FERNANDO A. GONÇALVES - COMPANHEIROS DE VIDA

PAULO FREIRE, UMA BIOGRAFIA SEM ENDEUSAMENTOS

Uma biografia me sensibilizou bastante nos últimos dias: Paulo Freire, mais que nunca: uma biografia filosófica, Walter Kohan, Belo Horizonte, Editora Vestígio, 2019, 269 p. Onde, na primeira página da Apresentação, uma afirmação bastante repetida pelo educador pernambucano, que muito clarifica sua caminhada em prol da Educação: “… sempre digo que a única maneira que alguém tem de aplicar, no seu contexto, algumas das proposições que fiz é exatamente refazer-me, quer dizer, não seguir-me. Para seguir-me, o fundamental é não seguir-me.” Frase ligeiramente modificada dita ao final de sua fala na FCAP, no Recife, em seu primeiro pronunciamento em território brasileiro, após retorno do exílio, auditório superlotado: “A experiência de Angicos foi uma, somente uma. E peço encarecidamente: não me copiem!! Me reinventem!!”

Esclarece o autor Walter Kohan, ainda na apresentação: “Paulo Freire é uma figura extraordinária não apenas para a educação brasileira, mas também para a educação latino-americana e mundial. Suas contribuições não se limitam a uma obra escrita, muito menos a um método, sequer a um paradigma teórico, mas dizem respeito também a uma prática e, de um modo mais geral, a uma vida dedicada à educação, uma vida feita escola, uma escola de vida, ou seja, uma maneira de ocupar o espaço de educador que o levou de viagem pelo mundo inteiro fazendo escola, educando em países da América Latina, nos Estados Unidos, na Europa, na África de língua portuguesa, na Ásia e Oceania.” E ele ressalta no seu livro que, somente no Brasil, entre 1991 e 2012, foram apresentados 1.852 trabalhos de pós-graduação: 1.428 dissertações de mestrado acadêmico, 39 dissertações de mestrado profissional e 385 teses. E ainda revela que uma pesquisa recente no Google Scholar, efetivada por Elliot Green, aponta A pedagogia do oprimido, no mundo inteiro, como a terceira obra mais citada no campo das ciências sociais. Com uma curiosidade: as edições em castelhano e inglês têm mais citações que a edição em português, comprovando o ditado que proclama que ninguém é profeta em sua terra.

O autor propõe também considerar seu texto “um exercício de pensamento, a partir das ideias e da vida de Paulo Freire, que resgate as suas contribuições para pensar a ‘politicidade’ da educação fora das cegueiras partidárias”. E uma das cegueiras mais estupidificantes foi a cretina iniciativa de se revogar a Lei 12.612 abril de 2012, que declara Paulo Freire patrono da educação brasileira. Iniciativa recusada pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa CDH), em 14 de dezembro de 2017 por considerá-la “fruto da ignorância sobre o legado do educador”.

O livro do Kohan ainda traz uma entrevista com o Lutgardes Costa Freira, filho fr Paulo Freire, efetivada em setembro de 2018, no Instituto Paulo Freire, São Paulo. Uma entrevista onde foram reveladas alegrias e obstáculos vivenciados por ele e a família durante o exílio do pai. O autor Kohan confessa que “um dos desafios do presente livro é escrever com a generosidade e abertura necessárias para que seja feita justiça a uma vida como de Paulo Freire, que parece grande demais para qualquer pretensão de escrita”. E ainda: “Cada um dos capítulos deste livro se inicia com um parágrafo que o sintetiza; posteriormente, apresenta um dos princípios e ao faz dialogar com a vida e o pensamento do educador pernambucano e de outros pensadores”.

No livro são explicitados os cinco princípios para se por em prática uma outra educação, válidos para todos os países de políticas educacionais libertadoras. São eles:

1. Uma educação política é uma educação filosófica, e nela a vida não fica do lado de fora da filosofia, da educação, da escola, do pensamento.

2. Em termos do que pode uma vida, todas as vidas são iguais, todas as vidas têm igual potência de vida. Todas as vidas valem igualmente e são igualmente capazes de colocar em questão a vida individual e social.

3. Educar é um ato amoroso. Quanto mais se educa, tanto mais se ama. Quanto mais se ama, tanto mais se educa. Disse Freire: “É possível ser tia sem amar os sobrinhos, sem gostar de ser tia, mas não é possível ser professora sem amar os alunos”.

4. Um educador é alguém que anda, caminha, se desloca sem um destino final, cria as condições para se encontrar com os que estão fora num tempo presente, de presença. O mundo está aberto, e o errar educante dará lugar a um outro mundo que não podemos antecipar.

5. A infância não é algo a ser educado, mas algo que educa. Uma educação política é uma educação na infância: na sua atenção, sensibilidade, curiosidade, inquietude e presença.

Mostrando sua ausência de endeusamentos descabidos, o Walter Kohan acrescenta ao livro um epílogo – Algumas críticas a Paulo Freire. Para qual política há lugar e tempo na educação? E também um Apêndice (Paulo Freire, filosofia para crianças e a “politicidade” da educação) e uma entrevista com a educadora brasileira Esther Pillar Grossi, dezembro de 2017, onde ela reconhece que Paulo Freire não se saiu bem quando era secretário municipal de educação de São Paulo, gestão Luíza Erundina.

A entrevista da professora Esther conclui pela necessidade de saber do professor, muitos deles vitimados pelos Cursos de Pedagogia que tiveram seus focos desviados por disciplinas periféricas que fazem a base trágica de uma analfabetização de milhões.

Mestre ignorante não educa, “astravanca” o progresso. Pois, segundo Paulo Freire, “escrever bonito é dever de quem escreve, sem importar o quê e sobre o quê”.

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MONTAIGNE, UM APRENDIZADO ETERNO

Muitos conhecidos meus, alguns amigos de longa data, vivem sem problemas financeiros, profissionalmente contextualizados, embora revelem, vez em quando, em reuniões convivenciais, alguns descontentamentos nada supérfluos. Tecnicamente preparados, distanciados estão de alguns procedimentos basilares indispensáveis para um caminhar psiquicamente mais ajustado às complexidades de um mundo de diferenças absurdamente díspares, onde uma ínfima minoria usufrui da quase totalidade da renda mundial.

Outro dia, nas comemorações de aniversário de uma filha de quinze anos, o Zé Eduardo, financista dos mais conceituados na praça, me pediu a indicação de um livro não-técnico, que o fizesse sair do automatismo existencial que o estava enjaulando nos últimos dez anos, desde seu matrimônio com a Verinha, uma médica de muita sensibilidade e paciência conjugal.

