A VINGANÇA DE JOSINA

Bernardo, como fazem todos os novos ricos, construiu uma bela casa na praia da Barra de São Miguel. Tem uma verdadeira paixão e vaidade daquela bela casa. Vive cheia de amigos, a maioria de seu interesse comercial e político. Usa a mansão praieira como forma de relações públicas com almoços, boas bebidas. Ficou rico como laranja de autoridades poderosas que deviam estar na cadeia por usurpar dinheiro público,

Na quinta-feira antes do carnaval, Bernardo foi à casa de praia da Barra de São Miguel a fim de prepará-la para receber amigos durante a folia. Sua doce mulher, Josina sempre viveu em harmonia, mesmo com algumas desconfianças da integridade conjugal do marido. Quando solteiro, Bernardo foi um incorrigível raparigueiro, por conta disso havia resquícios de sua fama. Na verdade, nunca perdeu a mania, o vício de mulher. Durante os 10 anos de casados ele pulou a cerca várias vezes, muito discretamente.

Da varanda da casa Bernardo contemplava a bela vista da praia quando apareceu Lucinha, filha da faxineira para ajudá-lo na arrumação. Ele alegrou-se ao vê-la, “secava” a jovem desde que ela retornou de São Paulo, onde foi morar há três anos com menino no bucho em busca do pai. Em Sampa o marido desapareceu. Ela tentou sobreviver, foi difícil, teve de retornar à casa da mãe. Lucinha com seus 24 aninhos tem consciência de sua beleza e do corpo bem torneado; usa uma provocativa minissaia expondo o belo espécime feminino. Em São Paulo fez alguns programas, aprendeu coisas inacreditáveis.

Começaram a arrumação da casa. O patrão ficou perturbado ao olhar aquela moça varrendo o chão, limpando vidraça. Os dois sozinhos naquela casa geraram um clima propício à sensualidade. Em certo momento ele não se conteve, achegou-se à jovem, alisou seu cabelo, seus braços, ela sorria em cumplicidade, “Que é isso? Doutor Bernardo!” Deitaram-se no tapete da sala, abraçaram-se, beijaram-se, amaram-se até a apoteose gritante. Estavam estirados no chão abraçados quando a porta se abriu. Josina chocou-se com a cena. Foi um flagrante constrangedor, ela gritou com ódio: “Você me paga. Seu filho de uma puta!” Bateu a porta, retornou à Maceió, dirigindo nervosa, aos prantos.

Bernardo não teve coragem de voltar para casa. Procurou amigos, parentes, contou a história, pediu para que fizessem a ponte da paz, ele estava arrependido, nunca mais aconteceria, e outras promessas vãs que todos os pecadores cometem. Josina irredutível mandou recado que ele não tivesse a ousadia em procurá-la.

Sábado de carnaval, tristonho Bernardo acordou na casa na Barra, pensava muito, avaliando a bobeira que havia feito. À noite foi dar uma volta no carnaval de rua no centro da pequena cidade balneário. Teve um susto quando viu Josina com um short curto, barriguinha de fora, charmosa, dançando na rua, pulando com amigos. O ciúme subiu-lhe à cabeça, os olhos dos dois se cruzaram. Até que certa hora o álcool deu coragem, Bernardo aproximou-se Josina. Ela o empurrou, disse que chamava a polícia. Levaram-no bêbado para casa. No domingo estava com depressão. À noite foi pior. Ao ver Josina abraçando e beijando a boca de um jovem surfista, Bernardo partiu para cima da mulher, puxou-a pelo braço tentando arrastá-la para casa, nesse momento levou um soco do acompanhante. Levaram novamente o ridículo bêbado para dormir. Durante o resto do carnaval ele procurou, mas não conseguiu encontrar Josina. Ela desapareceu de casa com roupas e pertences.

Bernardo soube notícia da mulher dias depois, quando ela já estava em Paris. Na quarta-feira de cinzas assim que o banco abriu, Josina transferiu R$ 420.000,00 da conta conjunta para sua conta particular, viajou para o Recife, de lá tomou um avião para Europa. Não sabe quando volta, o jovem surfista está fazendo companhia em seus passeios parisiense e em sua cama no hotel à beira do Sena. Vingança de mulher nem o cão dá conta!

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ENTRE CHUVAS, RAIOS E TROVOADAS

Quando Gerônimo acertou o pagamento da pousada no Recife, Seu Manoel, o proprietário, pediu-lhe um favor: Levar de carona à Maceió, Lilian, sua jovem sobrinha. Gentil, ele disse ser um prazer, embora gostasse mais de dirigir solitário nas estradas. Partiram pelas três e meia da tarde. A jovem acomodou-se a seu lado no banco da frente, não o cumprimentou. Tinha um “walkman” grudado ao corpo e os fones no ouvido. Constantemente ouvindo música durante a viagem numa pose de quem estava fazendo um favor ter sua companhia. Gerônimo sentiu um desconforto com o comportamento pedante da jovem. Lilian era graciosa como qualquer moça. Corpo bem formado, sua pele rosada contrastava sob a blusa de malha branca, desenhada com motivos modernos, cobrindo seios abundantes. Seu rosto suave, cabelos castanhos, uma bela jovem, pena ser tão soberba, pensou Gerônimo, enquanto analisava a sua companhia acidental.

A viagem transcorreu monótona, sem diálogo, a moça só ouvia música e gesticulava como se estivesse dançando. Esgotado o repertório do “walkman”, Lilian retirou os fones do ouvido e sem pedir licença, ligou o rádio do carro, procurou um som jovem, ficou a ouvir calada. Gerônimo ainda tentou conversar alguma coisa, desistiu diante do mutismo da moça. Com duas horas de viagem bateu uma chuva grossa persistente. Gerônimo parou num posto de combustível para abastecer e lanchar. Depois do lanche, pela primeira vez Lilian falou.

