GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

EDIFICIO HOLIDAY, UMA FAVELA VERTICAL NO CORAÇÃO DE BOA VIAGEM

Eu morei no bairro de Boa Viagem na década de 1980, sempre passava por perto do Edificio Holiday e via aquela beleza não preservada da arquitetura modernista. Construído nos anos 50, quando o bairro ainda tinha muitas casas de veraneio de quem morava no Centro do Recife e queria ficar o final de semana na bela praia, com grandes ondas na maré cheia e piscinas naturais na maré baixa. Antes da chegada dos edifícios, Boa Viagem já tinha pequenos prédios e muitas casas.

Casa Navio, demolida no anos 80

O empresário rubro-negro Adelmar da Costa Carvalho (dá nome ao estádio da Ilha do Retiro), viajou no navio Queen Elizabeth e gostou tanto, que mandou construir uma casa com o formato do famoso navio, tinha até cabine de comando. A casa foi demolida e deu lugar a um moderno edifício. Outra casa imponente na beira-mar levou mais sorte, o castelinho, que deu lugar a dois espigões, só que no seu quintal, e a casa é o salão de festa do condomínio.

Castelinho, “escondido” na frente de dois espigões

Nos anos 50 foram construídos três grandes prédios: California, Acaiaca e Holiday. O Acaiaca na beira mar, foi adquirido por muitas famílias de aposentados que queriam uma vida mais tranquila, longe do barulhento centro, Os apartamentos do California foram vendidos para serem usados como casa de praia, e numa época que não existiam motéis, passaram a preencher essa lacuna. O California tinha uma boate no seu térreo e a frequência não convencional afugentou as famílias tradicionais, mas nos anos 90 o condomínio implantou umas normas rígidas de entrada e saída na portaria, o que fez com que o prédio voltasse a ser residencial, mas o Holiday não levou a mesma sorte.

Perspectiva do projeto arquitetônico do Edificio Holiday de 1955

Esse edifício foi um dos primeiros arranha-céus construídos em Boa Viagem, foi usado sempre para fins não nobres, os primeiros proprietários usavam para encontros casuais fora do casamento e assim esse gigante viveu seus 60 anos de vida, como ponto de referência de prostituição. O Holiday era presença constante nas páginas policiais, roubos, tráfico de drogas e assassinatos eram os temas, e os preços dos apartamentos caiam drasticamente, atraindo pessoas de baixa renda, sem condições financeiras de manter os altos custos de manutenções e reformas. O prédio foi se deteriorando a ponto de ser considerado pelo corpo de bombeiros, o local que oferecia mais riscos aos seus moradores, houve até CPI para interditar toda a edificação. Para se ter uma ideia a que ponto chegou, kitnet no edifício era oferecido por menos de trinta mil reais, em um local onde um apartamento de três quartos passa facilmente de um milhão.

Imobiliária oferece kitnet por um preço bem convidativo

Ligações clandestinas de água e luz, colunas e vigas com as ferragens expostas e corroídas, elevadores sem portas e muitas reclamações fizeram com que a justiça mandasse desocupar todo o prédio por questão de segurança, e assim foi feito. O futuro é incerto, poderá ficar interditado por tempo indeterminado ou reformado pelo poder público, mas o mais provável é que seja demolido e dê lugar a mais duas torres da Moura Dubeux, onde cada metro quadrado é quase o mesmo preço de todo o apartamento do atual Holiday.

Em 22 de março de 2019 eu fui dar minha corrida na praia e ver a desocupação do prédio

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O CORONEL FRANCISCO MIGUEL E O PADRE QUE AMALDIÇOOU A INGAZEIRA

Em um domingo de 1878, a igreja da Ingazeira se preparava para a primeira missa do novo pároco, o anterior tinha fugido para o Recife após muitas desavenças com o chefe político local. Já perto do início, chega um recado para que o Padre Pedro Pereira atrasasse o horário da missa, pois o Coronel Francisco Miguel tinha acabado de chegar da sua fazenda e estava “descansando o corpo e esfriando os pés das botas”, o padre não obedeceu a ordem e iniciou a celebração. Lá pras tantas, o Coronel Chico entra nervoso com seu cavalo na igreja e decreta o fim da missa. O Padre Pedro Pereira, que havia sido transferido de Afogados, não aceitou a desfeita e retornou imediatamente para o então povoado.

Evolução cronológica das divisões políticas do Vale do Pajeú:

Ingazeira é uma simpática cidade do Pajeú, encravada em uma ótima localização, pois fica no centro das três maiores cidades do Alto Pajeú: Afogados, Tabira e São José, porém recebeu essa maldição do Padre Pedro, que ao sair da cidade para Afogados tirou os sapatos batendo-os um no outro para retirar toda a terra do solo ingazeirense. Na verdade o Padre Pedro possuía terras e gado em Afogados, na época povoado de Ingazeira, e não aceitou com muita boa vontade a mudança de cidade, e na primeira oportunidade transferiu a sede da paróquia para Afogados. O Coronel não gostou da mudança e passou a saquear a feira de Afogados, afugentando a população, que passou a frequentar as feiras do Espírito Santo (hoje Tabira) ou Bom Jesus (Tuparetama). Um fato interessante é que Tuparetama, Tabira e Afogados já pertenceram a Ingazeira e vice-versa, Tabira quando se desmembrou de Afogados levou Ingazeira e Tuparetama no seu território, posteriormente Tuparetama se desmembrou de Tabira e ficou com o distrito de Ingazeira que foi emancipada no ano seguinte.

Adolfo Rosa Meia-Noite e festa da 2ª emancipação política da cidade em 20/03/1963

O Tenente Coronel Francisco Miguel de Siqueira, mais conhecido por Coronel Chico tinha sua fazenda perto de Varas (hoje Jabitacá) e comandava a região com mão de ferro, expulsava e desapropriava injustamente pequenos agricultores, derrubando suas casas, aqueles que reagissem eram humilhados pelos jagunços liderados pelo cangaceiro Adolpho Meia-Noite. Ele não gostava que a missa começasse antes da sua chegada na igreja, mas sempre atrasava, o Padre Vasco Cabral d´Algonez fora varias vezes humilhado em frente aos fiéis pelo coronel, não aguentando esta situação fugiu para o Recife e não mais voltou para a Ingazeira, que ficou sem padre até a chegada do Padre Pedro Pereira.