Pedi uns dias para dar uma olhada nos meus alfarrábios e ontem o visitei portando um exemplar de Como Viver ou uma biografia de Montaigne em perspectiva e vinte tentativas de resposta, Sarah Bakewell, Rio de Janeiro, Objetiva, 2012, 399 p., ela ex-curadora de livros antigos na Wellcome Library, atualmente ensinando escrita criativa na City University, também catalogando coleções de livros raros. E pedi ao amigo que seguisse a recomendação de Flaubert: “ler, não para se divertir, como fazem as crianças, ou para ser educado, como fazem os ambiciosos, mas ler para viver.”

Por que escolhi Montaigne, me perguntou o Zé Eduardo. E eu lhe informei o conteúdo da primeira orelha do livro: “excêntrico, preguiçoso, inconsistente e esquecido. Montaigne é o filósofo que quebrou um tabu e falou de si mesmo em público. Mais de quatrocentos anos depois, sua honestidade e seu charme continuam atraindo admiradores.” Que o procuram em busca de si mesmos.

E a orelha vai adiante: “Este livro é uma fonte valiosa de pequenos conselhos: ler muito, mas manter a mente aberta; ser sociável, mas nos reservar um ‘quartinho’ só nosso; observar o mundo de ângulos diferentes, evitando rigidez nas crenças.” Resumindo, uma questão: como equilibrar a necessidade de sentir-se seguro com a necessidade de sentir-se bem psiquicamente?

O livro fornece para a questão Como Viver? os seguintes vinte balizamentos:

1. Não se preocupe com a morte;
2. Preste atenção;
3. Trate de nascer;
4. Leia muito, esqueça quase tudo que lê e raciocine com lentidão;
5. Sobreviva ao amor e às perdas;
6. Recorra a pequenos truques;
7. Questione tudo;
8. Tenha um compartimento privado nos fundos da loja;
9. Seja sociável; viva com os outros;
10. Desperte do sono do hábito;
11. Viva com temperança;
12. Preserve sua humanidade;
13. Faça algo que ninguém nunca tenha feito;
14. Conheça o mundo;
15. Faça um bom trabalho, mas nem tão bom assim;
16. Filosofe só por acaso;
17. Reflita sobre tudo; não se arrependa de nada;
18. Abra mão do controle;
19. Seja comum e imperfeito;
20. Deixe a vida responder por si mesma.

Montaigne nasceu em 28 de fevereiro de 1533, França, eternizando-se em 13 de setembro 1592, vítima de uma crise de amigdalite. Casa-se em 23 de setembro de 1565 com Françoise de La Chassaigne. Os Ensaios tiveram a primeira edição em 1580, a segunda ocorrendo em 1582, quando Montaigne ocupava a prefeitura de Bordeau, sendo reeleito em 1583. Outra edição, a terceira, sairia em 1587, a de 1595, sob batuta de Marie de Gournay, tornando-se referência por três séculos. Em 1662, os Ensaios entraram cavilosamente no Index dos livros proibidos pela Igreja, proibição retirada somente em 1854.

Na introdução Como Viver?, Sara Bakewell assim se manifesta: “O século XXI está cheio de pessoas cheias de si. Meia hora de percurso pelo oceano on-line de blogs, tweets, tubes, spaces, faces, páginas e pods nos defronta com milhares de indivíduos fascinados pela própria personalidade e clamando por atenção. Eles falam de si mesmos, escrevem diários, conversam e postam fotografias de tudo que fazem. Desinibidamente extrovertidos, olham para dentro de si mesmos como nunca antes. À medida que mergulham em sua experiência pessoal, blogueiros e internautas se comunicam com os outros humanos, num verdadeiro festival do ego.” E essa ideia de escrever a seu próprio respeito foi inventada por Michel Eyquem de Montaigne, que soube dar vida à região do Périgord, no sudeste da França, de 1533 a 1592.

Além do livro, fiz uma proposta ao Zé Eduardo: a de ler os Ensaios de Montaigne. E lhe informei sobre a existência de uma edição integral da editora 34, São Paulo, 2016 (1ª. edição), com 1.032 páginas e tradução e notas de Sérgio Milliet, eternizado em 1966. Seguramente, um texto limpo, fluente, livre das amarrações acadêmicas. Para consolidar um viver integralmente recompensado.

Um texto que há muito está a merecer novos interesses da Universidade Brasileira ainda muito distanciada de um humanismo mínimo indispensável. Um livro para fecundas reflexões sobre nós próprios, sem egolatrias perversas.

FERNANDO A. GONÇALVES - COMPANHEIROS DE VIDA

PARA UMA JORNADA DECENTE

Três questões preliminares devem ser feitas aos que desejam alterar seus comportamentos, tornando-se mais ajustado aos ditames da Lei de Deus: 1. Qual a direção e qual o sentido da sua existência até o momento presente?; 2. Como você estava se sentindo durante sua existência até o instante atual?; 3.Você gostaria de seguir uma rota mais dignamente libertadora?

Tais questionamentos acima é um convite fraterno para uma reflexão consequente sobre o trajeto percorrido pelo caminheiro, favorecendo-o em escolhas mais adequadas, enfrentando com serenidade os desafios advindos das novas conjunturas, muitas delas bem mais obstaculizantes que as pretéritas, muito embora extremamente gratificantes para um seguir adiante mais sereno em direção da Luz Eterna.

Para quem deseja remodelar comportamento e convicção, na busca de uma jornada mais condizente com a dignidade humana, um livro recém lançado pela Letramais Editora muito favorece novos caminhares: A BÚSSOLA E O LEME: EM BUSCA DA DIREÇÃO E DO SENTIDO, Haroldo Dutra Dias, São Paulo, Intelítera Editora, 2019, 256 p., possuidor do seguinte sumário: Parte I – O Céu e a Embarcação (1. A natureza soberana; 2. Os ciclos da vida; 3. A consciência cocriadora; 4. Os setores da experiência; 5. A integração a si mesmo; 6. A integração com a natureza); Parte II – A Navegação (7. A nave e o capitão; 8. O mapa mental; 3. O plano de voo; 4. O tempo e a rota; 5. Outros navegantes); Parte III – Exercícios.

O autor, Haroldo Dutra Dias é mineiro, juiz de direito, humanista, escritor, tradutor e palestrante internacional, estudioso de temas significativos há mais de vinte anos como filosofia, psicologia, habilidades socioemocionais, espiritualidade e literatura grega. Além de articulista e também autor de várias obras consagradas. Segundo ele, “nossa vida pode ser encarada como uma desafiadora jornada que revela quem somos e o que buscamos, mas principalmente quem nos tornamos no curso dessa viagem chamada vida humana.”

