinco anos depois foi publicado “Os Sertões”, um clássico da Literatura Brasileira e pioneiro do que chamamos hoje “Jornalismo Literário”. O livro tornou-se um best-seller imediatamente e até hoje sua história tem atraído o interesse publico, dos literatos e cineastas. Atraiu, por exemplo, Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, a visitar o local, consultar arquivos históricos e escrever “A guerra do fim do mundo”, em 1981, dando uma nova dimensão à figura de Antônio Conselheiro.

Vale lembrar que uma das primeiras revisões históricas do conflito não se deu com os estudiosos da história. Em 1976 a Escola de Samba “Em cima da hora” desfilou com o enredo “Os Sertões”, contando a história do massacre e lembrando a frase de Euclides da Cunha: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Hoje existem dois centros culturais referentes ao ocorrido em Canudos. Um em Quixeramobim, na casa em que o beato nasceu e outro em Canudos, o Memorial Antônio Conselheiro, criado em 2002, mantido em parceria com a UNEB-Universidade do Estado da Bahia, com a finalidade de preservar e difundir a memória da Guerra de Canudos. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, até hoje o Exército Brasileiro não gosta de lembrar aquele fatídico episódio

Canudos foi destruída pela segunda vez na década de 1960, com a construção a represa de Cocorobó. Na época historiadores e intelectuais reagiram revoltados, alegando que um episódio triste e polêmico da nossa história estava sendo encoberto, apagado para sempre. Mais tarde, em 2013, uma grande seca esvaziou a represa e revelou o que sobrou daquela cidade. Muito se pesquisou, escreveu e foi publicado sobre Canudos. Desde o “Libello republicano acompanhado de comentários sobre a Campanha de Canudos”, publicado em 1899 por Cezar Zama sob o pseudônimo Wosley e republicado em 1989 pelo Centro de Estudos Baianos, da UFBA, que se constitui numa denúncia explícita a carnificina ocorrida em Canudos; passando por “Canudos: cartas para o Barão”, da historiadora Consuelo Novas Sampaio, publicado em 1999; o livro “O clarim e a oração: 100 anos de Os Sertões”, de Rinaldo de Fernandes, lançado em 2002; até o excelente estudo realizado em “A guerra total de Canudos”, de Frederico Pernambucano de Mello, em 2007.

O cinema também tem se empenhado em mostrar o conflito em documentários e filmes, como “Guerra de Canudos”, realizado por Sergio Resende em 1997. Neste exato momento, o cineasta português Miguel Gomes prepara uma adaptação de “Os Sertões”, que se chamará “Selvajaria”, para lançamento em 2020. Como se vê o episódio continua aguçando o interesse na busca de uma compreensão e um entendimento do que Canudos representa para a História do Brasil. Ariano Suassuna tinha razão quando disse que “quem não conhece Canudos não conhece o Brasil”.

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AS BRASILEIRAS: Carolina de Jesus

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, MG, em 14/3/1914. Escritora, compositora e poeta. Ficou conhecida por seu livro “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, publicado em 1960, com a ajuda do jornalista Audálio Dantas. Filha ilegítima de um homem casado, vivia numa comunidade rural, onde a esposa de um rico fazendeiro decidiu bancar os estudos de algumas crianças negras. Ela passou a frequentar a escola, mas interrompeu o curso no 2º ano primário, quando aprendeu a ler e escrever.

Em 1937, com o falecimento da mãe, mudou-se para São Paulo e passou a trabalhar em diversos empregos subalternos. Seu estilo de mulher independente cativava algumas pessoas ao mesmo tempo que afastava outras. Trabalhou como faxineira, vendedora, auxiliar de enfermagem e até mesmo como artista de circo. Em meados de 1946 foi trabalhar como doméstica na casa de um médico – Dr. Euryclides Zerbini – que viria a ficar famoso com o primeiro transplante de coração realizado na América Latina. Nesta casa recebeu, além de bons tratos, permissão para ler os livros da biblioteca nas horas vagas. Em 1947 ficou grávida com um marinheiro português e perdeu o emprego. Sem condições de encontrar outro, foi obrigada a se instalar numa favela no bairro do Canindé, que se iniciava próximo ao centro da cidade.

Aí construiu seu próprio barraco, utilizando-se de madeira, lata, papelão que encontrava na rua. Catar papelão foi o serviço que encontrou para se manter. Em 1948 teve seu primeiro filho, João José. Depois vieram José Carlos e Vera Eunice, nascidos em 1949 e 1953, todos de pais diferentes. Por essa época encontrou alguns cadernos e passou a registrar poesias, músicas e um diário sobre o cotidiano da favela. Costumava bradar para os vizinhos que estava escrevendo sobre suas vidas naquele caderno, o que a colocava, de certo modo, numa posição superior e provocava intrigas. Assim, ela era discriminada também na favela. Passando por ali, numa reportagem que fazia para a revista “O Cruzeiro”, Audálio Dantas se interessou em ver os cadernos e percebeu no diário um texto contundente, que poderia ser publicado como livro.

Inicialmente publicou alguns trechos na própria revista e em seguida conseguiu a edição do livro pela Editora Francisco Alves, em 1960. A tiragem inicial de 10 mil exemplares esgotou em uma semana. A obra foi reeditada diversas vezes, vendeu mais de um milhão de exemplares, foi traduzida em 13 línguas e publicada em 40 países. Nos EUA ganhou uma edição de bolso da “New American Lybrary” e outra da “Penguin”, que vendeu mais de 300 mil exemplares. Conta-se que, pelo contrato original, a autora deveria ter recebido 150 mil dólares, mas não há indício algum que ela tenha recebido essa fortuna. Mas o que recebeu deu para comprar uma casa em Santana, bairro encostado ao Canindé.

Após o estrondoso sucesso editorial, publicou mais três livros, que tiveram pouca repercussão na mídia: Casa de Alvenaria (1961), Pedaços da Fome (1963) e Provérbios (1963). Em 1969 adquiriu uma propriedade em Parelheiros, onde passou a morar com os filhos, cultivar uma horta e viver como se estivesse no interior, mais próximo de suas origens. Aí veio a falecer em 13/2/1977. Sua filha tornou-se professora e contou numa entrevista que sua mãe gostaria de ter sido cantora e atriz. Deixou uma caixa contendo 58 cadernos, os quais foram organizados pela pesquisadora Raffaella Fernandez, chegando a compilar umas cinco mil páginas de textos, nos quais encontram-se 7 romances, 60 textos curtos e 100 poemas, além de 4 peças de teatro e 12 letras para marchas de carnaval. Até meados de 2018 foram publicados postumamente as obras: Diário de Bitita (1986), Meu estranho Diário (1996), Antologia Pessoal (1996), Onde estás felicidade (2014) e Meu sonho é escrever (2018).

