EM CUBA OS HOMOSSEXUAIS NÃO SÃO PERSEGUIDOS

Mariela Castro (filha de Raúl Castro, presidente de Cuba até 2018), que dirige o Cenesex – Centro Nacional de Educação Sexual de Cuba, e que é também ativista LGBT, anunciou na sua página oficial no Facebook que o Ministério da Saúde decidiu cancelar a Conga dada a atual dificuldade vivida pelo país, que se prepara para enfrentar a pior crise econômica em décadas.

Tendo um grupo, de revoltadinhos com isso, resolvido fazer uma manifestação em 11 de maio deste 2019, com o objetivo de protestar pelo cancelamento daquele que é um desfile pelos direitos LGBT contra a homofobia, e que é patrocinado anualmente pelo governo cubano, a polícia de Cuba a interrompeu.

A direita leu o noticiário, se alvoroçou e gritou que as esquerdas têm um discurso mas agem de modo diferente – até o contrário do que diz defender, perseguindo e reprimindo os gays de ambos os três ou quatro sexos.

Não é nada disso.

A história, a verdadeira história, é a seguinte.

A Conga é realizada há mais de dez anos no DIA NACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA DE CUBA (!).

Cuba, apertada, sem dinheiro para financiar a Conga, cancelou-a este ano.

A culpa é dos norte-americanos.

Contingenciamento, justificariam as autoridades brasileiras, ocorresse aqui o corte.

Houve então uma manifestação contra o cancelamento da Conga.

O governo Cubano reprimiu a manifestação.

Cuba não é propriamente um paraíso das liberdades, de modo que o governo resolveu cancelar tá cancelado, e quem achar ruim tem de ficar na sua, igual era aqui na época da ditadura militar que tem gente querendo de novo.

Resumindo: Cuba tem não só um órgão (epa!) destinado à educação sexual, cuja diretora é ativista LGBT, como tem um dia nacional contra a homofobia e o governo vem financiado há mais de dez anos uma marcha a favor da defesa dos direitos dos homossexuais.

Vou desenhar: não houve uma repressão à viadagem na Ilha, Cuba tem até um dia lindo dedicado a combater o ódio aos homossexuais, o que (apesar dos pesares, tratando-se de um país comunista, os quais nem sempre têm primado por práticas filosoficamente e originalmente esquerdistas) é uma das características das esquerdas, consistindo na promoção da igualdade mediante a defesa dos direitos dos perseguidos por preconceitos.

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ATÉ EM PARIS SE FALA DA ENTREVISTA DE LUIZ BERTO

Cara, tô eu em Paris, aniversário de 130 anos da Torre Eiffel, fui lá ver o espetáculo de luzes e sons, mergulhado no berço da cultura, na Cidade Luz, quando um sujeito do meu lado pergunta:

– Caba, tu visse a intrevistcha de Luiz Berto na Rádio Paulo Freire aquela, de Pernambuco?

Eu pensei, porra, esse cara só pode ser nordestino. Como sabe que sou brasileiro?

Ele parece que adivinhou meu pensamento e disse que me viu conversando com a minha mulher e que ele estava doido para falar com alguém sobre a entrevista de um cabra safado que ele viu na Internet, nordestino como ele; mas ali em Paris, onde ele foi parar não sabia como, não conhecia ninguém, nem francês nem brasileiro. E ele estava impressionado a cuma é que é uma emissora cultural, universitária, tinha demorado tanto a chamar Berto para contar suas histórias.

Aí eu falei pro cara, que não acreditou na coincidência: – Pois veja só, Berto é meu chefe!

Ele quis saber como assim e eu expliquei. Esse sujeitinho é o editor do Jornal da Besta Fubana, um jornaleco vagabundo que só presta para falar mal de Lula, onde, não sei porque, eu, que sou Lula roxo, escrevo um monte de porcaria e ele publica, e não só publica como me mandou aqui para Paris, com todas as despesas pagas, para ver se eu paro de endeusar Lula e escrevo sobre outras coisas menos importantes, como o Louvre, a Notre Dame, o Sena e… a Torre Eiffel, onde estamos hoje justamente para isso!