No capítulo 2 do livro, Dutra reproduz os ciclos da vida, citando o Espírito Emmanuel: “cada homem possui, com a existência, uma série de estações e uma relação de dias, estruturada em precioso cálculo de probabilidades. Razoável se torna que aproveite a primavera da mocidade, o verão das forças físicas e o outono da reflexão, para a grande viagem do inferior para o superior”. E ele, Dutra, diz que toda idade é um recipiente no qual estão contidas as experiências da vida, cada uma delas com seu significado, dependendo da faixa etária onde aconteceu. O caminhar de cada um se divide em 12 níveis, assim por ele anunciados: 1. Nível físico ascendente (0 – 7 anos), tema central: autonomia física, orgânica; 2. Nível psicológico ascendente (7 – 14 anos), tema central: autoafirmação, autoexpressão; 3. Nível mental e emocional ascendente (14 – 21 anos), tema central; sexualidade e relacionamento; 4. Nível sociocultural ascendente (21 – 28 anos), tema central: inserção social e cultural; 5. Nível individual ascendente (28 – 35 anos), tema central: descoberta e expressão da própria identidade; 6. Nível psíquico espiritual ascendente (35 – 42 anos), tema central: crise existencial; 7. Nível psíquico espiritual descendente (42 – 49 anos), tema central: busca pelo sentido da vida; 8. Nível individual descendente (49 – 56 anos), tema central: revisão da identidade; 9. Nível sociocultural descendente (56 – 63 anos), tema central: reinserção social e cultural; 10. Nível mental e emocional descendente (63 – 70 anos), tema central: crise da sexualidade e do relacionamento; 11. Nível psicológico descendente (70 – 77 anos), tema central: necessidade intensa de atenção e admiração; 12. Nível físico descendente (77 – 84 anos), tema central: limitação física, orgânica.

A intenção do autor, no capítulo citado, foi a de demonstrar que, antes do início do planejamento de qualquer viagem, deve-se sempre perguntar o tempo de duração provável. Nunca se olvidando da faixa etária e da fase específica. E ele finaliza: o fator idade nos ajuda a compreender que cada existência é uma jornada estruturada, repleta de sentido, onde cada acontecimento é um elemento integrante de uma teia de significados, onde há o dia da chegada e o dia da partida.

Com felicidade incomum, Haroldo Dutra cita Erich Fromm: “A principal tarefa do homem na vida consiste em dar à luz a si mesmo, em se tornar aquilo que potencialmente ele é.” E ressalta que, no vocabulário chinês há uma palavra para designar crise: WEI-CHEI. Uma combinação de duas outras palavras: Wei significando perigo e Chi oportunidade. E declara: “É impossível viver profundamente sem experimentar dor, sem atravessar tempos de crise, colapso, mudança ou rupturas”.

Uma questão, aqui, se agiganta: “Por que alguns homens se veem bloqueados, paralisados, impotentes diante de seus obstáculos? Dutra ressalta que duas coisas podem acontecer: ou estamos excessivamente focados no exterior ou temos muito pouco autoconhecimento.

O livro, de leitura excelentemente didática, nos aponta para trajetos que devemos percorrer, onde poderemos efetivar escolhas mais consequentes, tornando-se melhor e aproveitando a viagem, tomando a vida como uma desafiadora e apaixonante jornada em direção à Luz Infinita.

FERNANDO A. GONÇALVES - COMPANHEIROS DE VIDA

O TEMPO DE DEUS

Graduado em Física pela Universidade Federal Fluminense, também Mestre e Doutor pela Universidade Estadual Paulista, tendo trabalhado com Metodologia da Ciência e Metodologia do Ensino Superior no curso de mestrado da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais preparados intelectuais espíritas brasileiros, fundador, em 1980, da Sociedade Espírita Fraternidade, para estudo, análise e prática da doutrina codificada na França por Allan Kardec.

Seu nome? Raul Teixeira, um nascido em Niterói, Rio de Janeiro. Seu livro mais recente? O Tempo de Deus, por ele psicografado do Espírito Camilo, autor do prefácio, segundo o qual “o tempo de Deus dá ao homem sabedoria pra viver na Terra com o mínimo desgosto da vida.” Segundo ainda Camilo, “o tempo é um motor que se move sem ser movido. Sem esse movimento não há tempo. São os Espíritos que fazem acontecer esse milagre do Cosmo, tão evidente como o ar que se respira, o tempo… No tempo de Deus, há sabedoria; no tempo de Deus, há felicidade; no tempo de Deus, há amizade; no tempo de Deus, há amor.”

Através de 160 páginas, o livro do Raul Teixeira tem os seguintes temas: 1. Através do tempo; 2. Tempos da morte; 3. Uma reflexão sobre a morte; 4. Atitudes egoísticas perante a morte; 5. Tempos de definição; 6. Ainda O Livro dos Espíritos; 7. Tempos de solidão; 8. Trabalha e espera; 9. Tempos de Cristo; 10. Desafios morais da nova geração; 11. Tempos de autoconhecimento; 12. No aprendizado da felicidade; 13. Tempos de descomprometimento 14. Valorização da inteligência; 15. Tempos de estarrecimento; 16. Tempos de materialismos; 17. Em torno do desconhecimento espiritual; 18. Tempos de medo; 19. Medita e avança; 20. Tempos de psiquismo; 21. Para a desobsessão; 22. Tempos de violência; 23. Em tempos de pedofilia e de educação da alma; 24. O tempo dos escândalos; 25. Justa indignação.

Escolhemos para os amigos leitores, algumas reflexões contidas no livro, encarecendo torna-las referenciais para leituras mais consistentes, individualmente ou em em grupo, favorecendo a ampliação da fraternidade comunitária:

1. “Pensa com carinho em teus entes queridos regressados ao Grande Lar da Imortalidade; evoca os melhores e mais belos momentos com eles vividos; reflete nos exemplos bons que te hajam deixados ou perdoa, honestamente, qualquer episódio infeliz que te hajam proporcionado nas experiências da vida. Mantém-te consciente de que a vida terrestre é uma escola de graves quão profundos aprendizados, onde a morte anuncia os necessários intervalos para sérias ponderações, reprogramações ou mudanças de rumo.”

2. “É lamentável acompanhar os estilos materialistas de conduzir-se a educação dos filhos que renascem no mundo, nos braços de seus pais, que quase sempre ignoram sua condição de Espíritos que retornam em novo corpo físico, a fim de se organizar interiormente e de evoluir na busca dos cimos luminescentes.”

3. “Grande contingente de homens terrenos vive de jargões fabricados pelo machismo perturbador e esdrúxulo, que se alimenta de velha cultura em que o sexo masculino tudo podia, e que estava na Terra para usufruir e dominar, demarcando, assim, sua trajetória humana.”

