GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

PEQUENA HISTÓRIA DA (QUASE) REPÚBLICA SOCIALISTA DE ITAPETIM

No período do governo militar, mais precisamente entre 1967 e 1977, o Brasil se tornou um barril de pólvora com vários grupos de esquerda organizando ações por todo o Brasil. Muitos comunistas foram enviados a Cuba, China e União Soviética para receber treinamento em guerrilhas urbanas e rurais, e ao retornarem ao Brasil espalharam focos de multiplicação da ideologia marxista-leninista, com o objetivo de criar um clima propício para a tomada do poder, tomando como base as vitoriosas revoluções cubana e chinesa. O movimento de guerrilha rural que ficou mais conhecido, embora só tenha sido divulgado para o grande público brasileiro após a redemocratização, foi a do Araguaia, organizado pelo PCdoB na região de Marabá e Xambioá, nas margens do Rio Araguaia, no limite dos estados do Pará, Maranhão e Goiás, hoje Tocantins. Vários militantes comunistas vieram de vários locais do Brasil e se passavam por pessoas comuns que foram para a região em busca de novas oportunidades. Lá os médicos consultavam, outros abriram pequenas bodegas, lecionavam, plantavam e divulgavam de leve seus ideais comunistas entre a população miserável e analfabeta, explorada por proprietários de terra e políticos da região. Estava formada a Guerrilha do Araguaia, que só seria debelada pela luta armada com o exército brasileiro. Um dos primeiros presos no Araguaia foi José Genoíno, ex-deputado federal pelo PT. Pelo lado dos militares que atuaram no combate a guerrilha, o mais famoso foi o Major Curió, também ex-deputado federal pelo PDS.

1. Militares desembarcando na área do conflito 2. José Genoino preso; 3. Guerrilheiros mortos

Longe do Araguaia outro grupo de comunistas se instalava em Pernambuco na divisa com o estado da Paraíba, na cidade de Itapetim, mas precisamente no povoado de São Vicente. Não podemos falar de grupo, visto que só se tem noticia de um comunista, podendo ter havido outros, pois a regra era esta em outras regiões, eles se passavam por desconhecidos entre eles, mesmo morando próximos. O militante de extrema esquerda que veio para a região das cabeceiras do Rio Pajeú foi João Leonardo da Silva Rocha, conhecido no local como ‘Zé Careca’, ex-funcionário do Banco do Brasil e professor de inglês e latim. No final dos anos 60 ficou preso no DOPS por ser integrante da ALN. É suspeito de ter participado do assalto ao trem pagador em Jundiaí e de ser um dos assassinos do militar americano Charles Chandler. Foi solto e expurgado do Brasil para o México em troca do embaixador americano Charles Elbrick, que havia sido sequestrado por militantes de esquerda. Em 1971 entrou clandestinamente no Brasil com outros militantes, entre eles o ex-ministro José Dirceu, e criaram a MOLIPO, Movimento de Libertação Popular.

Treze terroristas libertados em troca do Embaixador americano Charles Elbrick. José Dirceu é o segundo de pé e João Leonardo (de bigode) o primeiro agachado.

João Leonardo foi morar no sítio Baixio, onde comprou um pequeno terreno, a cerca de 2 km do povoado de São Vicente, já perto da divisa com o município de Livramento no estado da Paraíba. Casou-se com uma viúva, Dona Virgínia, proprietária de um bar no povoado. Dona Virgínia morreu em 1990 sem saber do histórico revolucionário do ex-esposo. Eu visitei o local em 2011, junto com meu irmão Cil Mascena e o primo Aguinaldo Pires, fomos no sítio Baixio e entramos na casa em que morou Zé Careca, junto com alguns moradores da vizinhança, que conviveram com o guerrilheiro sem saber da história de Zé Careca, mas me disseram que já estranhavam alguns costumes do forasteiro, como escutar rádio em inglês, dizia que não entendia nada, mas as vezes comentava algo que o locutor falava. Outro fato que eles me contaram foi que João Leonardo sempre matava bode e convidava os vizinhos para comer, mas seu rebanho não diminuía, muitos anos depois souberam que era carne de cachorro.