Matriz de São José e entrada da cidade pela PE-283 (Fotos Osmano Mascena)

Com esse amaldiçoamento do Padre Pedro à Ingazeira, a cidade começou com uma onda de azar. Em 1878 o coronel Chico saqueou a feira de Afogados da Ingazeira e no retorno para casa cai do cavalo, quebra a clavícula que causa uma grande hemorragia e morre, no ano seguinte a sede da paróquia é transferida em definitivo para Afogados, depois desta data a cidade não se desenvolveu mais, tudo por culpa da praga jogada pelo Padre. A fama de valentia de alguns ingazeirenses também afastou investimentos e esvaziou a feira, que já foi uma das maiores da região, mas estes fatos não convencem aos moradores da Ingazeira, que culpam as más administrações sucessivas que ocorreram naquela freguesia como principal fator de estagnamento da cidade, que já teve mais de 7 mil habitantes há 150 anos e hoje conta com menos de 5 mil e leva o título da cidade menos populosa do Pernambuco continental.

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VELHOS TEMPOS, BELOS DIAS. A EPOPÉIA DA VIAÇÃO ITAPEMIRIM

Lá por volta de 1955 ou 1956 Roberto Carlos sentiu que Cachoeiro do Itapemirim havia ficado pequena para o seu talento, e viajou para o Rio de Janeiro, onde alcançou o sucesso conhecido de todos nós, eu pesquisei como foi feita esta viagem entre sua cidade natal e a adotiva, se de carona, trem, avião, carro próprio ou ônibus, mas não consegui descobrir. Nesta mesma época a Itapemirim entrava no ramo do transporte interestadual de passageiros com a linha Cachoeiro – Rio e pode ter sido numa destas pioneiras viagens que o rei embarcou rumo ao sucesso, e é desta empresa tão famosa quanto Roberto (pelo menos no interior do Nordeste) que eu vou falar hoje: A Viação Itapemirim.

Casa onde viveu Roberto Carlos em Cachoeiro do Itapemirim, hoje Museu

No dia 4 de julho de 1953 foi fundada a Viação Itapemirim no Espírito Santo, fazendo rotas dentro do estado. Sob o comando de Camilo Cola, começou com 22 ônibus e foi crescendo, passou a fazer viagens interestaduais para estados vizinhos e depois subiu para o Nordeste para concorrer com os caminhões paus de araras, que dominavam o transporte rodoviário de “paraíbas” para o sul maravilha. Camilo Cola era um visionário, não tinha só uma empresa de ônibus, tinha a Itapemirim, comandada de perto por ele, esposa e filhos. A família morava literalmente dentro da empresa, a casa dos Cola era no mesmo terreno da garagem, oficina e administração.

Camilo Cola e o logo zebrado com o “vi”

Em 62 a VI deixa de ser uma “ltda” para ser uma “SA”. No começo dos anos 70, Camilo Cola encomenda ônibus de três eixos, inéditos no Brasil, com mais conforto e muita propaganda. Para entrar na região Sul adquire a empresa Penha, e constrói pelo Nordeste uns pontos de apoio nas rodovias para que os passageiros pudessem fazer refeições e tomar banho, enquanto os ônibus eram limpos e abastecidos, era a Rede Flecha. Lembro que em 1978 fui com os meus pais e irmãos para Salvador e no caminho umas placas com um indiozinho informavam a distância do próximo ponto de apoio, na medida em que se aproximava, o curumim ia ficando mais alegre, eu com 11 anos de idade achava aquilo muito interessante.

Ponto de apoio Flecha em Vitória da Conquista:

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Na década de 80 a Itapemirim lança o Tribus, um três eixos mais confortável que os anteriores, e com o sucesso deste, cria a Tecnobus, e passa a fabricar suas próprias carrocerias. Neste período até meados dos anos 90 a Itapemirim atingiu seu auge, a principal concorrente no Nordeste, a São Geraldo, foi adquirida pela Gontijo que entrou com preços mais competitivos, mas sem o conforto e o “glamour” da Itapemirim, os ônibus da Gontijo tinham fama de sujos e fedorentos por causa da viagem de três dias sem higienização interna e externa. Muitos caminhões tinham escritos em seus para-choques: “Deus me livre das almas do purgatório e dos ônibus da Gontijo”. O grupo Itapemirim era muito forte, tinha revendas Mercedes Benz, Fiat, Toyota, gráfica, loja de pneus e até uma empresa aérea, a Itapemirim Cargo, ou ITA, que chegou a ter seis Boeings 727.

Aeronaves da ITA em Viracopos e Tribus 3ª geração, fabricado pela Tecnobu

Em 2006 Camilo Cola se elege deputado federal pelo Espírito Santo, em 2008 perde a esposa Ignez Massad Cola, originando uma disputa judicial entre os filhos adotivos Ana Maria e Camilo Júnior, ela reclamando que recebeu uma fatia menor da herança e ele alegava que esta era a vontade da mãe deixada em testamento. Com muitas dívidas, a empresa decide vender garagens, algumas linhas e a Penha, foi neste período que eu comecei a pegar carona vez por outra nos ônibus da Itapemirim entre Arcoverde e Tabira, e escutar a história dos nordestinos que moram no Sul e querem voltar pra terrinha, mas não podem, porque lá estão seus filhos com seus empregos, estudos ou namoradas, hoje a frequência das viagens é muito pequena e quando preciso me deslocar sem o meu carro, vou de lotação ou de Progresso e quem eu encontro lá? Os “paraíbas” com suas malas “ostentando” a etiqueta da companhia aérea na sua bagagem, desembarcam no Recife e pegam o ônibus para completar a viagem. Talvez a baixa dos preços das companhias aéreas tenha sido a última estação destes quase 70 anos da empresa que fez história, principalmente neste Sertão nordestino.