4. ”Sofremos sérios bloqueios intelectuais, quando dos nossos relacionamentos teológicos. Mostramo-nos profundamente emocionais, não simpatizando com as propostas da razão, o que nos predispõe à aceitação fácil de incontáveis fantasias, sem discernimentos, dependentes da ludicidade, do fantasioso e dos pensamentos concretos com dificuldade de elaborar abstrações”.

5. “Vale a pena notar que o Espiritismo nos apresenta um conjunto de princípios altamente impactantes e vigorosos, capazes de dar sentido à vida, explicitando a grandeza do Criador diante de Sua Criação, a exigir-nos mente aberta, amor à verdade e espírito de liberdade, para que logremos penetrar e aprofundar seus ensinamentos.”

6. “Não obstante um dos mais eminentes cientistas do século XX haja dado o golpe de misericórdia no materialismo, a enunciar a prevalência da energia em tudo que é formado, o fato é que as afirmações de Albert Einstein não lograram aclarar o intelecto de incontáveis indivíduos.”

7. “Enquanto a criatura humana não alcançar o conhecimento quanto a sua realidade espiritual, enquanto não admitir que não nos achamos na Terra por força da casualidade, e que há um planejamento da Divindade para nosso progresso individual e para o nosso avanço no campo social, será muito difícil consertarmos as linhas distorcidas da vida terrena”.

8. “Um pouco de amadurecida reflexão faria com que cada indivíduo procurasse realizar sua parte, na contextura social em que esteja, resguardando-se de maneira natural dos vários tipos de intempéries morais e sociais que se abatem sobre as sociedades, implantando esse desordenado império do medo.”

Recomendo o livro-reflexão do Raul Teixeira, para todos aqueles que buscam perseverar na fidelidade ao sumo bem nas lutas humanas de cada hora, cada vez mais embalados por uma fulgurante esperança que nos impulsiona para a Luz Eterna. Inclusive a mim mesmo, um encarnado ainda repleto de carências e imperfeições.

FERNANDO A. GONÇALVES - COMPANHEIROS DE VIDA

NOTAS JUNINAS

1. Aproveitando alguns dias de folga para pôr em dia as minhas atividades lúdicas, uma já vista sessão de cinema me deixou com os pés mais no chão. O filme O Espelho Tem Duas Faces, uma comédia-parábola de finíssimo trato, sem resvalar para carolices sentimentaloides, me fez consciente dos angustiantes momentos vivenciados por aqueles que buscam reencontrar-se após relacionamentos ultrapassados pelas diferenciadas evoluções históricas das partes.

O filme, dirigido e também interpretado por Barbara Streisand, explicita um conflito moderno, aparentemente insolúvel entre a paixão e a amizade, a primeira comportando umas boas e quentes sessões horizontais, a segunda apenas se satisfazendo com amplexos e cheiros platônicos, tudo o mais relacionado com a fricção corporal sendo motivo de teorizações mil, com quase inexistentes comprometimentos práticos.

Já observei, em amigos vários, os dois lados da moeda. De um lado, pessoas que só se preocupam apenas com aquilo, masculino ou feminino. Diante de uma mulher, alguns homens imaginam logo como excursionar pelo Triângulo das Bermudas, as ideias e os gostos e convergências somente merecendo destaque, quando acontece, após o cigarro, o banho e a conta. Por outro lado, tem mulher que só se interessa pelo acervo documental dos Países Baixos do sexo contrário, a corda do violino bem esticada e a bateria no ritmo frenético da Vai-Vai, escola de samba paulista, do Grupo Especial.

O verso da medalha também é deveras lamentável. Tem sujeito babaca que, desconhecendo geometria, fica um tempão discutindo se o Triângulo é isósceles, equilátero ou retângulo, olvidando-se da bissetriz que adentra pelo meio do mundo, até a exaustão feliz das partes envolvidas. Por outro lado, também muito tristemente, tem madame que se avorisam – tornam-se patologicamente avós – logo após os quarenta, deixando os consortes sem mel nem cabaço, o mais curto caminho para descompressoras raparigagens. Avós mentalmente autoclassificadas, algumas senhoras despojam-se dos seus tchans, relaxam marquizes e encruzilhadas, se empanturram de cremes hidratantes e próteses revificantes, apenas para se tornarem duplamente mães para sobrinhos, netos, afilhados e avizinhados, os meninos de rua merecendo apenas exclamações piedosas, algumas até fascistoides.

Há três tipos de seres humanos, diante das duas faces de um espelho: os autoconscientes, autônomos e seguros de seus próprios horizontes e limites; os mergulhados, inundados por suas emoções e incapazes de safar-se delas; e os resignados, os que aceitam passivamente viver como são, num laisser-faire suicida, num “como Deus quis”, como se Ele fosse o responsável pela incapacidade de “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”.

Lembrei-me de um ditado que diz “nem oito, nem oitenta”. Da minha parte, eu me contento em buscar viver na média. Quarenta e quatro tá na medida, com isso e aquilo dentro dos conformes emocionais e das disposições transitórias. Sem blá-blá-blá nem meio mas. Embora subsidiado com as fantasias que ajudam. Ainda que distanciadas dos ensaios do Segurando o Talo, bloco da querida Fundação Joaquim Nabuco.

2. Nunca me surpreenderão, na Igreja Católica, como nas demais denominações, as conjunturais escaramuças sobre temas os mais diversos. Somente através de amplos debates, os que se imaginam donos da verdade desaparecerão, favorecendo oxigenações contínuas e muito necessárias, se inspiradas nas palavras do Senhor.

Desde os primórdios do Cristianismo, as discussões se tornaram rotineiras. No Livro Sagrado, por exemplo, os Atos dos Apóstolos nos mostram, capítulo 15, um debate acontecido na Antioquia, quando alguns desejavam circuncidar os pagãos convertidos, segundo as normas de Moisés, sob a alegação de que não poderiam ser salvos se assim não procedessem. A oposição vigorosa de Paulo e de Barnabé, no concílio de Jerusalém, anulou a ingênua proposição, para isso contribuindo o testemunho de Tiago, quando proclamou, alto e bom som, que não se acumulassem obstáculos diante dos pagãos que desejavam se voltar para Deus (At,15,19). Uma vitória do convencimento sobre a tola pretensão de alguns, desprovida de qualquer consistência teológica.

As discussões e análises, outrora, aconteciam nas ágoras, praças gregas onde eram difundidas as informações. Os espaços eram conquistados pelos que mais sabiam argumentar e convencer, valendo os dotes da oratória e a bagagem de conhecimentos. As ideias prosperavam, se consolidavam ou cediam lugar a novos posicionamentos, a partir de amplas discussões, cada um tendo o direito de se manifestar como bem entendia, aquilatadas as estratégias de convencimento e o poder de contra-argumentação dos demais.

