CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

PARA QUE SERVE O VEREADOR?

Câmara de vereadores do Recife, o puteiro de José Mariano

“O vereador é um agente político, eleito para sua função pelo voto direto e secreto da população municipal de quatro em quatro anos.” Portanto, ele é eleito por vós, eleitores idiotas, para roubar vosso dinheiro na esfera municipal, dinheiro esse roubado dos impostos dos contribuintes que seria destinado à saúde, à educação, à segurança, ao transporte coletivo, ao desenvolvimento econômico…

O vereador tem o dever de fiscalizar a administração municipal, examinar atentamente a aplicação dos recursos e observar o destino do orçamento. Tem a obrigação de acompanhar as ações do Poder Executivo, principalmente em relação ao cumprimento das leis e da boa aplicação e a gestão do dinheiro público.

Assim está escrito na Constituição Frankenstein de 1988 e nas leis Orgânicas Municipais, por opção do legislador originário, que imaginou o Brasil um paraíso de boas intenções, onde existe harmonia, transparência e honestidade entre os representantes dos três poderes, principalmente o Legislativo: O Refúgio dos Ladrões!

Como integrante do poder legislativo municipal, o vereador tem como função primordial: representar os interesses da população perante o Poder Público. Esse é, ou pelo menos em tese o objetivo final de uma pessoa escolhida como representante do povo, mas na prática a teoria é diferente. O vereador é mais um ladrão do dinheiro do povo, juntando-se a mesma corja de deputado estadual, federal e senador.

O Brasil tem como tradição fazer a regulação de assuntos importantes para a vida em sociedade por meio de leis escritas, seguindo princípios que remontam ao Direito Romano. Por isso é que temos uma constituição utópica, com característica formal, escrita, rígida, analítica e dogmática, com centenas de artigos, parágrafos, incisos e alíneas inúteis e senis.

A Constituição Frankenstein de 1988 outorga competência às câmaras municipais para fixarem o subsídio de seus vereadores. O mandato não pode ser gratuito e a fixação de remuneração deve obedecer aos limites da Constituição e da LRF. O subsídio não pode ser vinculado à receita de impostos e a despesa com vereadores não pode ultrapassar 5% da receita do município.

Mais uma vez é preciso repetir: na prática a teoria é diferente. Os prefeitos e os vereadores são eleitos por nós, eleitores idiotas, para roubarem e enriquecerem a custas da nossa boa intenção! Será que um dia nós vamos mudar essa realidade nefasta ou só em outra reencarnação?

DOIS MIL E VINTE ESTÁ CHEGANDO! OLHOS BEM ABERTOS É PRECISO!

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ALUCINAÇÕES DO CORONEL BITÔNIO COELHO

Morena dos sonhos do coronel Bitônio Coelho, semelhante à MBM

Depois da última noitada homérica de amor que teve com Maria Bago Mole na alcova dela do cabaré de mesmo nome e ter voltado à fazenda no dia seguinte às dez da manhã, arrebentado, o coronel Bitônio Coelho ficou alguns dias sem ver a Amada, apesar de ela ter-lhe dito que queria falar um segredo importante.

Super atarefado na administração das seis fazendas, o coronel, apesar de estar morrendo de saudade de MBM, tendo-lhe sonhos eróticos todas as noites, vendo-a aparecer nua correndo para os seus braços, sacolejando as ancas bronzeadas, pernas torneadas, peitos grandes e duros, lábios vermelhos e cabelos esvoaçantes, blusa e short listrados de tirarem o fôlego de qualquer macho, resolveu ir ao Cabaré novamente, pois a saudade da Amada estava-lhe deixando doido, alucinado.

Num sábado, mandou que seu capataz de confiança preparasse o cavalo alazão branco, pusesse a sela australiana com os arreios listrados, trouxesse-lhe a carabina dois tiros e uma carreira, “para se proteger de gente safada no caminho”, o punhal à lá Lampião, o chapéu parmesão importado, avisando que tinha um “compromisso na Vila Vintém” e que talvez não voltasse naquele dia. Que o capataz assumisse a responsabilidade das fazendas na sua ausência.

“Arriado até os pneus” por MBM, mas sem “querer dar o braço a torcer”, pois quem administra cabaré “é cobra criada”, o coronel Bitônio Coelho mal sobe à sela e se apoia, começa a sentir uma sensação estranha por todo o corpo: as mãos gelam, o coração dispara, a cabeça fica zonza e ele começa a pensar: “Puta que pariu!” “O que está acontecendo comigo?” “Mal eu começo a pensar “naquela” mulher e não me reconheço!” “Que feitiço é esse?”

Quando se aproxima do cabaré já de noite, depois de trotear por mais de uma légua pelos canaviais, como das outras vezes, Maria Bago Mole, quando o avista, deixa tudo que está fazendo e sai correndo para abraçá-lo, beijá-lo, acariciá-lo e dizer-lhe da saudade imensa e lhe sussurra ao ouvido o quanto o ama:

– Meu filho, onde você estava? Esqueceu de mim, foi? Esqueceu de nós? Nosso cantinho está lá dentro intacto, com o mesmo cobertor do nosso último encontro, só esperando nossos corpos nus!