O cara ficou doido, me pediu autógrafo e o escambau e foi-se, me deixando com um problema: Então Berto deu uma entrevista, o vídeo está na Internet e, porra, eu tenho de ver essa onça, se não vai que o cara fica sabendo que eu não vi e eu me lasco todinho. Afinal, o jornal é uma porcaria, mas me paga bem, não posso perder essa boca.

Eu poderia muito bem estar na Veja, na Folha, no Globo, mas me ofereceram a metade do que tiro aqui, tenho de me conformar.

Pois bem, cheguei no “studio”, quarto “arrondissemente”, Marais, o Marré, bairro da viadagem mundial, quarto andar sem elevador – Berto me paga hotel cinco estrelas mas eu economizo pagando um quarto barato – e toma-lhe a ligar o computador para uma hora de tortura.

Tive uma grata surpresa: Enquanto traçava uma baguete com um vinho de fundo liso, foi uma hora de uma divertida entrevista com um sujeito que eu achava que só tinha feito escrever dois livros geniais – o Romance da Besta Fubana e a Serenata (os outros eu não li e o Memorial do Mundo Novo abandonei de cara) – e que agora descobria que, além de ser um velho amigo, é um sujeito divertido, inteligente e palestrador de primeira do tipo do cabra que ele diz ser seu ídolo, o inacreditável Ariano Suassuna.

Pois bem, Berto pode explorar também esse campo, pois, além de ser tão bonito quanto Ariano, tem a palavra fácil, a memória prodigiosa e a capacidade de encantar uma plateia com um senso de humor invejável.

Não é por ser meu chefe.

* * *

Nota da Editoria:

Clique aqui para ouvir a entrevista.

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ESTAMOS FUPAGOS E MALDIDOS

O presidente Jair Messias Bolsonaro foi recebido pelo apresentador Sílvio Santos para uma entrevista assustadora.

Para começar, Sílvio Santos, ao saber pelo ponto eletrônico que Bolsonaro já o esperava no camarim, pediu licença para sair de fininho dizendo que estava apertado, isto é, com dor de barriga. Disse que alguma coisa “lhe caiu mal”.

Os adeptos da teoria freudiana logo farão a relação de uma coisa com outra: ir ao encontro da personalidade esperada era o mesmo que ir soltar o barrão.

É claro que estas considerações são brincadeirinha: Sílvio Santos recebeu todos os presidentes em seu programa, a partir de Deodoro, e teria recebido com respeito Pedro Primeiro e Pedro Segundo, se então vivo fosse.

O dono do Baú da Felicidade é uma pessoa excepcional, sendo capaz de recepcionar a maior autoridade do País com toda intimidade, bom humor e simplicidade, como mais uma vez aconteceu, e até com certo exagero.

A informalidade do Sílvio só foi superada por Sérgio Malandro, que fez o então candidato Jair Bolsonaro falar yeh yeah hahaha glugluglu para vencer as eleições, palavras mágicas que funcionaram, de modo que devemos a tragédia do governo de malucos a esse maluco, dentre outros (Olavo de Carvalho acaba de chamar o General Santos Cruz de “seu merda”).

A entrevista feita pelo Sílvio Santos estava, como não é incomum, pautada – quem sabe se pela produção, quem sabe se pela própria equipe do entrevistado – de modo que o apresentador não sabia na hora o que devia perguntar, esperava o ponto eletrônico, consultava papéis, para no final abandonar grande parte dos quesitos e ficar quase que exclusivamente na reforma da previdência – que ele mesmo defendeu com empenho, com medo de que sua falta gerará inflação.

O destaque da entrevista é que nos apavorou: sem ser diretamente indagado sobre isso, o presidente declarou que está íntegro em sua potência sexual, não necessitando do uso de viagras, cialis, tadalafilas, catuabas, garrafadas, amendoins com a casquinha ou outros “aditivos químicos”: é pau puro e bhc nas pontas.