Às vésperas de uma nova década do terceiro milênio, novas ágoras surgem no cenário mundial, aproveitando o imenso potencial comunicador da Internet. Com a evolução dos espaços cibernéticos, as várias tendências eclesiásticas despertaram para diferenciadas estratégias de conversão. No Brasil, equilibrando-se entre alas “conservadoras” e segmentos “progressistas”, a homepage da CNBB fornece ao público católico informações gerais sobre a entidade. Mas não é da CNBB, e sim da Missão Salesiana do Mato Grosso, o galardão da página que mais informações diárias contém, em português, sobre a Igreja no mundo. A CNBB também fica aquém da página Mundo Católico, idealizada e mantida por leigos, que possui a mais abrangente lista de endereços.

As ágoras do Terceiro Milênio estão despertando milhares para a conversão, a Palavra de Deus sendo amplamente vista e ouvida nos quatro cantos da Terra, levadas por inúmeras correntes teologais. Vale a pena conferir, por exemplo, o site da primeira Bíblia em português na Internet (http://www.cuc.edu/cgi-bin/biblia), ou o site da maior coleção de estudos bíblicos em português (http://www.cuc.edu/cgi-bin/bf.pl), páginas idealizadas por um brasileiro que reside nos Estados Unidos.

No Brasil, três páginas são muito visitadas: a da Arquidiocese de São Paulo, a da Arquidiocese do Rio de Janeiro e a recifense Igreja Nova (http://www.elogica.com.br/users/igrenova), estruturada em seis idiomas e idealizada por leigos da paróquia de Boa Viagem.

Um dia, Ele disse que “se o próprio sal perder o sabor com que se há de salgar?”. E eu continuo acreditando firmemente nas palavras do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador.

3. Nas férias, aproveitemos os momentos de descanso para ampliar uma enxergância na direção da Luz Eterna. E saibamos repetir o que psicografou Chico Xavier, contido no livro Educandário de Luz, sob título Missão do Templo Espírita: “Estudemos, sentindo, compreendendo, construindo e ajudando sempre. Auxiliemos o próximo, sustentando, ainda, todos aqueles que procuram auxiliar. Jesus chamou a equipe dos apóstolos que lhe asseguraram cobertura à obra redentora, não para incensar-se e nem para encerrá-los em torre de marfim, mas para erguê-los à condição de amigos fiéis, capazes de abençoar, confortar, instruir e servir ao povo que, em todas as latitudes da Terra, lhe constitui a amorosa família do coração”.

Festejos juninos bem arretados de ótimo para todos!!!

FERNANDO A. GONÇALVES - COMPANHEIROS DE VIDA

ECONOMIA: DESAPRENDER E REAPRENDER

Para quem aspira ver concretizada uma solidariedade universal mais compatível com a dignidade humana, recomendo com entusiasmo um livro por mim citado dias atrás, através do seguinte parágrafo: “Aos que cursam ou já se graduaram em Economia, uma recomendação que muito relembra o pensar do saudoso economista Celso Furtado – “o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos; mas será que o triângulo é retângulo?”: a leitura de Economia Donut: uma alternativa ao crescimento a qualquer custo, de Kate Raworth, RJ, Zahar, 2019, 368 p. Segundo The Guardian, “brilhante e revolucionário, acessível a qualquer pessoa. Um livro que vai mudar o mundo”. Onde se pede encarecidamente aos acadêmicos de Economia ou recém graduados em Ciências Econômicas a leitura bastante reflexiva da Introdução Quem quer ser economista?, onde a própria autora apresenta as mudanças que nos farão mudar os modos de ser economista século XXI, deletando as velhas ideias que nos aprisionaram, favorecendo o direito de todas as crianças do planeta comer três vezes por dia, sem o risco da fome, num mundo atual brutalmente desigual, onde o grupo 1% mais rico detém mais riqueza que todos os outros 99% juntos (dados de 2008). E onde os desafios do crescimento demográfico (quase 10 bilhões em 2050) tornam as perspectivas atuais devastadoras, a exigir novos agires estratégicos de desenvolvimento socioeconômico bem mais solidariamente sociais. Sem mais a mentalidade capitalista econômica individualista, hedonista por derradeiro, nos manuais dos anos 1950.”

Mais que nunca, o mundo civilizado dos negócios necessita recordar diariamente a reflexão do economista Celso Furtado, um nordestino pra lá de arretado de ótimo: um apelo feito por Furtado às novas gerações de economistas, quando novos cenários mundiais pós-Segunda Guerra Mundial estão a fazer emergir novas formas de pensar e agir na área da Educação Econômica, onde diversas escolas de pensamento se manifestam com intensidade nunca vista, como a da complexidade, a ecológica, a feminista, a institucional e a comportamental, com suas mil e uma ideias, ainda que muito imbricadas, todas elas, em suas próprias publicações, conferências e nichos. Quando já urge um avanço integrado de todas elas no enfrentamento dos formidáveis desafios globais, abjurando-se as metáforas e pontos cegos de passados hoje considerados obsoletos. A conjuntura exige, a la Alvin Toffler, um desaprender para reaprender novas concepções de desenvolvimento social, favorecendo a emersão de contemporâneas estruturas econômicas e sociais.

A autora é professora e pesquisadora da Universidade de Oxford e é considerada, segundo The Guardian, o John Maynard Keynes do século XXI, ao reformular a economia, nos permitindo mudar nossa visão de quem somos, onde estamos e o que queremos. O Forbes, outro instituição econômica de renome consagrado, ressalta que “o livro é um texto fascinante aviso a economistas e empresários: deem um passo atrás e analisem nossa economia”.

O trabalho da Kate Raworth, segundo ela própria declara, é o de, ainda no presente século, criar economias que promovam prosperidade humana numa teia de vida florescente, de maneira que possibilite uma prosperidade em equilíbrio dentro de um espaço seguro e justo.

Seria considerado pioneiramente oportuna a junção de universidades (departamentos de economia e sociologia), empresários, dirigentes públicos e formadores de opinião, na promoção de eventos catapultadores que se iniciassem reavivando as etapas contidas no livro seminal Etapas do desenvolvimento econômico, do economista americano Walt W. Rostow, editado em 1960, onde se explicitavam as famosas cinco etapas: 1. A sociedade tradicional; 2. As precondições para a decolagem; 3. A decolagem; 4. O voo para a maturidade; 5. A era do consumo de massa. Onde a curva do S seria amplamente analisada através dos ingredientes que a fizeram cair no esquecimento, anestesiada pela ilusão de um crescimento econômico infinito sem um mínimo de solidariedade humana.

