OS OLHOS VERDES DO GATO

Mote:

Os olhos verdes do gato
Enxergam até no escuro.

Glosas:

Não foi preciso um tato
Nem procurar com afinco
Por cima do lindo vinco
Os olhos verdes do gato
No meu verso imediato
Da imagem eu capturo
O quadro que emolduro:
Os olhos desse felino
Que eu sei, desde menino,
Enxergam até no escuro.

Quê mais vejo no retrato?
Algo lindo e provocante
Abstraindo o instante
Os olhos verdes do gato
Não me tenham por gaiato
Por gente sem um futuro
Porque também aventuro
Enxergar muito além
Pois os meus olhos também
Enxergam até no escuro.

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UMA GLOSA

Mote:

Quem nasceu pra ser gigante
Não mora em terra de anões.

Glosa:

Caminha sempre adiante
Não pisoteia ninguém
Semeando o amor e o bem
Quem nasceu pra ser gigante.
Da bondade é praticante
Amante das compaixões
Fomentador de perdões
Sendo bom por natureza
E por toda essa grandeza
Não mora em terra de anões.

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GLOSAS

Mote:

Lula agora vai casar
Viverá noutra prisão

É coisa de admirar
A notícia nos jornais
Sobre letras garrafais:
LULA AGORA VAI CASAR.
E ninguém vai protestar
Nem lhe chamar de ladrão
Por roubar um coração
Dizendo ser por amor
E se livre Lula for
VIVERÁ NOUTRA PRISÃO.

Me disseram “é por paixão
Passada a toda prova”
Ele nessa vida nova
VIVERÁ NOUTRA PRISÃO.
Preso por corrupção
Sem poder sequer trepar
Quer a “domiciliar”
Para voltar ao comando
E continuar roubando
LULA AGORA VAI CASAR.

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CONTÍCULO

Ela partiu me deixando com os velhos CD’s. Alguns de tão arranhados já não tocavam mais. Apenas choravam abandonados.

Como o meu coração.

O jarro com as flores mortas sobre a mesa de canto, em silêncio, sofria por mim.

Pelas flores também.

O livro de capa dura jogado sobre o sofá, contando a história dramática do príncipe morto – sua donzela morrera também – dizia de um amor sem felicidades ao final.

Como o nosso.

O prato sujo sobre a mesa, com os talheres cruzados ao meio, em xis, chorava ante o copo seco, lamentando por sua última refeição.

Na cama do quarto ao lado os nossos lençóis, abraçados aos travesseiros, gemiam também em triste pranto.

Pelo mesmo motivo.

O Cristo na cruz, de cabeça voltada para o chão no símbolo de sua não vida, pregado na parede da sala, era um recado sombrio da angústia dessa separação.
Braços inertes e pernas arriadas. Membros sem forças.

Como os meus.

Enquanto eu a via descer rua abaixo, mochila da separação nas costas, lembrava-me de versos lidos na porta de um banheiro público.

“Ao sair,
levou-me com ela
e nesse instante
deixei de existir.”

Uma porta triste.
Como a minha recém fechada.

(Os versos entre aspas são do poeta Álvaro Campos)

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GLOSA PRA UM PÉ-DE-RABO

Este flagrante aí de cima deu mote:

Um pé de rabo invocado
Faz até cego enxergar

E aqui vai a glosa:

Me deixa doido varado
Pela boca espumando
Se acaso vejo passando
Um pé de rabo invocado.
Se tiver um rebolado
Cadenciando o andar
Divino no molejar
Com pouco pano no meio
Digo sem nenhum receio
Faz até cego enxergar.

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GLOSAS

Glosas que fiz com o mote dado pelo poeta Dedé de Dedeca:

Quando Deus manda o inverno
Manda junto a fartura

A seca acabou com tudo
Matou homens e animais
Causou muitos funerais
Deixou o pobre desnudo
O gado ficou ossudo
Morreu a agricultura
Para salvar nossa agrura
E acabar com o inferno
Quando Deus manda o inverno
Manda junto a fartura.

As chuvas estão caindo
Os açudes estão sangrando
Os peixes estão tão pulando
Nosso povo está sorrindo
A fome está partindo
Acabou-se a amargura
A vida virou doçura
Graça ao nosso Pai Eterno
Quando Deus manda o inverno
Manda junto a fartura.

* * *

Esta última eu fiz na chamada Glosa Clássica, na qual o primeiro verso do mote segue no quarto da poesia, e o segundo verso do mote, vai no décimo da poesia.

O maior amor paterno
Eu sinto em meu coração
Olhando para o Sertão
Quando Deus manda o inverno.
Por isso em versos externo
A Sua eterna candura
Faz cair de toda altura
A chuva que nos encanta
E em Sua bondade Santa
Manda junto a fartura.

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BRUTO? NADINHA!

Há pouco no supermercado Supercop, loja da Av. Ayrton Senna, na Zona Sul de Natal, eu estava na fila do caixa rápido logo atrás de um senhor aparentando seus sessenta e cinco anos de idade.