Eu visitando a casa de Zé careca no Sitio baixio

No povoado encontramos com o dono da farmácia, o qual não me-lembro o nome, que era filho de dona Virgínia, viúva de Zé Careca. Ele disse que Zé Careca conheceu a mãe dele frequentando o bar, tratava muito bem os enteados e costumeiramente viajava dizendo que ia para São Paulo visitar a família e trazia pequenos presentes para os enteados. Ele lembra que certa vez uma peça da máquina de costura da mãe quebrou e ela pediu para Zé Careca comprar, ele trouxe a peça em um papel de embrulho com o nome de uma loja de São Paulo, mas o tempo que ele passava viajando era muito pequeno para este deslocamento naquela época. Depois José Dirceu disse que se encontrava com ele em Arcoverde regularmente para trocar informações. Em um dia da feira de São Vicente em 1975, em uma sinuca, houve uma briga e chamaram a polícia de Itapetim, neste interstício Zé Careca chegou para jogar sinuca e quando viu 2 policiais descendo do jipe e se dirigindo para o bar, correu por trás e fugiu para o sítio, chamou a esposa, deu o terreno a ela dizendo que precisava fugir, foi para Sumé na Paraíba e de lá viajou para o interior da Bahia, onde foi morto em confronto com a policia militar em Palmas de Monte Alto, algum tempo depois.

Entrevista com o então Ministro José Dirceu e a ex-guerrilheira Ana Corbisier

Na pracinha do povoado tem um monumento que homenageia Zé Careca. O então ministro José Dirceu visitou o lugar em 2011 e afirmou que estaria colhendo informações para fazer um filme em homenagem ao guerrilheiro amigo, porém este documentário nunca foi concluído.

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OS SANTOS QUE BOTARAM LAMPIÃO PRA CORRER

Antes de iniciar esta história, gostaria de lembrar que este texto não tem nenhum fundamento científico por ter sido baseado em várias fontes da internet, muitas destas não foram checadas a sua veracidade, mas a verdade é que ocorreu mais ou menos assim.

Em 13 de junho de 1927, Lampião e seu bando invadiram a cidade de Mossoró, Virgulino foi contra seu próprio ensinamento que dizia que “cidade com mais de duas torres de igreja não é lugar para cangaceiros”, Mossoró tinha quatro. No inicio de 1927 o grupo de Lampião sofreu uma grande baixa, Antonio Ferreira, irmão de Lampião, morto acidentalmente em Tacaratu pelo cangaceiro Luiz Pedro. Os cangaceiros, liderados por Jararaca, fizeram alguns saques a cidades do estado de Pernambuco, depois o bando decidiu mudar de estado. No dia 15 de maio o grupo ataca Uiraúna, na Paraíba, com 35 cabras, mas foram rechaçados pelos 15 homens da policia local, e seguiram rumo ao Rio Grande do Norte. Em Luiz Gomes se incorporou ao bando o cangaceiro Massilon Leite, e seguiram rumo a Mossoró, cidade próspera, com Banco do Brasil e um povo pacato, segundo Massilon, que era o guia do bando no estado potiguar. Atacaram várias cidades e fazendas por onde passaram. Na Fazenda Nova não pouparam nem o Coronel Joaquim Moreira, padrinho de Massilon, que foi sequestrado. Em Aroeira, hoje Paraná, a Senhora Maria José foi levada como refém.

1. Lampião e Antonio Ferreira, 2. Nenen e Luiz Pedro 3. Casa que morava Massilon em Luiz Gomes (RN)

Lampião sabia do risco de invadir uma cidade do porte de Mossoró, mas incentivado por Massilon, que havia invadido Apodi com apenas seis homens, seguiu o programado. Nesse deslocamento o bando desviava das cidades e estradas mais movimentadas, para poupar homens e munição. Já em 10 de junho atacaram a Vila Vitória, só escaparam as casas que tinham fotos de Padre Cícero. Esse ataque a Vila Vitória fez a polícia potiguar se preparar para uma resposta, e em Marcelino Vieira teve um combate com uma morte de cada lado, o cangaceiro Azulão e o soldado José Monteiro, este último é considerado herói no lugar. “Quando acabou a munição os outros foram embora, mas ele disse ‘eu morro, mas não corro!’ e morreu lutando.”, contou Seu Pedro, morador local, ao G1. Já no dia 12, atacaram Umarizal e chegaram ao povoado São Sebastião, hoje Governador Dix-Sept-Rosado (os moradores locais falam “Dissé Rosado”) onde saquearam o comércio, queimaram um vagão do trem, e ao deixarem o local cortaram os fios do telégrafo, mas era tarde, nos fios já haviam seguido as mensagens do ataque para a estação de Mossoró. Quando a noticia chegou a Mossoró, o mensageiro correu até uma casa onde estava ocorrendo uma comemoração pela vitória do Humaitá, time de futebol local. A princípio acharam que era boato plantado pelos torcedores do Ipiranga, time derrotado, para acabar com a festa, mas mesmo assim findaram a farra e começaram os preparativos.