Foi dizendo isso e beijando seu amado mais uma vez. Passou-lhe as mãos no peito, desceu mais um pouco e percebeu que seu amado estava mais seco que o mês de janeiro no sertão do Seridó.

Ela riu da situação. Ficou feliz. Beijo-o mais uma vez demoradamente e, pegando-lhe a mão, disse:

– Nosso ninho nos espera! Vamos aproveitar enquanto houver desejos e vontades! A vida é curta para quem ama!

Antes de adentrar no aposento, abraçado à Amada, o coronel Bitônio Coelho passa “um rabo de olho pelo salão”, percebe a presença de muitos “fregueses estranhos” no cabaré. Nesse momento um sentimento estranho se lhe apodera e ele sente que é chegada a hora de tirar seu amor daquele ambiente para ele hostil e levá-la para a fazenda. Mas a si mesmo pergunta:

– “Independente como ela é, será que vai aceitar o meu convite?” E não pensou mais com a cabeça de cima.

Nesse momento, fez-se silêncio no quarto e o que se ouvia era o estalar de beijos, sussurros e gemidos!

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“ARRUMA UM PAU QUE TEM SOMBRA”

Posto de Saúde Missionária Terezinha Batista

Eram cinco horas da manhã de uma segunda-feira chuvosa.

Nesse dia o setor de emergência do Posto de Saúde Freira Terezinha Batista estava abarrotado de indigentes esperando atendimento, principalmente de jovens grávidas, geração Bolsa Família, programa esmola criado e ampliado no governo LULA, que tinha como lenitivo o suposto combate à pobreza, à desigualdade social e à assistência à população miserável, segundo exposição de motivos da lei 10.836, de 9 de janeiro de 2004, mas que, criminosamente, foi desviado do seu objetivo principal para dar lugar a um assistencialismo ladravaz jamais visto na história do Brasil.

Às seis horas da manhã chega ao setor de emergência uma paciente já em trabalho de parto. Os enfermeiros de plantão correm para atendê-la, mas quando se aproximam o bebê já está aos berros nas mãos da avó materna que veio acompanhada da neta na ambulância.

Mal a genitora e a avó descem do socorro, aparecem mais quatro crianças, filhos da neta, que tinham entre dois e três anos. Afora três de idade entre quatro, cinco e seis anos que haviam ficado no barraco assistidos pela irmã adolescente da genitora que, além de prenha do terceiro filho, também possuía mais dois de pais diferentes.

Arrancando os cabelos diante de tal situação e não controlando o desespero por ver tanto neto ao seu redor, a avó da genitora, uma senhora de quarenta anos, mas aparentando ter mais de sessenta, não contém a lágrima e, se dirigindo à neta, desabafa:

– Carminha, minha fia! Onde tu vai parar com tanto fio? Tu e tua irmã já tem pra mais de doze! Não é possível, fia! Tu tá pensando que o governo vai te sustentar e teus fios com essa esmola do bolsa família pra o resto da tua vida, é? Acorda pra Jesus, menina!

E continuou:

– Acaba com essa ilusão e vai arrumar um pau que tem sombra para tu descansar debaixo! Quem vive de promessa são palavras, menina! Tu precisa de um homem que cuide de tu e desses meninos, porque depois que Deus me levar, quem vai cuidar de tu e teus fios?

Desabafou a avó, soluçando, atenta a uma nova ambulância que chegava ao pátio do Posto de Saúde com mais uma filha do bolsa família com a barriga carregando trigêmeos, preste a dar a luz!

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SUCESSORES OU HERDEIROS?

Numa determinada Vara de Sucessão da Capital hibernava um inventário de um falecido microempresário descendente de italiano, que passou a vida juntando dinheiro, bens móveis e imóveis para os cinco filhos que teve com a sua esposa, Dona Rachel. A cada um, o casal, em vida, fez questão de lhes oferecer os melhores cursos e a melhor formação profissional.

Durante sua existência, tudo que conseguia trabalhando no comércio, fazia questão de dizer que era para o futuro dos filhos. Dizia querer deixar para eles o que os seus pais não puderam lhe dar em vida. Para isso, sacrificavam-se diariamente ele e a esposa, Dona Rachel.

Não lhes havia lazer: passeios, festas, diversão, almoço fora. Jantar com a esposa extra, nem pensar! Tudo economizava para os filhos. Até as compras básicas em feiras livres de final de semana necessárias à mantença do casal durante a semana eram feitas no fim de feira, para comprar tudo mais barato para economizar.

Os filhos cresceram e se formaram e se acomodaram em bons empregos; e se casaram e foram deixando os velhos para trás.

Um dia, quando menos esperavam, seu Cláudio Colelo e Dona Rachel, deram conta que se encontravam sozinhos dentro do casarão que construíram, porque os filhos já tinham pegado a estrada da independência, casando-se e construindo família própria.

