SONHO DE AMOR

Era um sonho de amor… Em misteriosa vinha,
um místico perfume embebedava a mente.
E de uma flor tão bela esse perfume vinha
que enchia de ilusões o coração da gente.

Ver a flor não bastava; e eu quis tocar-lhe a vida.
Mas, de tão frágil que era, e fina e delicada,
eu temi machucar-lhe a haste verde e pendida
e receei manchar-lhe a pétala rosada.

Pareciam abrir-se as sépalas num beijo.
Uma gota de orvalho a brilhar docemente
—um cristal num rubi— ateava-me o desejo.

Mas eu, renunciando à glória de possuí-la,
fugi. Doido que fui! pois logo a madrugada
matou-a para sempre, impiedosa e tranqüila.

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NUVEM

Vês, ao longe, uma nuvem fugidia
beijando a extrema curva do horizonte?
Qual garça fugitiva ela corria;
parada, sorve a luz da eterna fonte.

Olha-a bem. Vê-lhe a forma, que varia,
conforme a viração, de monte a monte.
Peregrina volúvel… Caberia
senão em todo o céu? Aqui defronte

fita-me agora. Como a dos espaços,
nuvem, movem-me as auras de uns carinhos,
aquieta-me a volúpia de uns abraços…

Só por ti sou todo eu: repouso e lida,
langor e crispação, brandura e espinhos,
na pulsação unânime da vida!

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CIGARRA

Quando à tarde no céu se escuta a prece
que entoa a Criação na Ave-Maria,
canta a cigarra, canta e se estremece,
núncia da noite sepultando o dia.

Pobre cigarra! Canta como em prece,
e ninguém, escutando-a, desconfia
que no canto a alma simples lhe estremece
e é o canto o último raio do seu dia.

A tanta gente assim como a cigarra
a dor na pálpebra fechada esbarra,
mas – na suave transfiguração

que nos redime desta pobre argila -,
se em lágrimas dos olhos não destila,
vem aos lábios em forma de canção.

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PÁSSARO SELVAGEM

A tua vida é um pássaro selvagem
que inda não teve a asa de amor ferida,
errante colibri que, entre a ramagem
dos sonhos, beija a floração da vida.

Eleva-te da plácida paragem
à volúpia do imenso, ave querida!
Loucos sonhos de luz leva na viagem,
buscando uma ilusão entressentida!

Mas vê que existem furacões horrendos,
e, se sobes demais, podes perder-te…
Ah! se ao menos pudesse eu aquecer-te

dos altos frios hibernais tremendos,
lançava o meu amor pelos espaços,
para estreitar-te trêmula nos braços!

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MAR PROCELOSO

Meu coração é um pélago de amores
onde flutua o teu olhar sutil.
Oh! quem dera teus olhos fossem flores,
pétalas vivas a boiar no anil!

Desfeito em pranto, diluído em dores,
galguei da vida o ríspido alcantil.
E ao ver no espaço os astros teus cantores
toda a minha alma em lágrimas se abriu.

Ouvindo de teu canto as notas quérulas
o coração transborda-me dos olhos
e traz-me ao rosto um turbilhão de pérolas.

E, negro, na tormenta da ansiedade,
ergue as vagas, que tombam nos escolhos,
aos súbitos clarões da tempestade!

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MEU DESEJO

Embalei minha vida, meus afetos
nos olhos virginais de uma criança.
Embalei-me na cálida esperança
de abrasar-me em seus mares mais secretos.

Meus almejos revoam quais insetos
em torno à flâmea sina! E não se cansa
meu coração de arder naquela trança,
naqueles brandos olhos inquietos.

Eu quisera afogar-me nos seus prantos,
naufragar-me nas vagas de seus olhos,
sufocar-me de amor nos seus encantos!…

E, afinal, envolvê-la nestes cantos
que brotam de minha alma em santos óleos,
e aquecê-la ao calor de sonhos tantos!

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UM OLHAR

Aves de arribação, que passais tristes
e buscais o calor de novos lares…
aves de arribação, acaso vistes
as asas de um amor cortando os ares?

Se da esperança a voz sumida ouvistes,
se lágrimas de luz brotando aos pares
de ocultos arquipélagos sentistes,
nos vôos rente ao dorso azul dos mares,

dizei-me onde é que estão, porque são minhas!
…No entanto elas se foram, tênues linhas
já prestes no horizonte a mergulhar.

Não responderam… Nem sequer me olharam…
Mas diz o coração — que naufragaram
na profundeza de um celeste olhar.

1 Resposta

DE NOVO O AMOR

De novo o amor e suas esquivanças,
na ardente-ocídua luz do fim do dia.
De novo o amor, trazendo a esta invernia
um fogo todo feito de esperanças.

Retorna amor! Com um raio me alumia
o poço desolado das lembranças.
Como o astro solitário das mudanças,
exibe a ardente, e oculta a face fria…

Qual o pássaro Fênix, renovado,
de minhas próprias cinzas me alço, leve.
Ah! mortal já não sou! Extinto é o fado!

E a asa cansada ao voo inda se atreve,
se de uns olhos o incêndio derramado
ateia um sol no coração da neve!

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À MODA ANTIGA

Eu lhe daria, à moda antiga, um beijo,
e, à moda antiga, ela enrubesceria.
Depois, tão longo o dia duraria
quão breve a noite para o meu desejo.

Serás a lira, amada (eu lhe diria,
todo imerso num sonho benfazejo);
serei o vento a desferir o arpejo.
Serei o sol… serás a cotovia.

Tu sorrindo em meus olhos, eu sorrindo
nos teus, e ambos ansiando, ambos fremindo
ao luar, sobre a relva, à moda antiga…

E a vida passaria tão de leve
que a continuaria a morte, em breve,
como uma doce e acolhedora amiga.

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DIA APÓS NOITE

Vendo o azul, que dilúculos augura,
da madrugada, e a mágoa do sol-posto,
quedo-me triste, e penso, com desgosto:
O mesmo céu que é berço é sepultura.

Assim também, um dia, no teu rosto,
nos teus olhos de cálida brandura,
vi tua alma a acenar-me, inda mais pura
sob o véu do cabelo descomposto.

Como a noite, porém, sucede a aurora,
tu me fugiste, e a luz, que me envolvia,
nas trevas se tornou em que ando agora.

Retorna entanto o sol, que antes morria.
E a minha alma, por isto, já não chora,
mas espera o raiar de um novo dia.

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