Dos livros escritos sobre a autora, destacam-se Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus (1994), de José Carlos Meihy e Robert Levine; Muito Bem, Carolina!: biografia de Carolina Maria de Jesus (2007), de Eliana Moura de Castro e Marília Novais de Mata Machado; Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável (2009), de Joel Rufino dos Santos; A Vida Escrita de Carolina Maria de Jesus (2014), de Elzira Divina Perpétua; Carolina (2016), álbum de história em quadrinhos com a biografia da autora, com texto de Silene Barbosa e desenhos de João Pinheiro; Carolina: uma biografia (2018) de Tom Farias.

Em 2014, como resultado do Projeto Vida por Escrito – Organização, classificação e preparação do inventário do arquivo de Carolina Maria de Jesus, contemplado com o Prêmio Funarte de Arte Negra, foi lançado o Portal Biobibliográfico de Carolina Maria de Jesus e, em 2015, foi lançado o livro Vida por Escrito – Guia do Acervo de Carolina Maria de Jesus, organizado por Sergio Barcellos. O projeto mapeou todo o material da escritora, que passou a ser custodiado por diversas instituições: Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Museu Afro Brasil, Arquivo Público Municipal de Sacramento e Acervo de Escritores Mineiros. No métier acadêmico houve algumas polêmicas questionando sobre o caráter literário de sua obra. O crítico Ivan Cavalcanti Proença, por exemplo, chegou a afirmar que sua escrita não é literatura. Porém, a literatura se apresenta já no título do livro que lhe garantiu a fama e foi extraído do seu texto: “Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos”.

Outras partes extraídas do mesmo livro: “Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondiam-me: É pena você ser preta. Esquecendo eles que eu adoro minha pele negra, e o meu cabelo rustico […] Se é que existe reencarnação, eu quero voltar sempre preta. […] O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? […] A natureza não seleciona ninguém”. Para contrapor essa discussão sobre o caráter literário da obra, Fernanda de Moura Cavalcante realizou o trabalho de conclusão de curso “A Literariedade da obra de Carolina de Jesus: um reconhecimento necessário”, apresentado no curso de História na PUC/SP, em 2017. No mesmo ano, a historiadora Elena Pajaro Peres ministrou cursos no Departamento de História da USP e na Universidade Federal do ABC sobre “Carolina de Jesus e sua literatura em movimento”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Mário Schenberg

Mário Schenberg nasceu no Recife, em 2/7/1914. Físico, crítico de arte, matemático. Professor, político e mecenas. Dizem que nasceu em 1916 visando entrar na escola mais cedo que o permitido. Entrou na Faculdade de Engenharia do Recife em 1931, e no 3º ano foi detectado pelo “radar” do prof. Luís Freire, notável instigador de talentos, que estimulou-o a se transferir para a Escola Politécnica, em São Paulo. Em 1935 formou-se em engenharia elétrica e, no ano seguinte, em matemática na recém fundada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras-FFCL. Neste período esteve em contato com os professores Giuseppe Occhialini, Giacomo Albanese, Luigi Fantappié e Gleb Wataghin, que o convida para a função de preparador de física geral e experimental na Escola Politécnica. Em 1937 tornou-se assistente de física teórica da FFCL.

A diversificação de interesses veio da infância, influenciada pelas viagens feitas com seus pais à Europa. Desde cedo mostrou notável capacidade para a matemática, encantando-se com a geometria, que teve forte influência nos trabalhos posteriores. O interesse pela política, e particularmente o marxismo, começou também na adolescência. Como pode uma pessoa ter se destacado em áreas tão distintas como a ciência, as artes e a política? Para saber sobre o “físico que estudava as artes com o olhar de cientista e pesquisava a física com a criatividade da arte”, uma historiadora realizou pesquisa de fôlego sobre sua produção na área científica e nas artes. A conclusão é que a arte surgiu primeiro em seu horizonte. “Quando o jovem Schenberg abriu seus horizontes para a geometria, era pela razão de o auxiliar na utilização de suas percepções visuais”, conforme assinalou Alecsandra M. Vieira em seu livro Schenberg: Crítica e Criação, publicado pela Edusp em 2014, na comemoração do centenário de seu nascimento.

Em 1939 partiu para a Europa, e passou uma temporada trabalhando no Instituto de Física da Universidade de Roma com o físico Enrico Fermi; em Zurique, com Wolfgang Pauli e em Paris com Frédéric Joliot-Curie no Collège de France. Em 1940, já de volta ao Brasil, obteve uma bolsa da Fundação Guggenheim para passar uma curta temporada nos EUA, junto ao astrofísico George Gamow. Aí fez uma de suas principais descobertas: o “Processo Urca”. Trata-se de um estudo para entender o colapso de estrelas supernovas. Outra de suas descobertas recebeu o nome de “Limite Schenberg-Chandrasekhar”, realizada num trabalho junto com o físico indiano Subrahmanyan Chandrasekhar. Schenberg calculou, em 1942, a massa que pode ter o núcleo de uma estrela em que não mais ocorram reações de fusão nuclear, mas que consiga suportar o peso das camadas mais externas. Para um núcleo de hélio, valores típicos desse limite são de 10% a 15% da massa da estrela. Devido a tais descobertas, Albert Einstein considerava-o um dos dez mais importantes cientistas de sua época. É considerado, ainda hoje, o maior físico teórico do Brasil.