Sai de baixo!

O cara está pronto para nos atochar a rígida trolha!

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DE RACHID A TURISMO SOCIAL E BALA NA CABEÇA

Quem mergulha nas profundidades do direito compreende que as acusações contra Lula e a condenação judicial, e mesmo a opinião popular e o posicionamento da imprensa, caminharam pelos meandros não específicos da teoria do domínio do fato.

As pessoas se perguntam: – Como Lula não podia saber do que se passava no andar de baixo? É claro que sabia. Tinha de saber. E se sabia é o responsável.
Neste momento, oferece-se a oportunidade de aplicar a mesma teoria a diversas situações que vêm ocorrendo no governo.

A principal delas refere-se ao conhecido “Rachid”, usado largamente nos mais diversos setores legislativos, das câmaras municipais à federal.

Anuncia-se a entrega de um boi-de-piranha no caso do filho do presidente a cujo respeito investiga-se a prática de empregar auxiliares mediante a entrega, por eles, de parte do seu salário ao empregador.

Caminha-se para, caso confirmado o abuso, seja o assessor principal responsabilizado pela encrenca.

Mas… e a teoria do domínio do fato, que, embora mal compreendida, tanto se desfralda?

Por quê, agora, os defensores da sagrada família advogam inocências usando o raciocínio de que quem fez a lambança foi o assessor e que o chefão não tem nada com isso?

Não tem de saber o que andava no andar de baixo?

E os pais, não são obrigados a saber se os filhos andam fazendo besteira e responsabilizados, também, por suas ações deletérias?

É por aí, dentre outras circunstâncias, que transita mesmo o tal do “lawfare”.

Ah, a que pode servir o mal uso do Direito…

Felizmente, para alguns, a tal teoria certamente não será aplicada a essa situação, não só porque ela pode ser mesmo uma boa porcaria, como para não complicar um governo que vai indo tão bem que oferece nossas mulheres ao turismo internacional.

E que apóia a idéia de meter uma bala na cabeça dos membros do Partido Comunista Brasileiro e do Partido Comunista do Brasil.

Além de na cabeça dos membros do Partido dos Trabalhadores, que segundo Bolsonaro caminhava para tirar a liberdade dos brasileiros, o que não quer dizer outra coisa.

Foge gente, que a extrema direita está solta!

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FIM DO DESERTO, INÍCIO DA PICADA

Subimos a última duna, chegamos onde o cume refresca por uma brisa vinda de longe.

Olhamos ansiosos e não era miragem: torres e mais torres de telefonia anunciando o fim do deserto e a chegada à civilização.

Mais do que de água, eu tinha sede de notícias!

Corri aos tropeços pela areia quente e parei quando meu celular deu sinal de que o wi-fi da MacDonald’s tinha entrado automaticamente!

Ah, salve a rede mundial de sandubas!

Sim, salve, apesar de ser a responsável por grande parte da mortandade de peixes, galinhas, bois e minhocas do planeta! Encontrá-la justo ao fim do deserto escaldante não poderia ser mais providencial.

Abri correndo nas notícias e… o que vejo?! O Lula semi-inocentado pelo Superior Tribunal de Justiça!

Verifico que as redes sociais gravam verdadeira batalha em torno disso:

Os que olham Lula com simpatia garantem que a diminuição da pena demonstra que as duas instâncias inferiores estavam com muito má-vontade para com o ex-presidente.

Os que o odeiam afirmam que o STJ fez foi confirmar que Lula é ladrão e lavador de dinheiro e consideram que a diminuição da pena foi mínima.

Mínima, na verdade, não foi: a pena foi reduzida em cerca de 1.170 dias! Creio que quem está preso sente com peso mais 1.170 dias… três anos e alguma coisa, de encarceramento!

Para quem está solto, três anos de cadeia é pinto…

É bem verdade que o STJ manteve as condenações por corrupção e lavagem, e isso os inimigos do Lula acentuam.

