CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

COCO VERDE

Ao completar 50 anos, Laurinha, bela mineira de Juiz de Fora, engenheira ambiental, sensível, preocupada com o bem estar comum, ganhou do ex marido uma viagem ao Nordeste, iniciando em Maceió. Desceu no Aeroporto Zumbi dos Palmares, pegou um táxi direto ao Hotel Atlantic na praia da Jatiúca. Ao descortinar a janela do apartamento encantou-se com o mar azul turquesa esverdeado, a praia de areia branca e os coqueiros enfileirados feito sentinelas vigilantes. Sentiu uma sensação de bem estar, de amor, de paixão pelo belo cenário em seu redor. Foi amor à primeira vista.

Eram quatro horas da tarde, ela vestiu um biquíni que pouco encobria o corpo firme e conservado de uma mulher madura. Desceu à praia e caminhou descalça na areia fina por mais de meia hora, como se estivesse tomando posse do lugar. Estava fascinada com tanta beleza. –“Esta é minha praia”, disse para si mesma. Retornou caminhando à beira mar, sentindo no corpo o respingo das marolas molhando seus pés. No calçadão tomou água de coco, sentou-se num banco, absorta, embevecida com o Sol se pondo lá para o fim do mundo. O entardecer alaranjado deu-lhe um sentimento de paz e tranquilidade.

No Hotel conheceu um grupo de turistas, coroas; convidaram Laurinha para uma volta noturna na cidade. Foi uma noitada agradável na casa de dança Burguenvíllia. Conheceu um advogado alagoano, moreno, sessentão, contumaz frequentador daquela casa onde se divertem os solteiros mais descolados da cidade. Tenorinho é uma figura polêmica, cheio de conversas fantasiosas, encanta e diverte qualquer roda. Uma vida pessoal com muitos atropelos, três casamentos desfeitos. Tenório se gaba com amigos de ser o maior caçador de turista nas noitadas maceioenses. Laurinha caiu em suas garras, acordou-se em seus braços num pequeno apartamento na praia da Ponta Verde.

Foram três semanas e meia de amor. Laurinha deixou para conhecer o Nordeste em outra viagem. Tenório ficou deslumbrado com as mãos mágicas da parceira, além de engenheira, ela é excelente massoterapeuta. Nas horas vagas de amor, eles fizeram turismo nas praias do Litoral Norte, Litoral Sul. Laurinha, católica praticante, encantou-se com as igrejas, o Museu de Arte Sacra da bela cidade barroca e histórica de Marechal Deodoro. As férias acabaram. A mineira retornou à sua terra, muitas lembranças e saudades daqueles dias nos braços de Tenorinho. Em Juiz de Fora contou às amigas suas aventuras e os passeios maravilhosos com um alagoano bem humorado, baixinho, de seu tamanho.

Três meses depois aconteceu um feriadão. Laurinha não teve dúvida, comprou passagem, instalou-se novamente no Hotel Atlantic. Ela retornou com todo charme da mulher mineira, pensando em curtir as praias, os belos coqueiros, tomar água de coco, olhar para o azul do mar. Assim que pôde fez a surpresa: telefonou para Tenorinho. Acontece que o pilantra, surpreendido, deu uma desculpa esfarrapada. Ele estava dando assistência a uma turista norueguesa. Laurinha não se comoveu, percebeu que sua paixão não era o homem, sua paixão era aquela cidade tropical, a suave brisa, e a beleza inimaginável da cor do mar. Na manhã seguinte caminhou na praia, mergulhou no azul piscina, satisfeita da vida porque estava em sua terra adotada e adorada. Sabia o caminho da noitada partiu para o Burguenvíllia, não ficou solteira durante o feriadão. Esqueceu Tenório desde que desligou o telefone.

Agora, tornou-se rotina, todas as férias e feriadões, Laurinha viaja à Maceió. Fez vários amigos na cidade, frequentadora do Orákulo, do Caldinho do Vieira, sem esquecer o Burguenvíllia. Outros namorados aconteceram. Reviu o Tenorinho algumas vezes, ele convidou, insistiu em levá-la a passeios, ela negou apenas com um gesto, balançando a cabeça.

Dezembro passado Laurinha entrou em férias, alugou um apartamento mobiliado na praia da Jatiúca. Brindou o Réveillon na praia. Juntou-se aos amigos, muitos fogos, dançou ao ar livre, divertiu-se curtindo até o amanhecer do novo ano. Acordou-se depois do meio-dia, foi à varanda do apartamento, bocejou, estirou-se com preguiça no corpo, deu vontade de tomar uma água de coco. Desceu à praia, pediu ao rapaz abrir um coco. Ele cortou com uma rapidez fantástica. Laurinha ficou impressionada com a perícia e o corpo musculoso, espadaúdo e brilhante do guapo moreno. Puxou conversa; amou a alegria, a simplicidade do jovem Cícero, o vendedor de coco. Ela tomou água de coco por mais três vezes. Dia seguinte, ao entardecer, pediu ao Cícero para levar cinco cocos verdes em seu apartamento. Ao chegar, o jovem colocou os cocos descascados na cozinha. Ela o convidou para sentar, ele sentou-se. Ela ofereceu-se para fazer-lhe uma massagem, transaram. Durante o resto das férias, o jovem Cícero, todos os dias, alegre, levou coco para sua amiga mineira. Às vezes dormiu relaxado com a massagem. Laurinha cada vez mais ama Maceió, curtindo a vida e sedenta de água de coco.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A MANICURE

– Depois de velho você ficou relaxado, coisa feia! Não corta o cabelo, unhas grandes, vou contratar manicure. Se eu morrer você vai virar lobisomem. – Vivia reclamando Dona Sílvia aos ouvidos de Fonseca.

Certo sábado, pela manhã, apresentou-se no apartamento uma morena sorridente, Aparecida, manicure. Dona Sílvia tirou o marido da leitura dos jornais na varanda, hora de fazer as unhas. Ele levantou-se, mais para livrar-se da insistente mulher. Sentou-se na poltrona, cumprimentou a manicure, acionou o controle remoto da televisão. Colocou os pés numa bacia de água quente para amolecer as unhas. Dona Sílvia deixou o marido entregue à manicure, foi às compras, sábado é dia de Shopping, encontro de amigas, só retornaria na hora do almoço.