Alto, agalegado e sardento, bermuda com bolsos cargo, camiseta sem mangas e sandálias de borracha. Trazia um boné desbotado na cabeça e um relógio de metal no braço.

Por a fila não se movimentar muito, talvez como ele quisesse, começou a se mostrar impaciente.

Coçava a cabeça, empurrava a cestinha das suas compras com a ponta de um pé e se virava para cá, para lá, quase num ritual de extrema inquietação.

Na fila ao lado, um pouco menor, havia algumas pessoas com carrinhos de pequenas feiras, mas em volumes superiores aos vinte itens da placa sinalizando o destino dos clientes aos caixas.

Foi justamente nessa fila que encostou uma jovem.

Branca, altura mediana, trazia os cabelos de um lado certamente cortados na lâmina dois de uma máquina, piercing no nariz, camiseta t-shirt preta rasgada e trazendo uma caveira na silk frontal. O short jeans terminava onde começava a sua virilha, rasgado e desfiado. Calçava uma rasteirinha de couro e trazia na mão uma latinha de cerveja, provavelmente aberta ali mesmo no supermercado.

Tanto quanto seu cabelo azulado tirado apenas de um lado e caindo no ombro pelo outro, chamava também a atenção por tatuagens cobrindo os dois braços e, até onde os olhos podiam bater direto em sua pele, descendo pelas coxas e canelas. Se as tinha nas costas eu não pude vê-las. O ângulo não me era favorável.

O senhor à minha frente logo se admirou quando a viu. E eu notei pela cara de admiração e os olhos arregalados sob as sobrancelhas levantadas, como se houvessem reagido a um susto.

E esse senhor não demonstrou o menor constrangimento em ficar a princípio totalmente virado para a jovem tatuada. Depois se virava, empurrava a cestinha no chão com um pé, e se voltava exclusivamente para observar a jovem.

Eu pensei de cá “isso vai dar em merda” porque, pelo canto do meu olho, acabei percebendo a moça impaciente e incomodada com o olhar do homem. Constrangida na verdade.

Não sei precisar o tempo, mas eu acho que uns três minutos depois, após várias viradas para trás do senhor, a jovem resolveu reclamar.

– O senhor perdeu algo em mim? – perguntou diretamente ao homem.

– Eu?! – respondeu com uma pergunta admirada o senhor.

– O senhor sim! Não tira os olhos de mim – respondeu a jovem, chamando a atenção das outras pessoas por um tom de voz acima do normal e bem irritado. Em seguida complementou elevando ainda mais esse tom: – O senhor está me assediando!

– Eu?! Ora mais ‘tá! Agora eu vi o cancro mesmo – respondeu o homem. E antes que a moça pudesse fazer nova reclamação, ele disparou sem pestanejar: – ‘Tou só olhando suas tatuagens. Se não queria mostrá-las tivesse tatuado só seu cu; então mostraria apenas para quem você se arreganhasse.

– O próximo! – gritou a senhora do caixa.

Quase ninguém ouviu seu grito. Uma gargalhada tomava conta das filas.

Sérios de verdade apenas o senhor nenhum pouco bruto e a jovem tatuada.

(Jesus de Ritinha de Miúdo, num domingo que começou alegre e embaraçoso para alguns).

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DELICIOSA TORTURA

Na formatura do meu filho Raul, há exatos quinze dias, anunciaram que o Hino Nacional seria cantado.

Meu caçula ao lado olhou para mim e soltou:

– Painho, ‘cê sabe cantar, né?

Eu respondi quase me amostrando, já com a voz levantada e peito estufado:

– Claro! Nos meus tempos de estudante éramos “obrigados a cantar”, sob a supervisão da General Almira, todas as quintas-feiras, na entrada do Grupo Escolar.

Alguns outros jovens presentes no evento me olharam meio desconfiados. Não sei se surpresos por eu falar com tanta convicção saber cantar algo tão comprido, ou por não fazerem a mínima ideia de quem fosse a General Dona Almira do Grupo Escolar.

E começou a execução.

Cantei do começo ao fim, sem erros. Inclusive fazendo direitinho a distinção de “em teu peito” e “no teu peito”; conhecimento exigido por Dona Terezinha Dantas, eterna professora de História. Mas, aí, já no Ginásio, sob o olhar atento da Diretora Hilda Frassinete.

Pois é, poucos sabem dessa diferença colocada lá propositadamente por Joaquim Osório Duque Estrada na belíssima poesia que é a letra, antes de Francisco Manoel da Silva jogá-la para os compassos da música.

Terminado o hino, meu caçula me deu aquele abraço.

E prometeu aprender para cantar também.

Se cantar o Hino Nacional sob o sol das treze horas no sertão acariense foi tortura para aquela criança que eu era; hoje aqueles momentos são uma deliciosa memória no homem que sou.

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ATÉ O DEDO!

Jesus de Ritinha de Miúdo

A propósito da postagem “Até o dedo iria aparecer

O dedo eu acho difícil
Encontrá-lo, meu parceiro
Ninguém sabe há muito tempo
O seu real paradeiro
Há que diga, no entanto
Que o dedo desse santo
Tá no cu do brasileiro.

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