Entretanto, pode-se compreender que os exageros praticados por Moro e pelo TRF da 4ª Região reforçam a tese de animosidade contra Lula, o que é bastante grave em um julgamento de um ex-presidente da república com todas as circunstâncias políticas e sociais que o envolvem.

Os exageros que o STJ reduziu não param na redução da pena em mais de três anos, prosseguem na redução da multa que as instâncias inferiores fixaram em mais de 31 milhões de reais!

Pois, o STJ cortou uns 29 milhões dessa multa! Isso é mais do que assombroso!

A multa passou de mais de trinta e um milhões de reais para dois milhões e quatrocentos mil reais.

Se isso não é pesar a mão, me diga quem acha que não: – O que lhes significam R$ 29.000.000,00?

Vou lhes dar uma idéia: – Vinte e nove milhões de reais significam que quem tiver essa grana pode montar uma frota de uns setecentos automóveis e pôr para circularem nesses serviços de transporte por aplicativo: 700 automóveis!

O STJ tirou da pena do Lula mais de três anos e setecentos automóveis e há quem ache que Moro e a trinca do TRF/4 foram supimpas e que os apoiadores do Lula estão festejando uma derrota.

Pois sim.

É o início da picada.

Lula está com um pé fora da prisão.

E o outro em 2022.

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ENTRE MAQUIAVEL E OLAVO DE CARVALHO

Lá no alto daquela duna passa camelo passa cáfila, cantava um beduíno sedento arrastando-se na areia ao meu lado.

Pedi-lhe para calar a boca, ô viado, está atrapalhando a minha concentração na busca de torre de comunicação para poder conectar meu celular.

Foi falar e a torre aparecer. Olhei no telefone, tinha sinal, mas não tinha wi-fi. Na verdade, tinha vários, mas eu não tinha as senhas.

Lembrei-me de quando votei em Lula para presidente pela primeira vez, wi-fi, celular, nem se sonhava com isso, era 1989, a Internet engatinhava, era à lenha, e os primeiros celulares que apareceram eram raros, caros e pareciam uns tijolos.

Se eu precisasse, então, enviar matéria para o Jornal da Besta Fubana teria de fazê-lo por pombos correios.

Isso me passava pela mente febril quando a lembrança do medo que tive quando elegemos o Lula presidente da república pela primeira vez em 2002 me gelou as veias.

Ele assumiu o governo em 2003 e eu fiquei apavorado: – Elegemos um cara rouco, revolucionário, cachaceiro, que não entende nada de administração pública, vai chegar com uma turma de despreparados e é capaz de só fazer besteira.

Eu era envolvido com o direito administrativo e tinha medo que o executivo trocasse leis por portarias e vice-versa, contratasse sem licitações, colocasse gente incompetente nos cargos, essas coisas.

Realmente, fizeram algumas besteiras, mas logo aprenderam as regras principais: era preciso ouvir os técnicos e, acima de tudo, era preciso garantir maioria na política em geral, ou seja, no legislativo e no próprio executivo, para alcançar o que se chama de governabilidade.

Fizeram até demais: consta que compraram deputados e senadores, à sombra do presidente.

Nisso pagaram caro por um lado, barato por outro, seguindo a doutrina de Nicolau segura aqui o meu Maquiavel, segundo cuja filosofia se depreendia que os fins justificam os meios, e navegaram em mar de aprovações de planos e projetos.

O País foi bem, seja porque as commodities favoreceram, seja porque Lula é O Bicho, digo, O Cara, só caíram os governos petistas coincidentemente com a questão internacional que incluía a baixa das commodities, isto é, a crise a partir de maio de 2014, cuja ocorrência os oposicionista do petismo insistem em ignorar e que foi o que deflagrou o desemprego em massa e lascou com a economia brasileira.

Pois bom, eu queria falar do medo, medo agora, recente, quando Bolsonaro foi eleito, o mesmo medo de uma turma de despreparados assumir o timão e levar ao naufrágio, com o agravante de que eu não votei nele.