Um dos três ônibus da Itapemirim retidos em 2018 pela PRF de Caratinga por falta de licenciamento

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TRAGÉDIA NO PARAÍSO

A HISTÓRIA DA FAMÍLIA QUE MORREU DE SEDE NO ATOL DAS ROCAS

O Atol das Rocas é um conjunto de dois arrecifes circulares de coral no mar territorial brasileiro, a cerca de 144 km de Natal, é o único atol do Atlântico Sul. Ponto de muitos naufrágios por se tratar de uma região com pouca profundidade, o Atol das Rocas é apenas uma parte desta região que fica acima do nível do mar. O primeiro naufrágio data de 1503, apenas três anos após o descobrimento do Brasil, e se tornaram frequentes por muito tempo, até que em 1881 começou-se a construir um farol em uma das ilhas, a Ilha do Farol. Na outra ilha, a do Cemitério, eram enterrados os corpos das vítimas dos naufrágios.

Foto aérea do Atol das Rocas

A pouca altitude do atol, menor que a de uma pessoa, dificultava o seu avistamento pelos navegadores, para melhorar a visualização foram plantados coqueiros, que se mostraram ineficientes para este fim. A segunda ideia foi de implantar um farol, o projeto foi feito e o material de construção foi transportado até o atol, mas descobriu-se que a base não suportaria o peso do imenso farol, que seria o mais alto do Brasil até aquela data, e o material foi abandonado, as pedras ainda estão lá a vista. Em 1883 foi erguido um farolete improvisado, que precisava ser ligado e desligado todos os dias e pra isso era necessária a presença de uma pessoa: o faroleiro, que foi morar no local com sua família.

Ruínas do antigo farol, da casa e o novo farol automático

Para esta família foi construída uma casa de pedra com uma cisterna ao lado, lá não há fonte de água potável e alimentos só peixe e coco, a família dependia do abastecimento bimensal que fazia o barco da Marinha, mas as vezes este barco atrasava. O faroleiro João da Silva Saraiva, sua esposa e três filhos, nascidos no atol, quase morrem de sede, Saraiva colocou bilhetes dentro de garrafas e as-atirou no mar, enquanto aguardava a chegada do navio, fervia água salgada em uma panela que tinha como tampa um chapéu, quando o chapéu ficava úmido ele espremia em uma garrafa e deixava esfriar, ficou nesta pendenga até o dia que o bendito barco aportou.

Carta náutica antiga do Atol das Rocas

Já em 1913, outro faroleiro, o noronhense, Virgilio Francisco Ramos foi deixado na ilha com a sua esposa e não se acostumou com a alimentação restringida a ovos e peixes, após 15 dias seus organismos reclamaram do cardápio, angustiados fizeram uma sinalização de socorro com bandeiras a um barco inglês que passava por perto, o capitão lhe deu arroz, açúcar e conservas e levou uma carta com a reclamação. Imediatamente a Marinha mandou o navio Benjamin Constant com outros itens alimentícios, após alguns anos e já com duas crianças, decidiram deixar o Atol e retornar para Fernando de Noronha, chegando lá, as duas filhas contraíram doenças e morreram, não haviam desenvolvido imunidade para as doenças da civilização.

Resquícios de naufrágios

Antes disso, uma criança nascida no atol, filha do faroleiro, estava brincando e abriu a torneira do reservatório d’água, deixando escorrer até a última gota, ao ver a situação o faroleiro usou os meios de emergência para conseguir água, aparar a chuva do telhado da casa, mas se a chuva já é pouca na época de inverno imagina no período de seca, nada. Ele tentou o método de ferver água do mar, porém a quantidade produzida é muito pequena, além do mais o material para o fogo também é escasso. No desespero eles atearam fogo na casa para chamar atenção de alguma embarcação que transitasse por perto, até que um barco pesqueiro percebeu o pedido de socorro e foi fazer o salvamento, era tarde, ao chegar no atol, a criança e a esposa já haviam morrido e o faroleiro, que sobreviveu bebendo sangue dos pássaros, foi socorrido mas faleceu durante a viagem.

Base científica da ICMBio

Hoje o atol conta com um alojamento moderno, com eletricidade e internet para no máximo cinco pesquisadores ligados a alguma universidade brasileira ou instituto de pesquisa. A base conta com três alojamentos e uma pequena cozinha. Não há pia nem chuveiro, a louça é lavada com água salgada e areia, o banho é no mar. Os banheiros são dois, um de cada lado da Ilha do Farol: a própria praia, o papel higiênico é areia. O alerta de “ocupado” é no grito: “vou ao banheiro”, e assim se mantém a privacidade.

Documentário do Globo Reporter de 2004

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LUIZ GONZAGA, O SANTO QUE PAROU O TREM

A construção da ferrovia Transnordestina vem desde 2006 se arrastando no meio do sertão nordestino, entre os estados de Pernambuco, Ceará e Piaui. Com seus 1753 km de extensão, a ferrovia que custaria aos cofres públicos o valor de 4,5 bilhões de reais foi na última revisão em 2015 para 11,2 bilhões. Ligando os portos de Pecém no Ceará e Suape em Pernambuco aos centros de produção de grãos e derivados em Eliseu Martins no Piauí e ao polo gesseiro no Araripe pernambucano. Em 2016 os trabalhos pararam com pouco mais da metade da obra concluída. Há outro projeto de esticá-la até Porto Franco, no estado do Maranhão, onde fará ligação com a Ferrovia Norte-Sul .

