O CIENTISTA DO DNA

Um dos cientistas mais aplaudidos do mundo contemporâneo chama-se Francis Collins, diretor do Projeto Genoma, nascido em 14 de abril de 1950, que, em 2001 anunciou o mapeamento do DNA humano. Geneticista, o doutor Collins, até os 27 anos, era um ateu convicto, somente se direcionando para uma fé religiosa quando cursava a faculdade de medicina. E sua caminhada na direção é contada no livro A Linguagem de Deus: um cientista apresenta evidências de que Ele existe, editado no Brasil pela Editora Gente, São Paulo, em 2007.

E é o próprio Collins que confessa: “Houve um período em minha vida em que era conveniente não acreditar em Deus. Eu era jovem, e a física, a química e a matemática pareciam ter todas as respostas para os mistérios da vida. Reduzir tudo a equações era uma forma de exercer total controle sobre meu mundo. Percebi que a ciência não substitui a religião quando ingressei na faculdade de medicina. Vi pessoas sofrendo de males terríveis. Uma delas, depois de me contar sobre sua fé e como conseguia forças para lutar contra a doença, perguntou-me em que eu acreditava. Disse a ela que não acreditava em nada. Pareceu-me uma resposta vaga, uma frase feita de um cientista ingênuo que se achava capaz de tirar conclusões sobre um assunto tão profundo e negar a evidência de que existe algo maior do que equações. Eu tinha 27 anos. Não passava de um rapaz insolente. Estava negando a possibilidade de haver algo capaz de explicar questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem as pessoas superar desafios”.

E disse mais: “Falo de questões filosóficas que transcendem a ciência, que fazem parte da existência humana. Os cientistas que se dizem ateus têm uma visão empobrecida sobre perguntas que todos nós, seres humanos, nos fazemos todos os dias: ‘O que acontece depois da morte?’ ou ‘Qual é o motivo de eu estar aqui?’. Não é certo negar aos seres humanos o direito de acreditar que a vida não é um simples episódio da natureza, explicado cientificamente e sem um sentido maior. Esse lado filosófico da fé, na minha opinião, é uma das facetas mais importantes da religião. A busca por Deus sempre esteve presente na história e foi necessária para o progresso. Civilizações que tentaram suprimir a fé e justificar a vida exclusivamente por meio da ciência – como, recentemente, a União Soviética de Stalin e a China de Mao – falharam. Precisamos da ciência para entender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais”.

Sobre Richard Dawkins, cientista ateu de renome, assim de pronunciou: “Essa perspectiva de Dawkins é cheia de presunção. Eu acredito que o ateísmo é a mais irracional das escolhas. Os cientistas ateus, que acreditam apenas na teoria da evolução e negam todo o resto, sofrem de excesso de confiança. Na visão desses cientistas, hoje adquirimos tanta sabedoria a respeito da evolução e de como a vida se formou que simplesmente não precisamos mais de Deus. O que deve ficar claro é que as sociedades necessitam tanto da religião como da ciência. Elas não são incompatíveis, mas sim complementares. A ciência investiga o mundo natural. Deus pertence a outra esfera. Deus está fora do mundo natural. Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. No passado foram lançados vários livros de cientistas renomados, que atacaram a religião sem nenhum propósito. É uma ofensa àqueles que têm fé e respeitam a ciência. Em vez de blasfemarem, esses cientistas deveriam trabalhar para elucidar os mistérios que ainda existem. É o que nos cabe”.

Questionado sobre os erros cometidos pela religiões, Collns assim se manifestou: “Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas em nome da religião. Pense em Madre Teresa de Calcutá ou em William Wilberforce, o cristão inglês que passou a vida lutando contra a escravatura. O problema é que a água pura da fé religiosa circula nas veias defeituosas e enferrujadas dos seres humanos, o que às vezes a torna turva. Isso não significa que os princípios estejam errados, apenas que determinadas pessoas usam esses princípios de forma inadequada para justificar suas ações. A religião é um veículo da fé – essa, sim, imprescindível para a humanidade”.

Sobre a teoria do “design inteligente”, Collins não titubeou: “Essa abordagem é um grande erro. Os cientistas não podem cair na armadilha a que chamo de “lacuna divina”. Lamento que o movimento do design inteligente tenha caído nessa cilada ao usar o argumento de que a evolução não explica estruturas tão complicadas como as células ou o olho humano. É dever de todos os cientistas, inclusive dos que têm fé, tentar encontrar explicações racionais para tudo o que existe. Todos os sistemas complexos citados pelo design inteligente – o mais citado é o “bacterial flagellum”, um pequeno motor externo que permite à bactéria se mover nos líquidos – são um conjunto de trinta proteínas. Podemos juntar artificialmente essas trinta proteínas, que nada vai acontecer. Isso porque esses mecanismos se formaram gradualmente através do recrutamento de outros componentes. No curso de longos períodos de tempo, as máquinas moleculares se desenvolveram por meio do processo que Darwin vislumbrou, ou seja, a evolução”.

Sobre Deus e a teoria da evolução, Collins foi incisivo: “Se no começo dos tempos Deus escolheu usar o mecanismo da evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta, para produzir criaturas que à sua imagem tenham livre arbítrio, alma e capacidade de discernir entre o bem e o mal, quem somos nós para dizer que Ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?”

O instingante livro do Francis Collins nos faz perceber, quando da leitura da sua última página, que se evidenciam a cada amanhecer que a ciência e a religião devem caminhar juntas, favorecendo o evoluir da humanidade na direção um Final de muita Luz, a ninguém sendo impossibilitado a Felicidade Eterna.

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BODOCADAS LETAIS

Nos momentos preliminares de uma reunião doutrinária, agrupados oito com o objetivo de examinar as linhas mestras de um planejamento semestral, o assunto descambou para os níveis futricais de uma determinada instituição, considerada na área externa como de razoável capacidade organizacional.