Mesmo assim o velho, seu Cláudio Colelo, continuava trabalhando com sua esposa, Dona Rachel dia e noite, aumentando o patrimônio para deixar para os filhos. Essa era a sua grande obsessão! Até da saúde abdicou! Relaxamento total! Economizar era preciso!

Uma noite sombrosa, chuva que não acabava mais, relampiando pra cacete, o velho sentiu-se mau no meio da noite. Dona Rachel tentou levá-lo ao hospital no Gordine velho pertencente à família. Tentou ligar o motor e este não respondeu para socorrer o velho moribundo a um hospital do SUS porque ele não pagava plano de saúde particular para juntar dinheiro para os filhos. Dizia ser uma obrigação do governo tratar toda a população na doença: para isso pagava uma carga de imposto exorbitante!

Dona Rachel tentou chamar um vizinho para socorrer o marido já de madrugada. O vizinho atendeu-lhe o pedido. Tentou mais uma vez ligar o carro do casal que não pegou, e não conseguindo levou o senhor Cláudio Colelo no Candango dele mesmo ao hospital do Estado, já desacordado!

Chegando à emergência do hospital, os médicos que atenderam o senhor Cláudio Colelo, disseram que infelizmente não podiam fazer mais nada, pois o homem havia morrido minutos antes por falta de socorro rápido. Demorou muito para chegar à emergência – disse!

Desesperada, dona Rachel ligou para todos os filhos que estavam já casados morando em estados e países diferentes e já com famílias constituídas.

Um por um a quem ela ligou comunicando o fatídico acontecimento recebeu um sonoro não para vir ao enterro do velho, ou porque não podiam ou porque moravam distante e não tinham como viajar às pressas. Foi a primeira vez que Dona Rachel sentiu o gosto amargo da mudança no comportamento dos filhos para com os velhos pais!

Dona Raquel teve de se virar sozinha, contando tão somente com a misericórdia da família que o senhor Cláudio Colelo, em vida, desprezava, torcia o nariz!

Depois do enterro do velho e com a ausência dos filhos, teve de abrir o inventario do de cujus para partilhar os bens deixados pelo falecido: entre ela e os filhos ingratos que sequer vieram para o enterro do pai. Sequer ligaram mais para a mãe, agora viúva e só!

Quando tentou telefonar para os filhos que ia abrir o inventário do falecido para fazer a partilha dos bens e que precisava da autorização deles e de suas esposas ou esposos, recebeu um uníssono não e que se virasse sozinha. Recado curto e grosso passado. Angústia geral!

Começou aí seu segundo desgosto manifestado no comportamento dos filhos!
Dona Raquel reuniu todos os documentos dos bens moveis e imóveis que o falecido deixou como herança, contratou um defensor da família que o falecido desprezava, e deu entrada no inventário.

Distribuído o processo para uma das Varas de Sucessão o juiz despachou para emendar a petição inicial dentro do prazo legal, requerendo a juntada da documentação de todos os herdeiros e respectivas esposas ou esposos e com as procurações, sob pena de indeferimento sem resolução de mérito por faltar os documentos dos herdeiros para dar prosseguimento ao processo.

Começava daí a via crucis de Dona Raquel em busca dos filhos, genros e noras!

Nos primeiros contatos que teve com os filhos distantes sobre a grande necessidade do recolhimento dos documentos pessoais e das procurações para dar prosseguimento ao inventário teve a maior decepção de sua vida: nenhum filho estava interessado no inventário e que a “velha” se virasse sozinha.

E o pior: quanto mais o tempo ia passando mais os bens iam-se deteriorando e a senhora Rachel, já cansada e morrendo aos pouco de desgosto, ia assistindo a tudo que o marido e ela construíram com sangue, suor, lágrima e privações, serem corroídos pelo tempo!

O desespero e o desgosto chegaram ao ponto tal que ela ficou tão atarantada que chegou a procurar a vara de sucessão onde fora distribuído o processo e tirou cópia do inventário vinte e duas vezes!

Na vigésima terceira vez que esteve na vara de sucessão para tirar outra cópia do processo porque as outras xerox havia perdido de tão perturbada, o atendente, que já a conhecia ficou tão assustado que mandou chamar a chefe de secretaria para atendê-la porque nunca tinha visto nada igual naquela e em outras serventias judiciais!

Quando a chefe de secretaria chegou junto para conversar com Dona Rachel, lhe perguntou, com os olhos abuticados:

– Dona Rachel, pelo amo de Deus o que está acontecendo? A senhora já esteve aqui vinte e duas vezes para tirar cópia desse processo… Onde a senhora está deixando?

Foi nesse momento que Dona Rachel desabafou, com todo o corpo tremendo:

– Minha filha, você não leve a mau não! E desabando em planto, continuou:

– Desde que meu marido morreu que vivo dentro do inferno! Meus filhos não falam mais comigo! Por causa dessa maldita herança que meu marido deixou eles estão comento um ao outro, dizendo que não lhes interessa porra de herança do pai porque estão muito bem e eu que me virasse para resolver!