Mapa da Ferrovia Transnordestina. O trecho verde é da obra já executada

Um grande trecho da malha já está pronto, ligando o nada a lugar nenhum, já que a grande parte do descarregamento dos vagões, se não a totalidade, se dará nos portos, e esta parte não está nem iniciada, o trecho pernambucano entre Gravatá e Suape ainda não tem nem a licença do Ibama liberada. O trecho pronto está entre Paulistana no estado do Piaui e Missão Velha no Ceará, seguindo até Custódia, nesse ponto a grande via férrea, com seus milhões de reais investidos, foi parada por uma capela no meio do nada, distante mais de 5 km do centro de Custódia, em um sítio com duas ou três casas próximas e um padroeiro totalmente desconhecido: São Luiz Gonzaga.

Igreja de São Luiz Gonzaga

Quem passa na poeirenta estrada rural pela frente nem percebe o prédio, a capela não é lá essas coisas, muito pequena, sem uma arquitetura que chame atenção, mas tem uma coisa que conta muito nessas edificações: sua idade. Construída no século XIX na comunidade quilombola do Carvalho, a igreja atravessou esses anos entre abandonos e reformas, o tempo não conseguiu derruba-la em quase 200 anos, nem o trem carregado de dormentes e brita. A terraplanagem para colocação dos trilhos já está pronta dos dois lados da igreja, com a frágil cerca de arame, que isola a capela, servindo de ponto de retorno das caçambas e retroescavadeiras. O consórcio de construtoras responsável pela obra até construiu outra capela igual, mas a população bateu o pé e não aceitou que derrubasse a antiga. Arqueólogos da UFPE comprovaram a presença de ossadas enterradas junto à igreja.

Fotos da época da construção, com as locomotivas prontas pra executarem seu serviço

“Quem pensa que a igreja abre caminhos pode até ter provas legítimas de que é verdade, mas a ‘fé’ do governo federal não deve funcionar muito bem, principalmente em Pernambuco. A obra da ferrovia Transnordestina é o retrato claro. A construção está parada por conta da Igreja São Luiz Gonzaga, que já virou famosa em Custódia por ‘travar’ o trem de passar. Há pelo menos dois anos, e desde então, não há oração que faça essa obra andar e quebrar a ironia de integrar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”, Publicou Geovani Sá no site Farol de Notícias em 2016.

Um manequim de loja é quem faz a segurança do canteiro em Salgueiro

A Transnordestina segue parada, e o tempo que não conseguiu afetar a singela capela de São Luiz Gonzaga está maltratando a imponente ferrovia. Vagões enferrujados, trilhos abandonados e erosão nos aterros mostram o zelo dos nossos governantes com o dinheiro do contribuinte, mas a igrejinha continua lá, como testemunha ocular dessa história.

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SANGUE NO PALÁCIO: A HISTÓRIA DO PADRE QUE MATOU O BISPO

No ano de 1938 chegou um padre novo em Tabira, a população em festa comemorou e recebeu o novo pároco: Padre Hosana de Siqueira e Silva. O Padre Hosana ficou na paróquia de Nossa Senhora dos Remédios por apenas um ano, criou muitos problemas na cidade com os fiéis, chegava atrasado nas missas e muitas vezes nem ia lá celebrar. Corria boatos que ele também tinha uma namorada na zona rural e sempre ia a cavalo visita-la e esquecia as obrigações eclesiásticas.

Foi acusado de ter vendido o ouro da igreja de Ingazeira e ficado com o dinheiro. Com as constantes reclamações, o deputado tabirense Pedro Pires Ferreira conseguiu devolve-lo à Diocese de Pesqueira, foi conduzido por um delegado de polícia por determinação do governador. Dom Adalberto, bispo de Pesqueira o “emprestou” imediatamente para a diocese de Garanhuns. Com a fama que tinha, ninguém o queria na sua cidade, era um garoto problema, só andava armado e tinha o pavio curto.

1 e 2. Igreja de Tabira em 1948 e 2010; 3. Igreja de Ingazeira PE

Chegando na diocese de Garanhuns, foi enviado para a paróquia de Belém de Maria, lá ele brigou com as freiras, com o pároco local e com os políticos, ficou mais uma vez sem paróquia, já havia sido expulso até do Rio Grande do Sul antes de assumir Tabira. Nesse período de “férias forçadas” comprou umas rezes com a venda do ouro de Ingazeira e começou a trabalhar com gado em Correntes, sua cidade natal, onde adquiriu uma fazenda. Dom Mário, bispo de Garanhuns, o chamou e disse que na sua diocese não tinha mais vaga para ele, mas o indicou para a diocese de Nazaré, onde foi recebido pelo bispo Dom Ricardo Vilela, com uma carta de recomendação e tudo mais. Dom Ricardo nomeou Padre Hosana para Vertentes, mas lá ele teve um atrito com um sacristão, então foi transferido para Timbaúba como cooperador, mas Padre Hosana não aceitou, só queria ser o principal, então foi devolvido para Garanhuns. Mais uma vez sem paróquia, falou com o bispo e foi para sua fazenda em Correntes, tocar a vida de gado.

Já no início de 1940, Dom Mario o indica para Panelas, lá ele conseguiu ficar dois anos, mesmo com muitas reclamações e brigas com os fiéis e políticos influentes. nesse período em Panelas ele matou uma besta a tiros só porque o cavalo do padre estava tendo um namoro com ela, Matou um cachorro que mordeu sua batina, esse vício de matar cachorros a tiros ele já tinha em Tabira. Enganou o próprio pai na compra de umas vacas, até com o chefe dos telégrafos ele arrumou intriga. Some-se a todos estes problemas, a cobrança do ouro desviado de Ingazeira, em carta enviada pelo Padre Luiz Flóride, seu sucessor em Tabira. Dom Mário fez o que? Transferiu pra Lajedo, mas Padre Hosana não obedeceu e foi morar na sua fazenda. Já sem paróquia, foi em Panelas e celebrou uma missa na marra, sem autorização do padre local, para entrar, quebrou a porta da igreja. Com a saída de Dom Mário e antes da chegada do novo bispo, Hosana foi nomeado para Palmeirina.