Durante o cortar das unhas, Aparecida alisou a mão de Fonseca de uma forma suave, ele sentiu uma sensação gostosa, carícia no toque de mãos. Olhou para manicure e ficou inquieto ao perceber o generoso decote, seios duros, empinados. Há tempos não se excitava só em olhar uma mulher. Puxou conversa.

– Você é a boa manicure, sabe cortar com suavidade, onde aprendeu essa delicadeza?

– Eu precisava de uma profissão, ganhar dinheiro para me sustentar, tenho uma filha. Uma amiga me ensinou e fiz um curso no SENAC, hoje tenho bons fregueses, não paro de cortar unhas, os clientes gostam. Ser manicure foi muito bom para mim. O que ganho está dando para sobreviver.

– E seu marido, pai de sua filha, não lhe ajuda?

– Tenho marido não. Namorei um vizinho, ele me engravidou, eu era ainda menina, tinha 15 anos. O desgraçado danou-se para o Rio de Janeiro, sonhava ser cantor de rádio e televisão. Há mais de cinco anos não tenho notícias do vagabundo, me disseram que é traficante no morro. Eu moro com minha mãe.

Conversaram bastante. Aparecida contou sua vida, semelhante às jovens da periferia do Nordeste. Ao terminar, ele olhou os pés, as mãos, admirou as unhas simetricamente cortadas, perfeitas. Perguntou o preço do serviço, pagou R$ 35,00, cinco a mais do valor pedido. Aparecida agradeceu, guardou o material. Fonseca ficou encantado com o rebolar do corpo moreno dentro do vestido branco, quase transparente. Ela despediu-se perguntando quando retornava.

– Venha no próximo sábado. – Fonseca disse com entusiasmo.

Na hora do almoço Dona Sílvia inspecionou as mãos, os pés, do marido, aprovou, perguntou se havia gostado da manicure, Fonseca fez-se indiferente, entretanto, a jovem não saía da cabeça.

Fonseca alimentou-se de fantasia, sonhava com a morena acariciando seus pés. Ficava feliz desde sexta-feira. Em conversas enquanto cortava unhas, tornaram-se amigos, íntimos, certa vez ela confessou ter sido garota de programa, não gostou. Numa manhã de sábado, ao pagar a manicure, Fonseca encorajou-se, alisou o pescoço da jovem e deu-lhe um beijo na testa. Ela reclamou baixinho, com ar de cumplicidade: “Não Seu Fonseca, não…” Ele a trouxe num abraço apertado, beijou-lhe a boca. Deitaram-se no tapete comprado na Capadócia, fizeram amor pela primeira vez.

Dona Sílvia ao chegar notou a cara de felicidade do marido tomando uma cervejinha, cantando na varanda, achando o mar e a vida bonita. Convidou a esposa para almoçar fora, variar de comida, de tempero, foram à Barraca Pedra Virada na orla da Ponta Verde, encontraram amigos, passaram uma tarde maravilhosa conversando, uísque de combustível. Ao chegar em casa amaram-se como nunca mais tinham amado. Dona Sílvia, antes de adormecer, conseguiu perguntar: – O que houve com você, hoje?

No sábado seguinte Fonseca conversou sério com a manicure, não ficava bem fazer amor dentro de sua casa, era falta de respeito. Marcou, estabeleceu com Aparecida. Uma vez por semana, eles se encontram para uma deliciosa tarde de amor num motel. Dentro do apartamento nunca mais aconteceu. Afinal Fonseca é um cidadão de respeito.

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JOCÃO

Em Maceió havia mentiroso, aliás, o maior mentiroso do mundo, Jocão. Era assíduo frequentador do Café Colombo na Rua do Comércio, ponto de convergência de intelectuais, políticos, artistas, boêmios e outros desocupados. Jocão ao entrar se achegava às melhores rodas. Todos gostavam de suas divertidas histórias. Escolhia uma mesa onde não houvesse possibilidades de pagar a conta, arrastava uma cadeira, sentava, entrava na conversa. Logo perguntavam pelas novidades. Era a senha, Jocão, com sua fértil imaginação, primoroso contador de histórias, iniciava uma fantástica trama inventada na hora.

Certa tarde ele contou como se tornou o maior criador de codorna do Brasil. De sua fazenda no Carrapato exportava codorna e ovo para todo mundo. Tudo começou numa visita a Pedrinho, coletor estadual de Fernão Velho. Na despedida, Pedrinho embrulhou alguns ovos de codorna num papel de jornal para Jocão cozinhá-los em casa. Ele colocou o embrulho no bolso do paletó.

Já havia passado mais de um mês quando Jocão ouviu piados no quarto. Investigou de onde vinham aqueles pios parecidos com os de pombos. Ao abrir o guarda-roupa desvendou-se o mistério: no bolso do paletó estavam oito bugrelos de codorna nascidos dos ovos, presente de Pedrinho esquecidos no paletó.

Ele retirou os bugrelos, deu de comer pirão de farinha de mandioca. Os bichinhos foram crescendo. Reproduziram-se com rapidez, ele teve de colocá-los em sua fazenda no Carrapato. Já era considerado o maior produtor de codorna do país, talvez do mundo. Tudo por mera sorte.

Depois de contar a mentira, sentia-se à vontade entre os amigos, pedia mais cerveja e tira-gosto. Pagava a conta com suas fantasiosas histórias.

No tempo da II Guerra Mundial, muitas vezes Maceió entrou em “black-out”. Todas as casas, todas as ruas apagavam as luzes. Carros e ônibus não circulavam. A cidade totalmente às escuras se precavendo de um ataque aéreo ou de submarinos alemães. Havia uma rigorosa fiscalização pela defesa civil procurando alguma falha, alguma luminosidade para corrigir.