– “Deixe, que a minha conta eu pago. Faço questão de não lhe dar despesas.”

Gerônimo respondeu brincando.

– “Na próxima você paga”.

Depois de dirigir mais 15 minutos ainda sob um intenso temporal, encontrou uma fila de carros parados. Gerônimo perguntou a um guarda rodoviário o que havia acontecido, ele respondeu que o aterro da cabeça de uma pequena ponte estava com problemas devido à enxurrada, o D.E.R. proibiu a passagem pela ponte. Estava perigoso enfrentar um desvio até Maceió àquela hora, escurecia. Aconselhou a dormir em Palmares e continuar a viagem no outro dia pela manhã, quando a ponte estivesse liberada. Gerônimo perguntou a opinião de Lilian. Ela fez um gesto com os ombros, como se dissesse tanto faz. Ele precavido voltou até o posto. Recomendaram um hotel na cidade.

Acertou na portaria, pediu dois quartos. A chuva não parava, marcou com Lilian para jantarem no próprio hotel às 19:30 h. Quando Gerônimo desceu na hora combinada, Lilian já havia jantado, subia as escadas para seu quarto, sem sequer dar um boa-noite. Ele não entendia aquela grossura. Jantou, recolheu-se cedo. Deitou-se de pijaminha bermuda esperando o sono. Relâmpagos cortavam o ar e trovões ribombavam incessantemente, custou a dormir. Ainda não era meia-noite quando foi despertado por fortes batidas na porta de seu quarto, a voz aflita de Lilian pedia, desesperada: “Por favor, abra aqui. Abra a porta!” Gerônimo deixou a cama num salto. Abriu a porta, Lilian entrou correndo, enrolada no cobertor, deitando-se na cama, confessou com voz trêmula morrer de medo de trovão. Gerônimo surpreso e fascinado pelo encanto da moça, agora humilde, buscou confortá-la, mandou que ela dormisse à vontade; ele dormiria na outra cama. Foi surpresa e emoção para o sessentão, quando ela puxou-o pelo braço pedindo: “Vem para perto de mim cara!”

Ela levantou o lençol, estava nua. Ao mesmo tempo em que o abraçou. Lilian, tremendo, levantou o rosto beijando voluptuosamente seu “motorista” na boca.

A noite longa transcorreu com muita chuva, muitos trovões e muitos ais. A louca ninfeta sabia tudo do amor, perfeita nos carinhos e na hora certa.

Dia seguinte, quando Gerônimo acordou, Lilian não estava na cama. Olhou para o céu pela janela, o tempo havia melhorado, mas continuava chuvoso. Tomou banho, arrumou a mala e desceu. Quando saiu do café, Lilian estava pronta sentada numa poltrona com a mala, esperando a partida.

Entraram no carro, a jovem tomou a mesma posição, calada como se nada tivesse acontecido. Não cumprimentou o companheiro de amor da noite de raios e trovões. Durante a viagem o fone não saiu do ouvido. Nem sequer disse um “obrigado” quando ele a deixou num edifício no bairro da Pajuçara.

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40 ANOS DE ESPERA

Leopoldo encontrou Silvinha no Aeroporto do Galeão, cumprimentou-a com alegria. Sentiu uma pontada no coração ao ver sua ex-namorada de juventude, bonita e conservada. Os dois viajavam para Maceió.

Ao entrar no avião ela tomou uma poltrona na frente, no meio, enquanto Léo ficou na traseira. Ao decolar, Leopoldo notou, a poltrona ao lado de Silvinha estava vaga. Certo momento ele se achegou com um livro na mão.

– Ôi! Posso sentar-me?

– Quanta honra para mim – Disse a amiga sorrindo.

– Menina, você está linda. Difícil uma mulher ficar assim em sua idade.

– Querido Léo, sempre gentil. Conservar o corpo e a cabeça é uma obrigação de nossa geração. Exige sacrifício, dieta, caminhada, yoga. A plástica ajuda. Você também parece estar em forma para um boêmio que sempre foi e é ainda. Acompanho sua vida ao longe.

– Estou no terceiro casamento, sempre procurando pelo amor, sou um romântico. E você continua casada com aquele médico carioca? Tem netos? Eu tenho dois.

– Tenho três netos. O médico carioca me deixou por uma jovem. Que livro é esse?

– “O Amor no Tempo do Cólera”. Já leu?

– Ótimo livro! Achei lindo o cara esperar 50 anos por seu amor, até que um dia conseguiu. Diferente de você, meu amigo que teve tantos amores na vida. Ainda continua mulherengo?

– Silvinha, na verdade, nunca lhe esqueci. Nós namoramos dois anos, lembra? Éramos apaixonados. Um namoro bonito, eu não conseguia olhar para outra moça, só havia você. O tempo e a distância foram cruéis, nos afastaram. Eu parti para estudar agronomia em Minas. No primeiro ano nós suportamos a distância com belas cartas e as gostosas férias. Depois seu pai foi trabalhar no Amazonas. Aí danou-se, a distância fez você me esquecer e namorar o carioca.

– De fato. Eu chorava como uma adolescente apaixonada, não queria ir para Manaus, mas fui obrigada. Era uma menina de 17 anos, naquela época não tinha força. Jurei nunca mais me apaixonar para não sofrer. Só pensava em você, coisa de adolescente.

– Passei umas férias frustradas em Maceió. No carnaval caia na folia para lhe esquecer. Talvez minha fama de mulherengo, namorador tenha sido a frustração de ter lhe perdido. Quando você foi para o Amazonas a tristeza bateu em minha porta. Quer saber? No fundo ainda resta alguma coisa daquele amor juvenil num cantinho do peito.