1.Jornal do Comércio da época; 2.Dom Expedito; 3 Absolvição de Padre Hosana 4. Padre Hosana já idoso 5. Dom Expedito no hospital

Em 46, o novo bispo de Garanhuns, Dom Juvêncio, o-nomeou vigário de Quipapá. Na segunda-feira ele ia de trem para a fazenda e só voltava na quinta, a comunidade católica local reclamava que ele era ausente, vivia mais no trem do que na igreja. Lá ele recebeu uma cobrança da paróquia de Panelas de dois garrotes q havia velhacado. Neste período, Dom Juvencio foi agredido pelo menos três vezes pelo padre. Para piorar a situação, Hosana levou uma prima, Maria José, para morar consigo na casa paroquial de Quipapá. A população da pequena cidade começou a falar que eles eram amancebados. Os fiéis reclamavam a Dom Juvêncio, que ignorou os fatos. Em 1955 chegou outra moça para ajudar na casa paroquial, Quitéria, mais nova e mais bonita que Maria José, que foi deixada de lado pelo padre e botou a boca no mundo, relatou ao Padre Lamprecht o ocorrido, que vivia como amante dele e que já havia até abortado em Recife com ajuda do padre.

Em Garanhuns a diocese recebia um novo Bispo, Dom Francisco Expedito Lopes, vindo de Oeiras no Piaui. De posse do relato de Maria José ao padre Lamprecht, Dom Expedito pede que Padre Hosana entregue a paróquia. Este não só não entrega como lhe enfrenta violentamente. Dom Expedito pede a vários padres da diocese que interceda junto a Hosana para que este cumpra a ordem. Padre Hosana se defendia dizendo que as denúncias eram falsas e era tudo perseguição. Depois de várias tentativas e adiamentos para que o padre cumprisse sua ordem, Dom Expedito o suspende da igreja.

Documentário sobre o livro Batinas Tintas de Sangue

No dia 1º de junho de 1957, após saber da suspensão, Padre Hosana se dirige a Garanhuns e vai à rádio Difusora no horário do programa da diocese onde se encontrava o Padre Acácio, que iria ler o decreto da suspensão, porém a diretoria da rádio não o autorizou a fazer uso do microfone. Hosana chama um taxi e vai ao Palácio Episcopal e é recebido pelo próprio Dom Expedito, que abre a porta e antes de falar qualquer coisa recebe dois tiros no peito e outro no braço. Foi levado ao hospital local e no dia seguinte veio a óbito. Esse tipo de homicídio, de um padre contra um bispo, foi o primeiro ocorrido no Brasil e o terceiro no mundo. A história correu o Brasil, virou cordel de José Soares que começava assim:

“Garanhuns está de luto
numa bisonha manhã
foi morto Dom Expedito
Um Bispo de alma sã
Pelo revólver dum padre
partidário de satã”

Padre Hosana foi julgado e preso, recebeu uma pena de dezenove anos e voltou a morar na fazenda, morreu idoso, em 1997, aos 84 anos de idade, dois vizinhos que viviam as turras com o ex-padre foram os suspeitos do assassinato a pauladas, eles negam, e esse foi o último capítulo da tumultuada vida do Padre Hosana.

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ROLLIÚDY NORDESTINA – DO DESASTRE AO SUCESSO

A data era 8 de junho de 1982 e a hora 3 da madrugada. O Aeroporto Pinto Martins em Fortaleza estava cheio de familiares dos passageiros de um voo que vinha de São Paulo com escala no Rio de Janeiro, o tempo passava e nada do avião aterrissar, o clima ficava tenso e só já por volta das 4 horas o som do aeroporto avisou que o avião da Vasp estava desaparecido do radar, as pessoas começaram a se desesperar em busca de informações mais precisas por parte das autoridades aéreas, o clima ficou tenso, até que por volta das 5 da manhã chegou a notícia que eles não queriam ouvir: o Boeing 727-200 da Vasp, prefixo PP-SRK, havia colidido com a Serra da Aratanha em Pacatuba, cidade vizinha a Fortaleza.

Em Pacatuba, ainda era 2 horas e 45 minutos da manhã quando um estrondo acordou a população da pequena cidade, as pessoas foram à rua pra saber o que tinha sido aquilo, ao saberem que tinha ocorrido um acidente aéreo, muitos deles subiram a serra em busca de algo valioso. Às 8 horas da manhã os primeiros membros da FAB chegaram ao pé da serra, um soldado mandou uma mensagem via rádio, “… estamos no local, tudo destruído, não há sobreviventes …”. A primeira equipe iniciou a subida da serra, porém para surpresa encontrou três moradores da cidade já descendo com bens dos ocupantes da aeronave: dinheiro, roupas, joias, carteiras, relógios, até maços de cigarros e um anel ainda com o dedo enganchado estavam no bisaco de caçador usado pelos saqueadores para transportar os bens. A FAB resgatou o que sobrou dos corpos, depois o prefeito de Pacatuba contratou uma equipe da cidade para outra varredura e estes moradores conseguiram localizar mais restos mortais e até 2 corpos reconhecíveis de aeromoças. Na sombra lateral da igreja, na feira da troca, peças de avião viraram ferro-velho ou souvenir da tragédia, a polícia tentou coibir, mas a Vasp informou que não tinha interesse nos destroços.

No ano de 2000, eu, papai, esposas e filhos fomos para Fortaleza passar um final de semana e testar a Ford Deserter XK que Seu Djalma Nogueira, meu pai, havia comprado. Naquele tempo não tinha Trivago nem Booking, a procura por hotel era no Guia 4 Rodas de papel e o dedo no disco do telefone, procurei um hotel confortável, com piscina e um bom custo x beneficio, esqueci de verificar as distancias para os principais atrativos turísticos da capital cearense. Achei a “Pousada das Andreas” (foto) em Pacatuba. Chegamos na 5ª feira na pousada, longe pacaramba das praias, fomos pras piscinas para meus filhos Junior e Camila se divertirem. Depois sai sozinho pela pequena Pacatuba pra conhecer o velho casario bem conservado, ao retornar percebi que tinha um clube em frente ao hotel que eu estava hospedado, e fui lá ver, estava fechado, mas de fora dava pra observar as piscinas com águas naturais, contornadas por uma mata nativa exuberante, no pé da Serra da Aratanha.