Para os presentes, atenção especial foi direcionada aos avaliadores dos que se encontravam rotulados de médiuns, subordinados aos mais diferenciados comentários, cuja lista foi transmitida ao muito amado Chico Xavier pelo Espírito Irmão X, um poeta, contista, crítico, cronista e membro da Academia Brasileira de Letras, autor de mais 40 títulos literários, além de múltiplos artigos em jornais e revistas, que em vida se assinava Humberto de Campos, cuja primeira obra espiritual intitulou-se Crônicas de além túmulo, publicada em 1937, de sucesso extraordinário, consagrador por derradeiro.

O livro do Irmão X agora examinado pelo grupo, Estante da Vida, foi edição FEB pela vez primeira em 31 de março de 1969, em Uberaba, homenageando o primeiro centenário da desencarnação de Allan Kardec, graças ao empenho generoso do saudoso Chico Xavier, uma personalidade profundamente caridosa, sempre dedicada ao auxílio dos mais necessitados, que o tornou indicado por mais de dez milhões de pessoas ao Prêmio Nobel da Paz 1981, em 2012 sendo eleito “O maior brasileiro de todos os tempos”, em iniciativa efetivada pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT).

As opiniões dos “sempre inconformados” são as mais diversas. O Irmão X listou algumas: “é um velho prematuro, sem a chama do ideal”; “é um temperamento perigoso, entregue à chocarrice”; “é explosivo, dado à violência”; “é um burro que não sabe falar, senão recorrendo a notas alheias”; “é um preguiçoso, sem qualquer atenção para o estudo”; “é um covarde, não enfrenta a responsabilidade diante do povo”; “é um manequim da vaidade, manobrado por agentes das trevas”; “é mole demais, sem qualquer fibra moral para os testemunhos de fé”; “é um obsidiado, entregue à mistificação”; “é vagabundo, nada quer com o trabalho”; “é revolucionário, deve ser vigiado”.

Numa segunda reunião, presente estava cópia de mensagem recebida em BH por médium mineiro amigo fraterno de longa data de um dos nossos: “O Senhor mandou dizer-te que, em nomeando cada um na obra da redenção, assim o fez porque confiava em seu amor para com os irmãos da família humana, e que por isso mesmo não solicitou o inventário das críticas feitas, recomendando tão somente servir e trabalhar”.

Do grupo emergiu então lições magistrais, dividindo-se a espécie humana, diante dos seus múltiplos relacionamentos convivenciais, em duas grandes categorias. De um lado, os que gostam da folia, da prosa inteligentemente alegre, das pegadinhas pra inglês ver, da fofoca do bem, das presepadas que apenas realçam situações engraçadas sem qualquer consequência danosa. Do outro se situam os latrineiros, aqueles que praticam as mais diferenciadas fuxicarias, as piores se tornando quando explicitadas muito cinicamente pelos que se revestem de feições descaradamente cândidas.

O João Gaspar Simões, biógrafo maior do poetíssimo Fernando Pessoa, orgulho do mundo português, costumava dizer que as pessoas se deparam, a cada instante, com uns tipos reservados porque não dizem tudo, de outras que fantasiam quando falam demais, existindo ainda aquelas que ostentam saber que mais ninguém sabe, cinicamente travestidas de bem informadas. Na última categoria declinada pelo Simões se enquandram os fofoqueiros, os mentalmente ananicados.

Tenhamos um medo danado dos fuxicosos. E dos boateiros idem. Como profissional que também lida com Comunicação, conheço alguma coisa sobre o assunto, a partir da interessante leitura de um livro de Jean-Noël Kapferer denominado Boatos O Meio de Comunicação Mais Velho do Mundo, editado pela Publicações Europa-América, em 1987. Nele se pode verificar como os boatos obedecem a uma lógica cujas engrenagens somente se desmontam quando identificadas como nascem, de onde partem, por que aparecem num determinado instante em determinada localidade, inclusive internética.

Segundo Kapferer, “o boato é a primeira etapa do recalcamento, um escoamento da agressividade recalcada”. A vida vazia, a convivialidade rotineira, a ausência de uma afetividade comprometida com um amanhã mais venturoso, a nostalgia de passados vivenciados no bem-bom, os rebaixamentos de níveis sociais, os desconfortos provocados pela ausência de refrigerações cognitivas eficazes e a vontade de ficar sempre na faixa adolescente, além da debilidade do caráter, são excelentes condimentos na formação de um fuxicoso. Kapferer, no seu tratado, elucida com maestria: “Para o boateiro, é preciso dizer qualquer coisa quando se fala com amigos, parentes ou vizinhos. Existe um vazio a preencher. Falar exclusivamente de si tornar-se-ia rapidamente cansativo. A conversa ficaria ameaçada pelo pior dos perigos: o não ter nada a dizer, a confissão de vacuidade. O boato insere-se maravilhosamente nesse vazio: permite prosseguir a conversa”.

O boateiro se revela mais eficaz quando encontra pela frente pessoas frágeis, que dele necessitam para ampliar a pretensa qualidade dos seus círculos de amizade. E todo boateiro conhece bem o seu rebanho, canalizando suas futriquices sempre travestido de cordeirinho estuprado por gente malvada.

Tenho muita comiseração pelos mexeriqueiros, os que alimentam os débeis com algum “vocês sabem da última?“. De muito poucas leituras, não percebem a lucidez da constatação feita por Gabriel Garcia Marquez: “as lembranças verdadeiras pareciam fantasmas, enquanto as lembranças falsas eram tão convincentes que substituíam a realidade”.

O boateiro desconhece, porque nanico todo, que “há só um caminho para a vida, que é a vida”, como apregoava Álvaro de Campos, um dos heterônimos do sempre notável Fernando Pessoa. O boateiro não tem vida própria, pois sobrevive da vida dos outros.

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BODOCADAS LETAIS

Nos momentos preliminares de uma reunião doutrinária, agrupados oito com o objetivo de examinar as linhas mestras de um planejamento semestral, o assunto descambou para os níveis futricais de uma determinada instituição, considerada na área externa como de razoável capacidade organizacional.