E continuou com o desabafo:

– Se eu soubesse que essa maldita herança fosse me dar tanto aperreio, dor de cabeça e meus filhos fossem ficar inimigos um dos outros eu teria “estoporado” tudinho junto com meu velho antes! Hoje me vejo só, meus filhos me abandonaram! E a herança que o pai deixou construída com tanto sacrifício o tempo está destruindo tudo, inclusive a mim! E desabou em planto novamente!

Foi quando a chefe de secretaria, atenciosa e paciente, deu-lhe alguns conselhos que a acalmaram e Dona Rachel se foi pela última vez do Cartório sem tirar outra cópia do processo.

De desgosto e solidão, morreu três meses depois da ida à Vara de Sucessão onde tramitava o processo, de enfarte fulminante e sozinha, no silêncio da noite, apenas acompanhada da família que o marido em vida detestava, e tudo ficou para trás como se dada tivesse existido! Virou cinzas para as estrelas!

Da herança que os dois em vida construíram com tanto sacrifício não levaram nada dentro do esquife!

Dessa vivência na prática do oficio, a chefe de secretaria aprendeu uma grande lição para a vida: Entre a herança e a sucessão, deixe a sucessão para seus filhos. Se houver herança, deixe tudo partilhado em vida, pois nunca se sabe quando se bate as botas! Ou pensando melhor: Estoure tudo em beneficio próprio auferindo do bom e do melhor e ajudando a quem precisa sem esperar recompensa do além!

Ironicamente, tudo o que o senhor Cláudio Colelo não desejava aconteceu após sua morte e da esposa: um membro da família, que ele tanto detestava em vida, foi quem deu dignidade ao patrimônio, sendo nomeado pelo juiz como curador para administrar o espólio dos de cujus enquanto não houvesse uma decisão judicial.

A vida é estranha!

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BANDIDAGEM SEM LIMITE

Primeira dama Michele Bolsonaro arrasada com a reportagem criminosa da Veja

Com o propósito de atingir a imagem e a honra da primeira dama, Michele Bolsonaro, e com isso alcançar seu objetivo criminoso, já que não obteve êxito em destruir a Lava Jato, com as mensagens roubadas dos celulares dos procuradores pelo site The Intercept, do mafioso Glenn Greenwald, tentando denegrir a honra do ministro da Justiça e Segurança, Sérgio Moro, a revista Veja desta semana trás uma matéria de capa infame, sórdida, ressuscitando notícias policiais de 1997, já arquivadas, envolvendo a avó, a mãe e o tio da esposa do presidente.

Há um episódio interessante no seriado Família Dinossauro, onde o jovem Boby da Silva Sauro desenvolve uma fonte de energia limpa, segura, extraída de um vulcão, com o objetivo de beneficiar à população. A empresa WESAYSO Corporation, do Sr. Ashland, que monopoliza a energia tirada de pneus velhos, carvão, madeira, poluindo o meio ambiente, sente-se ameaçado pelo projeto do jovem cientista. Para desmoralizá-lo, dissemina uma campanha criminosa pela televisão, revista, jornal, tentando desacreditar o jovem perante a opinião pública, dizendo ser o garoto um lunático, pervertido, sujo, fedorento, defensor de presos criminosos, disposto a destruir a empresa que há mais de cem anos serve à população, mesmo com matérias-primas que poluem o meio ambiente.

Depois de tentar por todos os meios demover o jovem da ideia, inclusive tentando comprá-la para o projeto não ir adiante, a empresa WESAYSO Corporation bola uma cilada contra o jovem cientista.

Convida-o e a família para um jantar e, depois de uma discussão, entre o pai do jovem Boby Sauro, Dino da Silva Sauro o Sr. Bradley P. Richfield, personagem ficcional da empresa, aquele deixa escapar a ideia de que a empresa só conseguiria frear o êxito do projeto do garoto comprando a montanha com o vulcão! E a empresa, vendo uma oportunidade de ouro nessa sugestão escapada, compra a montanha e acaba com o sonho do jovem cientista em transformar o vulcão em fonte de energia limpa para beneficiar à população carente sem poluir o meio ambiente, matando o sonho do garoto.

Qualquer semelhança desse imbróglio com toda bandidagem que aconteceu na Operação Mãos Limpas, na Itália, de 1992 a 1996, envolvendo a corrupção no Banco Ambrosiano, que culminou no assassinato dos juízes Paolo Borsellino e Giovanni Falcone pela Cosa Nostra, a mando do mafioso Salvatore Rina, que cumpre prisão perpétua, é mera coincidência.

O perigo é a integridade física dos daqui! A bandidagem é capaz de tudo para não perder seu status quo!

Onde estão juntos imprensa bandida, Supremo Tribunal de Favores, Congresso Nacional, tudo é possível!