1. Massilon 2. Homenagem ao soldado José Monteiro em Marcelino Vieira 3. Equipe do Ipiranga de Mossoró

Em 13 de junho, após varias tentativas de se evitar o combate por parte do Capitão Virgulino, ele mandou este ultimato rabiscado de próprio punho: “Coronel Rodolfo. Estando eu até aqui pretendo dinheiro. Já foi um aviso aí para os senhores. Se por acaso resolver me mandar, será a importância que aqui nos pede, eu evito a entrada aí. Porém, não vindo essa importância, eu entrarei até aí, pensa que a Deus querer eu entro e vai haver muito estrago por isto, se vir o doutor. Eu não entro aí, mas me resposte logo. Capitão Lampião.” O prefeito atendeu um pedido do cangaceiro, foi ligeiro na resposta, mas quanto ao dinheiro foi inflexível: “Virgulino Lampião: Recebi o seu bilhete e respondo que não tenho a importância que pede; o comércio também não tem. O banco está fechado, pois os seus funcionários se retiraram daqui. Estamos dispostos a suportar tudo que o senhor quiser fazer contra nós. A cidade confia na defesa que organizou. Rodolfo Fernandes, prefeito.” Foi escolhido o Tenente Laurentino para preparar toda a logística. Em vagões de passageiros e de cargas, as mulheres, crianças e idosos foram despachados para Areia Branca, cidade portuária vizinha. Na cidade, montaram 23 trincheiras, as torres das igrejas eram as principais, o prefeito recusou reforço na defesa da sua residência. Os mossoroenses se espalharam com armas pelas trincheiras e quando os cangaceiros cruzaram a ponte da linha férrea, começou a chuva de balas, que duraria por cerca de quarenta minutos, ao final os bandoleiros bateram em fuga, o cangaceiro Jararaca, que havia bebido demais no dia anterior, não conseguiu fugir, foi preso e enterrado vivo.

1 e 2. Mossosoenses preparados nas trincheiras; 3. Jornal com noticia da época; 4. Memorial da Resitencia de Mossoró

A cidade de Mossóró cultua esses guerreiros como os heróis da resistência, e na antiga estação de trem ergue-se o Memorial da Resistencia de Mossoró, que conta toda a história desta batalha de pessoas comuns que se juntaram para enfrentar bandidos perversos treinados para fazer o mal. Durante a fuga no sentido do Ceará, Lampião ainda comentou com os comparsas justificando a derrota: “da torre da igreja, até os santos atiravam na gente.”

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O AEROPORTO BRASILEIRO QUE FOI TERCEIRO MAIS MOVIMENTADO DO MUNDO

Se eu lhe perguntasse qual aeroporto brasileiro nos anos 80 ficou em terceiro lugar no mundo, em número de pousos e decolagens, você certamente iria chutar um dos grandes de São Paulo (Guarulhos ou Cumbica) ou do Rio de Janeiro (Santos Dumont ou Galeão), correto? Errado, estes ficaram longe desta posição. Este aeroporto que eu falo não está nem em uma capital de estado ou outra grande cidade, e sim em Itaituba, cidade no interior do Pará na margem esquerda do Rio Tapajós no meio da Floresta Amazônica, longe de tudo. Com uma malha rodoviária mínima, o transporte aéreo concorria apenas com o fluvial, muito lento. Nesta época o aeroporto registrava 400 pousos e decolagens diárias durante o dia, já que o equipamento não tinha sinalização para operações noturnas, para se ter uma noção deste número, em 2017, o aeroporto de Guarulhos, o mais movimentado do Brasil, registrou uma média de 750 operações, menos do dobro que ITB (código do aeroporto de Itaituba) registrou 30 anos antes. Naquela época, o ITB foi primeiríssimo lugar mundial em número de pousos e decolagens de aeronaves monomotoras, esta marca nenhum outro se aproximou até hoje, nem mesmo o próprio.