Para os presentes, atenção especial foi direcionada aos avaliadores dos que se encontravam rotulados de médiuns, subordinados aos mais diferenciados comentários, cuja lista foi transmitida ao muito amado Chico Xavier pelo Espírito Irmão X, um poeta, contista, crítico, cronista e membro da Academia Brasileira de Letras, autor de mais 40 títulos literários, além de múltiplos artigos em jornais e revistas, que em vida se assinava Humberto de Campos, cuja primeira obra espiritual intitulou-se Crônicas de além túmulo, publicada em 1937, de sucesso extraordinário, consagrador por derradeiro.

O livro do Irmão X agora examinado pelo grupo, Estante da Vida, foi edição FEB pela vez primeira em 31 de março de 1969, em Uberaba, homenageando o primeiro centenário da desencarnação de Allan Kardec, graças ao empenho generoso do saudoso Chico Xavier, uma personalidade profundamente caridosa, sempre dedicada ao auxílio dos mais necessitados, que o tornou indicado por mais de dez milhões de pessoas ao Prêmio Nobel da Paz 1981, em 2012 sendo eleito “O maior brasileiro de todos os tempos”, em iniciativa efetivada pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT).

As opiniões dos “sempre inconformados” são as mais diversas. O Irmão X listou algumas: “é um velho prematuro, sem a chama do ideal”; “é um temperamento perigoso, entregue à chocarrice”; “é explosivo, dado à violência”; “é um burro que não sabe falar, senão recorrendo a notas alheias”; “é um preguiçoso, sem qualquer atenção para o estudo”; “é um covarde, não enfrenta a responsabilidade diante do povo”; “é um manequim da vaidade, manobrado por agentes das trevas”; “é mole demais, sem qualquer fibra moral para os testemunhos de fé”; “é um obsidiado, entregue à mistificação”; “é vagabundo, nada quer com o trabalho”; “é revolucionário, deve ser vigiado”.

Numa segunda reunião, presente estava cópia de mensagem recebida em BH por médium mineiro amigo fraterno de longa data de um dos nossos: “O Senhor mandou dizer-te que, em nomeando cada um na obra da redenção, assim o fez porque confiava em seu amor para com os irmãos da família humana, e que por isso mesmo não solicitou o inventário das críticas feitas, recomendando tão somente servir e trabalhar”.

Do grupo emergiu então lições magistrais, dividindo-se a espécie humana, diante dos seus múltiplos relacionamentos convivenciais, em duas grandes categorias. De um lado, os que gostam da folia, da prosa inteligentemente alegre, das pegadinhas pra inglês ver, da fofoca do bem, das presepadas que apenas realçam situações engraçadas sem qualquer consequência danosa. Do outro se situam os latrineiros, aqueles que praticam as mais diferenciadas fuxicarias, as piores se tornando quando explicitadas muito cinicamente pelos que se revestem de feições descaradamente cândidas.

O João Gaspar Simões, biógrafo maior do poetíssimo Fernando Pessoa, orgulho do mundo português, costumava dizer que as pessoas se deparam, a cada instante, com uns tipos reservados porque não dizem tudo, de outras que fantasiam quando falam demais, existindo ainda aquelas que ostentam saber que mais ninguém sabe, cinicamente travestidas de bem informadas. Na última categoria declinada pelo Simões se enquandram os fofoqueiros, os mentalmente ananicados.

Tenhamos um medo danado dos fuxicosos. E dos boateiros idem. Como profissional que também lida com Comunicação, conheço alguma coisa sobre o assunto, a partir da interessante leitura de um livro de Jean-Noël Kapferer denominado Boatos O Meio de Comunicação Mais Velho do Mundo, editado pela Publicações Europa-América, em 1987. Nele se pode verificar como os boatos obedecem a uma lógica cujas engrenagens somente se desmontam quando identificadas como nascem, de onde partem, por que aparecem num determinado instante em determinada localidade, inclusive internética.

Segundo Kapferer, “o boato é a primeira etapa do recalcamento, um escoamento da agressividade recalcada”. A vida vazia, a convivialidade rotineira, a ausência de uma afetividade comprometida com um amanhã mais venturoso, a nostalgia de passados vivenciados no bem-bom, os rebaixamentos de níveis sociais, os desconfortos provocados pela ausência de refrigerações cognitivas eficazes e a vontade de ficar sempre na faixa adolescente, além da debilidade do caráter, são excelentes condimentos na formação de um fuxicoso. Kapferer, no seu tratado, elucida com maestria: “Para o boateiro, é preciso dizer qualquer coisa quando se fala com amigos, parentes ou vizinhos. Existe um vazio a preencher. Falar exclusivamente de si tornar-se-ia rapidamente cansativo. A conversa ficaria ameaçada pelo pior dos perigos: o não ter nada a dizer, a confissão de vacuidade. O boato insere-se maravilhosamente nesse vazio: permite prosseguir a conversa”.

O boateiro se revela mais eficaz quando encontra pela frente pessoas frágeis, que dele necessitam para ampliar a pretensa qualidade dos seus círculos de amizade. E todo boateiro conhece bem o seu rebanho, canalizando suas futriquices sempre travestido de cordeirinho estuprado por gente malvada.

Tenho muita comiseração pelos mexeriqueiros, os que alimentam os débeis com algum “vocês sabem da última?”. De muito poucas leituras, não percebem a lucidez da constatação feita por Gabriel Garcia Marquez: “as lembranças verdadeiras pareciam fantasmas, enquanto as lembranças falsas eram tão convincentes que substituíam a realidade”.

O boateiro desconhece, porque nanico todo, que “há só um caminho para a vida, que é a vida”, como apregoava Álvaro de Campos, um dos heterônimos do sempre notável Fernando Pessoa. O boateiro não tem vida própria, pois sobrevive da vida dos outros.

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DICIONÁRIO ALTERNATIVO

Já dizia o notabilíssimo Fernando Pessoa, um apaixonado pelas causas portuguesas, tal e qual o psicólogo pernambucano e irmão amado Fernando Sardinha, sediado na Capital Federal, como eu do poeta também xará, que “quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma”. E foi mais além o autor de Tabacaria: “a palavra falada é um fenômeno natural; a palavra escrita é um fenômeno cultural”.