No final da tarde posterior a um desses rigorosos “black-out” Jocão apareceu nas escadarias da Associação Comercial, onde se juntavam os grandes comerciantes e homens do mundo dos negócios.

Assim que viram Jocão foram perguntando pela novidade. Ele não se fez de rogado e iniciou sua história.

“- Eu quase não dormi nessa noite de black-out, os aviões da fiscalização sobrevoaram o tempo todo minha casa. Parecia que havia alguma coisa errada. Um avião passou tão baixo que meu vizinho acendeu o cigarro no fogo do motor do avião. Ouvi no rádio que havia um foco intenso de luz na rua onde moro, pedia à população procurar a luminosidade senão os submarinos bombardeavam Maceió. De repente minha casa foi invadida por soldados do 20º BC. Tinham identificado o “holofote” na janela de minha casa. Tudo foi esclarecido, a forte luminosidade era o anel de brilhante de minha esposa que refletia a luz da Lua. A luz foi identificada por um oficial em posição na cabeça do cais do porto, depois que os aviões deram o alarme. Cheguei a ser preso. Só sai do quartel hoje pela manhã.”.

Jocão se aborrecia quando o chamavam de mentiroso. Certa vez no Café Colombo pediram para contar uma mentira. Ele ficou triste, calado e muito sentido. Logo esclareceu, sua mulher havia falecido. Estava por ali para espairecer um pouco e ver se arranjava algum dinheiro, ajuda para o enterro.

Os boêmios solidários fizeram uma arrecadação, deram a quantia para Jocão, que além de embolsar o dinheiro, pegou algumas garrafas de cerveja, um taco de presunto, deixou na conta dos amigos e foi chorar a defunta.

Um bêbado e um garçom foram designados para comparecerem ao enterro da mulher do Jocão no dia seguinte às 10 horas, representando os frequentadores do Café Colombo.

Ao chegarem perto da casa de Jocão na Rua Santa Maria (hoje Guedes Gondim) estranharam a falta de movimento e não ter cortinas negras nas janelas, como era costume nos enterros saídos das casas do morto.

De repente Jocão abriu a porta. Os representantes do Café Colombo perguntaram a hora do enterro. Para espanto dos visitantes, nosso herói gritou para dentro de casa: “Bastinha, venha ver quem veio para seu enterro”.

Complementou para os dois companheiros: “Vocês não pediram para eu contar uma mentira?”.

Sua mulher apareceu dando uma bela gargalhada. Convidou os amigos para uma irrecusável rodada de cerveja com tira-gosto de charque. A alegre “defunta” se divertia com as invencionices de seu marido, Jocão, o maior mentiroso do mundo, nasceu e viveu na cidade de Maceió. Até hoje contam suas fanfarrices e mentiras bem humoradas.

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QUEM É ESSA MULHER?

Quem é essa mulher que me acorda às seis horas da manhã e me beija com a boca de hortelã? Diz que é para me cuidar e me leva para nadar. Quem é essa mulher que todo dia ela faz tudo sempre igual? Depois do café da manhã sai com suas pastas embaixo do braço direto ao escritório e divide com o genro e a filha o trabalho de clientes em busca de seus direitos. Quem é essa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia? Quem é essa advogada que passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudou e passou no concurso de Promotor de Justiça? Quem é essa promotora que deixava sua casa, seu marido e filhos durante a semana para assegurar a Justiça no interior do Estado? Quem é essa mulher que poderia estar desfrutando de uma aposentadoria merecida, porém, reabriu o escritório e trabalha todos os dias? Quem é essa mulher atarefada que arranja tempo para dedicar-se aos filhos crescidos, a levar os netos às aulas de inglês, de tênis, de natação? Quem é essa mulher síndica do prédio onde mora, administra com dedicação como fosse sua casa? Quem é essa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora? Quem é essa mulher que percebeu dois pequenos coqueiros morrendo na praia, comprou dois pés de coqueiros, ela mesma reimplantou e os coqueiros cresceram viçosos sob sua vigilância? Quem é essa mulher que quando enxerga um lixo acumulado no meio da rua, telefona à Prefeitura para que venham limpar sua cidade. Quem é essa mulher que quando percebe o esgotamento sanitário vazando com a água em dejetos aciona a Casal para que possa consertar o bueiro fétido? Quem é essa mulher que cuidou do pai moribundo com amor e carinho, trouxe-o para sua casa, fez o que pode e o que não pode até o final de seus dias? Quem é essa mulher que leva comida a um cão abandonado no quintal de uma casa e nos dias de sábado dá banho e conforto ao pobre animal? Quem é essa mulher forte que não se deixa pisar? Quem é essa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular? Quem é essa sertaneja de Major Isidoro que ama o linguajar matuto de seu povo, das danças, dos coloridos folguedos e folclores? Quem é essa mulher animada que faz o passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval? Quem é essa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Paraty, Lisboa, ou a amada Penedo? Quem é essa mulher brasileira, cidadã da pátria amada, idolatrada, salve, salve? Quem é essa mulher que nunca deixou de ser professora, ensina aos netos, dá palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora? Quem é essa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes? Quem é essa mulher que paga a faculdade das filhas da secretária? Quem é essa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância, conserva o carinho de suas amigas em encontros e almoços, aproveitando a fase madura da vida.

Quem é essa mulher que desde menina, gostou dos livros, dos estudos, que teve uma juventude feliz em sua Maceió e até New Jersey? Quem é essa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu tenente, cantei pra ela em premonição: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”. Poucos anos depois entramos na Catedral Metropolitana trocando alianças. Essa mulher hoje completa 70 anos e o tempo não desfez sua beleza, continua tão bonita quanto a adolescente galeguinha bandeirante que encontrei um dia, acampada na praia do Pontal.

Sou um ser privilegiado, a única pessoa no mundo a conhecer profundamente a gentileza, a bondade, a perseverança, a força dessa mulher divina, que toda noite me jura eterno amor, não me deixa dizer não, e me beija com a boca de paixão. Essa é minha mulher, minha amada, amante, timoneira do barco de nossas vidas; mas, nem tudo foi um mar de rosa. Vânia aprendeu a remar com o tombo do navio, com o balanço do mar. Navegar foi preciso. Essa mulher segurou forte o leme nos maremotos. Hoje navegamos em calmaria, enxergando, ao longe, outros mares ou um porto final além do horizonte.