1. Fila de aeronaves aguardando a vez para decolar; 2.Tráfego de veículos e pessoas na pista; 3. Decolagem em um garimpo

Itaituba fica em uma região do Pará com poucas estradas e com centenas de pequenos garimpos espalhados pela mata, a procura por voos para este deslocamento era grande. O movimento de taxis-aéreos e aviões clandestinos era de domingo a domingo, 12 a 13 horas por dia. O preço da passagem era calculado de acordo com o peso, somava-se o peso do passageiro com a sua bagagem, em uma balança daquelas de pesar cereais. A bagagem incluía roupas, ferramentas e outros utensílios dos garimpeiros e era conhecido na aviação local como “borroca”. As pequenas aeronaves tinham apenas as poltronas da frente, as demais eram retiradas para caber mais bagagens e pessoas, era um pau-de-arara voador. O preço variava de acordo com a distância, e quanto mais distante, menos peso o avião cabia, pois tinha que transportar mais combustível para a volta, o que encarecia mais ainda a passagem. Para aumentar o lucro, os pilotos colocavam excesso de peso e os acidentes se multiplicavam. Esses aviões não tinham ar-condicionado, e no calor da Amazônia, o controle da temperatura interna era feito tirando ou colocando a camisa. Ao chegarem nos garimpos, o pouso tinha que ser feito na primeira tentativa, pois a especificação da aeronave não incluía arremetida com aquelas quantidade de peso.

1. Pilotos e uma aeronave na pista; 2. Avião decolando de ITB; 3. Piloto mostrando o interior de um monomotor.

Numa época com pouca exigência e fiscalização de aviões, um aeroporto distante dos grandes centros e dos órgãos fiscalizadores era um verdadeiro caos, o controle era feito pelos próprios pilotos na hora da aproximação, mas com o número de aeronaves prontas para pousar ou decolar, o risco de acidente era grande. Imagina como ficava congestionada a frequência de rádio 125.80 mhz usada por eles. Em 1983 um Cessna pousou sobre outro Cessna, ninguém saiu ferido. Os acidentes eram normais, muitos voos decolavam e não retornavam para Itaituba, a selva era um cemitério de pilotos e passageiros mortos em acidentes, outros conseguiam ser resgatados. Muitos dos pilotos não tinham nem brevê, que é a licença para voar. Há relatos de pilotos menores de idade e outros que não conseguiam tirar a licença para voar por não saberem ler, em Itaituba tinha empregos para todos.

1. Duas aeronaves Cessna pousadas uma sobre a outra; 2. Avião da MAP no novo ITB; 3. Venda de passagem pela internet

Hoje o aeroporto de Itaituba está muito diferente, tem voos regulares para Belém, Manaus, Altamira e Parintins através das aeronaves ATRs da empresa MAP, mas a presença marcante na pista de decolagem ainda é dos pequenos aviões monomotores, transportando garimpeiros, prostitutas e comerciantes, que embarcam em um terminal climatizado, com lojas e praça de alimentação. Ganhou em conforto, mas perdeu o glamour de ser o terceiro aeroporto mais movimentado do planeta.

Reportagem Record

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SERTÂNIA: O MEIO DO CAMINHO DO TREM

Nos anos 50 e começo dos 60, Sertânia era uma espécie de capital do Moxotó e Pajeú no sertão pernambucano, atraia gente de todas as redondezas por causa dos serviços que oferecia, tinha Banco do Brasil e Banco do Nordeste. Etelvino Lins, ex-governador de Pernambuco por duas vezes, era filho da terra. As cidades da região tinham linhas regulares de lotações para Alagoa de Baixo, antigo nome da cidade. Em 1933, já havia chegado o trem, Sertânia ficou ponta da linha por oito anos, até a inauguração da estação de Albuquerque Né, em 1941, onde de lá o trem voltava “de ré” até Sertânia pra aprumar em um triângulo e retornar ao Recife, esse trecho que o trem andava para trás ocorreu até 1949, quando a linha chegou a Afogados da Ingazeira, outra estação com reversão para a locomotiva, esta em forma de pera.