Entretanto, alguns termos banalíssimos estão sendo entendidos de uma maneira totalmente diferenciada das análises semânticas mais especializadas. Recente levantamento efetuado em diversas regiões brasileiras possibilitou aos estudiosos aquilatar a densidade do problema, tomando por base as redações do Enem. Alguns “fenômenos” pesquisados merecem aqui registro, para favorecer os levantamentos pósteros:

Armarinho – ar que vem do mar;
Karma – expressão mineira para evitar o pânico;
Obscuro – OB na cor preta;
Paralítico – período da Terra em que nada se movia;
Abreviatura – ato de se abrir um carro de polícia; e
Genitália – órgão reprodutor dos italianos.

Intrigado, resolvi pessoalmente investigar, indagando de alguns a respeito do significado de algumas expressões nacionalmente conhecidas. O meu bloquinho de papel quase se rasga todo de tanto rir. Até a caneta esferográfica utilizada resolveu, quase ao final da pesquisa, se esborrar toda, descontroladamente, não suportando a estridência risadal oferecida pelo material coletado. Eis um resumo do apreendido em alguns dias de andança, todos os níveis sociais sendo auscultados, da feira ao shopping, passando por supermercados, farmácias, ambulatórios e serviços públicos, resguardadas as identidades de cada entrevistado, alguns deles portadores de especializações várias, acometidas aqui e no exterior:

Abaixo – letra A com pouca altura;
Detergente – ato de prender indivíduos suspeitos;
Halogênio – cumprimento dado a pessoas de QI muito elevado;
Determina – prender uma moça;
Preservativo – produto utilizado para preservar ativo quem o utiliza;
Alopatia – dar um telefonema para uma tia;
Destilado – aquilo que não está do lado de lá;
Zunzunzum – na Fórmula 1, momento em que o espectador percebe que os três líderes da prova acabaram de passar na sua frente;
Bacanal – reunião de bacanas;
Esfera – animal feroz amansado;
Barbicha – boteco de desvairadas;
Fluxograma – direção em que cresce o capim;
Evento – constatação de que realmente não é um furacão;
Unção – erro de concordância muito frequente, posto que o correto seria “um é”;
Homossexual – sabão em pó para lavar as partes mais íntimas do corpo;
Patogênico – pato que sai bem em fotografia;
Utopia – lavatório imaginário, inventado pelo sanitarista inglês Thomas Morus;
Jurisprudente – diz-se do grupo de jurados que declara inocente o filho do bicheiro que, em legítima defesa da honra e apenas levemente embriagado, bombardeou o asilo de velhinhos cegos Nossa Senhora do Amparo;
Microcomputador – anão com cólica renal;
Trigal – cantora baiana elevada ao cubo;
Novamente – indivíduos que renovam sua maneira de pensar.

Acordei com uma vontade imensa de abraçar o Povo Brasileiro, aquele povão que o João Ubaldo Ribeiro consagrou em seu livro famoso Viva o Povo Brasileiro, tendo ele mesmo, posteriormente, lançado um outro, também notável, denominado A Casa dos Budas Ditosos, especialmente destinado aos absolutamente despreconceituosos, sem os balacobacos que o derredor nos impõe. Mas com a brasilidade que tanto necessitamos, após o reinado de alguns verborrágicos do Planalto.

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PARA UM MINISTRO DA EDUCAÇÃO NÃO-EDUCADOR

Manuseando um livro da professora Guiomar Namo de Mello, ex-consultora do MEC há tempos pretéritos, deparei-me com a frase “o futuro, agora, pertence às sociedades que conseguirem se organizar para aprender”. O trabalho da Guiomar, Cidadania e Competitividade, poderia ser levado na conta de um bom mote para início de ampla discussão nas equipes dos novos gestores federais, muitos deles sem um mínimo de experiência em gestão educacional pública. Para reflexão e ação contínuas, sem cretinices nem bajulices tecnocráticas, todas bolorentas em plena pós-modernidade, quando o ser humano já fotografa o Buraco Negro inferido pelo genial Albert Einstein.

Os educadores mais bem antenados com os desafios de uma contemporaneidade altamente complexa, estão convergindo para dois pontos considerados indissociáveis. O primeiro vincula-se à importância estratégica da educação fundamental nos países comprometidos com o futuro, tornada pilastra maior do desenvolvimento nacional. Um segundo aspecto diz respeito à revalorização do processo de aprendizagem enquanto tal, abandonando-se o chilicoso que viabiliza algumas páginas em revistas especializadas, para concentrar-se num soro caseiro lê-escreve-conta-e-pensa eficaz, fomentador de um binômio cidadania-profissionalidade , fecundante por excelência .

Em seu trabalho, a revelar uma ímpar maturidade intelectual, a professora Guiomar Namo de Mello confessa o quanto mudou nos últimos anos. Para permanecer defendendo as mesmas ideias basilares, que reconhecem a permanência e a mutação como contrários inseparáveis, como já apregoava Confúcio, apesar de mais de dois mil anos já passados. Uma mutabilidade sequela das profundas alterações tecnológicas, sociais e econômicas acontecidas nos últimos cinquenta anos, que exigem um aprender-desapreender-reaprender permanente, intrinsecamente criativo e fecundante.

A Guiomar, após vivenciar a gestão pública no interior do Estado, tanto no executivo como no legislativo, mudou intelectual e politicamente. Porque amadureceu mais, entendendo que só se deixa de mudar o pensar para melhor no dia que se deixa de viver. E porque melhor compreendeu Fernando Pessoa, poeta e também Álvaro de Campos: “Sou técnico mas só tenho técnica dentro da técnica. Fora disso sou louco, com todo direito de sê-lo”.

Às vésperas do terceiro decênio do século XXI, os projetos de desenvolvimento integrado dos países latinoamericanos devem expressar uma íntima relação entre crescimento e democracia, efetivada através de uma educação fundamental de qualidade, não estatal porque realmente pública, não monopolizada porque desvinculada de partidos e ideologias intransigentes, interesses mesquinhos e imediatistas, modismos doutrinários e pedagógicos, o mérito jamais sendo aviltado pelo fisiologismo banal do clientelismo rasteiro.