(Escrevi esta crônica para Vânia quando ela completou 70 anos, em agosto de 2018. Vou reeditá-la todos os anos, pelo resto da vida, no dia 22 de agosto, até o resto de meus dias, até ancorar no porto final; não está tão longe)

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O LEILÃO

O fato se deu há alguns anos quando a humanidade era ingênua, quando não se ousava pensar em tenebrosas transações, ainda não despertara a revolução sexual e as mudanças de costumes. O mundo era dos coronéis de engenho.

Naquela época morava em Atalaia, aprazível cidade do interior de Alagoas, uma jovem bonita de nome Mariá. Os homens quando a viam sentiam o desejo pulsar nas veias, na mente e na alma. Bela cafuza, exótica e exuberante, cabelos negros escorridos, rosto redondo, olhos pequenos, lábios carnudos e encarnados. Mariá era conhecida como Índia, filha de cortador de cana, pobre e analfabeta, os homens andavam atrás das saias daquela alegre morena. Porém ela mantinha-se virgem, um apelo e conselho do pai com quem vivia numa casa de taipa.

Certo dia o pai morreu, de cachaça, sua mãe havia fugido com um motorista de caminhão, arribou estrada afora, tornou-se prostituta estradeira, foi o maior desgosto do marido, ele entregou-se à bebida. Mariá ficou só no mundo. Aconselhada por amigas foi tentar sobreviver na capital. Arranjou trabalho de empregada doméstica numa casa. Nos primeiros dias foi desejada e assediada pelo patrão, pelos dois filhos e pelo avô. O bom velhinho quando olhou a Índia pensou que ainda era moço, vivia cantando a bela empregada. Aperreada a todo o momento, Mariá não aguentou a pressão, pediu as contas à patroa. Ao sair do emprego ficou perambulando pela Avenida da Paz, teve sorte, conheceu Cícero, um generoso homossexual que a levou para sua casa, pediu a mãe para lhe dar guarida até ela arranjar emprego. Na casa de Cícero não se podia pagar empregada. Mariá fez alguns trabalhos em troca da comida e dormida. Difícil uma analfabeta achar emprego. Certa vez uma vizinha aconselhou: -“Menina você é muito bonita, os homens lhe desejam, vá ganhar dinheiro no cabaré.” -“Eu sou virgem”, respondeu Mariá. -“Sua virgindade vale ouro, muito coronel pagaria um dinheirão para tirar-lhe o cabaço”, a vizinha insistia na conversa.

A conversa com a vizinha ficou atentando o juízo de Mariá. Numa bela noite ela procurou a vizinha, pediu para levá-la a algum cabaré, queria apenas conhecer. Ao chegar à Boate Tabariz, no bairro boêmio de Jaraguá, subiram a íngreme escada. Mariá empolgou-se com a beleza do salão. O dono do cabaré, conhecido como Mossoró, o rei da noite, examinou-a com um olhar de conhecedor. A amiga falou ao proxeneta: -“Pai Velho, olhe o presente que trouxe para você, uma bela Índia”. Aproximou-se, cochichou no ouvido do Negão: -“É virgem”.

Mossoró, conhecedor profundo das almas das mulheres da vida, interessou-se por Mariá, o fato de ser virgem, deixou-lhe empolgado. Havia quem desse uma fortuna pelo cabaço daquela jovem. Mandou-a esperar, Mariá estava deslumbrada com a música do conjunto, a alegria da casa, os pares dançando no salão. Mossoró levou-a ao escritório, um quarto especial. Puxou do bolso uma nota de gorjeta para vizinha e despachou-a, ficou sozinho com a Índia, era todo sorriso, simpático. Ele passava confiança às suas quengas. Fez algumas perguntas à Mariá. De repente pediu-lhe para tirar a roupa. A moça desabotoou os laços nos ombros, o vestido de chita caiu no chão, desabrochou a beleza nua da jovem, o sangue esquentou as veias do Pai Velho, conteve-se. Se não fosse virgem ele seria o primeiro, contudo, aquele cabaço valia ouro. Disse para Mariá – “Você vai passar alguns dias apenas aparecendo no salão. Amanhã vai ao Comércio, com uma das meninas, comprar três vestidos na moda. Toda noite fique bem bonita se mostrando de mesa em mesa, não vá para o quarto com nenhum homem, diga que é virgem, eu vou arranjar alguém especial para lhe tirar a virgindade, depois você fica trabalhando para mim, aqui na boate.”

Toda noite Mossoró anunciava o leilão da Índia, dia 22 de março, com Show de Reinaldo, uma trupe divertida de travestis, e inauguração da luz negra no salão. Na noite marcada, a Boate estava cheia; políticos, coronéis, usineiros, reservaram mesa. Foi uma das maiores festas na história do bairro boêmio de Jaraguá. O ganhador do leilão foi um rico fazendeiro, colecionador de cabaços, ele tinha um colar, cada conta do colar representava uma virgem. Pagou uma fortuna pela Índia. A festa tornou-se inesquecível. No bares, nos cabarés, nas biroscas do cais do porto de Jaraguá, por muitos anos os boêmios contaram a história do Leilão da Índia arrematada por um rico fazendeiro.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A TENTAÇÃO DE LÚCIFER

Aristóteles é um homem digno, esteio de nossa sociedade, advogado emérito, conhecedor profundo das leis. Desde os tempos do Colégio Diocesano (Marista), foi um aluno exemplar ligado aos princípios morais da civilização cristã. Um apologista aos bons costumes e à moral da educação ocidental. Jovem politicamente correto. Membro de uma tradicional família das Alagoas, ele nunca teve problemas financeiros, conhece o mundo e hoje é um sessentão conservado dedicado. Faz sua caminhada matinal, além de não relaxar na musculação da Academia. Semana passada caminhando numa bela manhã de sol pelo calçadão da praia de Jatiúca, eu fui abraço por trás, era Aristóteles, alegre, sorrindo, andou a meu lado, conversamos descontraidamente, até que meu amigo filosofou.