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O NEGUINHO TARADO

Momento da fatalidade de João/Ano não registrado pelo necrotério local

João Beiço de Macaco, ou Neguinho Tarado, apelido dado pelos colegas da Aldeia a João da Silva, era mais feio que as necessidades. A natureza não lhe teve dó nem piedade. Castigou-o na feiura. Mas dotou-o de uma fuleiragem incomum aos outros moleques do Beco do Imprensado, divisa da rua do puteiro “Ou Come ou Deixa Pra quem Quer Comer” com a rua do cabaré “Bom Mesmo é Dentro”, no centro da cidade de Lagoa do Carro, Pernambuco.

Mal completou doze anos, escondido dos pais, João Beiço de Macaco, já andava com uma espingarda soca soca por dentro das matas para caçar preá, rolinha e outros animais para comer assado com farinha.

Mas o que as Maria da Silva não sabiam era que João Beiço de Macaco tinha uma tara: Brechar as mulheres que iam lavar roupas nas águas do Rio Capibaribe todos os dias, após a caçada. Sentado nas pedras, imaginava as mulheres nuas, peladas e ficava delirando, intumescido. Tornou-se hábito ele ir para cima dos rochedos, à margem do rio, escondido, para comer as lavadeiras com os olhos e, de dentro do mato, solitário, masturbar-se, os olhos esbugalhados.

Não satisfeito com essa diabrura, João Beiço de Macaco, deu-se de espiar as mulheres que via em posição à vontade nas ruas de barro por onde passava. Certa vez, subiu numa árvore para ver um rabo feminino saliente. Pendurou-se no galho de algaroba e, quando deu fé, se desequilibrou e caiu no chão feito uma jaca, quebrando duas costelas. Outra vez, foi passando por uma casa sem cerca e, quando avistou uma mulher lavando roupa, parou, olhou de lado e, como não viu ninguém por perto, tentou se aproximar mais ainda para ver o traseiro feminino melhor. Foi quando saíram dois vira latas de dentro de casa, fincaram-lhe os dentes na bunda e ele desapareceu mato dentro, com a calça toda rasgada.

Mas o azar deu-se mesmo quando João Beiço de Macaco passou em frente de uma casa onde avistou uma morenaça dando comida a um urubu, com a bunda à mostra. Intumescido de emoção, ele não perdeu tempo, correu para o terraço, ficou por trás do muro, escanchou-se na parede e baixou a cabeça. Quando avistou o horizonte rabal feminino empinado, ficou tão emocionado que pensou que estava sentado no lajedo do Rio Capibaribe. Pôs a mão direita na braguilha, puxou “mimosa” de dentro e, quando estava começando o bem bom solitário, despencou-se da mão esquerda, danou a cabeça no chão e ali mesmo ficou pronto com o pescoço quebrado, direto para a cidade de pés juntos, dentro do paletó de madeira da Santa Casa de Caridade.

Mas segundo o bebim Zé de Maria, seu colega de caça, João Beiço de Macaco morreu feliz! Morreu fazendo aquilo de que mais gostava de fazer: Ver fundo de calça feminina em bunda grande, morena, à distância, já que não podia ver de perto, por ser muito feio, pobretão e rejeitado pela timidez.

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HONESTIDADE

Banca de revista Visconde de Albuquerque

No início dos anos dois mil Joca Oliveira era um entusiasta das ideias petistas. Acompanhava de perto todas as manifestações no campus da UFPE, onde estudava Economia e Direito. Também frequentava a Livro 7, onde lia livros comunas. Donde houvesse freges, saraus, recital de poesia, lá estava ele presente gritando fervorosamente que Lula era o único homem capaz de libertar o Brasil e o povo oprimido das garras do FMI, o monstro financeiro criado em 27 de dezembro de 1945 por 29 países-membros com objetivo inicial de ajudar na reconstrução do sistema monetário internacional no período pós-Segunda Guerra Mundial, mas que no fundo, segundo esses sectários, tinha o objetivo claro de escravizar os países emergentes da América Latina e fazer do seu povo vassalo.

Por essa época, quando ainda nem se sonhava com internet, Joca Oliveira não tinha dinheiro para comprar livros, revistas, jornais, principalmente do sul. Começou a frequentar uma banca de revista na Madalena. Fez amizade com os proprietários. Quando tinha dinheiro comprava um jornal e uma revista para se atualizar nos assuntos políticos. Quando não tinha, lia o que podia antes que alguém comprasse e ia para casa sonhar com o socialismo…

O jovem sonhador que veio do interior dos palmares estudar na federal tornou-se amigo dos donos da banca de revista, pegou confiança, e quando não tinha dinheiro para comprar o jornal e a revista os donos lhe autorizavam a levar para casa e pagar no final do mês, quando ele recebia o dinheiro de uma bolsa paga pela UFPE para os estudantes carentes que moravam na Casa dos Estudantes.

Joca Oliveira, como todo jovem sonhador da época, começou a comprar revistas e livros aos montes e quando a bolsa que recebia não dava para pagar tudo, comprava mais e o restante deixava lá no “pindura” para pagar depois.

O débito, tanto na banca de revista quanto na Livro Sete, foi se acumulando ao ponto de Joca Oliveira não ter mais dinheiro para pagar e deixou de frequentar a banca de revista com vergonha de não ter dinheiro para pagar aos proprietários.

