CÂNTICO

Quero-te as mãos ensolaradas
nas minhas pobres mãos escuras,
que as minhas mãos são sepulturas
e as tuas mãos são alvoradas.

Quero-te os olhos, prematuras
luas num claro céu plantadas,
dentro em meus olhos, enseadas
noturnas onde, alta, fulguras.

Quero-te os lábios, favos doces
de etéreo mel, sobre os meus lábios.
Quero-te assim como se fosses

estrela azul e noite eu fora,
estrela ignota aos astrolábios,
que de meu céu, e só, pastora.

Deixe o seu comentário

DENTRO DE TI

Existir fora de ti
é quase igual que não ser.
Melhor fora não querer
teu amor que andar assi.

Nada esperar, ou esquecer
o tudo que és para mi;
que desde quando te vi
minha vida é um desviver.

Nada ter e não sonhar;
ou ser só… o teu olhar!
ser mais tu mesma do que eu!

Que, a viver qual vivo aqui,
antes fora um sonho teu:
vivera dentro de ti.

Deixe o seu comentário

LABIRINTO

Nem com os não merecer não nos perdera.
E, pelos possuir sem merecer,
as mesmas penas sofro que sofrera
por, outrora, querê-los e os não ter.

Ah! quem tal turvamento me entendera!
Em pranto, sinto, sem o compreender,
que eles são velas me esvaindo em cera,
velas em cuja flama arde o meu ser.

Penso que vou morrer, que o sol me apaga.
Olho-os, e ferem-me as pupilas deles;
beijo-os, e, então, sonegam-me o calor.

Não profundemos mais tão funda chaga!
E, pois que tanto mal me fazem eles,
devolvo-te os teus olhos, meu amor.

Deixe o seu comentário

JUNTOS

Deixa que de teus fúlgidos cabelos
eu teça a tênue tela em que fixados
se vejam, sem desdouro, os aurialados
sóis de minha ternura e meus desvelos.

Deixa-me recolher teus prantos, pelos
descaminhos da vida derramados.
E não ponhas cuidado em meus cuidados,
nem te arreceies nunca de perdê-los.

Que, a me perderes, antes eu me perca:
eis o mais que dizer-te posso acerca
de quanto o amar-te é-me sustento. E, a fim

de que apartados não nos colha a morte,
dá-me tudo de ti, e de tal sorte
que, em me perdendo, percas tudo em mim.

Deixe o seu comentário

UM PURO AMOR

Busque eu num puro amor força e sustento
com que tanta paixão manter nutrida,
para tão longa noite amanhecida
bem cedo ver em canto e luzimento.

Mas viva eu antes de uma esp’rança ardida,
e espere, e sonhe, e já não tenha alento:
que é do amor o primeiro mandamento
morrer de amor, por merecer-lhe a vida.

E alfim, Senhora, aos vossos pés curvado,
vencido e vencedor, possa eu dizer-vos
de meu sofrido amor o fado incerto:

o inferno que sofri por merecer-vos,
tão longe o coração amargurado
quanto o quisera ter aqui bem perto.

Deixe o seu comentário

SONETO ANTIGO

Tanto, tanto de amor me eu tenho dado,
hei-me em tantas fogueiras consumido,
que fora de esperar no peito ardido
nada me houvera de ilusão sobrado.

Porém quanto mais sonhos hei nutrido
deste manancial inesgotado,
mais o tenho, no peito, avolumado:
que mais forte é amor, se dividido.

E se o destino tenho marinheiro,
volúvel me não chamem, ou perjuro:
que do amor sou apenas passageiro,

em porto inda o mais doce, não aturo,
e no mesmo travor do derradeiro
já prelibando estou o amor futuro.

1 Resposta