– Tudo pode acontecer com qualquer cidadão do mundo, com qualquer cristão, com qualquer homem de bem.

Eu fiquei surpreso com o pensamento espontâneo e tempestivo, perguntei o que havia acontecido. Aristóteles baixou o ritmo da caminhada confidenciou-me sua história quase sussurrando.

– O Satanás está solto, provocando! Veja você meu irmão, um homem como eu, crente em Deus, assisto à missa todo domingo, temente ao castigo divino, caí na tentação do Cão. O Diabo tomou forma de uma morena da cor de mel, de um sorriso cativante, de uma tentação encantadoramente diabólica. Ângela, minha querida e santa mulher, contratou essa moça para trabalhar em casa. A capeta veste um short desfiado para suas atividades domésticas. Normal para ela, para mim, uma sedução. O sangue ferveu em minhas veias ao me deparar com as pernas roliças, perfeitas, daquela mulher. Todo dia Ângela sai para a casa dos filhos, ver os netos, eu fico sozinho trabalhando no quarto que transformei em escritório. Anália, a moça, é esperta, na cozinha prepara um gostoso almoço, ela tem mãos de ouro, mãos encantadas, em tudo que pega, dá vida. Até engordei, contrariando meu zeloso médico. A diabinha em forma de mulher percebeu meus olhares para seu corpo fascinante. Certo dia, por volta das 10 da manhã, ela entrou no meu gabinete, eu trabalhava em cima de um processo difícil. Anália varria distraída, vestia short de jeans desfiado salientando o maravilhoso traseiro. Acabou-se minha concentração, eu olhava com o rabo do olho para a endiabrada, o sangue esquentava. O Demônio conhece bem as fraquezas humanas. Ela se aproximou bem perto do birô, perguntou se eu era advogado, se soltava preso da cadeia. Foi direta, contou-me que um amigo, um ex-namorado, que tirou sua virgindade quando era mais jovem (achei uma provocação, detalhe desnecessário de contar), estava na prisão, assaltou um posto de gasolina. No maior dengo, me chamando de patrão, disse que faria tudo, tudo mesmo (outra provocação da diabinha) para soltar o amigo. Eu me contive, a satânica de voz angelical, chegou-se bem junto, o decote mostrava os seios pequenos e duros. Levantei-me respirando fundo, disse que iria pensar no caso, evitei continuar olhando, estava à beira do pecado. Sai do escritório antes que fizesse uma besteira.

À noite contei à Ângela sobre o namorado da moça, omiti os detalhes do Demônio que me acendeu uma fantasia libidinosa. No sábado fui com a jovem Anália à cadeia conversar com o marginal. Como não houve ferimento e ser primário, solicitei habeas-corpus para o preso esperar o julgamento em liberdade. No retorno da prisão, conversávamos sobre os procedimentos quando de repente, ela falou no maior descaramento, notava meus olhares e queria agradecer com amor, pelo que fiz por ela. Entramos num motel da Via Expressa. Foi uma tarde maravilhosa de amor. A diaba sabe tudo na cama, me ensinou o caminho do purgatório. Ainda não tive coragem de me confessar, se eu morresse hoje, iria para o inferno!

Fico torcendo para chegar a quinta-feira, dia marcado para desfrutar de minha tinhosa num motel. Em casa me seguro para não agarrá-la, estou encantado com a diabinha. Nunca pensei que um dia poderia ser envolvido pelos caprichos do Demônio. Esse pecado pode acontecer com qualquer cristão, o Cão sabe quando provocar nossas fraquezas. Até veste short.

Perto de casa nos despedimos, atravessei a avenida pensando, avaliando como Lúcifer se aproveita da imperfeição humana. É preciso ter cuidado para não cair em tentação.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O CASAMENTO DE ROSALVA

Rosalva só falava, só vivia, só pensava em seu casamento. Um ano e três meses de planejamento e preparação. Escolheu a melhor igreja da cidade; o vestido, um primor, era ótima costureira. Vivia trocando a relação dos 150 convidados. Mais de um ano vivendo de expectativa do casamento. Aqueles momentos de preparação, de organização e planejamento, faziam de Rosalva a mulher mais feliz do mundo. Parte do dinheiro que seu pai deixou de herança ela gastaria na cerimônia e recepção. Gostava de ouvir as sugestões das amigas. O noivo, Cândido, não era o que se pode chamar de trabalhador, tinha uma boa conversa, discurso revoltado com a situação do país, era conformado com uma sinecura no Governo, arranjado pelo primo deputado. Ajudava Rosalva em alguns preparativos. Quando os noivos estavam a sós, se grudavam em abraços, beijos e amassos, entretanto, a virgindade foi preservada, tal como prometera ao pai antes dele morrer, um pastor antiquado. Só daria depois de casada.

Afinal o dia do casamento, um bispo fez uma bela pregação, Rosalva emocionou-se ao ouvir citar o pai, o casamento foi bonito como ela queria. Preparou-se durante mais de um ano para uma cerimônia de uma hora e uma recepção aos amigos e parentes. Ela estava feliz, realizada.

Lua-de-mel em Salvador, Cândido fez e aconteceu, ensinou pormenores, Rosalva gostou, uma semana e meia de amor, o noivo mostrou sabedoria e competência, a esposa era só felicidade.

Afinal a festa acabou. E agora Cândido José? Como acostumar-se à vida de casado? Ele até que fez força para ficar em casa sossegado, mas foi difícil se conter. Começou a frequentar os bares da vizinhança enquanto Rosalva ensinava em dois colégios. Cândido não ia ao trabalho, dizia ganhar pouco para trabalhar, contudo, adorava no final do mês ver depositado o pequeno salário. Outro emprego, a preguiça não deixava, desculpava ser funcionário público não podia assinar carteira. Essa vida de malandro foi prevista pelas amigas.