É chegada a hora de se pensar mais ousadamente, sem sectarismos ideológicos de princípios que já não mais se sustentam. Todos percebendo que, assim não procedendo, naufragaremos no frigir dos ovos, posto que “jacaré que muito dorme vira bolsa de madame”.

FERNANDO A. GONÇALVES - COMPANHEIROS DE VIDA

RESTAURANDO CAMINHADAS

Um amigo meu, nunca da-onça, companheiro de prancheta de uma profissional sediada no Rio de Janeiro, encantou-se com um texto por ela recentemente exposto, quando da apresentação de uma moderna terapia amplificadora da autoestima.

O escrito reflete uma meta-sonho, exposta por ser humano sintonizado com os arcabouços situacionais que viabilizam caminhares consequentes, menos materialistas, mais consentâneos com as múltiplas confianças depositadas nos ômegas de Teilhard du Chardin. Seguramente escrito por alguém que bem conhece o estilo literário de Jorge Luís Borges, um dos notáveis intérpretes da alma latino-americana, o texto revela grandezas, agigantando uma parceria assumidamente sincera.

A espinha dorsal do que foi apresentado merece ser aqui reproduzido, sem acréscimos nem interpretações, a autora se dirigindo ao ente muito amado, no Dia dos Namorados:

Eu gostaria muito que, no nosso diuturno ambiente de convívio, os meus projetos fossem a concretização dos teus sonhos. Neles, tentaria criar um ambiente harmônico, tranquilo e com um tempero de muita paz. Combinaria o tecido das cortinas com a luz do céu. A cor das paredes seria a mesma do teu estado de espírito. A colcha de nossa cama, sem dúvida alguma, a refletir a imensidão do teu prazer.

Nos diversos cômodos da casa colocaria objetos que mais nitidamente te revelassem. Na toalha da mesa eu espelharia teus sentimentos mais profundos, juntamente com os teus momentos mais calmos, sem jamais procurar desmerecer, pelos quatro cantos das peças, os teus instantes mais tormentosos.

No nosso banheiro, eu combinaria as toalhas de corpo e de mão com a tua sensualidade, como que mesclando tua indomada ousadia com teus períodos de restauradora castidade.

Os nossos porta-retratos refletiriam teus momentos mais significativos, sempre acompanhados dos teus demônios e dos teus anjos da guarda. E em cada canto de nossa casa depositaria um punhado de muito bom humor, para que a alegria nunca te abandonasse, sem esquecer uma pitada de nostalgia, vacina eficaz contra sonhos exagerados.

Eu queria muito ver-te entrando em nossa casa intensamente vivo, com integral capacidade de chorar e rir, a sensibilidade jamais amesquinhada pelos punhais do cotidiano insalubre. E com uma vontade danada de mudar sempre para melhor, a esperança sendo o estandarte maior de nossa estrada.

Eu muito apreciaria poder olhar o mundo através dos teus olhos, jamais me relegando a segundo plano, agradecendo a Deus pela tua existência. Na certeza da plena e imorredoura fusão do côncavo e do convexo. Os meus dias sendo os teus dias, o meu viver sendo pedaço do teu caminhar. As minhas entranhas jamais desmerecendo o que foi por ti depositado. No meu dia, sou tua, sempre ampliando-te através do meu Amor ”.

Antes que alguma mente bundana se explicite latrineiramente, informo que a autora do texto acima é profissional conhecida pela sua luta a favor da igualdade dos direitos de homens e mulheres. Radicalmente a favor de todos, sem perder a ternura jamais.

Acima das suas qualidades, a autora é ainda a co-autora da caminhada do seu amado, tornando-se magnífica por saber edificar um outro pedaço seu. Um pedaço que nela necessita se complementar, por não saber ser apenas simplesmente ele.

Aos que cursam ou já se graduaram em Economia, uma recomendação que muito relembra o pensar do saudoso economista – “o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos; mas será que o triângulo é retângulo?”: a leitura de Economia Donut: uma alternativa ao crescimento a qualquer custo, de Kate Raworth, RJ, Zahar, 2019, 368 p. Segundo The Guardian, “brilhante e revolucionário, acessível a qualquer pessoa. Um livro que vai mudar o mundo”. Onde se pede encarecidamente aos acadêmicos de Economia ou recém graduados em Ciências Econômicas a leitura bastante reflexiva da Introdução Quem quer ser economista?, onde a própria autora apresenta as mudanças que nos farão mudar os modos de ser economista século XXI, deletando as velhas ideias que nos aprisionaram, favorecendo o direito de todas as crianças do planeta comer três vezes por dia, sem o risco da fome, num mundo atual brutalmente desigual, onde o grupo 1% mais rico detém mais riqueza que todos os outros 99% juntos (dados de 2008). E onde os desafios do crescimento demográfico (quase 10 bilhões em 2050) tornam as perspectivas atuais devastadoras, a exigir novos agires estratégicos de desenvolvimento socioeconômico, bem mais solidariamente social. Sem mais a mentalidade capitalista econômica enraizada nos manuais dos anos 1950.

PS. Para as Marias de todos os tempos ! Sissa de porta-bandeira !!

FERNANDO A. GONÇALVES - COMPANHEIROS DE VIDA

LEITURAS INESQUECÍVEIS

Costumo refugiar-me nas páginas de um bom livro, quando observo tempestades se avizinhando em céus aparentemente límpidos, fingidos de brigadeiro, disfarçados de tudo-azul com bolinhas cor-de-rosa. A leitura me retempera ânimos, acalenta sonhos, municia meus parcos embornais cognitivos, azeitando, ainda de quebra, as minhas estruturas comportamentais, para que eu possa continuar a travar o bom combate, sem pretensão eleitoral de qualquer natureza, até quando o nosso Deus permitir. E elas ainda me prestam um serviço terapêutico danado de bom: descongestionam o trânsito cerebral, desentulhando-o das informações chegadas, sem lenço nem documento, pelos me-disseram dos nossos derredores eletrônicos, alguns ávidos na transmissão de “despretensiosas” fuxicadas, modernamente classificadas de fake-news.

Vez por outra, entretanto, sem espanto mais algum, observo a realidade reproduzir reflexões e comentários anteriormente lidos, muitos dos quais tidos e havidos por mim mesmo como frutos de uma inteligência sonhadora, não mais aplicáveis aos dias atuais, posto que escritos num passado de muitas décadas. Uma desatenção grosseira, a minha, pois são leituras que se eternizam, escritas, num ontem, por quem soube antecipar-se aos seus, eternizando-se também.