Na sexta e sábado, saiamos cedo do hotel rumo a Fortaleza e só voltávamos à noite. No domingo acordei cedo e em frente ao clube estava chegando uma van com um grupo de umas 6 a 8 pessoas, aproveitei a porta aberta e fui ver o clube por dentro e percebi que estava abandonado e que aquele grupo não ia usar as piscinas e sim fazer ecoturismo na Serra e ver o que sobrou do voo Vasp que ali caiu, ainda falei com os guias para ir com o grupo, mas o horário da volta não encaixava com o horário do nosso retorno para Tabira.

Este acidente ainda hoje atrai muitos trilheiros, que querem ver os destroços do Boeing 727-200 da Vasp, espalhados pelo topo da serra. Foi neste acidente que morreu o empresário Edson Queiroz, dono da TV Diario, Diário do Nordeste, Rádio e TV Verdes Mares, Indaiá, Nacional Gás, Esmaltec e Universidade de Fortaleza. Com ele, morreram também outros empresários da área textil que retornavam da Fenit, feira de tecidos que ocorria em São Paulo, no total morreram as 137 pessoas que estavam no voo.

Em 2012, depois de tantos anos, a pequena e pacata Pacatuba voltou a “ficar famosa”, a cidade foi escolhida pelo diretor Halder Gomes para a filmagem do “Cine Rolliúdy” (veja o trailer no vídeo acima), filme de maior sucesso do idioma cearencês, mas legendado em português, com Edmilson Filho no papel principal interpretando Francisgleydisson, Roberto Bomtempo, Fiorella Mattheis (global), Marcio Greyck (… foi você que teve a ideia de querer-me …), Falcão (I’m not dog no), João Neto (Zé Modesto) e outros. O filme trata exatamente do fim do cinema nas pequenas cidades do interior do Brasil e mostra o casario preservado da cidade. Desta vez a igreja ganhou um papel importante, não faz só sombra, é a casa do Padre Mesquita. O Cine Rolliúdy já teve sua 2ª edição e uma série na Rede Globo, mas o filme que não sai da cabeça do pacatubense de mais de 40 anos de idade é o do acidente do voo 168.

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LAMPIÃO ERA VIADO OU NÃO ERA?

Quando eu ia passar as férias em Serra Talhada, meu tio Luiz Andrelino me contava muitos causos das épocas passadas. Lembro que um dia a gente ia de Serra para o sítio da família, eu ainda criança e tio Luiz contando muitas histórias, mas tia Guiomar, sua esposa reclamou: “Luiz, George desse tamanho não quer ouvir essas histórias antigas não, ele quer saber de coisas modernas”. Ele parou de contar e eu fiquei triste por não poder fazer o percurso escutando meu tio, eu quase peço para ele continuar, mas a minha timidez não deixou.

O sítio era o “Cipó” que ficava na ribeira do Riacho São Domingos, próximo de onde se deu a ingrisia entre Lampião e os Nogueiras. Meu pai, Seu Djalma Nogueira, também é um ótimo contador de causos, detalhista como eu gosto. Sempre que vamos ao Recife para ele fazer consultas médicas e exames, na viagem saem ótimas histórias.

Luiz Andrelino Trecho do documentário Xaxado – A Dança de Cabra Macho

Uma vez saímos de Tabira às 4 da manhã, eu e meu pai, ele dando uns cochilos e eu dirigindo, quando passamos em Arcoverde eu o acordei para tomar café no Posto Cruzeiro, quando voltamos à viagem, ele ligou o rádio e lá estava passando um programa de forró com participação de ouvintes. Nesse dia o assunto era o lançamento de um livro que dizia que Lampião era gay, fomos ouvindo até Mimoso o debate.

Depois fui pesquisar na net e descobri que Lampião era gay e Maria Bonita chifrava o capitão, pelo menos era essa a afirmativa de Pedro Morais, autor do livro “Lampião, O Mata Sete”, que na época ia ser lançado mas a justiça proibiu a pedido de uma neta de Virgulino, Vera Ferreira. “Intimidade não é história. O livro agride por demais, afirmando que Lampião era gay, que Maria Bonita era adúltera e até que Expedita Ferreira Nunes não é filha dos dois. Isso causou transtornos a toda a família, aos netos, aos bisnetos na escola”, argumentou Vera.

Livro Lampião, O Mata Sete e seu autor Pedro de Morais

O livro diz que Lampião tinha um caso amoroso com o cangaceiro Luiz Pedro, “Certa vez, Luiz Pedro matou o irmão de Lampião, que era a coisa que Lampião mais queria bem, e, em troca, Lampião, que nunca foi de clemência, absolveu Luiz Pedro, exigindo dele juras de que jamais se separariam. Isso não me parece coisa de macho”, comentou o autor. O caso se deu em Tacaratu em 1927, quatro anos antes de Lampião conhecer Maria Déia. Luiz Pedro explicou que foi um acidente quando ia se levantar da rede e o fuzil disparou atingindo Antonio Ferreira. Alcino Alves, membro da Sociedade Brasileira da História do cangaço discorda: “Nunca teve isso, não! O Luiz Pedro tinha uma companheira. A Mulher dele se chamava Neném. Ela foi morta na fazenda Mucambo, em Sergipe. Era de Raso de Catarina, Paulo Afonso, na Bahia. Essa monstruosidade chamada triângulo amoroso entre Lampião, Maria Bonita e Luiz Pedro é tudo safadeza.”

Mas em uma tese da Universidade de Sorbonne na França, o ativista gay baiano, Luiz Mott, cita o lado feminino do cangaceiro: “Todo mundo aqui no nordeste sabe que ele era um exímio estilista e gostava de plumas, paetês e perfumes franceses”.