O livro da Namo de Mello revela as linhas mestras modernas das principais estratégias de um consistente desenvolvimento: a) educação fundamental ocupando, juntamente com as vertentes de C&T, lugar central na pauta das macro políticas públicas; b) prática educacional inserida no esforço para tomar as sociedades mais igualitárias, solidárias e integradas; c) aquisição de conhecimentos básicos e a formação de habilidades cognitivas, objetivos do ensino, constituindo-se condição indispensável para que as pessoas consigam, de modo produtivo, conviver com ambientes continuamente mutáveis; d) o conhecimento, a informação e uma visão política mais ampla dos valores tornando-se base para uma cidadania em sociedades cada vez mais complexas e cambiantes. E altamente competitivas.

Saber fazer para colher bons resultados, eis o desafio dos que buscam ter através de um ser continuamente integralizador.

Reverencio o educador baiano Anísio Teixeira que admiravelmente sabia se posicionar: “Eu não tenho responsabilidade nenhuma com as minhas ideias. Eu tenho, sim, uma responsabilidade com a verdade”. Quem tem esse grau de maturidade, sabe andar. Quem não tem, apenas continua tecnocratizando burocraticamente mal, atrelado ao me-disseram antissocialmente mundano, politicamente bostélico. Pretendendo, Semana Santa, sair na turma de Barrabás, integrando a ala dos tabacos lesos, gigantemente imbecilizante.

PS. Que saibamos vivenciar uma Páscoa com mais ação libertadora para todos os povos!

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UM CURSO PRA LÁ DE ÓTIMO

Em 1960, o paulista José Herculano Pires, um homem múltiplo em todas as áreas em que desenvolveu suas produtivas atividades, de inteligência fulgurante dentro e fora do movimento doutrinário, elaborou um Curso de Espiritismo por Correspondência, tornado realidade pelos esforços desenvolvidos do Grupo Promotor de Estudos Espíritas, formado por integrantes do Clube dos Jornalistas Espíritas do Estado de São Paulo. A finalidade do Curso, um conjunto de temas espíritas relevantes elaborado pelo Professor Herculano, datilografado, mimeografado e enviado gratuitamente aos participantes. Até hoje é considerado a primeira iniciativa do gênero no Brasil, pois Herculano se batia pelo aprofundamento cada vez mais efetivo das obras básicas de Allan Kardec, embasado numa recomendação do próprio Coordenador: “O estudo de uma doutrina como a espírita, que nos lança de súbito numa ordem de coisas tão nova e grande, não pode ser feito proveitosamente senão por homens sérios, perseverantes, isentos de prevenções e animados de uma firme e sincera vontade de chegar a uma resultado.”

Em setembro do ano passado, 2018, a editora Paideia resolveu editar a iniciativa do Professor Herculano Pires, divulgando o Curso Básico de Espiritismo – Curso de Instrução Programada e Plano de Estudo Comentado, com uma Introdução, duas partes do Curso de Espiritismo e ainda O Plano de Estudo da Doutrina Espírita para dois semestres, com um Anexo intitulado A Forma Original do “Curso de Espiritismo por Correspondência”.

O Professor Herculano, mestre em Filosofia da Educação de Araraquara, além membro da Sociedade Brasileira de Filosofia, é considerado o brasileiro que mais defendeu com competência comprovada a pureza doutrinária, integrando um Clube que foi “uma luz poderosa no movimento espírita brasileiro. Em todo Brasil, era o Clube paulista o que tinha repercussão fora de São Paulo”, segundo testemunha de Jorge Rizzini, autor do notável J. Herculano Pires, o Apóstolo de Kardec, o Homem, a Vida, a Obra, SP, Paideia, 2001, 252 p.

Na primeira parte do Curso são desenvolvidos 24 capítulos sintéticos: 1. Há espíritos e eles sobrevivem à morte do corpo; 2. A possibilidade dos espíritos se comunicarem com os homens; 3. O períspirito; 4. Da encarnação dos espíritos; 5. Da volta do espírito à vida corporal; 6. Reencarnação: esquecimento do passado; 7. Reencarnação: providências para a reencarnação; 8. Reencarnação: preparação para a reencarnação; 9. Reencarnação: encontro prévio com os pais; 10. Reencarnação: ligação do espírito ao ovo, nascimento; 11. Desencarnação: a separação da alma, do corpo; 12. Desencarnação: um caso como exemplo; 13. Sensações e sofrimentos dos espíritos; 14. Influência oculta dos espíritos em nossos pensamentos e atos; 15. Dois casos como exemplo: influência para o mal e influência para o bem; 16.Obesessão e suas causas; 17. As origens das obsessões; 18. Obsessão: exemplos de causas de obsessão; 19. Obsessão: fascinação; 20. Obsessão: subjugação (possessão); 21. Obsessão: o despertar da consciência; 22. Obsessão: sintomas iniciais da obsessão; 23. Obsessão: tratamento de obsessões; 24. A Fé transporta montanhas.

Na parte segunda do Curso são apresentados as seguintes sínteses: 1. Introdução ao estudo da Doutrina Espírita: perseverança e serenidade no estudo; 2. Allan Kardec: o Codificador do Espiritismo; 3. A crença nos espíritos e na possibilidade de comunicação com os homens; 4. A história do Espiritismo: as mesas girantes; 5. O Livro dos Espíritos; 6. A Codificação Espírita; 7. Espiritismo e Espiritualismo; 8. Identidade dos espíritos: análise das comunicações; 9. Linguagem dos espíritos: contradições; 10. As questões de ortografia; 11. A linguagem do pensamento; 12. A loucura e o suicídio; 13. Do maravilhoso e do sobrenatural; 14. Os milagres no sentido teológico: o Espiritismo não faz milagres; 15. Religião Espírita; 16. Deus; 17. Jesus; 18. Céu e inferno; 19. Anjos e demônios; 20. Quanto à criação dos espíritos; 21. União do princípio espiritual à matéria; 22. Formação dos seres vivos: povoamento da Terra; 23. Hipótese sobre a origem do corpo humano; 24. Conceito de mediunidade; 25. Suicídio; 26. Aborto; 27. O Evangelho segundo o Espiritismo.