Em 1944 já exercia a crítica de arte de modo regular, o que não impediu que dois anos depois fosse contratado para inaugurar a cadeira de Mecânica Racional e Celeste da FFCL, atual Instituto de Física da USP. Em seguida dirigiu por oito anos o Departamento de Física da Universidade de São Paulo-USP (1953-1961). Seu curriculum na área científica é extenso: Trabalhou com mecânica quântica, termodinâmica e astrofísica. Publicou mais de uma centena de trabalhos em física teórica, física experimental, astrofísica, mecânica estatística, relatividade geral, teoria quântica do campo, fundamentos de física etc. Foi membro do Institute for Advanced Studies de Princeton e do Observatório Astronômico de Yerkes. Em Bruxelas, trabalhou em raios cósmicos e mecânica estatística. Criou o Laboratório de Estado Sólido da USP. Instalou o primeiro computador da universidade, criando o curso de computação e presidiu a Sociedade Brasileira de Física de 1979 a 1981.

Em 1969 foi o único latino-americano convidado para um congresso internacional sobre física de altas energias, em Kioto, Japão. Neste mesmo ano foi aposentado compulsoriamente pelo Governo, através do Ato Institucional nº 5. Na área política seu envolvimento não foi menos intenso, sendo eleito duas vezes deputado estadual de São Paulo (1946 e 1962) pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1947, sob a liderança do economista e empresário Caio Prado Júnior, a bancada aprovou o Artigo 123 da Constituição do Estado de São Paulo, instituindo os fundos de amparo à pesquisa no estado para impulsionar o desenvolvimento científico e tecnológico. Tal projeto levou à concepção da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo-FAPESP. Na Assembleia Legislativa foi um orador influente e mudou a orientação da bancada em diversas ocasiões. Devido ao seu posicionamento, foi cassado e preso mais de uma vez pela ditadura militar.

Após a aposentadoria ficou proibido de frequentar a USP e passou por um período de isolamento e cerceamento de qualquer atividade política ou social. Este período é compartilhado com sua amiga e conterrânea Clarice Lispector numa carta: “Desde 1970, minha situação geral se modificou bastante, em consequência do isolamento em que passei a viver, como resultado de minha aposentadoria e da impossibilidade de exercer a crítica de arte militante. Foi um desafio tremendo, mas creio que pude reagir de um modo criativo… Agora estou escrevendo um pequeno ensaio sobre a crise atual das artes plásticas, que talvez seja um ponto de partida para um ensaio mais longo”. Como crítico de arte mantinha grande interesse por artes plásticas, tendo convivido com artistas brasileiros como Di Cavalcanti, Lasar Segall, José Pancetti, Mário Gruber, Cândido Portinari, Antonio Bandeira, Carlos Scliar etc. e também estrangeiros, como Bruno Giorgi, Marc Chagall e Pablo Picasso.

Escreveu diversos artigos sobre artistas contemporâneos brasileiros como Alfredo Volpi, Lygia Clark e Hélio Oiticica etc. Era considerado um “mecenas das artes” não no sentido de financiar artistas, pois não era rico; e sim de aconselhá-los e acolhê-los em sua casa num período difícil da política brasileira. Foi casado com Julieta Bárbara Guerrini, ex-mulher de Oswald de Andrade, e com a artista plástica Lourdes Cedran. Teve uma única filha, a geneticista Ana Clara Guerrini Schenberg. Em 1979, com os direitos políticos reabilitados, voltou para a USP e lecionou alguns cursos. Recebeu o título de Professor Emérito em 1982 e, em 1984, foi homenageado com um Simpósio Internacional, no Instituto de Física, e a publicação de um número especial da “Revista Brasileira de Física”, na comemoração de seus 70 anos. Pouco depois os sintomas de uma doença degenerativa acentuaram-se e veio a falecer em 10/11/1990.

Publicou centenas de artigos científicos, os quais foram compilados por Amélia Império Hamburger no livro Obras Científicas de Mario Schenberg – pioneiro da Física Teórica e Matemática, vol 1, editado pela Edusp em 2009, obra contemplada com o Prêmio Jabuti em 2010. O vol. 2 foi lançado em 2013. Tal compilação resultou em mais de 1400 páginas de contribuição efetiva à ciência no Brasil. Em 2014, sua ex-aluna Dina Lida Kinoshita fez um apurado balanço de sua atividade política, e lançou a biografia: Mario Schenberg: o cientista e o político. Com isso foi preenchida uma importante lacuna na história dos ilustres políticos brasileiros. Como professor reuniu uma quantidade expressiva de alunos, para os quais deixou um recado: “E como já estou no fim de minha carreira, há um conselho que dou a vocês: não tenham medo. Porque se tiverem medo, nunca poderão criar nada de original. É preciso que não tenham medo de dizer alguma coisa que possa ser considerada como um erro. Porque tudo que é novo aparece aos olhos antigos como coisa errada. É sempre nessa violação do que é considerado certo que nasce o novo e há a criação.”

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Carmen Miranda

Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em Marco de Carnaveses, Portugal, em 9/2/1909, Cantora e atriz intérprete de si mesma, devido a fama alcançada com seu estilo pessoal incorporado ao artístico. No Brasil ficou conhecida com a “pequena notável” e nos EUA como a “explosão brasileira” (“The Brazilian Bombshell”), no momento em que o Brasil surgia no Mundo. Chegou ao Rio de Janeiro com 10 meses de idade e foi morar na Travessa do Comércio, onde a mãe montou uma pensão. O pai era barbeiro e seis anos depois mudaram-se para a Lapa, reduto boêmio da metrópole que surgia. Trabalhou numa chapelaria e gostava e cantarolar no serviço. Por isto foi despedida e passou a cantar pra valer com seu “chapéu” escandalosamente brasileiro.

Assim, imprimiu uma identidade ao Brasil, que permanece até agora: alegria esfuziante, cordialidade, musicalidade, exotismo. O “Movimento Tropicalista” confirmou o estilo brasileiro na voz de Caetano Veloso: “Viva a bossa, tá, tá, Carmen Miranda, tá, tá, tá tá!”. Nesse meio tempo tivemos Juscelino, um “presidente bossa nova”. “Bossa” é uma palavra existente apenas no Brasil, saudades daquela época. “Saudade” é outra palavra existente apenas no idioma português.

Os primeiros estudos se deram na escola de freiras Santa Tereza, onde demonstrou seu talento no coral da escola. Aos 14 anos trabalhou numa loja de gravatas, e depois como aprendiz de chapeleira na “Maison La Femme Chic”, de Madame Boss.