– Ai que lindo! Assim não vale. Não mexa com meus sentimentos. Hoje você está com o cão atazanando. Fique quieto menino. Você é um homem casado.

– Menina, sempre fui louco e tarado por você. Vou lhe confessar: Quando você tinha 14 anos já era moça feita e ia lá para casa brincar com minhas irmãs, ainda não namorávamos. Eu inventava de brincar de professor, deixava cair o lápis e ficava olhando por baixo da mesa suas maravilhosas pernas, você sempre de calcinha branca.

– Meu Deus!!! Começamos a namorar nos meus 15 anos. Naquele tempo namorado não transava, mas você era adiantado nos agarrados e quando entrávamos no mar da praia da Avenida eu ficava louca. Nosso namoro era considerado escandaloso para época. Menino sem juízo!

– Você era minha paixão. Quantas vezes eu me possui em sua intenção!

– Eu também, em muitas noites insones pensava em seus carinhos.

– Quando você voltou do Amazonas noiva de um médico do Rio de Janeiro, deu-me uma tremenda dor de corno, com todo o ciúme do mundo. Nesse dia fui à zona de Jaraguá e tomei o maior porre.

– Engraçado, no dia de meu casamento eu estava feliz, confesso, mas fiquei lhe procurando entre os convidados, não lhe vi. Todas as viagens que fiz a Maceió eu tinha uma vontade louca de lhe ver. Passei minha vida no Rio, gosto de lá, meus filhos também. Criei raízes. Embora eu tenha me machucado com o ex-marido, continuo minha vida em Ipanema. Venho a Maceió para passear e rever amigos.

– Que tal me rever?

– Ei! Estamos chegando, olhe que mar lindo de minha terra!

– Não fuja da conversa. Quero lhe ver amanhã. Vamos almoçar juntos?

– Almoçar? Toda Maceió vai saber! Você está louco?

– Num local discreto. Conheço uma suíte linda em Jacarecica.

– Você sempre objetivo. Menino impossível. Que tal me pegar às três da tarde defronte o coreto da Avenida. Está bom?

– Está ótimo!

O avião aterrissou, Leopoldo segurou a mão de Silvinha e cochichou em seu ouvido.

– Vá de calcinha branca, por favor. São mais de 40 anos de espera!

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O EMPREGO

– Às vezes me dá vontade de trair o Zeferino. Sinto uma dor no peito, raiva, pela moleza de meu marido. Tenho vontade de sair por aí, transar, sou a mulher mais carente e idiota do mundo. Confessava Eugênia à amiga Gabriela.

– Até que entendo sua vontade, mas esse negócio de trair, na maioria das vezes dá o arrependimento, piora a depressão. Faça as coisas que o coração mandar, porém, tenha calma, reflita para depois não se arrepender. Aconselhou Gabriela.

– Você condena essa vontade de eu trair?

– Quem sou eu para julgar? Para condenar alguém. Como amiga posso dar uma opinião, apenas isso. É uma situação passageira, por isso aconselho pensar, o travesseiro noturno ou uma volta na orla contemplando o mar, refletindo, acalma o coração, faz bem a depressão.

– Gabriela, o problema maior é o meu desprezo pelo Zeferino, nunca pensei, ele é um cara fraco, perdedor, desde que foi despedido do emprego há mais de sete meses, vive dentro de casa, esperando um trabalho cair do céu. Todo dia é uma desculpa ou uma mentira de promessa de emprego, culpando o governo. Eu sustento a casa, comida, água, luz, telefone, o colégio do Carlinhos, tudo com o trabalho de cabeleireira no meu salão de beleza. Não tenho descanso nem aos domingos, para sustentar a casa. O Zeferino nem aí, só sai para o botequim, chega na hora do jantar, o português da bodega já não vende fiado. É uma tristeza. Minha única reação é não transar quando ele se achega querendo coisas. Uma noite me pegou a pulso, não sei mais o que fazer. Que ele merece um chifre, merece. Tenho um cliente, coroa alinhado, elegante, faz cabelo e unhas toda semana, olha demais para mim, conversamos muito, eu deixo meu decote bem aberto ele fica contemplando, mas é um homem sério. Da última vez que ele foi ao salão, estava lendo numa revista uma reportagem sobre mulheres e sexo. Eu sorri perguntando se ele gostava da fruta. O coroa deu uma gargalhada, respondeu-me na hora: “gosto e é bom.” Apesar de ele ter chegado aos sessenta anos, tenho certeza, se eu quiser, sai comigo.

– Eugênia veja o que vai fazer. A melhor solução para briga ou desentendimento é o diálogo. Faça uma força, fale francamente, com o Zeferino, diga tudo que pensa, pressione para ele arranjar um emprego, nem que seja de varredor, não é desonra alguma.

Eugênia foi para casa, tirou o fim-de-semana para refletir. Sábado ao entardecer foi contemplar o mar azul-esverdeado da praia de Jatiúca. Pensou bastante nas palavras da amiga Gabriela, psicóloga. Consultou seu coração e à mente, pensou no Zeferino, no Carlinhos e no sessentão cheiroso. Quando retornou em casa teve uma conversa franca com o marido naquela noite.

– Que ares de felicidades são esses? Perguntou- lhe Gabriela, dias depois. Vejo que resolveu seus problemas, gostei dessa transformação jovial, acabou-se a tristeza, a depressão, voltou sua alegria.