Com Lula, o aprendizado foi rápido. Agora, a coisa custa a deslanchar e a cada dia as burradas feitas só reforçam a tese de que Bolsonaro é, no mínimo, maluco.

Enquanto escrevo, um sinal de bip bip me chama a atenção. O beduíno ao meu lado está recebendo mensagem em Morse: traço ponto ponto ponto ponto traço… traduzo: Vídeo com críticas a militares postado no canal de Bolsonaro e nas redes de Carlos, o Menino Maluquinho, reacende tensão no Planalto.

Aí penso, lascou-se mesmo.

Capturo um pombo correio e amarro-lhe no pé o texto mandando-o entregá-lo ao Berto.

Se chegou, todos saberão que entre Maquiavel e Olavo de Carvalho, fico com O Príncipe.

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AINDA NO DESERTO

Estávamos caminhando pelo deserto há dias, o Sol queimando-nos a mufa.

Água, água, água… pedíamos, as bocas secas.

Tivemos miragens de Bolsonaro regando-nos a boca com o seu cantil de sufrágios, inundando nossos seres famintos e sedentos de satisfação e fartura, mas logo as imagens se dissipavam e dunas e mais dunas de aridez surgiam à nossa frente, para desânimo total.

À frente, pensamos ver uma caravana de ministros passando enquanto cães ladravam, os ministros caíam um a um e eram devorados pelos animais famintos e os camelos desapareciam como fumaça.

De repente, cheios de esperança vimos um navio! Avistávamos o mar, o mar, o mar!

O navio era de uma companhia que tinha o nome gravado: PSL!

O que queria dizer? Provando Seu Leite? Perdendo Sem Luta? Pronto Se Lascamo? Piramos Seus Lelés?

Nossas mentes confusas não conseguiam formar algo inteligível, mas não interessava, corremos ao encontro de nossa salvação.

Mas, que nada, sai da minha frente que eu quero passar, diria Jorge, o Bem, que era muito mais legal do que o Jor – havia realmente um navio, mas algo como um navio fantasma, se afundando na areia do deserto.

Nossa esperança se esvaiu como água, digo, areia, escorrendo por entre os dedos.

Iremos mais à frente na tentativa de chegar à praia sem morrer na praia: quem sabe encontraremos peixes, algas, moluscos…

Lancei ao ar uma garrafa com esta mensagem, espero que a encontrem.

Não sei se seremos encontrados. Por isso, despeço-me com um beijo carinhoso na bunda de todos.

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CHEGA! É HORA DE JÁ IR

Tenho feito um esforço, que a mim mesmo cheira falso, de não torcer contra o governo de Jair Bolsonaro.

Aqui, no deserto, isso tem sido mais fácil. Raramente mensageiros beduínos chegam com notícias, para matar nossa sede, de modo que pela ignorância dos fatos é possível relaxar um pouco.

Estivesse eu com acesso direto à Internet, a coisa complicaria. Embora, sob certos aspectos, poderia o wi-fi dar-me algum reforço positivo, quando ficasse sabendo que, finalmente, o Ministro da Educação, o Vélez, foi demitido. Já não era sem tempo; e sua permanência no posto me era um entrave a qualquer tentativa de boa vontade.

Bem, estou longe, comendo areia, me contaram que o substituto tem um nome danado de alemão, espero que seja brasileiro.

Não que naturalizados devam ser alijados dos cargos públicos, mas a gente tem de reconhecer um certo preconceito que insiste em nos apontar o fato da existência de tantos brasileiros natos altamente competentes, que colocar sotaque justamente no setor educacional fica estranho.

Pois bom, vem não vai, vai não vem, resolvi bater o martelo assim que soube que Fernando Henrique Cardoso disse para Bolsonaro ou ir estudar economia ou botar a viola no saco, algo do gênero porque no te callas.