Por essa época o PT já havia conquistado a presidência com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A “esperança” havia chagado ao planalto e o Brasil vivia a expectativa e a euforia de uma nova realidade, com liberdade, bonança, empregos para todos, distribuição de renda e o pagamento da dívida externa para se livrar das garras do FMI.

Depois de formado em Economia e Direito Joca Oliveira vivia a angústia de estar desempregado e não lhe saia da cabeça os débitos que havia contraído na banca de revista e na Livro Sete e não poder pagá-los.

Dois anos depois de formado, Joca Oliveira fez um concurso para Oficial de Justiça na Federal, passando em nono colocado com os conhecimentos que havia adquirido lendo os jornais da banca de revista e os livros da Livro Sete.

Chamado para exercer o cargo de Oficial de Justiça na Federal, depois de três anos afastados do estágio da UFPE e vivendo só de bicos, pois não tinha vocação para advocacia nem economia, Joca Oliveira, quando recebeu seu primeiro salário resolveu ir até à banca de revista pagar os débitos atrasados há mais de cinco anos.

Quando chegou na banca de revista os proprietários tomaram um susto, porque aquela altura dos acontecimentos imaginavam que Joca oliveira tivesse morrido ou fosse um caloteiro contumaz, desses que aparecem todos os dias em qualquer esquinas travestidos de santidade. Por isso já tinham perdido a esperança de receber o “pindura.”

– Olá Paulo, olá João! Tão me conhecendo? Eu sou o Joca, aquele que deixou um “pindura” aqui de jornais e revistas! Quero pagar, mas não sei quanto é o valor corrigido.

Surpresos com a visita e a honestidade do palmeirense, os donos da banca de revista se entreolharam e apenas disseram:

– Meu amigo, pague o que você achar que deve! A gente já dava esse dinheiro por perdido há muito tempo…

Joca Oliveira não titubeou. Puxou a carteira do bolso e deixou uma quantia para os proprietários da banca, se desculpando pelo atraso.

Com o dinheiro na mão e não sabendo como reagir diante de tamanha honestidade, os donos da banca de revista apenas disseram: obrigado, e, mais uma vez se entreolhando, afirmaram:

– Você salvou todos os caloteiros que nos devem!

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A ORIGEM DO CABARÉ DE MARIA BAGO MOLE

“A gente só anda para frente. A gente cumpre o destino que tem de cumprir. A Natureza me pôs no mundo para isso. E eu tenho de seguir em frente.” – Maria Bago Mole

Nos anos quarenta aportou no vilarejo Casas de Taipa, depois Vila Dois Vinténs, Centro da Cidade de Florestas dos Leões, uma mulherinha de olhos negros, cabelos pretos, compridos e salientes, peitos pequenos e duros, parecendo duas maçãs; ancas enormes. À boca miúda, espalhou-se no povoado ser a estranha filha da Tribo dos Índios Chuparam a Mãe.

Ninguém no local sabia de onde teria vindo aquela mulherzinha misteriosa, pragmática, altruísta. Tampouco procurou saber seu passado. Ninguém na vila queria saber disso. O certo é que aos poucos ela começou a conquistar a admiração e a confiança do povoado da localidade, e lá se instalou como sua residência oficial.

Muito inteligente, prestativa, fala sensual, dois anos depois de se instalar oficialmente no lugar, aquela mulherinha carismática começou a desenvolver a plântula daquele que no futuro receberia o seu nome como homenagem: O Cabaré de Maria Bago Mole.

Na casa de taipa com quatro cômodos onde ela se instalou, doada por um dos vizinhos que ela socorreu em momentos difíceis e depois ficou dando assistência material, aos poucos começou a vender refeições aos caminhoneiros e cortadores de cana que por ali passavam rumo aos engenhos de cana-de-açúcar. O negócio começou crescer, prosperar, e Maria Bago Mole antevendo que poderia oferecer outras “comidas” àqueles homens sedentos por sexos que sempre a procuravam e a cantavam para uma trepadinha, prometendo torná-la a Cleópatra de todas as Cleópatras.

Pressentindo o sucesso com o negócio crescendo e a pressão dos fregueses por diversões sexuais, ela resolveu viajar à sua cidade natal e de lá trouxe algumas “meninas defloradas”, que os pais expulsavam de casa por terem perdido o “cabaço” com os namorados antes do casório. Nem sempre isso acontecia, mas…

Poucos anos depois a casa de taipa de quatro cômodos recebeu uma reforma caprichada para a época e se transformou numa pousada de dois pavimentos. Em baixo ficava o bar com o aposento da mulherinha e, em cima, foram construídos os quartos onde os homens levavam as “meninas” para se lambuzarem de cachimbadas movidas a óleo de peroba.