Estação de Alagoa de Baixo e 2 tipos de “retorno” para trens

Alagoa de Baixo era a estação mais central da linha Recife – Salgueiro e era lá que acoplavam o vagão restaurante que seguia até Arcoverde onde desacoplava, após os passageiros terem almoçado, isso mesmo, no trem tinha um vagão que servia almoço, sobremesa, lanche e até cachaça. Outros antigos usuários da rede me disseram que o vagão seguia toda a viagem, em Sertânia ou Arcoverde embarcavam só a comida. Na composição tinha primeira e segunda classe, na primeira os assentos eram acolchoados e ficavam logo atrás da locomotiva, a segunda classe ficava depois do vagão-restaurante, e os bancos eram de madeira, dizia-se que os passageiros da segunda classe iam sentados no pau duro, e tome poeira levantada pelas composições dianteiras do trem. A estação sertaniense tinha oficina que só não era mais completa do que a de Edgar Werneck em Recife, lá tinha toda a estrutura para realizar serviços nas locomotivas e vagões, tinha até um dique e uma espécie de guindaste que levantava o conjunto para consertar ou trocar as partes rodantes.

1. O trem embarcando passageiros para Arcoverde; 2. Antigo dique e oficina; 3. Noticia do Jornal da Manhã sobre a inauguração da estação de Alagoa de Baixo

Entre os funcionários tinham muitos europeus, especialistas nas locomotivas eletro-diesel, “todas da marca General Eletric e fabricadas na Escócia. Um engenheiro escocês veio ensinar a manutenção das “azuis” aos mecânicos locais. As máquinas eletro-diesel eram todas azuis e eram chamadas eletro-diesel porque tinham quatro motores a diesel que moviam quatro geradores elétricos e estes moviam os motores elétricos da locomotiva – o sistema é o mesmo até hoje. Era um cara super engraçado, tomava uma cachaça danada (“Sarinho” era a preferida) e aos domingos se trajava à caráter para ir na missa. Já imaginou no início dos 1960, aquele cara de saia, paletó e gravata borboleta, dentro da matriz de Sertânia? Depois da missa passava o domingo todo na farra tocando uma gaita de fole, e tocava muito bem” me contou Gilberto Carvalho Moura, advogado afogadense filho de um ferroviário.

A chegada e a partida do trem em Afogados da Ingazeira nos anos 80:

O trem era a única opção de transporte coletivo para quem ia da região para a capital pernambucana até a chegada da concorrência da Leão do Norte, Realeza e Princesa do Agreste, os ônibus tinham diversos horários e eram muito mais pontuais. O trem da RFFSA atrasava demais. Contam uma história que um prefeito de Monteiro foi pra Sertânia pegar o trem para Recife, o horário da saída era 11 horas, mas o prefeito sabia dos atrasos habituais e se programou para chegar em cima da hora. Quando o carro do prefeito avistou a estação, já estava lá o trem apitando pra sair, foi um corre-corre danado, mas o prefeito conseguiu embarcar. Chegando lá dentro, cansado, comentou com outro passageiro: que milagre foi esse que o trem não atrasou? O passageiro respondeu: Tá atrasado sim, esse é o de ontem.

Imagens antigas de Sertânia: 1. vista aérea; 2. Ambulância; 3. prefeitura e 4. saída para Cruzeiro do Nordeste

A empresa Great Western, além das redes ferroviárias, deixaram muitos legados nesse nosso Nordeste, vários times de futebol foram formados pelos ferroviários nesse Brasil afora, trouxeram também muitas palavras que enriqueceram nosso vocabulário, como “galego”, por exemplo, que era os loiros que vinham da região da Gália na Espanha, conterrâneos de Asterix e Obelix. Outro termo trazido pelos trabalhadores na construção das linhas férreas foi “baitola”, este lá no Ceará, onde um engenheiro “inglesava” a palavra “bitola”, que é a largura da linha, como ele era afeminado, baitola virou sinônimo de gay.

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E A PONTE NÃO CAIU

Em 1960 um prédio foi inaugurado na Praça da Sé em São Paulo, com grande alarde pela imprensa paulista, um dos maiores edifícios do Brasil, o Edifício Mendes Caldeira, o monumental arranha-céu era propagado como o melhor negócio do Brasil. Sucesso de vendas, todas as salas foram comercializadas rapidamente e em 1961 foram entregues. O prédio novinho em folha era vizinho do Palacete Santa Helena, da década de 20, de influência art-déco e propriedade do ex-governador paulista Manuel Joaquim Albuquerque de Lins. Esses 2 prédios e outros menos famosos e mais baixos ficavam entre as Praças da Sé e Clovis Bevilaqua e no caminho do metrô que seria construído anos depois.