– Minha amiga, tudo começou com o contemplar do belo verde mar, me senti bem, pensei no que meu coração queria. A primeira decisão foi ter uma conversa aberta com o Zeferino, disse que estava a fim de me separar, fui franca, critiquei as grossuras dele comigo, a preguiça de arranjar trabalho. Finalmente acertamos outra chance no casamento, eu ajudaria a procurar-lhe emprego. As coisas foram se arrumando, estamos vivendo melhor, ele agora tem um emprego arranjado por mim, ajuda no sustento da casa e sua autoestima melhorou.

– Ainda bem que você apagou a ideia, a vontade de trair com o coroa elegante. Disse Gabriela sorrindo.

– É o que você pensa. O coroa elegante chama-se Francisco, com ele arranjei um trabalho de almoxarife para o Zeferino. O Doutor é engenheiro, tem uma construtora. Homem generoso e discreto. Aqui para nós, satisfiz minha vontade. Apesar da idade, o coroa ainda é ótimo, suas invencionices na cama me deixam louca.

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DEVIA TER DADO

Afrânio aparentava boa saúde, caminhava diariamente às 17 horas pela orla. Naquela tarde Afrânio, andando, sentiu um mal estar, dor no peito, caiu no chão. Socorreram, colocaram-no em um taxi, avisaram à Paula, sua esposa, levaram o infartado ao Hospital, ao chegar estava morto. Foi uma choradeira entre parentes e amigos, os dois filhos que moram em São Paulo pegariam o primeiro avião. A notícia correu rápida no Facebook, postaram o laço preto, a foto e as notícias fúnebres elogiosas. “Alagoas fica menor. Morre Afrânio Cavalcanti grande empresário, o velório será o Parque das Flores e o enterro às 17 horas de amanhã.” Afrânio era muito querido, gentil, trabalhador, bom pai de família. Teve vários casos, mas nunca se prendeu a alguma de suas aventuras. A esposa minimizava esse defeito para viver bem.

O Parque das Flores logo ficou repleto, as duas amigas Paula e Ritinha abraçadas diante do caixão choravam em desespero aquela tragédia, os amigos consolavam a viúva. Foram 31 anos de casados, eles viviam em harmonia possível. Quando os filhos foram para o Sul estudar e ficaram por lá, o casal ficou mais amigo, precisavam um do outro. Paula chorava aos prantos diante do marido inerte no caixão, sabia que nunca mais teria seu bom humor, seu carinho e as noites gostosas de amor, afinal, Afrânio era sábio de cama.

Deram um calmante à Paula, ela deitou-se nos aposentos do velório. Ritinha acordada aguentou no salão olhando para o defunto, estava chocada, desesperada, arrependida, havia descoberto naquele momento doloroso que amava Afrânio, marido de sua melhor amiga, sua cabeça pensava em perda, lamento e traição, quando apareceu a amiga Miriam convidando-a a um passeio pela alameda iluminada do cemitério. Sentaram-se no banco embaixo de enormes pés de eucaliptos. Foi naquele momento que ela desabafava junto à amiga.

– ”Eu devia ter dado a ele.” Continuou abrindo seu coração para Miriam.

– “Eu e Paula sempre fomos grandes amigas. Depois que me separei do Arnaldo, comecei a sair com o casal, Afrânio cheio de bom humor vivia me arranjando namorado, até que dei algumas escapulidas com alguns. Ano passado na praia de Paripueira em um passeio na piscina natural, eu estava segurando a jangada com o corpo dentro d’água, de repente, senti um corpo junto ao meu por baixo d’água, entrelaçou-me entre as pernas, deu-me uma gostosa excitação, olhei nos olhos de Afrânio e balancei a cabeça negando amavelmente. Aquele momento me agradou confesso, eu adorei. Dias depois me encontrei com Afrânio no Shopping, ele convidou-me para um sorvete. Sentamos, ele perguntou se eu acreditava que um homem podia amar duas mulheres? Porque me amava e era tarado por mim. Já pensou? Eu quase sessentona. Mandei que ele se aquietasse, já não era mais menino, não ligou, continuou a conversa. Fez-me a proposta indecente. Por que não um encontro em vez em quando num motelzinho gostoso? Não precisava Paula saber.

Eu saí do Shopping excitada com a proposta, porém, havia uma amiga no meio do caminho. Afrânio quando podia, dizia-se apaixonado, eu resisti durante esse tempo todo. Hoje eu o vendo morto, inerte, a vida acabada, fiquei num profundo sentimento de perda e de arrependimento. Eu devia ter dado a ele, Miriam”.
Retornaram ao velório, Ritinha procurou Paula, ela estava sozinha no quarto, sentada na cama, deu duas batidas no colchão com a mão, convidando a amiga sentar-se. Abraçaram-se. A viúva puxou conversa.

– “Minha querida amiga, Afrânio gostava muito de você, muito mesmo, eu não sentia ciúme. Ele lhe tinha um carinho especial, eu percebia. Agora que tudo acabou, diga-me, até por curiosidade, continuarei sua amiga seja qual for a resposta. Vocês transavam?”.

Deu-se um momento longo de profundo silêncio.

– “Paula vou lhe contar a verdade, fui-lhe amiga fiel com muito esforço. Afrânio tentou, tentou muitas vezes, insistente. Confesso várias vezes tive vontade, só não dei, para não lhe trair”.

– “E eu pensava que vocês transavam. Você devia ter dado, o bichinho queria tanto.” Disse Paula chorando, beijando a testa da amiga.