Bater o martelo aqui quer dizer, expor minha sinceridade: assim como FHC, acho, desde sempre, Bolsonaro despreparado.

Muito pior do que despreparado, equivocado em todas as suas crenças e valores. Sempre que a ocasião se apresenta, Bolsonaro revela seu direitismo retrógrado, sua doutrina deturpada, seu adesismo a filosofias as mais absurdas e atrasadas, por isso que superadas, e que vêm sendo apresentadas aos brasileiros como salvadoras da sociedade; são coisas como o gesto da arminha, as declarações sobre a educação belicosa dos filhos, os preconceitos sobejamente revelados e tantas coisas que nos removem do caminho civilizatório para nos retroagir a séculos de atraso.

Não bastasse isso, suas escolhas para os principais cargos do governo têm sido aterrorizantes, desde maluquetes, ao ministro que caiu, passando pelas relações exteriores e desembocando em um dos pontos principais, a economia.

O equívoco da fixação do governo em uma reforma da previdência grotesca e injusta, com o agravante de ser desnecessária, dá os sinais de fragilidade na ausência de apoio do Congresso e no desinteresse por parte dos investidores internacionais (ela interessa, mesmo, ao empresariado nacional, que vê no embutido desoneramento dos encargos sociais um futuro de lucros muito mais atraentes que os de agora). É preciso repisar: nem sempre os meios escolhidos para promover o progresso são éticos, justos e humanos – que o diga a escravidão.

Assim, aviso: – Estou fora!

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BRASIL JÁ VAI À GUERRA

Há muito, muito tempo, quando era presidente o amado e aclamado Juscelino Kubitscheck, mineiro, pé-de-valsa, simpático, sorridente e construtor de Brasília, anos sessenta, se não me engana a memória, foi nessa época que fizemos a aquisição de um belo porta-aviões.

Juca Chaves, o pardo, ou bardo, também me falha a lembrança, deitou e rolou com suas modinhas críticas, que logo caíam no gosto e na boca do povo.

Uma das músicas falava do “presidente bossa-nova”: “Bossa-nova mesmo é ser presidente”… (veja no YouTube clicando aqui).

Mas eu quero falar da outra, sucesso absoluto, que dizia: “Brasil já vai à guerra, comprou porta-aviões”.

Era uma sacanagem, que criticava o gasto e, a seu ver (do Juca), desnecessário, pois não havia o menor sinal de guerra no horizonte que pudesse envolver o Brasil e justificar o reforço bélico.

O tempo passa, o tempo voa, estamos aqui, uns cinqüenta anos depois, prontos para a batalha.

Quem sabe, o porta-aviões, se ainda ativo, servirá para massacrarmos nossos irmãos venezuelanos.

Juca precisava fazer novas modinhas – a não ser que seja eleitor do Messias – para que tentemos rir das patacadas desastrosas do momento do nosso País, quando pretendemos invadir, de mãos dadas com os Estados Unidos, nossa vizinha Venezuela.

Fazê-lo, ou mesmo imaginar essa possibilidade, deveria ser um crime – crime de irresponsabilidade.

Somos a América do Sul. Por aqui, tivemos governos à esquerda e à direita, ao centro e a mais ou menos uma coisa ou outra, e nunca um presidente dos Estados Unidos teve a audácia e a cachimônia de ameaçar pôr por aqui suas botas!

Se ousasse ameaçar fazê-lo, declararíamos, todos juntos, inclusive a Venezuela, nossa união incondicional contra os poderosos americanos do Norte – e não pensem que necessariamente perderíamos, lembremos do exemplo do Vietnã.

Mas, se perdêssemos, seríamos subjugados com honra e dignidade.

Mas agora, somos outra gente, elegemos o presidente da subserviência e abaixamos as calças fazendo continência para o poderio morte-americano: Boca de forno, faremos tudo que Mr. Tramp mandar.

Segundo Jair Bolsonaro, vamos supor que haja uma invasão da Venezuela, a decisão será dele, ele mesmo o disse.