Semana passada, noite de vigília a doente amigo, reli pedaços de Michel de Montaigne. Seus Ensaios, elaborados no terço final do século XVI, guardam lições notáveis, plenamente válidas para os dias atuais de um Brasil ainda não adulto, mal saído da adolescência, pau-inteiro com meia mente. Eis duas delas: “Quando as leis não podem obter o que têm direito de exigir, mais vale que exijam somente o que podem obter”; “De que nos serve entender as coisas se com isso nos tornamos mais covardes, se esse conhecimento nos tira o repouso e a tranquilidade de que gozaríamos sem ele, se nos reduz a condição pior que a do porco de Pirro?”.

A primeira reflexão, de Montaigne, espelha as iniciativas de alguns parlamentares de um Congresso Nacional pouco luzidio. Às vésperas de eleição, apresentam mil e um mirabolantes projetos, que prometem mundos e fundos, apenas para usufruir dos fundos dos incautos após os resultados, iludindo uma vez mais aqueles que votam por qualquer tostão, ou por um frasco de remédio, ou por uma camisa, ou por uma frase de efeito metida a raivosa, demagógica por completo, mentirosa toda.

A segunda lição acima, ainda do Mestre Montaigne, nocauteia alguns “bem pensantes”, que imaginam mil e um artifícios para usufruto de vantagens apenas pessoais, o resto sendo apenas mote para perorações pretensamente denunciadoras, externadas assepticamente, de modo cientificamente frio, para arregalar olhos desatentos e cuecas frouxas.

Quando o deputado e ex-ministro Roberto Campos dizia que “há hoje no mundo grande ceticismo sobre a capacidade do Brasil para mudanças modernizantes”, não estaria ele se embasando nas duas reflexões escritas por Montaigne há mais de quatrocentos anos?

Para juntar ontens e hojes na projeção dos amanhãs, excelente leitura é 21 Lições para o século 21, de Yuval Noah Harari, um israelita nascido em 1976, PhD em História pela Universidade de Oxford, atualmente docente da Universidade Hebraica de Jerusalém, autor de dois trabalhos fenomenais: Sapiens: uma breve história da humanidade e Homo Deus: uma breve história do amanhã, duas obras que já venderam mais de 14 milhões de livros em todo mundo. O livro primeiramente citado está composto de cinco partes: I. Desafios Tecnológicos; Parte II. O Desafio Político; III. Desespero e Esperança; IV. Verdade; V. Resiliência. Nele, algumas questões são analisadas: a. Qual é o sentido da ascensão de Donald Trump?; b. O que podemos fazer ante a epidemia de fake news?; c. Por que a democracia liberal está em crise?; d. Deus está de volta?; e. Haverá uma nova guerra mundial?; f. Qual civilização domina o mundo – o Ocidente, a China, o Islã?; g. A Europa deveria manter as portas abertas aos imigrantes?; h. O nacionalismo pode resolver os problemas de desigualdade e mudanças climáticas?; i. O que fazer quanto ao terrorismo?

É tempo de bem pensar, às vésperas de reformas inadiáveis, inclusive a Previdenciária. Desde que seja uma reformulação que não se torne de modo algum tipicamente “pacu”, onde as elites entram com o pau e os despossuídos, sempre vítimas, entram com a segunda parte, como sempre bem ou mal ensaboada.

FERNANDO A. GONÇALVES - COMPANHEIROS DE VIDA

FRASES QUASE CONEXAS

Num sábado passado, contente que só por estar bem perto da Sissa, que chegou do cabelereiro para iluminar meu canto de estudo, cascavilhei uns apontamentos que teimavam em resistir ao tempo, atocaiados no fundo de uma gaveta metida a socavão de papéis de ontem. E resolvi juntar algumas frases neles contidas, sem identificar seus autores, para oferecer aqueles que ainda estão azeitando suas “birutas”, para melhor auscultar a direção dos ventos de uma profissionalidade duradoura. A não-identificação é proposital, para que todos possam refletir melhor sobre as frases, pouco importando para épocas, nacionalidades, ideologias, nomes e sobrenomes de seus autores. Que cada um dos pensamentos aqui expostos subsidie reestruturações comportamentais naqueles que necessitam ser mais para que possam usufruir mais adequadamente dos talentos oferecidos pela Criação. Ei-las abaixo, para os que possuem vontade de reenergizar-se existencial, espiritual e profissionalmente:

– A sabedoria é o conhecimento temperado pelo juízo. Através dos séculos existiram homens que deram o primeiro passo ao longo de novos caminhos, sem outros recursos além de sua própria visão. Só o homem é o arquiteto de seu próprio destino.

– A maior revolução em nossa geração é que seres humanos, modificando as atitudes mais íntimas de sua mente, podem modificar os aspectos exteriores de sua vida.

– Tornar-se águia sem mentalidade de galinha, por mais emplumada que esta seja.

– Tudo pode ser mudado; mas nada será mudado até que se comece.

– O mais importante é não parar de questionar.

– A curiosidade tem sua própria razão de ser. Nunca perca a sagrada curiosidade.

– Somente quem se arrisca a ir longe fica sabendo até onde pode chegar. O pessimista queixa-se da ventania. O otimista espera que ela acabe. O realista ajusta as velas.

– Há sempre um momento no tempo em que uma porta se abre e deixa o futuro entrar.

– Aquele que tem um porquê para viver pode enfrentar todos os comos.

– Há muito a ser dito em favor do fracasso. Ele é mais interessante do que o sucesso.

– Fracassado é o homem que erra e não é capaz de aproveitar a experiência.

– Não existe fracasso, a não ser em não continuar tentando com criatividade e flexibilidade.

– O sucesso é medido não tanto pela posição que alguém alcançou na vida, mas pelos obstáculos que ela ultrapassou enquanto tentava vencer.

– Uma jornada de mil milhas começa com um simples passo.

– Um objetivo nada mais é do que um sonho com um limite de tempo.

– Quanto mais a razão crítica dominar, mais empobrecida será a vida.

– O único homem que nunca comete erros é aquele que nunca faz coisa alguma.

– Não tenha medo de errar, pois você aprenderá a não cometer duas vezes o mesmo erro.

– A única coisa permanente é a mudança. Não podemos esperar que o mundo mude.

– Não podemos esperar que os tempos se modifiquem e nós nos modifiquemos junto, por uma revolução que chegue e nos arrebate em sua marcha.

– A coragem é inegavelmente uma das grandes virtudes da humanidade. Ela sempre garante imensa tranquilidade de consciência. A timidez, o escrúpulo e a dúvida, ao contrário, torturam frequentemente o espírito e conduzem às derrotas e ao desespero.

– Não pergunte o que seu país pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer pelo seu país.

– O diploma não encurta as orelhas de ninguém.