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O ENCONTRO NA PISCINA

Eram cinco e pouco da tarde quando Francisco Ubaldo entrou na Academia de Ginástica. No banheiro vestiu a sunga, a touca e os óculos. Mergulhou na piscina iniciando suas primeiras braçadas; ao completar 200 metros segurou na borda, um pequeno descanso. Ao perceber, ao lado, a mulher da última raia, teve uma estranha sensação, a touca e os óculos cobriam parte de seu rosto, porém, o nariz e a boca lhes eram familiares. Continuou nadando, observando a nadadora, até que ela terminou. Ao subir a escada da piscina, a senhora retirou a touca e os óculos. O coração juvenil de Ubaldo bateu mais forte ao reconhecer, Nikoleta, amiga e namorada nos bons tempos da juventude. Imediatamente, num impulso, subiu à beira da piscina. Aproximou-se da amiga. Nikoleta, a grega, logo o reconheceu. Deram um abraço afetuoso e alegre.

– Menina como você está em forma, o tempo foi bondoso com você.

– Meu querido, Ubaldo, sempre gentil. Uma mulher para se conservar aos 70 anos precisa muita força de vontade, natação, musculação, fechar a boca, aqui e ali um bisturi. Você está bem, um galã, como a gente dizia. Um pão. – Deu uma gargalhada.

-Sou um idoso com disposição de trabalhar e cuidar da saúde. E você? Como vai o marido rico de Minas Gerais?

– Agora estou solteira. Uma velha divorciada. Já imaginou?

Naquele momento ouviu-se a voz de uma jovem na entrada da Academia.

-Vovó, vovó, está na minha hora da aula de inglês, vamos embora.

-Sou escrava das netas. Tenho de ir. Vou ficar dois meses aqui na terrinha.

-Quero lhe ver. Precisamos conversar. Lembrar o passado maravilhoso, nossa bela juventude. Vai fazer bem para nós dois. Vamos tomar um café hoje à noite? Espere-me às 8 horas em frente à Feirinha de Artesanato na Pajuçara.

– Tenho medo de suas intenções. Mesmo assim, estarei lhe esperando, às oito.

Em um bar discreto, bem decorado, à meia luz, o garçom encheu as duas taças de vinho, eles brindaram. Nikoleta esguia, elegante num vestido preto, decotado, beleza discreta e sensual de uma setentona bem conservada.

– Estou feliz em vê-la. Tenho todo tempo do mundo essa noite. Conte sua vida.

-Minha vida andou encrencada. Depois de mais 40 anos meu casamento simplesmente desmoronou: O Doutor arranjou uma namorada e numa noite de tensa discussão ele deu duas tapas em minha cara. Imperdoável. Não quero falar sobre isso. E você? Acompanhei sua tragédia, de longe.

-Tragédia mesmo, Nikoleta. Casei-me com Iracema, tivemos dois filhos, Matheus e Thiago. Lindos e fortes. Aos 10 anos foi descoberto um problema no coração de Matheus. Iracema dedicou sua vida a Matheus, que necessitava mais cuidados. Já adolescente Matheus, meu querido filho, morreu em um desastre de carro após uma noitada. Iracema apagou-se para vida. Não cuidava de Thiago, nem de mim, nem da casa. Até hoje ela vive apática. Não teve terapia que desse jeito. O mundo acabou-se para ela; envelheceu, está em cima de uma cama. Thiago casou-se cedo, mora perto, todo dia vai ver a mãe. Também não quero falar sobre tragédia nessa noite inesperada de alegria.

Depois das confissões mútuas, entraram nas recordações de juventude, da Faculdade, dos bailes, dos carnavais. Da loucura dos dois em pleno carnaval, enquanto rolava o frevo na Rua do Comércio com blocos e corso, eles se desgarravam da turma, desciam à praia e tomavam banho de mar, nus, na Avenida da Paz. Lembraram-se dos movimentos políticos. Ubaldo chegou a ser preso distribuindo panfleto. Passou quatro dias no DOPS, ela visitava-o todos os dias. Um amor lindo entre aqueles dois jovens. De repente Ubaldo segurou na mão de Nikoleta, olhou nos seus olhos que faiscavam, beijou-lhe a boca.

– Nikoleta, minha querida grega. O destino, às vezes, é cruel, nos separou, mas nunca lhe esqueci. Você foi e sempre será o grande amor de minha vida. Não somos mais jovens, vamos aproveitar o resto do tempo que nos falta.

Saíram do bar. No motel delicadamente foram se ajudando a se despirem. Deitaram na cama. Beijos ardentes e saudosos. O despertar da libido e do desejo com lábios e mãos carinhosos. Fizeram amor, amor maduro, amor carinho, amor de bocas, dedos e corpo se misturando, os dois num êxtase de mais de 40 anos de saudades.

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GUILHERME BRAGA

Sábado pela manhã esperando o médico para realizar um exame da próstata, encontrei o amigo Jair na mesma situação. Ele olhou-me, e risonho filosofou.

– Antigamente no dia de sábado nos encontrávamos sempre num bar ou birosca para uma cervejinha gelada e uma boa conversa. Hoje perto dos oitenta estamos nos encontrando nos consultórios médicos e laboratórios, mas não há outro jeito de chegar a nossa idade.

Na verdade o que mais dói é irmos ao cemitério despedirmos de amigos de infância e juventude. A semana passada foi dolorosa, morreu Cristina Braga no domingo e oito dias depois seu marido, meu querido, Guilherme Braga. Nossa amizade vem desde os anos 50 na Avenida da Paz, no futebol praieiro, no jogo de botão, ximbra ou o pião. Depois vem a vida e nos separa, cada qual no seu canto e em cada canto uma dor, mas sempre encontrava Guilherme, figura alegre, bem humorada com incríveis histórias.