1. Lampião e Maria Bonita; 2. Nenen, Lampião e Maria Bonita e 3. Luiz Pedro

Já chegando em Mimoso, quando o rádio começou a sair do ar, meu pai mudou de estação para outra mais nítida e eu comentei: “Eu acho os elementos fracos para determinar a preferência sexual de uma pessoa”.

Papai concordou: “Lampião não era gay, isso é conversa pra vender livro” e continuou: “Quem danado ia ter coragem de comer o fiofó dele?”.

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

PEQUENA HISTÓRIA DA (QUASE) REPÚBLICA SOCIALISTA DE ITAPETIM

No período do governo militar, mais precisamente entre 1967 e 1977, o Brasil se tornou um barril de pólvora com vários grupos de esquerda organizando ações por todo o Brasil. Muitos comunistas foram enviados a Cuba, China e União Soviética para receber treinamento em guerrilhas urbanas e rurais, e ao retornarem ao Brasil espalharam focos de multiplicação da ideologia marxista-leninista, com o objetivo de criar um clima propício para a tomada do poder, tomando como base as vitoriosas revoluções cubana e chinesa. O movimento de guerrilha rural que ficou mais conhecido, embora só tenha sido divulgado para o grande público brasileiro após a redemocratização, foi a do Araguaia, organizado pelo PCdoB na região de Marabá e Xambioá, nas margens do Rio Araguaia, no limite dos estados do Pará, Maranhão e Goiás, hoje Tocantins. Vários militantes comunistas vieram de vários locais do Brasil e se passavam por pessoas comuns que foram para a região em busca de novas oportunidades. Lá os médicos consultavam, outros abriram pequenas bodegas, lecionavam, plantavam e divulgavam de leve seus ideais comunistas entre a população miserável e analfabeta, explorada por proprietários de terra e políticos da região. Estava formada a Guerrilha do Araguaia, que só seria debelada pela luta armada com o exército brasileiro. Um dos primeiros presos no Araguaia foi José Genoíno, ex-deputado federal pelo PT. Pelo lado dos militares que atuaram no combate a guerrilha, o mais famoso foi o Major Curió, também ex-deputado federal pelo PDS.

1. Militares desembarcando na área do conflito 2. José Genoino preso; 3. Guerrilheiros mortos

Longe do Araguaia outro grupo de comunistas se instalava em Pernambuco na divisa com o estado da Paraíba, na cidade de Itapetim, mas precisamente no povoado de São Vicente. Não podemos falar de grupo, visto que só se tem noticia de um comunista, podendo ter havido outros, pois a regra era esta em outras regiões, eles se passavam por desconhecidos entre eles, mesmo morando próximos. O militante de extrema esquerda que veio para a região das cabeceiras do Rio Pajeú foi João Leonardo da Silva Rocha, conhecido no local como ‘Zé Careca’, ex-funcionário do Banco do Brasil e professor de inglês e latim. No final dos anos 60 ficou preso no DOPS por ser integrante da ALN. É suspeito de ter participado do assalto ao trem pagador em Jundiaí e de ser um dos assassinos do militar americano Charles Chandler. Foi solto e expurgado do Brasil para o México em troca do embaixador americano Charles Elbrick, que havia sido sequestrado por militantes de esquerda. Em 1971 entrou clandestinamente no Brasil com outros militantes, entre eles o ex-ministro José Dirceu, e criaram a MOLIPO, Movimento de Libertação Popular.

Treze terroristas libertados em troca do Embaixador americano Charles Elbrick. José Dirceu é o segundo de pé e João Leonardo (de bigode) o primeiro agachado.

João Leonardo foi morar no sítio Baixio, onde comprou um pequeno terreno, a cerca de 2 km do povoado de São Vicente, já perto da divisa com o município de Livramento no estado da Paraíba. Casou-se com uma viúva, Dona Virgínia, proprietária de um bar no povoado. Dona Virgínia morreu em 1990 sem saber do histórico revolucionário do ex-esposo. Eu visitei o local em 2011, junto com meu irmão Cil Mascena e o primo Aguinaldo Pires, fomos no sítio Baixio e entramos na casa em que morou Zé Careca, junto com alguns moradores da vizinhança, que conviveram com o guerrilheiro sem saber da história de Zé Careca, mas me disseram que já estranhavam alguns costumes do forasteiro, como escutar rádio em inglês, dizia que não entendia nada, mas as vezes comentava algo que o locutor falava. Outro fato que eles me contaram foi que João Leonardo sempre matava bode e convidava os vizinhos para comer, mas seu rebanho não diminuía, muitos anos depois souberam que era carne de cachorro.

Eu visitando a casa de Zé careca no Sitio baixio

No povoado encontramos com o dono da farmácia, o qual não me-lembro o nome, que era filho de dona Virgínia, viúva de Zé Careca. Ele disse que Zé Careca conheceu a mãe dele frequentando o bar, tratava muito bem os enteados e costumeiramente viajava dizendo que ia para São Paulo visitar a família e trazia pequenos presentes para os enteados. Ele lembra que certa vez uma peça da máquina de costura da mãe quebrou e ela pediu para Zé Careca comprar, ele trouxe a peça em um papel de embrulho com o nome de uma loja de São Paulo, mas o tempo que ele passava viajando era muito pequeno para este deslocamento naquela época. Depois José Dirceu disse que se encontrava com ele em Arcoverde regularmente para trocar informações. Em um dia da feira de São Vicente em 1975, em uma sinuca, houve uma briga e chamaram a polícia de Itapetim, neste interstício Zé Careca chegou para jogar sinuca e quando viu 2 policiais descendo do jipe e se dirigindo para o bar, correu por trás e fugiu para o sítio, chamou a esposa, deu o terreno a ela dizendo que precisava fugir, foi para Sumé na Paraíba e de lá viajou para o interior da Bahia, onde foi morto em confronto com a policia militar em Palmas de Monte Alto, algum tempo depois.

Entrevista com o então Ministro José Dirceu e a ex-guerrilheira Ana Corbisier

Na pracinha do povoado tem um monumento que homenageia Zé Careca. O então ministro José Dirceu visitou o lugar em 2011 e afirmou que estaria colhendo informações para fazer um filme em homenagem ao guerrilheiro amigo, porém este documentário nunca foi concluído.