1 e 2. Propaganda e jornal da época da construção do Mendes Caldeira. 3. Praça da Sé antes da implosão do edifício

O metrô de São Paulo foi construído no inicio dos anos 70, porém após entrar em operação, passava próximo à Praça da Sé, mas não tinha estação no local. Em 74 começou a demolição tradicional, na marreta e trator, dos prédios entre as praças, ficando de pé só o Mendes Caldeira, que precisava ser implodido, e foi. A escolha deste arranha-céu pra implosão nunca ficou bem explicada, falava-se de desvio de dinheiro e erro na construção e até uma falha geológica abaixo do prédio, que poderia causar o seu desmoronamento a qualquer momento. No dia 16 de novembro de 1975, um domingo, as 36 mil toneladas do Mendes Caldeira viraram metralha. A implosão virou atração turística, São Paulo queria ver, e em apenas 9 segundos o prédio foi abaixo.

1. Mendes Caldeira com o Palacete ao lado. 2. Palacete Santa Helena recém-construído. 3. Antes e depois da implosão, com o arranha-céu sendo substituído pelas palmeiras imperiais.

Em 1975 houve uma grande cheia no Rio Capibaribe que inundou o Recife, correu-se um boato que a Barragem de Tapacurá iria estourar, foi uma tragédia na cidade, muito prejuízo, mais de uma centena de pessoas morreram. Quando as aguas baixaram, iniciou-se um conjunto de obras para evitar novos alagamentos, uma das ações seria o alargamento da calha do Capibaribe, mas no bairro da Torre tinha uma ponte que atrapalhava o projeto, foi ai que surgiu a ideia: a ponte seria implodida, o Recife precisava alargar o rio e precisava também de uma implosão para entrar na era da modernidade que São Paulo já havia entrado.

Cheia do Capibaribe em 1975

“Foi ai que chamaram uma empresa paulista para implodir a Ponte da Torre. Na data programada para a primeira implosão em Pernambuco, deu TV transmitindo ao vivo e torcida organizada. Na hora exata, o engenheiro, um japonês, responsável pelo grande evento, autorizou a implosão. As bombas foram detonadas, os recifenses que assistiam em loco ou pela TV aguardaram apreensivos o baixar da fumaça, mas quanto se dissipou, a ponte continuava no mesmo lugar, invicta, como, aliás, até hoje está. A implosão virou piada, e acabou num frevo-canção intitulado “E a ponte não caiu”, de Mario Griz, interpretado por Beto de Paula. A Letra: Eu ri, Você também/ todo mundo riu/ a bomba estourou/ mas a ponte não caiu/ o engenheiro pela TV/ anunciava a nova implosão/ E a galera na beira do rio/ mandava o japonês/ para a ponte que não caiu.” Noticiou a Revista Continente de Fevereiro de 2003.

1. Ponte antiga da Torre na cheia de 1966. 2. Engenheiro japonês responsável pela implosão. 3. Implosão. 4. Ponte nova recém-inaugurada

O texto da revista Continente diz q a ponte até hoje está lá, mas na verdade a demolição foi feita manualmente e construída outra mais larga e maior no lugar, mas não importa, pois o Recife tinha feito a primeira implosão de uma via elevada da América do Sul.

Implosão do Mendes Caldeira

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UMA ATLÂNTICA NO SERTÃO POTIGUAR

A cidade de Petrolândia em 1988 teve que mudar de lugar, pois a antiga foi para o fundo da barragem de Itaparica, construída no Velho Chico com a finalidade principal de geração de energia, porém o lago não conseguiu submergir totalmente a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, esta igreja, com estrutura de concreto armado, nem havia sido totalmente concluída e já teve que encerrar quase que totalmente suas atividades eclesiásticas, eu digo “quase” porque se realiza missas e até casamentos, esporadicamente. Na verdade esta famosa igreja não era a matriz, nem sequer ficava na sede de Petrolândia e sim no povoado de Barreiras. A igreja principal, mais antiga e sem estrutura para ficar submersa, foi destruída pelas aguas alguns anos após a inundação.