– Eu não tenho a fórmula para o sucesso.

– Perigoso é um pouco de conhecimento.

– Tolo é aquele que naufragou seus navios duas vezes e continua culpando o mar.

– Seres humanos podem mudar sua vida mudando suas atitudes. Comece a tecer e Deus lhe mandará a linha.

– A calma e a resignação, hauridas na maneira de encarar a vida terrestre e na fé no futuro, dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio.

– Competir sem querer a destruição de seu adversário, desejando que vença o melhor, é nobreza de propósito e beleza de companheirismo.

– Não são justas e cristãs as organizações sociais que tolhem a liberdade de desenvolvimento do homem, em nome da religião, de ideologias políticas e instituições governamentais.

– Todas as vezes que o espírita constatar a destruição da natureza em função do lucro que os sistemas econômicos exigem, deverá associar-se às vozes que clamam contra tal destruição.

De uma popular, bolsa-família, quase nonagenária, alegre sempre, antenada toda:

“Jacaré que muito dorme vira bolsa de madame”.

FERNANDO A. GONÇALVES - COMPANHEIROS DE VIDA

O CIENTISTA DO DNA

Um dos cientistas mais aplaudidos do mundo contemporâneo chama-se Francis Collins, diretor do Projeto Genoma, nascido em 14 de abril de 1950, que, em 2001 anunciou o mapeamento do DNA humano. Geneticista, o doutor Collins, até os 27 anos, era um ateu convicto, somente se direcionando para uma fé religiosa quando cursava a faculdade de medicina. E sua caminhada na direção é contada no livro A Linguagem de Deus: um cientista apresenta evidências de que Ele existe, editado no Brasil pela Editora Gente, São Paulo, em 2007.

E é o próprio Collins que confessa: “Houve um período em minha vida em que era conveniente não acreditar em Deus. Eu era jovem, e a física, a química e a matemática pareciam ter todas as respostas para os mistérios da vida. Reduzir tudo a equações era uma forma de exercer total controle sobre meu mundo. Percebi que a ciência não substitui a religião quando ingressei na faculdade de medicina. Vi pessoas sofrendo de males terríveis. Uma delas, depois de me contar sobre sua fé e como conseguia forças para lutar contra a doença, perguntou-me em que eu acreditava. Disse a ela que não acreditava em nada. Pareceu-me uma resposta vaga, uma frase feita de um cientista ingênuo que se achava capaz de tirar conclusões sobre um assunto tão profundo e negar a evidência de que existe algo maior do que equações. Eu tinha 27 anos. Não passava de um rapaz insolente. Estava negando a possibilidade de haver algo capaz de explicar questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem as pessoas superar desafios”.

E disse mais: “Falo de questões filosóficas que transcendem a ciência, que fazem parte da existência humana. Os cientistas que se dizem ateus têm uma visão empobrecida sobre perguntas que todos nós, seres humanos, nos fazemos todos os dias: ‘O que acontece depois da morte?’ ou ‘Qual é o motivo de eu estar aqui?’. Não é certo negar aos seres humanos o direito de acreditar que a vida não é um simples episódio da natureza, explicado cientificamente e sem um sentido maior. Esse lado filosófico da fé, na minha opinião, é uma das facetas mais importantes da religião. A busca por Deus sempre esteve presente na história e foi necessária para o progresso. Civilizações que tentaram suprimir a fé e justificar a vida exclusivamente por meio da ciência – como, recentemente, a União Soviética de Stalin e a China de Mao – falharam. Precisamos da ciência para entender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais”.

Sobre Richard Dawkins, cientista ateu de renome, assim de pronunciou: “Essa perspectiva de Dawkins é cheia de presunção. Eu acredito que o ateísmo é a mais irracional das escolhas. Os cientistas ateus, que acreditam apenas na teoria da evolução e negam todo o resto, sofrem de excesso de confiança. Na visão desses cientistas, hoje adquirimos tanta sabedoria a respeito da evolução e de como a vida se formou que simplesmente não precisamos mais de Deus. O que deve ficar claro é que as sociedades necessitam tanto da religião como da ciência. Elas não são incompatíveis, mas sim complementares. A ciência investiga o mundo natural. Deus pertence a outra esfera. Deus está fora do mundo natural. Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. No passado foram lançados vários livros de cientistas renomados, que atacaram a religião sem nenhum propósito. É uma ofensa àqueles que têm fé e respeitam a ciência. Em vez de blasfemarem, esses cientistas deveriam trabalhar para elucidar os mistérios que ainda existem. É o que nos cabe”.

Questionado sobre os erros cometidos pela religiões, Collns assim se manifestou: “Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas em nome da religião. Pense em Madre Teresa de Calcutá ou em William Wilberforce, o cristão inglês que passou a vida lutando contra a escravatura. O problema é que a água pura da fé religiosa circula nas veias defeituosas e enferrujadas dos seres humanos, o que às vezes a torna turva. Isso não significa que os princípios estejam errados, apenas que determinadas pessoas usam esses princípios de forma inadequada para justificar suas ações. A religião é um veículo da fé – essa, sim, imprescindível para a humanidade”.

Sobre a teoria do “design inteligente”, Collins não titubeou: “Essa abordagem é um grande erro. Os cientistas não podem cair na armadilha a que chamo de “lacuna divina”. Lamento que o movimento do design inteligente tenha caído nessa cilada ao usar o argumento de que a evolução não explica estruturas tão complicadas como as células ou o olho humano. É dever de todos os cientistas, inclusive dos que têm fé, tentar encontrar explicações racionais para tudo o que existe. Todos os sistemas complexos citados pelo design inteligente – o mais citado é o “bacterial flagellum”, um pequeno motor externo que permite à bactéria se mover nos líquidos – são um conjunto de trinta proteínas. Podemos juntar artificialmente essas trinta proteínas, que nada vai acontecer. Isso porque esses mecanismos se formaram gradualmente através do recrutamento de outros componentes. No curso de longos períodos de tempo, as máquinas moleculares se desenvolveram por meio do processo que Darwin vislumbrou, ou seja, a evolução”.

Sobre Deus e a teoria da evolução, Collins foi incisivo: “Se no começo dos tempos Deus escolheu usar o mecanismo da evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta, para produzir criaturas que à sua imagem tenham livre arbítrio, alma e capacidade de discernir entre o bem e o mal, quem somos nós para dizer que Ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?”

O instingante livro do Francis Collins nos faz perceber, quando da leitura da sua última página, que se evidenciam a cada amanhecer que a ciência e a religião devem caminhar juntas, favorecendo o evoluir da humanidade na direção um Final de muita Luz, a ninguém sendo impossibilitado a Felicidade Eterna.