Aos 19 anos foi apresentada pelo deputado baiano Aníbal Duarte ao compositor Josué de Barros, que passou a promovê-la em teatros e clubes. Logo veio o primeiro disco, gravado em 1929 pela RCA Victor, com as músicas “Dona Balbina e “Triste Jandaia”. No ano seguinte alcançou o sucesso com a marcha de carnaval “Pra você gostar de mim” (”Taí”), composição de Joubert de Carvalho, que levou-a ao estrelato. O disco vendeu 35 mil cópias, sendo aclamada a maior cantora do País. Foi a primeira artista a assinar um contrato de trabalho com uma emissora de rádio no País, a Rádio Mayrink Veiga. Pouco depois já era reconhecida como uma das principais cantoras no âmbito internacional. Em 1936 transferiu-se para a Rádio Tupi afim de alavancar a carreira, que chegou às telas do cinema.

No mesmo ano estrelou no filme “Alô, alô carnaval”, onde ela e a irmã Aurora interpretam as “Cantoras do rádio”, sucesso imediato em todo o País. Ainda em 1936 passaram a integrar o elenco do Cassino da Urca, os palcos do Rio de Janeiro e de Buenos Aires. Em 1939 Dorival Caymmi compôs “O que é que a baiana tem?” No mesmo instante virou produto de exportação brasileira Uma música feita sob medida para ela cantar, dançar e mostrar o traje da baiana, que virou artigo de exportação para os EUA. No mesmo ano, Lee Shubert, produtor da Broadway, ofereceu-lhe um contrato de oito semanas para se apresentar no programa “The Streets of Paris”, em Boston. O contrato não foi assinado de imediato porque ela fazia questão de levar seu grupo, o Bando da Lua, junto; enquanto o produtor estava interessado apenas nela. O impasse foi resolvido com a intervenção de Alzira Vargas, filha do presidente, que garantiu o embarque de todos em 4/5/1939, às vésperas da II Guerra Mundial

Vê-se aí o interesse do Governo Vargas em divulgar a imagem e identidade cultural do País no exterior e para isso garantiu o suporte que fosse necessário. Assim tem início uma próspera carreira internacional. No ano seguinte, fez sua estreia no cinema estadunidense, com o filme “Serenata tropical”, contracenando com Dom Ameche e Betty Grable. Os norte-americanos ficaram encantados e em poucos meses ela foi eleita a 3ª personalidade mais popular dos EUA. Em 5/3/1940 foi convidada junto com seu grupo numa apresentação para o presidente Franklin Roosevelt, num banquete na Casa Branca. Chegou a ser a artista mais bem paga de Hollywood. Foi destaque principal na boate “Copacabana Night Club”, aberto em 1940, onde os norte-americanos ficavam extasiados com seu charme e exuberância.

A partir daí até 1953 atuou em 14 filmes em Hollywood e esteve nos mais importantes programas de rádio, TV e teatros dos EUA. Tornou-se a primeira sul-americana a ter uma estrela na Calçada da Fama e a primeira latino-americana a imprimir suas mãos e pés no pátio do Grauman’s Chinese Theatre, em 1941. Após viver tantos anos nos EUA, não só falava bem inglês como não tinha sotaque estrangeiro. Mas os produtores de shows insistiam para que ela se apresentasse com o dito sotaque. Desse modo é que a pessoa acabou sendo suplantada pelo mito que representava. Em tais condições restou pouco espaço à mudança que ela própria naturalmente poderia ter conseguido, noutras condições, como intérprete e enquanto indivíduo. Em 1947 casou-se com o norte-americano David Sebastian, produtor de cinema, que também foi seu desastrado empresário.

Os biógrafos apontam o casamento como o início do comprometimento de sua saúde, quando passou a beber junto com o marido alcoólatra, além de usar barbitúricos para dar conta de uma extenuante agenda de shows e compromissos. Em 1954 retornou ao Brasil e fez um tratamento de desintoxicação no Rio de Janeiro. Após breve melhora retornou aos EUA, mas seguiu dependente dos remédios. Para complicar a saúde, passou a sentir depressão. Em 4 de agosto de 1955, ao participar de uma gravação para o programa do comediante “Jimmy Durante Show”, sentiu um ligeiro mal-estar enquanto dançava. Ao voltar para casa ainda jantou, cantou e encantou alguns amigos. Foi dormir cedo nesta noite e não acordou. Na madrugada de 5/8/1955 faleceu devido a um alegado ataque cardíaco fulminante. Foi encontrada pela manhã sem vida com apenas 46 anos.

Na Califórnia foi realizado um velório reservado antes do corpo ser transladado para o Rio de Janeiro. Mais de 500 mil pessoas acompanharam seu funeral até o Cemitério São João Batista. No ano seguinte foi criado oficialmente o Museu Carmen Miranda, no Parque do Flamengo, contendo mais de três mil itens. Em 1995 recebeu o título póstumo de Grande-Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, outorgado pelo presidente de Portugal. No mesmo ano sua memória foi resgatada através do premiado documentário “Banana is my business”, dirigido por Helena Solberg. Recebeu inúmeras homenagens, aqui e nos EUA, e diversas biografias, dentre as quais destaca-se a realizada por Ruy Castro, publicada em 2005: Carmen: uma biografia – A vida de Carmen Miranda, a brasileira mais famosa do século XX. Em 2007, a BBC produziu o documentário Carmen Miranda: Beneath the Tutti Frutti Heat, uma excepcional videobiografia. No centenário de seu nascimento, em 2009, a Academia Brasileira de Letras prestou-lhe homenagem declarando-a “Patrimônio da Cultura Brasileira”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Villa-Lobos

Heitor Villa-Lobos nasceu no Rio de Janeiro, em 5/3/1887. Músico e maestro, considerado o expoente da música clássica brasileira e um dos maiores compositores do mundo, na opinião de Alejo Carpentier, escritor e músico cubano. A data de seu nascimento é celebrada como “Dia Nacional da Música Clássica”. Filho Noêmia Monteiro Villa-Lobos e Raul Villa-Lobos, músico amador e funcionário da Biblioteca Nacional, recebeu do pai instrução musical e uma viola adaptada para iniciação aos estudos de violoncelo.