Mas no Nordeste houve outro caso menos famoso de uma cidade que teve de mudar de local para dar lugar às águas de uma represa: São Rafael no Rio Grande do Norte, cidade na margem direita do Rio Piranhas que foi alagada em 1983 pela barragem Engenheiro Armando Ribeiro. O rio já tinha expulsado da sua margem a cidade de Carnaubais, também no Rio Grande do Norte, antes da construção da barragem, devido às cheias que produzia nos períodos chuvosos. A bacia do Rio Piranhas-Açu é a maior das terras potiguares e da Paraíba, maior até que a do rio que nomeia o estado da capital João Pessoa.

A gigantesca barragem Armando Ribeiro cobriu também a linha do trem que seguia de São Rafael para Jucurutu e possivelmente até Caicó, vinda de Natal, este trecho nunca foi usado e não achei notícia sequer da estação em Jucurutu, mas os trilhos foram colocados. Talvez por já existir o projeto da represa, o projeto de ligação férrea foi abandonado. Já na inauguração da barragem, o trem não chegava mais nem a São Rafael, mas por causa da baixa procura que assolou todos os outros trechos ferroviários no interior do Nordeste.

Uma nova São Rafael foi construída a cerca de 4 km da antiga com uma nova igreja. Para diminuir a saudade dos fiéis, a nova igreja era exatamente igual à antiga, isso mesmo, construíram uma réplica. Após o fechamento das comportas da Armando Ribeiro, a cidade inteira foi submersa, a torre da igreja era a única construção da velha São Rafael que podia ser vista quando o lago estava cheio e virou atração turística, dividindo com fosseis de mastodontes, preguiças e tatus gigantes a página destinada a cidade no site da Secretaria de Turismo do RN. A torre da matriz resistiu bravamente por quase 3 décadas ao sobe e desce do nível da água, mas em 17 de dezembro de 2010, já bastante danificada pela ação do tempo, a torre ruiu.

“Segundo a turismóloga Jane Santos, o desaparecimento da torre ocorreu por volta da meia-noite da quinta para sexta e foi ouvida por pescadores. “Algumas pessoas ouviram um barulho, mas não imaginaram que se tratava da torre da igreja velha”, disse. A notícia abalou a cidade, que tem no turismo um dos seus potenciais financeiros. Embora possua muitas outras belezas naturais, a torre da igreja, perdida no meio das águas do açude, era um dos lugares mais visitados da cidade, que mantinha um passeio de barco em sua volta, enquanto um guia turístico contava a história da transição da cidade antiga para a cidade nova”, publicava o blog Focoelho.

Hoje o site da SETUR-RN continua a divulgar a atração da igreja, mas para quem se atreve a fazer o mergulho com guias locais.

Vídeo do fantástico sobre Petrolândia

Video da TV Ponta Negra sobre a velha São Rafael.

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FELICIANO, DO CAROÁ AO ÁRIDO MOVIE

Feliciano fica na margem da BR 232, município de Sertânia, no início do Sertão pernambucano, entre Arcoverde e Custódia, na beira do riacho que dá nome ao lugar, com muitas ruínas grandiosas para um pobre Sertão nordestino de 70 a 80 anos atrás. Quem passa vexado, de carro ou ônibus, nem percebe o valor histórico que tem o Feliciano, nem observa uma igreja sem torre nem sino e um posto de gasolina abandonado com a coberta de concreto armado, pois saiba que lá já foi um importante ponto de apoio de quem seguia sertão adentro, além de um produtivo entreposto de caroá, matéria prima na fabricação de corda em uma época que não existia o nylon.

Lembro-me quando criança, na década de 70, umas poucas vezes que passei por ali, Seu Djalma Nogueira, meu pai, um ótimo contador de histórias desse Sertão da gente, me dizia que ali já teve um posto de gasolina e uma revenda de automóveis, eu não entendia bem porque uma loja de automóveis ali naquele esquisito, isso nunca me saiu da lembrança, e nesses 15 anos que trabalho na região fui buscando informações do lugar. Ali existia uma prensa para embalar a fibra de caroá, uma espécie de bromélia, também conhecida como gravatá ou caraoatá. Essa planta hoje tem valor medicinal, é um ótimo cicatrizante, inclusive usado no combate a úlceras, mas na época só tinha um valor: a fibra para fazer corda ou exportar.