Ela trabalhava dois turnos, teve que contratar uma jovem diarista para faxina e serviços gerais duas vezes na semana. O almoço e o jantar o casal preparava no momento conveniente. Assim foram os primeiros anos de casamento.

Certa tarde houve um problema na escola, muita chuva, pingueiras, não havia condições de aulas, alunos e professores foram dispensados. Rosalva ficou alegre, naquele dia faziam dois anos de casados. Pensou numa tarde de chuva e amor com Cândido, o bom de cama. Foi ao supermercado, comprou um galeto na brasa, algumas cervejas. Radiante faria uma surpresa a seu marido. Eram ainda três horas da tarde. Ao chegar em casa, abriu a porta e percebeu vozes no quarto de empregada, colocou os pacotes na mesa, aproximou-se devagar, ouviu o diálogo entre surpresa e irada.

– Seu Cândido o senhor me prometeu um agrado, estou precisando, pelo menos 50 real, vá seu cara, eu não fiz o que você queria?

– Lindinalva entenda, é uma questão de princípio, eu não dou dinheiro à mulher, dou presente; essa calcinha vermelha não fui eu que dei? Você é gostosa, estou doidão por você, lhe dou presente, mas, dinheiro não, é contra meus princípios, um homem de bem como eu, tem que ter princípios.

Os dois seminus sentados na cama foram surpreendidos com a fúria de Rosalva batendo com um rodo grosso em suas cabeças, gritando incontida.

– Para fora de minha casa, dois safados. Vou mandar lhe capar!

Cândido nem tentou se explicar, ao sentir a força irada da esposa, de cueca, escafedeu-se pelas portas do fundo, correu pela rua do jeito que estava; nunca teve coragem de retornar ao lar. A morena levou uma surra de rodo e panela. Rosalva juntou os pertences do marido no meio da rua, tocou fogo. Foi o assunto da semana na vizinhança.

Por orientação de uma advogada, Rosalva entrou com uma ação por traição e danos morais. Semana passada saiu a sentença, o juiz condenou Cândido a pagar R$ 30 mil como indenização das despesas do casamento que Marilda bancou. Como ele vai pagar, é outra questão.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

FESTA EM JARAGUÁ

Ninguém sabia seu nome, que dirá sobrenome. Os amigos conheciam como Pafinha, apelido carinhoso. Moça bonita de pele clara, cabelos escuros escorridos, olhos vivos, harmonizavam com a boca rosada permanentemente num debochado sorriso. Pafinha tinha a beleza da juventude e a graça de quem é feliz, era linda.

Corpo miúdo, curvas nítidas, cintura fina e seios abundantes faziam dessa menina uma mulher atraente. A traseira bem torneada era desejo e fantasia de muitos homens.

Todos amavam aquela jovem com ar de moleca sapeca e linda. Vivia a vida como se fosse acabar amanhã. Pafinha trabalhava na Boate Tabariz, era a rapariga predileta do famoso dono da noite de Maceió, o popular Mossoró. Nativa de Pariconha, sertão das Alagoas, sua família passava fome com a seca. Aos 16 anos, só havia conhecido miséria e pobreza. Um cabo de polícia a deflorou. Como ele era casado, prometeu aos pais da moça, amigação, uma casa montada na capital. Depois de muito discutir, os pais liberaram a filha para morar com o cabo na capital. O cabo viajou com Pafinha num fim de semana, e deixou-a na zona das putas em Jaraguá, entrego-a aos cuidados do Mossoró, o dono da casa de mulheres mais famosa da cidade.

Tornar-se prostituta foi uma grande transformação. Cursou a Universidade da Vida. Pafinha era a mais querida do cabaré, conhecia e tratava os frequentadores da boate pelo nome. Podia ser senador, deputado, coronel ou capitão. Era o xodó de Jaraguá. Ela era linda, apaixonou-se por um jovem deputado, rapaz novo, iniciando a carreira política. Quando o deputado aparecia, corria para os braços de seu amor.

Naquela época havia um bingo nas tardes de domingo, numa área do bairro do Trapiche da Barra, era a fonte de recurso para construção de um grande estádio de futebol (o atual Rei Pelé). Os prêmios convidativos: carros, camionetes e caminhões. Mossoró não perdia um bingo e levava suas meninas, comprava uma cartela para cada uma. Certo domingo, Pafinha teve sorte. Faltava apenas a pedra 27, uma torcida eletrizante entre as jovens alegres. Quando chamaram 27, foi uma explosão de alegria e abraços. Pafinha ganhou um carro IMPALA. Um conhecido senhor negociava prêmios de bingos, comprou o carro na hora. Foi dinheiro que Pafinha jamais pensou possuir.

Na mesma noite ela iniciou uma festa no bairro boêmio de Jaraguá. Todos queriam abraçá-la ou pedir dinheiro emprestado. A festa durou oito noites. Pafinha não tinha noção de economia, seu coração solidário e generoso emprestou e deu muito dinheiro. Fez festa no Verde, no Duque e no Sovaco do Urubu, a ZBM, Zona do Baixo Meretrício, frequentada por estivadores, pescadores, catraieiros, os pobres amigos de copo e de cruz. Pagava tudo.

Uma semana de alegria e diversão durou a festa de Pafinha. Só acabou quando ela percebeu que não tinha mais um centavo do dinheiro do bingo. Ficou pobre novamente.

Na praia da Avenida da Paz, no trecho mais perto do cais havia uma birosca frequentada por embarcadiços, pescadores, desocupados, desempregados. As raparigas de Jaraguá ao se acordarem por volta do meio-dia vestiam o maiô e devam um mergulho na praia, se refrescando da noitada anterior.

Pafinha sempre presente ajudava a comer o delicioso tira-gosto de panã ou arabaiana, contava casos da noite no cabaré. Seu Rodolfo, velho pescador, era o melhor contador de historias de peixes enormes, da mãe d’água, sereias, afogamentos, de botos salvando vidas empurrando os afogados até a praia.