Aos 12 anos, com o falecimento do pai, a família passou por alguns perrengues e ele foi obrigado a ganhar a vida tocando em teatros, bares e bailes ao mesmo tempo em que manifestava interesse pela musicalidade dos “chorões”, que imperava no Rio de Janeiro. Frequentou a conhecida loja “O Cavaquinho de Ouro”, que reunia o grupo de chorões. Nesse contexto, desenvolveu-se também no violão, na época, um instrumento musical de malandro. Desde cedo, curioso e inquieto, passou a viajar pelo interior do País com o intuito de conhecer o universo musical brasileiro. Em 1913 casou-se com a pianista Lucila Guimarães e conquistou o reconhecimento artístico em âmbito nacional. Em 1922 teve atuação destacada na Semana de Arte Moderna, em São Paulo, apresentando-se nos três dias com três diferentes apresentações. O Teatro Municipal de São Paulo foi o primeiro palco erudito a receber suas obras.

Em 1923 fez sua primeira viagem para a Europa, subsidiado pelo governo, onde passou um ano aprimorando sua performance. Em 1924 retornou ao velho continente, sob patrocínio do milionário carioca Carlos Guinle, dono do Hotel Copacabana Palace, e passou mais um tempo em contato com os grandes compositores mundiais. De volta ao Brasil, em 1930, realizou uma turnê por 66 cidades e uma “Cruzada do Canto Orfeônico” no Rio de Janeiro. No ano seguinte quis voltar a Europa, mas a “Revolução de 30”, impediu a retirada de dinheiro do País, impedindo-o de viajar. Forçado a permanecer no Brasil, passou a organizar concertos em algumas cidades e compor músicas educativas e patrióticas, com apoio governamental.

A aproximação com o novo governo garantiu-lhe o cargo de diretor da SEMA-Superintendência de Educação Musical e Artística, criado pelo decreto-lei nº 3.763, de 1932, através do Departamento de Educação, comandado por Anísio Teixeira. Permaneceu no cargo até 1945, período no qual foi instituído o ensino obrigatório de música e canto orfeônico nas escolas. Nesta condição produzia arranjos musicais diversos e compôs diversas peças consideradas propagandísticas, de cunho nacionalista, Vale ressaltar que a série “Bachianas Brasileiras”, iniciada naqueles anos, é considerada uma notável exceção. Em 1936, desfez o casamento e passou a namorar sua aluna Arminda Neves d’Almeida. Após o decreto de 10/11/1937, que estabeleceu a ditadura de Vargas ou “Estado Novo”, continuou produzindo obras patrióticas de apelo popular. O “Dia da Independência”, em 7 de setembro de 1939 contou com um coral de 30 mil crianças cantando o hino nacional e outras peças musicais. Dois anos depois, publicou A Música Nacionalista no Governo Getúlio Vargas, onde defende a nação como uma entidade sagrada, e seus símbolos (a bandeira e o próprio hino nacional) como invioláveis.

Era uma personalidade destacada no meio cultural e chegou a ficar famoso no meio popular através de uma aparição no filme da Disney Alô amigos (1940), ao lado do próprio Walt Disney. Nessa época dirigiu um comitê que tinha como tarefa estabelecer uma versão definitiva para o hino nacional brasileiro. Sua atuação resulta na criação do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, inaugurado em 1942. Na celebração do 7 de setembro de 1943, compôs o ballet “Dança da terra” e um hino invocando a defesa da pátria, logo após o Brasil ter declarado guerra contra a Alemanha nazista. Sua apego na busca de uma música genuinamente brasileira se expressa de modo claro: “Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil. O Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra.”

Dentre as cerca de mil composições do maestro, destacam-se: Cantilena, (Bachiana nº 5), O trenzinho caipira, Uirapuru, A Floresta do Amazonas, Descobrimento do Brasil, Choros nº 1 e 5, entre tantas outras. Seu legado musical não se restringe a música brasileira. Seus “12 Estudos”, reconhecidos como a maior obra para violão composta no século XX, revolucionou o repertório internacional do instrumento, até então restrito aos tradicionais espanhóis e a herança barroca do antigo alaúde. Dedicados a Segóvia, que passou a tocá-los (entre outras obras do maestro) no mundo inteiro, Os “12 estudos”, compostos entre 1924 e 1929, transformaram-se numa espécie de ‘Bíblia’ dos violonistas modernos, destacando-se por sua dificuldade, beleza, desafio, e brasilidade.

Em 1944 aceitou o convite do maestro Werner Jansen e iniciou uma turnê pelos Estados Unidos. No ano seguinte retornou ao Brasil e fundou a Academia Brasileira de Música, da qual foi eleito presidente. Em seguida empreendeu uma série de viagens pela américas, Europa e Israel, dirigiu concertos e gravou boa parte de sua obra. Em 1948 fez uma operação extirpando o câncer e casou-se com sua ex-aluna Arminda, que ficou encarregada de divulgar sua monumental obra, após sua morte em 17/11/1959. No dia seguinte o jornal “New York Times” dedicou-lhe um editorial na forma de necrológio e ano seguinte, o governo brasileiro criou o Museu Villa-Lobos no Rio de Janeiro. O maestro recebeu muitas homenagens em vida e mais ainda após sua morte, dando nomes a inúmeros logradouros e instituições. Foi retratado em diversas biografias e obras da musicologia: “Villa-Lobos, uma interpretação” (1961) do crítico Andrade Muricy; “Villa-Lobos, o homem e a obra”, uma alentada biografia traduzida em diversas línguas, do musicólogo Vasco Mariz; “Heitor Villa-Lobos: the life and works, 1887–1959”, do musicólogo finlandês Eero Tarasti.

Foi retratado também em filmes: “Bachianas Brasileiras: meu nome É Villa-Lobos” (1979), “O Mandarim”(1995) e “Villa-Lobos: uma vida de paixão” (2000). Em 1986 teve sua efígie impressa nas cédulas de quinhentos cruzados. No cinquentenário de seu falecimento (2009) foi organizado o “Seminário Internacional – Villa Lobos”, no MASP, com duração de 5 dias, onde foram apresentadas palestras, mesas redonda, avaliações, concertos etc. sobre o maestro. Foi um homem que tinha plena consciência de sua importância no cenário cultural do País, reveladas em frases como: “Eu não uso o folclore, eu sou o folclore” ou “Eu não estou aqui pra aprender, mas sim para mostrar o que eu até então construí”. Pouco antes falecer lamentou-se com um amigo: “É triste a gente morrer, ter alguns dias de vida e séculos de música na cabeça! Você sabe que eu tenho séculos de musica na minha cabeça?”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Nair de Teffé