A próspera indústria do Feliciano plantava, colhia, desfiava e embalava a fibra, que seguia pra Recife e de lá era exportada, pertencia a Armando da Fonte, cuja família ainda hoje atua na área de revenda de veículos (GM Dafonte em Caruaru, Recife e Fortaleza) e outras empresas famosas como Brilux, Minhoto e Espirais Sentinela, esta última só os mais velhos ouviram falar. Com o tempo veio a decadência do caroá e a empresa foi vendida a outra família sertaniense que tocou o negócio até o seu fim, na década de 60 ou 70, quando a fábrica fechou de vez. Hoje, o que está de pé, é sede de uma fazenda de criação de bodes.

Nas fotos vemos algumas casas dos moradores, a capela, a prensa, o posto de combustível e o hotel e restaurante da época, hoje com a inscrição “Bar e Rest. Catimbau”, esta inscrição e o ambiente interno do Restaurante Catimbau não têm nada a ver com o período de ouro do caroá e sim com o filme Árido Movie, do pernambucano Lírio Ferreira, com Selton Mello, Matheus Nachtergaele e Jose Dumont, que foi gravado por essas bandas em 2006, mas ai já é outra história.

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JÁ OUVIU FALAR NA ILHA DE SANTA HELENA E DO BRASILEIRO QUE SALVOU UM AEROPORTO?

Santa Helena é uma ilha vulcânica no Atlântico Sul entre o Brasil e a África, conhecida por servir de prisão para Napoleão Bonaparte até a sua morte, a casa em que viveu e o seu túmulo são atrações aos visitantes. O isolamento criava uma atmosfera perfeita e natural para exilar adversários políticos da coroa, um príncipe zulu, bôeres sul-africanos e 3 príncipes do Bahrein também visitaram a ilha involuntariamente. É lá que vive o animal terrestre mais velho do planeta, um jabuti de 175 anos (foto). Tinha tudo para virar um importante destino turístico, mas como, se lá não tinha aeroporto?

A ligação entre a ilha e a África do Sul, país que tem fortes laços com Santa Helena pelo fato de ambos pertencerem à comunidade britânica, era feita exclusivamente via marítima, um navio levava e trazia pessoas e mantimentos uma vez por mês, a viagem durava 5 dias.

Como a ilha tem um relevo montanhoso, construir um aeroporto despenderia muito dinheiro e sempre foi deixado de lado, até que uma empresa teve a ideia de construí-lo no único lugar plano de Santa Helena, próximo a um penhasco de mais de 300 metros de altura. Pra se construir esse aeroporto, tiveram que antes construir o porto para desembarcar as máquinas e materiais necessários a essa construção, já que o que tinha era pequeno, o que tornou o aeroporto ainda mais caro. Depois de pronto, deu-se conta de outro problema: com rajadas de ventos laterais constantes e uma pista de pouso pequena, ficava impossível de se pousar um grande jato como Boeing ou Airbus, e os aviões pequenos não tinham autonomia para ir e retornar até o continente africano, a solução era abandonar tudo e voltar para o transporte naval mensal, que já estava sendo desativado, e esquecer o turismo, mas um brasileiro salvou tudo: o jato Embraer E190.

Uma equipe da fábrica brasileira (foto) foi até Santa Helena (via Recife), fez os testes e aprovou a operação. “Agora não dá mais para desistir”, as palavras do Comandante Cará ecoaram estoicamente pelo interior do Embraer E190, assim que decolamos do Brasil. Só então parei para pensar com lucidez sobre o que nos aguardava: uma pequena ilha vulcânica no coração do Atlântico Sul. Nos desfiladeiros dessa ilha, um “aeroporto fantasma”. Rondando o aeroporto, ventos inclementes”, publicou o site da Embraer.

O teste foi um sucesso e de cara a empresa aérea sul africana Airlink comprou duas aeronaves. O primeiro voo foi festa na comunidade. Hoje a ilha conta com um voo semanal para Johanesburgo na África do Sul. Se interessou em conhecer? As passagens de ida e volta para Johanesburgo custa cerca de R$ 5.000,00 por pessoa e dura menos de 5 horas.