No dia da inauguração apareceram homens de toda região sedentos por sexo, principalmente senhores de engenhos, que tinham vontade de conhecer e comer a tão falada e idolatrada administradora do cabaré, que dizia às suas meninas não querer compromisso com nenhum homem para não destoar do seu comércio, deixando essa função para as suas cortesãs. Mas essa afirmativa da cafetina era um blefe, mistério, pois havia um zunzunzum na Vila de ela ter sido estuprada pelo pai biológico e expulsa de casa para não dedurá-lo já que era de família casca grossa da Zona da Mata, por isso havia lhe desenvolvido inconscientemente “a síndrome da repulsa ao sexo”.

No dia inauguração apareceu por lá o senhor de engenho mais conhecido e poderoso da redondeza, Bitônio Coelho, um galegão de um metro e noventa, olhos claros, que tinha uma tara da gota serena por Maria Bago Mole, só em ouvir falar no nome dela e por causa dos seus dotes administrativos inteligentes e de xibiu “preservado”, e por ser uma quarentona enxuta, conservada, com tudo nos trinques.

Depois da festa de inauguração, que transcorreu no maior buruçu: brigas, freges, arranca-rabos por disputas internas entre caminhoneiros, cortadores de cana e outros fregueses: quem ia dormir e comer quem das meninas do cabaré, a cafetina pôs para funcionar seu instinto de gerenciadora para aquelas ocasiões: Pegou uma chibata que havia comprado na feira livre para aqueles fins e nas “relhadas” saiu expulsando todos os penetras e lisos do recinto, organizando a desordem e ordenando que as meninas se recolhessem aos quartos com seus clientes escolhidos, que já “haviam pago adiantado pelos serviços com as meninas”.

– Deem o melhor de vocês aos seus homens. Satisfaçam-lhes todos os desejos e fantasias sexuais. Não deixem nada pela metade. Lembrem que lá fora ninguém percebe o que está acontecendo aqui dentro. Portanto, deem o melhor de vocês! Vocês estão recebendo para isso. Não se esqueçam de que o sucesso de vocês depende de vocês. – Dizia a cafetina com voz mansa e imperativa às suas meninas.

Feito isso e percebendo que tudo estava aparentemente normal, foi para o seu aposento com o homem que lhe tirou o cabaço pela segunda vez. A farra foi tão picante, excitante, regrada a todos os prazeres do sexo, que Maria Bago Mole e seu Bitônio Coelho perderam a hora e quando acordaram já passavam das dez horas da manhã, o que para ambos era uma desmoralização, acostumados a estarem de pé antes das cinco da manhã.

Percebendo o horário e totalmente contrariado, o poderoso senhor de engenho quis se apressar para sair. Nesse momento foi contido pela cafetina que o pegou pelas mãos e o conduziu até o banheiro para tomar um banho de cuia, tomar café e depois se ir-se.

– Não tenha pressa, homem! A gente só anda para frente. A gente cumpre o destino que tem de cumprir. Você está procedendo do mesmo jeito que os outros homens! Acalme-se! Depois de uma noite daquela você não deve se preocupar com o que aconteceu ou deixou de acontecer lá fora! Ou você já se esqueceu do que aconteceu entre nós dois? Por falar em nós dois, quando você vier por aqui novamente visitar a “casa” eu desejo ter uma conversa séria com você! Nada de mais! Coisas de mulher! – Disse ela lhe dando um beijo na boca com gosto de café. E ele apressado, passou a mão no cavalo, pôs a sela, subiu e se mandou contrariado com a hora: meio dia! Puta merda! E ela, sorrindo com a contrariedade dele, ficou-o olhando a trotear em cima do cavalo e com a certeza de que aquele homem rude havia lhe conquistado o coração…

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

O CABUETA

Guarita

Anos setenta.

Havia uma guarita estratégica no quartel da Aeronáutica do Recife que, por sua visibilidade lunar, era cobiçada por quase todos os recrutas que por lá passavam.

No setor administrativo da Aeronáutica trabalhava um sinecura frustrado que já fora sentinela por várias vezes e nunca se desapegou do posto, mesmo sabendo que existia um Regimento Interno que proibia qualquer um ocupar o lugar por inúmeras vezes.

Esse burocrata, inconformado com sua “aposentadoria compulsória” do posto, assinada pelo capitão, passou a perseguir todos os recrutas que eram designados para a guarita. Ficava acordado até altas horas da noite e, quando o quartel dormia, saltava do beliche e, na ponta dos pés, seguia pelo pátio rastejando até a cabine onde estava o novato ocupando o espaço onde ele ficou por diversas noites.

Antes de se aproximar da guarita, o sentinela frustrado se certificava se o recruta estava dormindo e, quando o pegava cochilando, corria para o capitão e o denunciava como uma vingança por não puder mais ocupar aquele posto.

Com essa atitude tacanha, o burocrata denunciou e prejudicou vários calouros inexperientes que, sem saberem, foram castigados pelo capitão, que também não sabia da psicopatia do sinecura.

Certa vez chegou um matuto no quartel com cara de tabaco leso, mas mais vivo do que um cão de caça e mais desconfiado do que matuto traído e, como fora designado pelo capitão para ficar na guarita, foi alertado pelos veteranos que ficasse de olho no burocrata que costumava cabuetar ao capitão todos os recrutas que ficavam naquela guarita e o capitão a todos castigava numa solitária do quartel por uma semana pela desatenção.