Nair de Teffé Hermes da Fonseca nasceu em Petrópolis, RJ, em 10/6/1886. Pintora, cantora, atriz, pianista, primeira-dama e mais conhecida como a primeira cartunista mulher do mundo. Foi também a personalidade mais destacada da belle époque brasileira. Filha do Barão de Teffé (Antônio Luís von Hoonholtz) e de Maria Luísa Dodsworth. Uma legítima representante da aristocracia imperial brasileira. Com um ano de idade, mudou-se para a França, onde concluiu os primeiros estudos nas melhores escolas de Paris e Nice, incluindo um curso de pintura com Madame Lavrut. Era considerada uma menina prodígio, mimada pelo pai e pelos irmãos. Na França descobriu seu talento para o desenho e aos nove anos produziu a primeira caricatura, que lhe valeu 8 horas de castigo num quarto escuro. Desenhou o “retrato” da freira professora, de nariz comprido, Ao ser descoberta pela madre superiora, recebeu o castigo e um estímulo para seguir a profissão de caricaturista. Se recebeu tamanho castigo foi porque o desenho saiu muito bom.

Retornou ao Brasil em 1906 e inicia a carreira de caricaturista desenhando personalidades da alta sociedade carioca, as quais são expostas em conhecidas lojas do Rio de Janeiro: Casa David e Chapelaria Watson. Em julho de 1909 publicou seu primeiro trabalho (“A artista Rejane”) na revista “Fon-Fon”. No ano seguinte publicou na mesma revista “A Galeria de Elegâncias”, as famosas da época. Ainda em 1910 publicou a série “Galeria das Damas Aristocratas”, em cores, na revista “Careta”. Em seguida vieram as personalidades masculinas – “Galeria dos Smarts” – publicada na Gazeta de Notícias. Além destas, teve suas caricaturas publicadas nas revistas “O Binóculo”, “O Ken”, “O Malho” e no jornal “Gazeta de Petrópolis”. Tinha um traço ágil e sabia transmitir bem o caráter das pessoas.

Na França seus trabalhos apareceram nas revistas “Fantasie”, “Femina”, “Excelsior” e “Le Rire” . Em junho de 1912 realizou uma exposição individual no salão do “Jornal do Comércio”, onde reuniu duzentas caricaturas. A exposição foi inaugurada pelo Presidente da República, seu namorado e futuro marido, marechal Hermes da Fonseca. Ao casar-se, em dezembro de 1913, não pode mais conciliar as funções de caricaturista e primeira-dama. Foi militante feminista quando ainda nem se pensava nisso, com um comportamento avançado para a época. Lançou no Brasil a moda de calças compridas para mulheres, permitindo-lhe montar cavalo como os homens. Promovia saraus no Palácio do Catete (residência presidencial), que ficaram famosos por introduzir o violão nos salões da alta sociedade. Em sua paixão por música popular, reunia amigos para recitais de modinhas. Noutras ocasiões, frequentava o “Bar do Jeremias”, reduto de boêmios e intelectuais.

Era realmente uma primeira-dama diferenciada em todos os aspectos. É inexplicável o fato do cinema brasileiro não se interessar em fazer uma vídeo-biografia dessa mulher. Aliás, seu casamento em Petrópolis foi filmado e exibido em São Paulo, Curitiba e Rio Grande, mas encontra-se desaparecido. Num dos saraus, fez o lançamento do “maxixe” Corta Jaca, composto por sua amiga Chiquinha Gonzaga, no Palácio do Governo. O evento foi considerado um acinte, uma quebra de protocolo e causou um escândalo na sociedade carioca, ao ponto do senador Rui Barbosa proferir um discurso de protesto no Senado Federal, em 7/11/1914, pela promoção de músicas cujas origens estavam nas danças lascivas e vulgares da época. No mesmo ano, último de governo do marido, fez uma travessura por ocasião de uma reunião ministerial: desenhou na roda de seu vestido de gala as caricaturas de todos os Ministros da República.

Dois anos após o fim do mandato presidencial, mudou-se de novo para a França. Lá realizou algumas exposições, publicou charges no livro de crônicas de Otto Prazeres (Petrópolis, a encantadora), publicou na “Revista da Semana” 30 “cabeças” de ilustres brasileiros e fez algumas caricaturas para a revista “Fon-Fon”. Voltou para o Brasil por volta de 1921 e participou da Semana de Arte Moderna, em 1922. Após a morte do marido, em 1923, foi retomando a vida sem abrir mão de suas opiniões avançadas. No ano seguinte deu uma entrevista e aproveitou para protestar; e o fez lançando as bases do movimento feminista, que surgiria anos depois: “Por que permitir que os homens continuem a atrapalhar a vida econômica do sexo frágil… disputando-lhe os empregos e os cargos ao alcance de suas forças e capacidades?”

Decidiu voltar a morar em Petrópolis e foi eleita, em 1928, presidente da Academia de Ciências e Letras, que extinguiu em 1929 e fundou em seu lugar a Academia Petropolitana de Letras, a qual presidiu até 1932. Já era integrante da Academia Fluminense de Letras. Com o falecimento do pai, retornou ao Rio de Janeiro, em 1932, e com a herança recebida adquiriu um terreno, onde construiu o Cinema Rian (anagrama de Nair), na Avenida Atlântica. Pretendia incentivar a arte cinematográfica, mas teve dificuldades para administrar o empreendimento. Os problemas financeiros, inclusive com o “jogo-do-bicho”, que apreciava, levaram-na vender o cinema em 1946. Conta-se que o vício no jogo levou-a a perder, também, a ilha Francisca, em Angra dos Reis, uma herança deixada pelo marido.

Sua situação econômica foi se agravando, e com o pouco que restou, comprou uma casa em Niterói e passou a levar uma vida reclusa com os três filhos adotados. Em 1959 foi “redescoberta”, aos 73 anos, por Herman Lima, (autor da História da caricatura no Brasil), que incentivou-a a refazer alguns desenhos para incluir em seu livro. Em seguida voltou a fazer caricaturas de várias personalidades da vida política e por um breve período retomou a vida profissional, porém com alguns percalços. A pensão deixada pelo marido não dava para custear as despesas e em 1970 quase foi despejada de sua moradia. Neste ano, por decisão do presidente Médici, conseguiu um reajuste na pensão, fato que levou-a fazer elogios ao general-ditador. Fato, também, que gerou críticas dos intelectuais de esquerda, que não compreenderam sua situação econômica.