Amigos de infância não se podem fazê-los, são apenas aqueles poucos. Há alguns anos foi criada a Confraria dos Meninos da Avenida, onde os ex-moradores da Avenida da Paz reúnem-se mensalmente e no final do ano. Guilherme era um dos membros constantes, sua presença, suas histórias, alegravam os Meninos da Avenida. Guilherme fará muita falta ao nosso convívio, à sua cidade, Maceió.

Quando morre um amigo mais chegado, lembro-me do poema de John Donne que diz mais ou menos assim: “Nenhum homem é uma ilha, todo homem é um pedaço de um continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa fica diminuída, a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes: Por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Finalizo essa homenagem ao amigo Guilherme, repassando o texto escrito por seu querido primo, o cineasta Cacá Diegues, lido por seu irmão, Nelsinho, durante a missa.

“Elegia de Cacá Diegues para Guilherme: Guilherme Braga sempre foi minha principal referência de Maceió, durante toda a minha vida. Mesmo morando longe de Alagoas, era ele quem me aproximava da cidade e de seus costumes, me atualizando sobre os acontecimentos gerais e particulares de minha terra e de minha família. Filho da irmã de minha mãe, Guilherme era portanto meu primo-irmão. Mas mais irmão do que primo.

Todo lugar desse mundo tem sempre quem o representa melhor, por motivos distintos e variáveis. No caso de Guilherme Braga, ele era a pessoa mais facilmente identificável com o estado e a cidade. Não apenas por seu amor a ambos, como também pela sua compreensão do que Alagoas e Maceió significavam em sua generosa vida e na vida de todos nós.

Qualquer dúvida, bastava consulta-lo para entendermos porque Fulano, tão cheio de evidentes pecados ou longe do retrato-falado do cargo, tinha se tornado Senador, Deputado, Governador, Prefeito ou seja lá o que for. Assim como para passarmos a achar natural o casamento entre Cicrana e Beltrano, que aparentemente se odiavam tanto, por família, política ou pura antipatia. Guilherme sabia de tudo e nos explicava, em detalhe, cada movimento ocorrido nessa terra misteriosa e surrealista, tão bela quanto inesperada. Tão inexplicável.

Desde que viemos ao mundo, com pouquíssima diferença de idade, nos tornamos parceiros no futebol de praia e na vadiagem da Avenida da Paz. Eu ainda era menino, quando meus pais deixaram Maceió e nos mudamos para o Rio de Janeiro. Mas nem assim deixei de vê-lo a cada ano, sem faltar nenhum. Acho que se isso tivesse acontecido, aí sim eu estaria distante de minha terra, perderia de vez o sentido dela.

Hoje, quase chegando aos oitenta anos de idade, vejo Guilherme partir como quem vê partir um pedaço tão grande da vida. Ele deixa, dentro de mim, um exemplo de afeto inesgotável. Além do humor com que via tudo no mundo e que vai me fazer muita falta. A única compensação é a de que ninguém poderá nos tirar a alegria de sua lembrança.

A memória é a maior formadora do caráter de uma pessoa; a minha estará sempre inspirada nele.

Cacá Diegues, 29 de abril de 2019

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AS DELÍCIAS DA NOSSA JUVENTUDE

Uma das maiores satisfação, alegria da vida, é comer. A arte culinária é peculiar, tem suas características regionais. Nessa cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, Maceió, a gastronomia está entre os melhores prazeres do cidadão. Degustar faz parte de nosso lazer, de nossa cultura. Lembrando que até um bispo, Don Pero Fernandes Sardinha foi devorado, em banquete antropofágico nas areias brancas da praia de Barra de São Miguel, por nossos ancestrais, os índios caetés.

Nossa juventude foi marcada por pratos e doces inesquecíveis. Ainda tenho em minha mente e em meu paladar, alguns pratos feitos em casa por minha mãe, excelente cozinheira, caprichava nos almoços dominicais, caruru, galinha à cabidela, arabaiana ao olho de camarão, sururu de capote, ou feijoada de feijão mulatinho incrementada com charque, toucinho, tripa de porco, linguiça, carne do sol, couve, jerimum, quiabo, maxixe.

Havia pratos, hoje preparados em óleo vegetal, na época cozidos com banha de porco, o sarapatel, o fígado e o bife de panela. Sem esquecer-se do cozido, das macarronadas e peixadas de todo tipo.

Quando íamos ao centro da cidade invariavelmente lanchávamos em sorveterias da moda, Bar e Sorveteria Elegante em frente ao Beco do Moeda, frequentado pelas senhoras consumidoras das lojas da Rua do Comércio e seus filhos. Mesas de ferro com tampo de mármore, sorvetes de frutas regionais e pudins servidos em taças de metal niquelado.

Depois do sorvete, o chocolate caseiro em barras, duas cores, vendido pelo Seu Portela na loja especializada em óculos, vendia mais chocolate que óculos. Era imperdível o sorvete de chocolate crocante na Sorveteria Xangai de Seu Fon, Rua da Alegria.

Ainda sinto o gosto e o cheiro das doces de nossa infância, ficaram para sempre entranhados nas narinas e glândulas paladares.

Acrescento à lista, os ambulantes que passavam na praia da Avenida da Paz. Depois do almoço ficávamos à espera de Seu Primitivo empurrando o carrinho de sorvete. Sempre dois sabores, coco e maracujá, coco e mangaba, coco e cajá, coco e goiaba, ele raspava o sorvete com uma colher enchendo o carlito ( assim era chamada a casquinha).

Ao entardecer, o China aboletava o tabuleiro de quebra-queixo embaixo de alguma amendoeira na Avenida. Ficávamos encantados com a rapidez do corte vertical, um pouco inclinado. O China colocava o doce duro em pedaço de papel colorido e entregava o quebra-queixo, cocada dura queimada com amendoim.