Tomando pé da situação, o matuto disse apenas aos veteranos:

– Deixa comigo! Vou desmoralizá-lo no pátio! Vocês vão ver – disse com um riso gaiato nos lábios!

De noite, hora marcada, o matuto pega sua carabina 38 e segue para a guarita e lá fica de olhos bem abertos.

Mais ou menos meia noite, um silêncio que só se ouvia o grilar dos grilos e o corujar das corujas, o matuto ouviu um barulho estranho vindo de dentro do mato. Desconfiado, acendeu a lanterna e deu de cara com o cabueta à sua frente. Não se abateu, e reagiu:

– Esteja preso, seu moleque safado! Levanta as mãos, e não baixe porque senão lhe meto chumbo no rabo!

O cabueta pediu por clemência:

– Não! Não faça isso não! Eu só vim até aqui saber como você está! Por favor, deixe-me ir!

E o recruta, já por dentro da safadeza do burocrata, retrucou:

– Porra nenhuma! Mantenha as mãos para cima! Largue o rifle e siga em frente até o pátio do quartel, senão lhe estouro os miolos!

Antes de chegar ao pátio, o recruta gritou para acender todas as lâmpadas. Acordou todo mundo com o apito. Mandou acordar o capitão também e, no meio de todos os presentes, discursou:

– Gente, peguei esse safado tentando me fisgar lá na guarita! Não lhe meti uma bala na cabeça em respeito ao capitão, que eu gostaria que tomasse conhecimento para ver quem é o pilantra do quartel que cabueta todos os sentinelas novatos!

Disse isso e deu meia volta. Fez continência! Cumprimentou a todos os presentes com um balançar de cabeça e voltou para o posto com a sensação do dever cumprido.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO

Para Altamir Pinheiro

Espaço da Aeronáutica no Recife

Início dos anos setenta e, junto com ele, a espetacular disseminação midiática de que havia sido lançado nos Estados Unidos, três anos antes, um filme de ficção científica, produzido e dirigido pelo genial cineasta Stanley Kubrick, que estava deixando todos os aficionados da Sétima Arte em polvorosa com sua temática cinematográfica!

Segundo os críticos da época, nacionais e internacionais, todos eram unânimes em afirmar que o filme “2001 – Uma Odisseia no Espaço,” convergia com todos os elementos temáticos da evolução humana, existencialismo, tecnologia, inteligência artificial e vida extraterrestre de forma jamais explorada pelo homem na telona.

Coisa de louco mesmo!

Era notável por seu realismo científico, efeitos especiais pioneiros, imagens ambíguas que eram abertas a ponto de se aproximarem do surrealismo, som no lugar de técnicas narrativas tradicionais e o uso mínimo de diálogo.

Nessa época, um bando de recrutas da Aeronáutica no Recife tomou conhecimento da existência do tão propalado filme e se puseram a assistir a ele de qualquer forma e, no dia da estreia, lotaram o cinema ao ponto de, não existindo mais espaços, puseram cadeiras extras pelos corredores de forma que, quem entrasse não saia e quem saia não entrava mais de tão lotado que o cinema ficou.

Começa a projeção e todos de olhos atentos para saber que gota serena de filme era aquele que estava chamando a atenção do mundo todo por sua revolucionária técnica cinematográfica.

Antes de quinze minutos de projeção já se via no olhar da plateia uma decepção sem tamanho e, passados mais dez minutos e nada de excepcional acontecendo, os jovens recrutas foram deixando a sala de projeção ao ponto de, chegando na metade do filme, só havia sete recrutas, entre eles o jovem e curioso Macena que, batendo o pé, bradou para si mesmo: “Eu vou até o fim dessa porra para saber o porquê de tanta badalação favorável a um filme praticamente mudo.”

Terminado o filme todos os sete recrutas saíram calados, zonzos, sem dar uma palavra, em verdadeiro transe, tamanha fora a viagem. Foi quando um recruta que havia saído no início no filme se aproximou do jovem Macena e, ansioso, perguntou:

– E aí negão, aquela bosta presta ou não presta. Porque eu não entendi foi porra nenhuma por isso sair logo. Eu nunca vi um tão perfeito “nem fode nem sai de cima”. Que filme merda da porra!

E o jovem Macena, já arretado com o colega e com a cabeça ao ponto de explodir, que parecia até ter comido um caminhão de cogumelo de bosta de cavalo e fumado dois baseados estragados, respondeu:

– Meu irmão, o filme é cabeça. Foi bom tu teres saído porque como é que tu, um cabeça de pica, irias entender um filme que a resposta só te chegará daqui a trinta anos? E foi embora para o quarto sem dar mais nenhuma palavra com o colega. Mas, antes de ir, voltou atrás e disse:

– Olha aqui, Negão, o filme é para quem tem cérebro e não miolo de pote na cuca.