Pafinha aprendeu a nadar, boiava e mergulhava se purificando na água do mar até o pôr-do-sol alaranjar o céu, depois das seis da tarde era hora de trabalho no Cabaré. A sertaneja dizia que seu destino estava naquele mar azul com matizes esverdeados.

A história da Pafinha ainda hoje é contada nas biroscas e bares de Jaraguá. Tornou-se lenda, dizem as testemunhas que ela numa tarde desapareceu no banho de mar, deixou-se levar pela correnteza. Iemanjá veio buscá-la e a transformou em um boto que vagueia vigilante na enseada da praia da Avenida da Paz, salvando os afogados.

Há muito tempo não acontece afogamento no mar de Jaraguá e Avenida. Um boto nas águas perto do cais mergulha vigilante, empurra até a praia os banhistas desavisados ou crianças mais afoitas. Depois retorna junto ao cardume, brincando alegre com seus pareias.

À noite, nos bares do mercado e na zona da boemia, marinheiros, pescadores, contam histórias de salvamentos milagrosos. Atribuem esses milagres ao boto presepeiro, alegre e lindo. Para o povo do cais do porto, Pafinha é uma espécie de santa protetora das putas, dos boêmios, dos bêbados e afogados de Jaraguá.

ESSA E OUTRAS HISTÓRIAS DO BAIRRO HISTÓRICO DE JARAGUÁ, MACEIÓ, SERÃO CONTADAS DIA 27 DE JULHO, AMANHÃ, SÁBADO, ÀS 17 HORAS, NA PETISCARIA SEU JORGE (EM FRENTE AO DIVINA GULA). ENQUANTO LUIZ POMPE CANTA MÚSICAS QUE TEM A VER COM CADA HISTÓRIA. INFORMAÇÕES: 9.9319.0843

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O MASSACRE EM YA-RÁ-GUÁ

Ya-Rá-Guá (enseada do ancoradouro) é o nome indígena originário do bairro de Jaraguá, o Marco Zero, onde começou a cidade de Maceió. Quando deu início a era da industrialização no mundo, navios de toda parte fundeavam no ancoradouro natural na enseada de Jaraguá. Naquela época o bairro teve um grande desenvolvimento urbano e econômico devido ao efervescente comércio. Jaraguá vivia na euforia de muitos negócios, exportação de açúcar, algodão, e importação de materiais industrializados para o consumo da população. O ancoradouro natural tinha uma ponte de desembarque e Jaraguá tornou-se um dos portos mais movimentados do Brasil. Na Praça da Recebedoria, hoje Praça Dois Leões, em torno da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços, pescadores, homens que tinham o mar como sustento.

Os vizinhos se conheciam, havia casamento entre eles, era como fosse uma família. Augusta era a moça mais bonita da redondeza, 16 anos, filha de Seu Augusto, estivador, homem forte, rude e de Dona Sinhá. Ele ficava de olho naqueles que admiravam a beleza de sua alegre filha. Menina sapeca, ela corria na praia, subia nas amendoeiras da Avenida da Paz, a todos encantava. Mas só um ela se agradava, Gumercindo, jovem espadaúdo, tomou corpo de homem aos 18 anos, forte musculatura, o corpo forjado carregando sacos de açúcar na ponte de desembarque; depois se tornou embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro. Era do gosto das famílias.

Certa tarde de domingo, uma pequena patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça da Recebedoria. Quando o cabo viu a moça de roupa domingueira, encantou-se, ficou deslumbrado com a beleza de Augusta. Todo domingo o cabo admirava a menina de seus sonhos passando para missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Certo dia ele se apresentou e falou com o pai da moça. Não se conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço. Não admitia uma negativa, ele um cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família (sua família deu nome à belíssima praia do Sobral, continuação da Avenida da Paz).

No dia 10 de janeiro havia a festa de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações singravam na enseada da praia da Avenida – Jaraguá, os barcos competiam na ornamentação, muitos fogos, muita alegria. À noite a festa se prolongava na Praça da Recebedoria. Colocavam tendas para leilões, bingos, tablados onde se dançava e jogava. Improvisavam bares servindo cachaça e tira-gosto para animar a moçada.

Nas casas eram organizadas festas particulares frequentadas pelos vizinhos e convidados. Gumercindo havia chegado de Penedo numa barcaça. Os amigos encheram a festa na casa de Augustão, pai da aniversariante, a moça mais bonita da cidade.

O Cabo Sobral, ao longe, assistia a animação na casa de Augusto, ficou com despeito quando viu pela janela Gumercindo dançando coco com a amada Augusta na maior felicidade. O Cabo, bêbado, tentou entrar na casa de Augusto, foi barrado na porta por Simplício, irmão do dono da casa. O cabo quis alterar, apareceram alguns estivadores, ele recuou. Depois de certo tempo, o Cabo Sobral, policial arruaceiro, retornou com mais cinco policiais. Foram rechaçados a murros e pontapés, a briga generalizou-se. Uma peixeirada deixou um policial morto estirado na rua.

Cabo Sobral e seus homens bateram em retirada. Retornou ao quartel. Armou mais de 20 soldados, fez um discurso incitando vingar o companheiro assassinado pelos estivadores. Montados a cavalos galoparam até a praça atropelando e atirando em quem estivesse pela frente. Os donos das casas pularam muro, fugiram da sanha dos policiais. Na casa de Augusto, todos dispersaram. Dois músicos ficaram guardando seus instrumentos, foram feridos pelas balas dos policiais. Na praça, os ambulantes, que nada tinham a ver com a história, correram para o interior da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral entraram na igreja, a cavalo, atirando em todos inocentes.

No dia seguinte o governador soube da chacina, estava escandalizado, entretanto, permitiu que os cadáveres, mais de 20, fossem ajuntados em uma carroça de bonde, e enterrados numa vala comum no cemitério de Jaraguá.

O massacre foi abafado pela imprensa. Nenhuma notícia foi publicada em jornais, não houve um registro sobre a ocorrência. Até a Igreja foi conivente para abafar o caso, determinou a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia de Jaraguá ficou fechada por 22 anos. Mas o povo, os moradores do bairro de Jaraguá não esqueceram. Ainda hoje, por tradição oral, os netos e bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do insano massacre de Jaraguá.