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

OS SANTOS QUE BOTARAM LAMPIÃO PRA CORRER

Antes de iniciar esta história, gostaria de lembrar que este texto não tem nenhum fundamento científico por ter sido baseado em várias fontes da internet, muitas destas não foram checadas a sua veracidade, mas a verdade é que ocorreu mais ou menos assim.

Em 13 de junho de 1927, Lampião e seu bando invadiram a cidade de Mossoró, Virgulino foi contra seu próprio ensinamento que dizia que “cidade com mais de duas torres de igreja não é lugar para cangaceiros”, Mossoró tinha quatro. No inicio de 1927 o grupo de Lampião sofreu uma grande baixa, Antonio Ferreira, irmão de Lampião, morto acidentalmente em Tacaratu pelo cangaceiro Luiz Pedro. Os cangaceiros, liderados por Jararaca, fizeram alguns saques a cidades do estado de Pernambuco, depois o bando decidiu mudar de estado. No dia 15 de maio o grupo ataca Uiraúna, na Paraíba, com 35 cabras, mas foram rechaçados pelos 15 homens da policia local, e seguiram rumo ao Rio Grande do Norte. Em Luiz Gomes se incorporou ao bando o cangaceiro Massilon Leite, e seguiram rumo a Mossoró, cidade próspera, com Banco do Brasil e um povo pacato, segundo Massilon, que era o guia do bando no estado potiguar. Atacaram várias cidades e fazendas por onde passaram. Na Fazenda Nova não pouparam nem o Coronel Joaquim Moreira, padrinho de Massilon, que foi sequestrado. Em Aroeira, hoje Paraná, a Senhora Maria José foi levada como refém.

1. Lampião e Antonio Ferreira, 2. Nenen e Luiz Pedro 3. Casa que morava Massilon em Luiz Gomes (RN)

Lampião sabia do risco de invadir uma cidade do porte de Mossoró, mas incentivado por Massilon, que havia invadido Apodi com apenas seis homens, seguiu o programado. Nesse deslocamento o bando desviava das cidades e estradas mais movimentadas, para poupar homens e munição. Já em 10 de junho atacaram a Vila Vitória, só escaparam as casas que tinham fotos de Padre Cícero. Esse ataque a Vila Vitória fez a polícia potiguar se preparar para uma resposta, e em Marcelino Vieira teve um combate com uma morte de cada lado, o cangaceiro Azulão e o soldado José Monteiro, este último é considerado herói no lugar. “Quando acabou a munição os outros foram embora, mas ele disse ‘eu morro, mas não corro!’ e morreu lutando.”, contou Seu Pedro, morador local, ao G1. Já no dia 12, atacaram Umarizal e chegaram ao povoado São Sebastião, hoje Governador Dix-Sept-Rosado (os moradores locais falam “Dissé Rosado”) onde saquearam o comércio, queimaram um vagão do trem, e ao deixarem o local cortaram os fios do telégrafo, mas era tarde, nos fios já haviam seguido as mensagens do ataque para a estação de Mossoró. Quando a noticia chegou a Mossoró, o mensageiro correu até uma casa onde estava ocorrendo uma comemoração pela vitória do Humaitá, time de futebol local. A princípio acharam que era boato plantado pelos torcedores do Ipiranga, time derrotado, para acabar com a festa, mas mesmo assim findaram a farra e começaram os preparativos.

1. Massilon 2. Homenagem ao soldado José Monteiro em Marcelino Vieira 3. Equipe do Ipiranga de Mossoró

Em 13 de junho, após varias tentativas de se evitar o combate por parte do Capitão Virgulino, ele mandou este ultimato rabiscado de próprio punho: “Coronel Rodolfo. Estando eu até aqui pretendo dinheiro. Já foi um aviso aí para os senhores. Se por acaso resolver me mandar, será a importância que aqui nos pede, eu evito a entrada aí. Porém, não vindo essa importância, eu entrarei até aí, pensa que a Deus querer eu entro e vai haver muito estrago por isto, se vir o doutor. Eu não entro aí, mas me resposte logo. Capitão Lampião.” O prefeito atendeu um pedido do cangaceiro, foi ligeiro na resposta, mas quanto ao dinheiro foi inflexível: “Virgulino Lampião: Recebi o seu bilhete e respondo que não tenho a importância que pede; o comércio também não tem. O banco está fechado, pois os seus funcionários se retiraram daqui. Estamos dispostos a suportar tudo que o senhor quiser fazer contra nós. A cidade confia na defesa que organizou. Rodolfo Fernandes, prefeito.” Foi escolhido o Tenente Laurentino para preparar toda a logística. Em vagões de passageiros e de cargas, as mulheres, crianças e idosos foram despachados para Areia Branca, cidade portuária vizinha. Na cidade, montaram 23 trincheiras, as torres das igrejas eram as principais, o prefeito recusou reforço na defesa da sua residência. Os mossoroenses se espalharam com armas pelas trincheiras e quando os cangaceiros cruzaram a ponte da linha férrea, começou a chuva de balas, que duraria por cerca de quarenta minutos, ao final os bandoleiros bateram em fuga, o cangaceiro Jararaca, que havia bebido demais no dia anterior, não conseguiu fugir, foi preso e enterrado vivo.

1 e 2. Mossosoenses preparados nas trincheiras; 3. Jornal com noticia da época; 4. Memorial da Resitencia de Mossoró

A cidade de Mossóró cultua esses guerreiros como os heróis da resistência, e na antiga estação de trem ergue-se o Memorial da Resistencia de Mossoró, que conta toda a história desta batalha de pessoas comuns que se juntaram para enfrentar bandidos perversos treinados para fazer o mal. Durante a fuga no sentido do Ceará, Lampião ainda comentou com os comparsas justificando a derrota: “da torre da igreja, até os santos atiravam na gente.”