Transparece dessa suposição que, caso haja a invasão pelos norte-americanos, Jair Bolsonaro poderá – e é quase certo que o faria – ir à guerra contra a Venezuela!

Leio e interpreto suas palavras, por isso deixo de lado as aspas.

Jair Bolsonaro disse, nas linhas e entrelinhas, o seguinte: – A decisão de participar da invasão será minha, que, na qualidade de presidente da república, antes de invadir vou ouvir o Conselho de Defesa Nacional e depois o Parlamento Brasileiro para tomar a decisão de fato, de invadir.

A simples possibilidade aventada pelo presidente de decidir invadir a Venezuela, ainda que, antes, submetendo o assunto à por ele esperada cumplicidade do Conselho de Defesa Nacional e do Parlamento, é suficiente para que seu afastamento seja imediatamente cogitado e executado.

Se não estamos vivendo sob um governo de loucos e de burros, ou de burros malucos, alguém me acorde!

Sei que Bolsonaro não terminará o governo – renunciará ou será deposto.

Seja qual for a opção, que se faça rápido, antes que nos enterremos até o pescoço em suas idéias absurdas, estapafúrdias e perigosas.

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BURACO NEGRO DOIS

E duro, eu dizia.

Dunas e mais dunas, areia por todo lado, camelos que perambulam aspirando o deserto de idéias, beduínos com a cara do Omar Shariff vestidos dos pés à cabeça neste calor tórrido, eu, de sunga e havaianas, perscrutrando, perscrustando, prescutando ou sei lá o que à procura de alga, digo, água, estou ficando confuso pela insolação, quando vejo, enfim, um oásis.

Certamente é miragem. Corro e pulo sobre a água, esperando rolar sobre a areia da imagem imaginária, mas caio de barriga no precioso líquido azul que me mata a sede.

Isso não interessa tanto, quero o wi-fi. Quede o wi-fi? Berro.

Um beduíno me responde deixa de ser doido, tás vendo alguma torre? Não queremos torres aqui, não me torres com o fim do acento diferencial que não faz falta alguma, assim como as torres.

Oquei, respondo, e desmaio.

Acordo com uma senhora da caravana rezando sobre mim.

Pergunto do Brasil, ela me diz que ninguém sabe nada e que estão todos preocupados com Bolsonaro, digo, ela diz, com a a estabilidade mental dele.

Ela me diz que votou nele e que continua tendo muitas esperanças. Como eu, ela quer notícias, das quais há dias estamos privados e que só teremos quando vencermos dunas e mais dunas de areia interminável.

Ela põe a mão no coração e me diz:

– Rezei tanto! Rezei muitas vezes e rezei mais quando Lula foi nomeado para ser ministro de alguma coisa, acho que da Casa Civil, ia ser um desastre, mas minhas orações foram ouvidas.

Finjo de morto, para não ouvir mais, mas ela continua.

– Oramos juntos, um grupo consciente, para que o Brasil não virasse uma nova Venezuela. E tenho certeza de que nossas preces fizeram a diferença. Eu não consigo compreender uma coisa: nós temos muitos amigos de grande cultura, juízes, advogados, jornalistas, que deveriam saber das coisas, são pessoas consideradas inteligentes, mas… como podem querer isso para o nosso Brasil?!

Olho para os lados, só areia, não tenho para onde fugir. Talvez pudesse pelo menos comê-la, mas tornou-se inviável qualquer possibilidade de tesão .

Enchi o cantil de água. De cantil e saco cheios continuei minha jornada seguindo a caravana, enquanto cães ladravam, ladravam e ladravam porcarias, uivando pela liberação geral das armas e pelo isolamento dos viados em um lugar inacessível da floresta amazônica, menos os amigos do presidente, que seriam não só poupados como nomeados para algum ministério de pouca importância.

A esperança de encontrar uma torre me dá forças e sigo em frente.

Notícias! Notícias! Lula está solto?

O governo caiu?

Tão cedo não saberei e essa ignorância me mantém firme.

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