A moçada se deliciava com o algodão doce, rodado na hora numa panela com fogo, esquentava o açúcar fazendo enorme nuvem parecida com algodão. Complementava tomando um raspadinho, gelo raspado dentro de um copo cheio de garapa de coco, maçã ou misto, uma delícia. Ainda passava o carrinho do caldo de cana, caiana!

Defronte ao coreto havia um futebol organizado. Depois do banho-de-mar, os jovens iniciavam papos e paqueras sentados na areia. Invariavelmente aparecia o Gaguinho empurrando o carrinho de sorvete XAXADO, delícia feita de frutas nordestinas. Gaguinho parava na roda oferecendo seu delicioso sorvete com um português peculiar: “Quem vão quererem? Quem vão quererem? Podem pedirem!”

Ele vendia fiado, depois do almoço passava na casa de cada um com a conta do sorvete consumido.

As tardes na Rua do Comércio eram imperdíveis, jovens encostados nos automóveis (limpando carro) curtiam as estudantes que desfilavam, flertando, marcando encontro nas Sorveterias DK-1 ou Gut-Gut, saborosos sorvetes de frutas de todas as qualidades, ponto de encontro da moçada bonita.

Quando o Comércio fechava às 18 horas, nossa turma descia rumo à Avenida da Paz com uma parada obrigatória na esquina do trilho de ferro, ao lado do Arcebispado, para saborear um suco maracujá com pão doce. Nunca ninguém no mundo até hoje conseguiu fazer um suco igual àquele, o sumo da divindade. Os deuses da gula, em vez de água, devem beber aquele suco puro de maracujá.

É preciso um estudo mais profundo sobre comidas, salgados e doces dos anos dourados; fazem parte de nossa história. A gastronomia é significativa à cultura do nordestino.

A modernidade acabou com os doces de nossa infância. Hoje, proliferam no mundo as lanchonetes dos Shoppings, sanduíches com gosto de sola de sapato, sofisticadas fábricas de obesidade inventadas pelos americanos.

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A MORENA DO REBOQUE

Pedrão nasceu na cidade de Maragogi. Criou-se correndo pelas praias, trepando em coqueiros e mergulhando no mar azul esverdeado. Um dia, seu pai resolveu morar na capital onde os filhos teriam melhores oportunidades de estudo. No início foi um drama morar na casa apertada no bairro do Jacintinho, onde Seu Manoel, o pai, montou uma barraca de frutas e com ela conseguiu com muita dificuldade educar os filhos.

Pedrão compreendia o sacrifício do pai, foi bom estudante, ao terminar a Faculdade de Engenharia tinha 20 anos. Com 1:86 metros de altura meteu-se no esporte, jogava voleibol pela Fênix, o clube mais sofisticado e rico do estado. Na Fênix conheceu Cecília, paixão repentina que tornou-se mais forte com a proibição do namoro pela família da moça, descobriram que Pedrão era filho de um barraqueiro no Jacintinho.

Cecília engravidou, não houve jeito, a família além de rica era religiosa e preconceituosa. Casaram-se com separação de bens. Pedrão teve que assinar muitos papéis para entrar na família açucareira.

Deram-lhe um emprego na construtora do grupo. Assim nosso amigo viveu por mais de 25 anos. Ganhava bem, trabalhava mais ainda, sempre teve excelente produtividade como engenheiro. Nunca a família sequer cogitou em colocá-lo como sócio. A sogra e alguns cunhados o esnobavam por sua origem humilde. No início do casamento ainda desabafava com a mulher, mas quando Cecília tornou-se uma mulher madura, acabou sua doçura, só pensava em dinheiro e acumular imóveis. Durante esse período ele teve algumas brigas, duas vezes saiu de casa. As brigas eram sempre por dinheiro e posses. Cecília passava na cara a diferença das origens.

Os dois filhos cresceram, a mais velha, bióloga, vive no Canadá estudando e dando para todo mundo, uma vida libertina para o desgosto dos pais. Mesmo assim Aninha é apegada a Pedrão, nunca negou apoio à filha.

No verão do ano passado, depois de uma discussão com Cecília, Pedrão pegou seu belo carro, foi rodar sem rumo pelo litoral como gostava de fazer para espairecer. De repente estava chegando à Maragogi. Eram duas da tarde, hora de comer uma lagosta na manteiga no restaurante do Mano em São Bento. Ao encostar o carro, se distraiu e bateu na traseira de um reboque que desmoronou, espatifando-se no chão, rolando coco para todo lado. No mesmo instante ele viu alguém sair do carro velho atrelado ao reboque. Tomou um susto quando surgiu uma bela morena, parecendo entre 30 a 40 anos. Saiu do carro, dirigindo-se a ele, às gargalhadas:

“- Moço olhe o que você fez com meu reboque e meus coquinhos…”

Pedrão se prontificou. Pagava tudo, não queria briga, principalmente com ela que foi tão afável. Ele pensava que ia surgir alguém do carro com um revólver, ou um cacete para brigar, apareceu aquela mulher bem humorada, parecendo estar de bem com a vida, levando até na brincadeira aquele acidente em que perdeu seu reboque. Depois de calcular os prejuízos, Pedrão assinou o cheque na hora. E foi comer sua lagosta. Ao pedir a primeira cerveja, notou que a morena do reboque sentou-se numa mesa com uma amiga. Momentos depois Pedrão foi conversar com as duas. Divertiu-se, deu gargalhadas como nunca mais tinha acontecido. A alegre morena, Laura era viúva, sem filho. Seu marido havia deixado um sítio de coqueiros, de onde tirava o sustento.

Passaram a tarde conversando, por conta da bebida e empatia entre os dois, rolou uma paquera. À noite, meio bêbados se hospedaram no Hotel Salinas, onde fizeram amor até adormecer.