Em 1979 esteve em São Paulo, onde foi homenageada no II Salão de Humor e Quadrinhos, promovido pela Universidade Mackenzie. No início da década de 1980 a saúde deu sinais de alerta e no ano seguinte teve uma infecção pulmonar agravada por insuficiência cardíaca. Em 10/6/1981, no dia em que completou 95 anos, faleceu e foi sepultada junto ao marido. Em 1982 os cartunistas Jal e Gualberto, entre outros, criaram o “Centro Artístico Rian” com o objetivo de dar apoio legal, jurídico e operacional na luta pela valorização do artista gráfico. Sua atribulada vida foi contada na biografia realizada por Antonio Edmilson Martins Rodrigues: Nair de Teffé: vidas cruzadas, publicada pela editora da Fundação Getúlio Vargas, em 2002.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Zeferino Vaz

Zeferino Vaz nasceu em São Paulo, em 27/5/1908. Médico, professor e fundador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e reitor da Universidade de Brasília (UnB). Os primeiros estudos se deram no Liceu Coração de Jesus. Poderia ter sido um grande ator, pois atuou no teatro do colégio, ao lado de Rodolfo Mayer, em várias peças e também no cinema. Perdemos um ator e ganhamos um reitor. Uma troca da qual não podemos reclamar.

Em 1926 ingressou na Faculdade de Medicina de São Paulo e, logo, tornou-se monitor da cadeira de parasitologia. Em seguida foi estagiário no Instituto Biológico de São Paulo, onde foi nomeado assistente, em 1930, e fundou, junto com Clemente Pereira, a seção de parasitologia animal. Formou-se médico em 1931 e foi assistente do professor André Dreyfuss na cadeira de histologia e embriologia da recém fundada Escola Paulista de Medicina, atual UNIFESP-Universidade Federal de São Paulo. Em 1932 participou ativamente da Revolução Constitucionalista, deflagrada em São Paulo. Aprofundou os estudos em sua especialidade e pouco depois foi lecionar Zoologia e Parasitologia na Escola de Medicina Veterinária da USP, onde foi diretor entre 1936-1947 e 1951-1964.

Em 1947 coordenou a Comissão criada para implantar uma faculdade de medicina no interior de São Paulo. Quatro anos após organizar o currículo e planejar a instalação numa antiga fazenda de café, foi criada a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. No discurso de posse como diretor, em 1951, deixou claro suas intenções: “Minha gente, vim criar uma Faculdade de Medicina. Mas não vim criar uma Faculdade de Medicina qualquer. Vou fazer daqui o melhor Centro de Educação Médica e de pesquisas científicas, no campo da medicina, do Hemisfério Sul”. Hoje a FMRP é o maior centro de formação de médicos em nível de pós-graduação do País. Em 1963, foi secretário estadual de Saúde Pública. De 1964 a 1965 foi o primeiro presidente do Conselho de Educação do Estado de São Paulo.

Logo após o Golpe Militar de 1964, foi nomeado reitor da Universidade de Brasília-UnB em substituição a Anísio Teixeira, cassado pelos militares. Fez o que pode para manter a estrutura inovadora da UnB, realizando inclusive gestões bem-sucedidas para libertar os professores que haviam sido presos durante a invasão do campus universitário por tropas da Polícia Militar e do Exército, em 9/4/1964. Apesar das limitações de verbas e das demissões de 13 professores e instrutores, o trabalho de implantação da UnB prosseguiu, segundo ele mesmo, com o intuito de “salvar a universidade da destruição”. Nessa lida, chegou a impedir o afastamento de indivíduos de alta qualificação, como Oscar Niemeyer e Almir Azevedo, acusados de subversão. Em certa ocasião foi chamado de “o reitor de direita que protegia as esquerdas”. Em 1965 pediu demissão do cargo devido ao impasse gerado pela contratação do professor Ernâni Maria Fiori, pensador católico gaúcho demitido da Universidade de Porto Alegre e aposentado com base no Ato Institucional nº 1 (9/4/1964). Foi substituído na reitoria da UnB por Laerte Ramos de Carvalho, mas continuou integrando o Conselho Diretor da Fundação Universidade de Brasília.

Em seguida, retornou a São Paulo com a missão de fundar a primeira universidade no interior do estado, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nomeado reitor em 1966, lutou para reunir alguns dos melhores cientistas brasileiros para formar uma instituição de pesquisa sólida e respeitada, tornando a Unicamp uma das mais produtivas e respeitadas instituições de pesquisa da América. Sua filosofia de trabalho era simples até no modo de se expressar: “para funcionar uma universidade precisava primeiro de homens, segundo de homens, terceiro de homens, depois bibliotecas, depois equipamento e, finalmente, edifícios”. Assim, preocupou-se primeiramente com a contratação de pessoas capazes intelectualmente e com experiência pedagógica. Convidou cientistas e brasileiros que atuavam nos EUA e na Europa, e trouxe também professores estrangeiros.

Em 1979 a Unicamp já contava com um quadro de expressivos cientistas e pesquisadores de nível internacional: César Lattes, Gleb Wataghin, Vital Brasil, Rogério Cerqueira Leite, Giuseppe Cilento, André Tosello entre outros. No movimento de reivindicação das liberdades democráticas, mostrou-se favorável ao ressurgimento do movimento estudantil, lutou pela autonomia universitária e buscou a integração entre a universidade e a comunidade local. Manifestou-se favorável à reintegração dos professores e cientistas aposentados pelo Ato Institucional nº 5, sugerindo a imediata revisão de seus casos. Porém, com o acirramento dos movimentos políticos, foi contra a reivindicação do movimento estudantil de retorno à legalidade da UNE-União Nacional dos Estudantes, afirmando que a entidade teria sua atuação desviada para questões alheias aos interesses universitários.

Ocupou diversos cargos públicos e civis, tais como membro do Conselho Federal de Educação, Conselho Curador da Fundação SEADE, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Academia de Letras de Ribeirão Preto, Associação Paulista de Medicina, Associação Médica Brasileira, Sociedade de Biologia de São Paulo e da American Society of Parasitologists. Foi também assessor para assuntos de educação e saúde do Grupo de Assessoria e Participação (GAP) do governo de São Paulo. Na vida acadêmica participou de vários congressos científicos, destacando-se como convidado da IV Conferência Internacional de Educação em Washington.