ESSA E OUTRAS HISTÓRIAS DO BAIRRO HISTÓRICO DE JARAGUÁ, MACEIÓ, SERÃO CONTADAS DIA 27 DE JULHO (SÁBADO), ÀS 17 HORAS, NA PETISCARIA SEU JORGE (EM FRENTE AO DIVINA GULA). ENQUANTO LUIZ POMPE CANTA MÚSICAS QUE TEM A VER COM CADA HISTÓRIA. INFORMAÇÕES: 9.9319.0843

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

NO ESCURINHO DO CINEMA

Nos anos 60, a maior diversão da juventude era, com certeza, o cinema. No Centro da cidade, bem instalado na Rua do Comércio, o Cine São Luiz reinava em Maceió, como o mais frequentado. Havia os cinemas dos bairros: o Cine Rex ficava na aprazível, Pajuçara, bairro da classe média alta, gente grã-fina, porém, o cinema era aberto a todos. A moçada da Rua do Cravo e imediações lotava o cinema para assistir filmes de cowboys e seriados. O cine Plaza, ficava no bairro do Poço, fui frequentador assíduo. O Cine Lux na Ponta Grossa fazia a alegria da pivetada dos bairros vizinhos. E o Cine Ideal na Levada passava as melhores séries, “voltem na próxima semana”. Nos anos 80 o Cine Ideal foi transformado em cinema pornô.

Certa vez fui jurado em um concurso literário. Fiquei impressionado com uma crônica bem escrita por um cidadão, homossexual, de Maragogi. Uma crônica- depoimento, onde confessava o que acontecia em suas tardes no Ideal. Quando ele sentia vontade, quando dava comichão no rabo, entrava no cinema com o filme já iniciado. Não demorava, alguém encostava, se oferecendo como parceiro; em pé, encostado à parede, eles satisfaziam-se mutuamente. Na crônica ele chegava a detalhes impressionantes. Outra jurada, professora da Universidade, arquivou aquela crônica como documento para estudos de comportamentos sexuais dos anos 80. É bom esclarecer aos apressadinhos meninos do arco-íris que o Cine Ideal já fechou há alguns anos.

Na década de 50 o cinema mais chique no centro da cidade, o Cinearte passou a ser chamado São Luiz (minha mãe em lapso de memória às vezes chamava de Capitólio, seu nome original nos anos 30). Foi a época do cinemascope e tecnicolor, o auge dos grandes filmes americanos: “Suplício de Uma Saudade”; “Tarde Demais para Esquecer”; “Juventude Transviada”, entre outros. No início de uma paquera, o jovem marcava encontro no São Luiz, pedindo a moça para guardar seu lugar. Ao iniciar o filme, no escurinho do cinema, ele sentava-se ao lado. Às vezes, no primeiro dia, pegava na mão, era a glória, ter pegado na mão no primeiro dia. Quando era uma moça já calejada, marcava encontro nas cadeiras de trás, mais discreto para o beijo na boca, o alisar e outras carícias mais íntimas. À noite o cara se gabava com os amigos que tinha feito maior “sabão” com uma jovem no São Luiz.

As matinês do São Luiz eram bem frequentadas, os maloqueiros de Maceió se juntavam para fazer presepadas. Certa vez no filme “Sansão e Dalila”, numa cena, Dalila caminha numa estrada, a câmara focalizava ela andando de costas. De repente, Dalila para, vira a cabeça, olha para trás e dá um adeus com mão direita. Becker, um dos maiores presepeiros de Maceió, ficou para assistir outra seção do filme. Quando apareceu a cena de Dalila caminhando, Becker deu um grito: “Tchau Dalila!!!”. Nesse momento, na tela, Dalila parou, olhou para trás, deu adeus. O cinema veio a baixo, às gargalhadas. Outra vez durante um filme de terror, maior tensão, maior perigo, todos entretidos no filme, de repente, Becker em cima, no balcão, jogou uma galinha viva. O barulho que a galinha fez batendo as asas e o cacarejando alto, deu um susto apavorante na plateia. Parou o filme, tentaram inutilmente pegar meu querido amigo Becker.

Havia um rapaz de uma das famílias mais distintas de Maceió que nasceu com problema, tinha idade mental de cinco anos, vivia perambulando pela Rua do Comércio, todos gostavam de Celinho. Ele assistia várias vezes os filmes no São Luiz. O gerente compadeceu. Propôs a Celinho entrar de graça e ser fiscal do cinema e disse quais suas funções: Não deixar pivete fazer maloqueiragem; não deixar fumar; não deixar se masturbar; beijar podia. Celinho repetia para memorizar: “Não pode fumar, não pode gritar, não pode se masturbar”

Celinho até que ajudou, quando percebia um cigarro aceso, aproximava-se: “Cigarro não! É proibido!”, o cara apagava. Ele ficava louco porque não podia identificar os meninos gritando nas matinês. Certa vez, Celinho encostado com a barriga na mureta notou um casal suspeito nas duas últimas cadeiras. Andou de ponta de pés até constatar a cena: a namorada segurava alguma coisa por dentro da braguilha do namorado. Celinho não advertiu, emocionado com o primeiro flagrante foi gritando:

– “Ela tá masturbando ele! Tá masturbando. Não pode, não pode.”

O cinema veio abaixo numa só vaia. O casal saiu apressadinho pedindo licença entre as cadeiras. Por azar a moça foi identificada pela moçada da Rua do Comércio. Por muito tempo ficou conhecida como “Mãozinha de Ouro”. Celinho foi chamado pelo paciente administrador comunicando que ele devia ser discreto quando chamasse a atenção, ele entendeu. Celinho por muito tempo assistiu todos os filmes do São Luiz gratuitamente e zeloso, repreendia discretamente quem fumasse, quem gritasse ou quem se masturbasse, o que acontecia algumas vezes em filmes impróprios a 18 anos.