Ao final, para quem integra um Grupo de Estudo Espírita, são estabelecidos 17 temas para um primeiro semestre e três partes para um segundo, além da sinopse Apreciação Geral da Matéria Estudada, além da síntese Os Passes – Origens, Aplicações e Efeitos.

Como Anexo é apresentada A Forma Original do Curso de Espiritismo por Correspondência, iniciado por iniciativa proposta pelo Sr. Miguel Jacinto Filho, um sorocabano nascido em 1923, que propôs ao Herculano Pires o tão oportuno curso, editado em novembro de 2018, pela Paidéia, São Paulo.

Um curso que decididamente elimina as dificuldades iniciais dos que não sabem por onde começar a assimilar a Doutrina codificada por Allan Kardec.

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PARA OS NOVOS UNIVERSITÁRIOS

Para os aprovados nos recentes exames vestibulares, a recomendação do poeta Fernando Pessoa, xará meu por ser também Fernando Antônio e por quem nutro uma admiração que vai adiante do apenas além mar: “Para vencer – material e imaterialmente – três coisas definíveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar as oportunidades e criar relações”.

Sem jamais esquecer o ensinamento de Luiz Lira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco e personalidade especialíssima: “Feliz do Ser Humano que tem o dom da arte. Arte é a energia do amor materializada. Não se deve jogar fora essa dádiva.”… “A alegria é uma aliada do amor. Dê alegria, use essa energia que dissolve o medo. Sorrir é o melhor remédio. Aprenda com as crianças o que você esqueceu. Seja puro sem ser tolo. Não importa que os outros pensem que você é inocente. Seja como uma criança sempre disposta a sorrir”.

Para os que se encontram, em pleno 2019, em situação empregatícia desconfortável, algumas dicas para um caminhar profissional mais efetivo:

– Você colhe o que semeia; cada um está num “dia” diferente;

– Comparações são perigosas; não há soluções fáceis;

– Melhorar partindo de onde se está;

– A introspecção nos dá a compreensão precisa de nossa fraqueza e a força necessária para a superação dela.

E muito cuidado com as “desculpas coitadísticas”, aquelas que tentam encobrir o sol com a peneira, na vã imaginação de que o mundo é dos abestados ricos.

Aos que não lograram aprovação nos diversos vestibulares, algumas injeções revivificadoras, para sair do “vitimismo cafona”, postura muito utilizada em ambientes recheados de pais e mães ansiosos, peruas e emergentes:

“Aquele que tem um porquê para viver pode enfrentar todos os comos” (Friedrich Nietzsche);

“O importante não é ver tudo. É ver o que os outros não veem” (José Ingenieros);

“A única forma de fracassar na garimpagem é deixar de procurar” (Robert Gilbreath);

“A inovação não consiste em fazer as coisas de maneira melhor. Consiste em fazer as coisas de modo diferente, com melhores resultados” (Robert Gilbreath);

“Se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe é favorável” (Sêneca);

“Se você não quer repetir o passado, estude-o” (Spinoza).

Para amigos, amores, parentes e contrapontos, os meus votos de um futuro repleto de muitas concretizações, recheado de inúmeros outs, encabrestados todos os downs que alienam, desmotivam e nada edificam. Nunca sendo esquecido o famoso ditado popular “Topada só bota pra frente”, nunca esquecendo do feito de Isaac Newton, que soube aproveitar as várias epidemias que assolaram a Europa entre 1665 e 1667, para elaborar inúmeras notas científicas, que brotaram de sua mente em tão curto período de tempo, quando muitos apenas se recolhiam nas lamentações de sempre, sem qualquer interesse pelas maravilhas que se multiplicavam apesar da peste.

E jamais esqueçam a reflexão notável deixada pelo inesquecível e sempre amado Dom Hélder Câmara, ex-arcebispo de Olinda e Recife: “Quanto mais negra é a noite, mais radiante será a madrugada.”

PS. Para Carol, agora universitária, filha amada de meus cunhados Cláudia e Mário.

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PARA EMPREENDEDORES DE MESMO

Era uma vez um pardalzinho que odiava deslocar-se para outras plagas, todas as vezes que o inverno se aproximava. Por esse motivo, deixava sempre para última hora a ideia de abandonar seus teréns por uns tempos. Costumeiramente, despedia-se dos companheiros, retornando ao ninho para mais uns bons dias de aconchego.

Certa feita, com um tempo já desesperadamente frio, ao iniciar seu voo deparou-se com uma chuvinha continuada. Molhadas as asas, estas se petrificaram, congeladas, fazendo o pardalzinho despencar das alturas, caindo num interior de uma vacaria de pequeno porte.

Quando já se imaginava próximo do fim, o pardalzinho recebeu uma descomunal carga excremental, oportunamente quentinha, de uma vaca que de costas para ele se encontrava.

Apesar de todo bostado, o pardalzinho de logo percebeu que aquela massa fétida derretia rapidamente o gelo acumulado das suas asas, aquecendo-o providencialmente, tornando-o muito distanciado da morte prematura que parecia se avizinhar.

Sentindo-se feliz, plenamente reaquecido, o pardalzinho começou a cantar alto e bom som, desapercebendo-se por completo de um enorme gato que o espreitava estrategicamente, atraído pelos seus trinados, e que, de uma só abocanhada, matou-o instantaneamente.

Esta história, a mim contada por Cinderela, uma das queridas amigas pernambucanas, enviada por um espetacular canal-amizade da Internet, reflete quatro ensinamentos morais, dignos de serem aqui repassados para os leitores atentos, aqueles mais atentos às idas e vindas e voltas que o mundo dá.

O primeiro ensinamento proclama que “nem sempre aquele que caga em você é seu inimigo”. O famoso ditado “topada só bota pra frente”, muito ouvido nas camadas populares, reflete, contraponto felicíssimo, a lição encerrada naquela advertência.