Pedrão hoje vive com Laurinha, a paixão de sua vida. Largou a mulher, o bom emprego, vive no sítio em Maragogi ajudando seu amor na administração. Acorda com os galos cantando e com os carinhos de sua amada. Pela manhã lê algum livro, entra na internet, assiste o noticiário na TV. Mais tarde caminha na praia, toma banho de mar, come uma moqueca preparada pela mulher amada. À noite vai conversar e escutar histórias com os moradores e pescadores do povoado, tomando talagadas de cachaça até deitar-se nos braços da doce amada.

Descobriu a felicidade. Ele que tanto trabalhou, tentou se realizar com dinheiro, foi escravo do poder e da riqueza, mudou de vida, basta-lhe tão pouco para ser feliz. Apenas um sítio de coqueiros, uma praia de areia branca, um mar que não tem tamanho, o dia para vadiar, e o amor da morena do reboque.

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O VOO DO SEU PORTELA

O fato aconteceu na praia da Avenida da Paz. Apareceu em Maceió um português fazendo demonstrações aéreas com um avião teco-teco. Seu proprietário fazia apresentações em todas as cidades que passava, vivia desse biscate.

O avião de nome Garoto decolava e pousava na praia da Avenida durante a maré baixa, perto do Sobral, local mais deserto. Suas apresentações eram piruetas, parafusos, folhas secas e outras acrobacias.

Como não podia cobrar dos expectadores que ficavam na praia observando, ele cobrava de quem se arriscava a dar uma voada com ele durante suas peripécias aéreas. Um de cada vez porque só havia um lugar além do piloto. Cada voo de cinco minutos, o português cobrava cinco mil réis.

Numa tarde bonita e ensolarada de verão, o português fazia magníficas exibições nos céus da praia da Avenida. O povo assistindo o espetáculo vibrava com o arrojo do piloto, uma maravilha de exibição.

Entre os candidatos ao voo surgiu Seu Portela, figura altamente conhecida na cidade, onde tinha uma loja no centro, na Rua do Comércio.

Eram aproximadamente quatro da tarde quando chegou sua vez. O português colocou Seu Portela na poltrona, prendeu-o com o cinto de segurança, deu-lhe todas as recomendações e assumiu o comando do Garoto.

Taxiou pela beira da praia de areia dura e extensa, tomou velocidade e decolou em direção ao mar. Rapidamente atingiu a altitude necessária e iniciou as acrobacias aéreas.

Não demorou muito. Após um arrojado “looping”, deu sinal que estava retornando à praia. Os inúmeros expectadores acharam estranho. Por que em tão pouco tempo o Garoto retornava ao solo? Seria alguma complicação mecânica? Alguma pane? O teco-teco estava a perigo? Eram as perguntas que faziam entre eles. Formou-se maior expectativa.

O avião pousou abruptamente e de repente o piloto desembarcou, deixando seu Portela na aeronave.

O lusitano gritava em direção ao povaréu apreensivo que estava plantado na Avenida, perguntava se alguém dispunha de uma capa para emprestar-lhe, pois havia uma situação de emergência.

Quem teria, numa tarde maceioense ensolarada de verão, na beira da praia, uma capa para emprestar a quem quer que seja?

Com a resposta negativa, o português buscou uma alternativa e conseguiu com um pescador que morava em uma casa de taipa e palha ali próxima, um pedaço de pano, ou melhor, uma rota vela de jangada.

Com o trapo na mão o piloto retornou correndo à aeronave, ajudou o seu Portela a desembarcar e envolveu-o com o velho molambo, levando-o para um local onde conseguiu meios para que o levassem rapidamente para sua residência. Nessa altura a moçada perguntava o que teria ocorrido.

Acontece que por onde seu Portela passou, entre o avião até a Avenida, deixou um rastro líquido e escuro na areia branca da praia, juntamente com uma catinga, com o fedor de merda, insuportável para quem estava mais próximo.

Sem esconder, o nobre piloto português contou a história: Assim que levantaram voo, o seu Portela num grito pediu para descer. Como o piloto já estava preparado para o “looping”, não atendeu aos pedidos e deu aquelas voltas com o teco-teco se curvando no ar, enquanto o acompanhante gritava de medo. Só depois de o português ouvir seu Portela gritar que estava todo cagado, ele resolveu aterrizar.

Foi uma gargalhada geral, os comentários e as galhofas espalharam-se entre as pessoas presentes que estavam assistindo ao espetáculo e assim foi se espalhando na Rua do Comércio, em Jaraguá, no Farol, na Ponta Grossa. À noite Maceió todo já sabia da cagada do seu Portela no avião.

Por vários dias que se seguiram o comentário era o mesmo, nas escolas, nos bares, nos lares, na zona, nas barbearias, o assunto era a aventura de seu Portela no voo do Garoto.

Os estudantes assumiram a chacota, passavam em frente da lojinha de seu Portela na Rua do Comércio, se divertiam cantando uma modinha que um jovem compôs em alusão a desventura aérea do comerciante. Aliás, muito tocada no carnaval daquele ano:

“Marchinha do seu Portela”
Eu fui alegre
Passear de avião
Para mostrar
Que sou cabra valentão
Mas vejam só,
Que eu não posso andar voando
He He…………
Estou me cagando, estou me cagando.
Portela não seja frouxo,
Não coma mais sururu
Quando subir no Garoto
Arroche as pregas do……..”bolso”.

Seu Portela tinha bom humor e levou também na gozação. Se importasse com o acontecido, até hoje, em seu túmulo o povo estaria gozando o seu inesquecível e histórico voo nos céus da Avenida da Paz.

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