Além do seu legado como empreendedor de sólidas instituições, deixou publicado 65 trabalhos de investigação científica no campo da parasitologia (helmintologia) em revistas americanas, inglesas, francesas e brasileiras. Em 1978 deu-se por encerrada a implantação da Unicamp e a administração pro tempore de seu fundador e reitor, que se aposentou compulsoriamente aos 70 anos e passou a presidir a Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp). Em 1980 a saúde deu sinais de alerta e foi vitimado por um aneurisma de aorta, vindo a falecer em 9/2/1981. Entre as tantas homenagens que amealhou, seu nome foi dado ao Campus da Unicamp e ao trecho da Rodovia SP-332. A Unicamp concede, anualmente, o “Prêmio de Reconhecimento Zeferino Vaz” a docentes ativos que atuam em regime de dedicação exclusiva e que tenham se destacado nas suas funções de docência e pesquisa.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Maria Quitéria

Maria Quitéria de Jesus Medeiros nasceu em 27/7/1792, em São José das Itapororocas, atual Feira de Santana, BA. Militar e heroína na luta pelo reconhecimento da independência do Brasil. Filha do fazendeiro português Gonçalo Alves de Almeida e Joana Maria de Jesus, perdeu a mãe aos 10 anos e assumiu o comando da casa. O pai casou novamente e ela não se deu bem com a madrasta, que não admitia seu comportamento independente. Não frequentou escolas, mas dominava a montaria, caçava e manejava armas de fogo.

Estava noiva, prestes a casar, entre 1821 e 1822, quando teve início na Bahia o movimento contra o domínio português. Em janeiro de 1822, a Coroa enviou as tropas portuguesas, sob o comando de Inácio Madeira de Melo. No confronto, os portugueses cometeram barbaridades, como a invasão do Convento da Lapa, onde ocorreu o martírio da freira Joana Angélica. O fato veio acirrar o ânimo da população, levando o Conselho Interino do Governo da Bahia a convocar voluntários. Maria Quitéria quis se alistar, pediu permissão ao pai, mas teve o pedido negado. Com a apoio da irmã e do cunhado, cortou o cabelo, vestiu roupas masculinas e se alistou com o nome Medeiros no “Batalhão dos Voluntários do Príncipe Dom Pedro”. 15 dias depois o pai foi buscá-la, mas o major José Antônio da Silva Castro (avô do poeta Castro Alves) defendeu-a e não permitiu seu desligamento da tropa, devido a sua disciplina militar e facilidade no manejar de armas. Seguiu com o Batalhão, agora com um saiote à escocesa acrescido ao seu uniforme, para vários combates.

Participou das batalhas na da Ilha da Maré, da Pituba, da Barra do Paraguaçu e de Itapuã. Dom Pedro enviou à Salvador o general Pierre Labatut, para organizar o combate, no qual ela teve atuação destacada. Em 2/7/1823, quando terminou a “Guerra da Independência”, com a entrada do Exército Brasileiro em Salvador, a cabocla Maria Quitéria, já promovida a cadete, foi saudada e homenageada pela população. Lembremos que esta guerra durou de 1821 a 1823 e que o dia 2 de julho de 1823 ainda hoje é a data magna da Bahia, feriado em comemoração a consolidação da independência do Brasil.

Em 20 de agosto do mesmo ano, foi condecorada, no Rio de Janeiro, com a “Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul”, numa audiência especial quando recebeu a medalha das mãos do próprio Imperador Dom Pedro I, com o discurso: “Querendo conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os serviços militares que com denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à causa da Independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”. Além da comenda, foi promovida a Alferes (2ª tenente), posto em que ficou reformada. Voltou à Salvador com uma carta do imperador dirigida à seu pai, pedindo que ela fosse perdoada pela fuga de casa para lutar pelo Brasil.

A escritora e pintora inglesa Maria Graham, que viveu três anos no Brasil, estava presente nesta cerimônia e ficou tão impressionada com sua figura que desenhou seu retrato, o único que temos de Maria Quitéria. Além disso, escreveu no seu livro Journal of a Voyage (Londres, 1824), que “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educassem, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis”. Foi a partir daí que a nossa heroína passou a ser conhecida e valorizada entre nós. Por incrível que pareça, ainda hoje os brasileiros mantém o costume de só reconhecerem suas personalidades quando são divulgadas no exterior.

Pouco depois casou com um antigo namorado, o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha. Em 1835 ficou viúva e mudou-se para Feira de Santana para tentar receber parte da herança do pai, falecido no ano anterior. Desistiu do inventário, devido a morosidade da justiça e foi morar com a filha em Salvador. Faleceu em 21/8/1853, aos 61 anos, quase cega e total anonimato. Encontra-se sepultada na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, no bairro de Nazaré em Salvador. Foi a primeira mulher brasileira a assentar praça numa unidade militar do Exército. 120 anos depois, em 1943, durante a 2ª Guerra Mundial, as mulheres passaram a ter existência oficial naquela instituição.

Em 1953, Os Correios estamparam um selo comemorativo do centenário de seu falecimento. Em 1996 foi-lhe atribuído o título de patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Sua imagem está exposta em todos os quartéis do Brasil. As câmaras municipais de Salvador e Feira de Santana instituíram a Comenda Maria Quitéria. Em sua cidade foi-lhe erguido um monumento no cruzamento da Av. Maria Quitéria com a Av. Getúlio Vargas, além de nomear o Paço Municipal. Seu retrato mais conhecido é uma pintura de corpo inteiro, pintado por Domenico Failutti, que atualmente integra o acervo do Museu Paulista, em São Paulo. A pintura foi baseada no retrato publicado no livro de Maria Graham.

Sua vida foi descrita em diversos livros de história do Brasil e em algumas biografias: Maria Quitéria: A Joana d`Darc brasileira (2014), de Mônica Buonfiglio; Maria Quitéria (2008), de Miriam Mambrini e A incrível Maria Quitéria (1977), de João Francisco de Lima. Sua vida e feitos vêm sendo comparados ao da mártir francesa Joana d’Arc, que também teve uma destacada vida militar.