O segundo ensinamento revela que “nem sempre aquele que tira você da merda é seu amigo”. Uma lição ainda muito desapercebida por inúmeros eleitores nordestinos, responsáveis por feudos oligárquicos conservadores, perpetuados pela gratidão eterna dos “beneficiados” que continuam vítimas.

O terceiro ensinamento é oportuno para muitos: “desde que você se sinta quente e confortável, conserve o bico calado, mesmo que situado num monte de merda”. Reclamar muito, por tudo e todos, quando num se pode dar um passo seguro, é o mesmo que futucar leão faminto e solto com vara bem curtinha.

E, finalmente, o quarto ensinamento da parábola do pardalzinho é chave de ouro dos anteriores: “quem está na merda não canta”. Traduzindo: deve-se procurar a melhor das alternativas, jamais se distanciando de uma consistente simancolidade, capacidade de se perceber imaturo, incompleto ou muito inconveniente.

O italiano Domenico De Masi, em seu livro A Emoção e Regra, conhece bem a história do pardalzinho: “Nessa nova sociedade, que privilegia a produção imaterial, as necessidades do indivíduo são outras: tempo e privacidade, amizade, amor, ócio inteligente e enriquecedor, e a convivialidade. A última coisa que interessa é a ostentação”.

PS. Recomendo com alegria incontida a leitura do livro do cientista brasileiro Marcelo Gleiser intitulado A simples beleza do inesperado, Rio de Janeiro, Record, 2016, 192 p. Segundo o cientista recentemente premiado, “o sentido da vida é viver em busca de sentido. É no ato da busca, na experiência do novo e do inesperado, que damos sentido à nossa existência.” Uma porta que foi aberta por Allan Kardec para a investigação científica, que ensejou a prova definitiva da alma para os cientistas materialistas dos últimos dois séculos, valendo-se da apometria, uma técnica de investigação da alma humana. Uma lição amplamente apregoada por Chico Xavier, que dizia: “Ninguém evolui, nem prospera, nem melhora e nem se educa, enquanto não aprende a empregar o tempo com o devido respeito”. Principalmente se atentar para o que apregoava Eisntein, onde “a distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma ilusão.”

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PANGARÉS E FAROLAGENS

De quando em vez, deparo-me com um atoleimado ser humano pela frente. Abilolado, como dizia minha vó Zefinha. Sem entender bulhufas de uma contemporaneidade cada vez mais dinâmica, destila besteiras por todos os poros, irracionaliza fatos do cotidiano mais simples, perambula rodeado de crenças malucas, retratando um subdesenvolvimento mental que é o pior de todos eles, segundo Gunnar Myrdal, um famoso economista europeu. E vive a engabelar ele mesmo e o seu derredor com suas invencionices e presepadas, bostarias puras, tal e qual o Tite à frente da seleção nacionada brasileira.

O João Silvino da Conceição, esse arretado PhD em coisas da vida, costuma dizer que todo pangaré que fica sempre olhando para os seus problemas, será por eles derrubado. E cita não sei quem, alguém que ele leu e muito gostou: “Os fatos costumam ser neutros; são as crenças que afetam nossas formas de pensar, sentir e agir”. Ele ficou impressionado com uma entrevista concedida pelo Stephen Hawkings, esse eternizado físico britânico que era portador de uma crescentemente gravíssima doença neurológica, quando ele declarou, certa feita, estar se sentindo muito feliz por ter contribuído para um melhor conhecimento das origens do Universo! E o Stephen estava à época recém-casado!!

Numa das últimas visitas que fiz à casa-quase-casebre do Silvino da Conceição, conversa vai, conversa vem, cerveja sem álcool sempre gelada e uns pedacinhos de queijo coalho para desenfastiar o estômago, ele me disse que bem vive quem sabe entender as três regras de um jogo de damas. Atendendo a minha curiosidade, declinou-as: 1. não se pode fazer duas jogadas por vez; 2. somente se pode mover para frente; 3. quando se chega na última fila, se está livre para se ir onde quiser. E arrematou, riso franco, peito aberto, sem medo algum de ser feliz: “Se todo pangaré soubesse aplicar as regras de um jogo de dama, logo deixaria de ser um pangaré cheio de estrepolias”. E concluiu, cheio de convicção: “Todo ser humano que sofre antes do necessário sofre mais do que o necessário”.

Gosto muitíssimo de papear com o Silvino da Conceição, principalmente quando, vez por outra, insatisfações múltiplas parecem querer catapultar meu otimismo realista para bem longe. Quando de minha visita última, já portão aberto e abraços de até-outro-dia dados, ele presenteou-me com uma das suas, uma “saideira” de primeiríssima: “Quando alguém se considera um ser humano puro e simples, e com um terceiro acontece o mesmo, então é natural se encontrarem para um bate-papo sempre aberto, as diferenças administradas com sabedoria e paciência recíprocas. Quando, entretanto, um deles se considera uma altíssima montanha, o outro pensando o mesmo, as convergências jamais acontecerão. Montanhas podem ser altas, mas jamais podem se tocar…”

De retorno às minhas atividades profissionais, ainda mais cônscio como aprendiz das responsabilidades doutrinárias e às vésperas de concluir mais um texto de leitura reflexiva, lido com muita fraternal interdependência com a minha mulher, fortaleci o meu “senso identificatório”, sentindo-me alguns mil-réis mais apto na identificação dos pangarés da província, para rejeitar suas farolagens, que apenas ampliam inquietações e desconfortos. E bem mais afiado na identificação das “montanhas” do Silvino da Conceição, charladores que se auto-intitulam com esse ou com aquele título, apenas para engabelar panacas, como se todos fossem remelosos lambaios dos seus conjunturais postos de mando. E fiquei a rememorar uma advertência do jornalista H. L. Mencken, o maior iconoclasta norte-americano: “Todo homem prudente, ao lembrar-se de que a vida é curta, deveria dispensar uma hora ou duas, de vez em quando, para um exame crítico de suas amizades”. Para verificar se prestaria para ministro do STF, por exemplo. Sempre sabendo usar seu discernimento, enterrando pretensões descabidas com odor de sacanagens múltiplas.

No mais, é não esquecer Mário Quintana: “A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Quintana e Silvino da Conceição, doutores de Vida, sem brasões nem lamentações.

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KARDEC EM DUAS VERTENTES

1. Creio que poucos seguidores da Doutrina Espírita leram o explicitado no Evangelho segundo o espiritismo, capítulo VI, item 5, psicografado em 1860, em Paris. Transcrevo-o, na tradução do notável brasileiro J. Herculano Pires: “Venho, como outrora, entre os filhos desgarrados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como outrora a minha palavra, deve lembrar aos incrédulos que acima deles reina a verdade imutável: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinar as plantas e que levanta as ondas. Eu revelei a doutrina divina; e, como um segador, liguei em feixes o bem esparso pela humanidade, e disse: “Vinde a mim, todos vós que sofreis!” E conclui: “Espíritas: amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo. Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana; e eis que, de além-túmulo, que acreditáveis vazio, vozes vos clamam: Irmãos! Nada perece, Jesus Cristo é o vencedor do mal; sede os vencedores da impiedade!”

Quando me iniciei no estudo da Doutrina Espírita, por orientação do irmão querido Bruno Tavares, principiei uma série de leituras pronta pelos escritos do Codificador Allan Kardec. E na medida que o tempo passava, mais necessidade eu sentia de me aprofundar na Doutrina, lamentando meus parcos neurônios e percebendo que muitos ainda subestimam a necessidade de instruir-se, optando por uma superficialidade desvinculada das recomendações do notável lionês. Sempre continuarei pesquisando novas bibliografias que facilitem o meu aprendizado e as orientações apreendidas de outros irmãos talentosos.

Assim sendo, outro dia me deparei com um livro excepcionalmente didático, de autoria de Christiano Torchi, assessor jurídico do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, também voluntário da FEMS – Federação Espírita de Mato Grosso do Sul, além de docente no Centro Espírita Discípulos de Jesus, monitorando ESDE – Estudo Sistemático da Doutrina Espírita. O livro, Espiritismo passo a passo com Kardec, Brasília, FEB, 2016 (4ª.edição), 479 p., obteve grande aceitação, mesmo sendo um livro de estudos, consultas e pesquisas, conquistando a simpatia dos iniciantes, que o estão vendo como alicerce primeiro para o Pentateuco.

Na quarta capa do livro acima, um testemunho sobre o trabalho do Torchi: “Fiel aos princípios do Pentateuco – O Livro dos Espíritos, o Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o inferno, e A gênese -, ele se refere também às obras complementares, mediúnicas ou não, enriquecendo o pensamento religioso, principalmente quando recorre a André Luiz e Emmanuel, entre outros Espíritos de escol, e a pensadores encarnados, brasileiros e estrangeiros, no afã de informar com responsabilidade e clareza.”

O livro tem duas características: não tem intenções de proporcionar novidades, tampouco impor pontos de vista a quem quer que seja. Segundo o autor, o texto é um esforço de reflexão, daí nada devendo ser cegamente aceito, tornando-se indispensável a utilização de acurado senso crítico, tudo questionando, nada deixando de ser apurado, sempre em busca da Verdade, dada a falibilidade de todos, inclusive do próprio autor.

2. Para se ter uma noção mais depurada sob contexto da época, da revolução causada por Allan Kardec, no palco das revoluções políticas, sociais, culturais e científicas que se processavam no século XIX, proporcionando a mais importante revolução religiosa dos tempos modernos, é bastante significativa a leitura de Allan Kardec e sua época sob o ângulo humanista, de Jean Prieur (1914-2016), Bragança Paulista – SP, Lachâtre, 2015, 368 p. Uma biografia de Kardec contextualizada, onde o Codificador da Doutrina Espírita assim se manifestava diante dos fenômenos emergentes da época: “O espiritismo teve seu ponto de partida no fenômeno vulgar das mesas girantes. Mas como esses fatos falam mais aos olhos que à inteligência, eles despertam mais curiosidade do que sentimento. Uma vez satisfeita a curiosidade, fica-se menos interessado porque não são compreendidos, diferentemente de quando a teoria veio explicar a causa.”

A importância de Kardec se reflete posteriormente na sua inclusão no Grande Dicionário, onde Pierre Larousse reproduzia o pensar acima, com uma complementação: “Quando o Sr. Rivail ouviu falar de mesas gritantes, das supostas manifestações de espíritos batedores e de médiuns, ele pensou ter descoberto uma nova ciência e contribuiu para propagar na França essa funesta epidemia de supranaturalismo que fez tantos estragos durante uma década nas mentes das pessoas na América e na Europa.” Posicionamento alterado no próprio Larousse anos depois.

O livro do Jean Prieur está repleto de sedutoras constatações. Uma delas: a longa estadia de Kardec num país protestante teve uma gigantesca vantagem, a de proporcionar um bom conhecimento da Bíblia, pois naquela época, na França, até o início do século XX, era preciso uma autorização especial do confessor para ler o Antigo Testamento, posto que à época e segundo normas vaticanas não era leitura para qualquer um.

Dentre as iniciativas promissoras contidas no livro, Prieur narra o lançamento da Revista Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos, em 1858, 1° de janeiro, sonho acalentado por Kardec, o de ter um meio de comunicação mensal com os adeptos da Doutrina. E fundou ele ainda a SPES – Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, instituição devidamente autorizada pelo prefeito de polícia em 13 de abril, obedecendo parecer favorável do Senhor Ministro do Interior e da Segurança Geral. Que ouviu o seguinte testemunho de Napoleão III: “Tive a oportunidade de ler seus escritos com a imperatriz. É um homem sério, um cidadão estimado: podeis dar-lhe a permissão que solicita.”

Allan Kardec desencarnou na manhã de 31 de março de 1869, entre 11 horas e meio-dia. As descrições contidas nas páginas últimas do livro são emocionantes, historicamente reais. E Jean Prieur, ao seu todo, ressalta um Allan Kardec batalhador, plenamente comprometido com o Evangelho do Senhor Jesus, sempre pelejando por mais instruções para todos aqueles que desejam possuir a fraternidade universal como meta ultima de um processo civilizatório direcionado para a Luz Infinita.

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