ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

VANITAS

Eu quis beber, na taça da alvorada,
o néctar da Ciência e da Ventura.
E até hoje esta angústia me tortura:
eu quis ser quase tudo… e não sou nada!

Eu vi, nas formas nuas da natura,
tais como as curvas da mulher amada,
(eu, que às estrelas fui pedir pousada,
neste anseio de amor, que me amargura!)

eu vi todas as luzes do infinito,
e —num êxtase místico e profundo—
tentar possuí-las foi o meu delito.

Senhor! meu Deus! aplaca esta ansiedade,
e dá-me a paz dos simples deste mundo,
— felizes na pobreza e na humildade.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

IMPERFEIÇÃO

Esta ânsia de luz, que me consome,
é um oceano que estua no meu peito.
Eu sinto a angústia atroz, quando me deito,
dos que têm sono e frio e sede e fome.

Imagino a virtude sem defeito,
o amor sem mancha, o instinto que se dome.
E no meu ideal gravo o meu nome:
pouco me falta para ser perfeito…

Procuro, então, em torno a áurea Justiça,
o Direito sem mácula e sem treva,
e em tudo, entanto, a iniqüidade viça.

E, nos meus sonhos, vejo de repente,
o Pensamento enorme, que se eleva,
e arde, e fulgura… e tomba novamente!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

LUZ E ÁGUA

Quero ter-te entre os braços apertada,
num amplexo profundo, imorredouro,
qual da esfera sustém nos braços de ouro
o sol o colo altivo na alvorada.

Como aos olhos de luz da madrugada
arrasta a noite o seu rebanho louro,
no teu olhar, sidéreo sorvedouro,
quero a alma perder iluminada.

O meu olhar no teu olhar mergulho,
louco de amor, por teu amor vencido,
e achando em teu amor razão e orgulho.

Quero abraçar-te assim, em ânsia e frágua,
num abraço fecundo, almo, incontido,
como o abraço total da luz e da água.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

NEBULOSA

Muito além, muito além no tempo —espesso e baço
éter que o humano olhar não pode ainda transpor—,
era uma nebulosa em lânguido compasso
girando pelos céus, entre espasmos de dor.

Desde o dia em que Deus reuniu, num abraço,
à treva da Matéria a centelha do Amor,
jorram profusamente, em convulsões, no espaço,
mil estrelas, mil sóis, da nebulosa em flor.

Lateja-me no peito a informe nebulosa,
a esconsa nebulosa escura dos meus sonhos,
tensa da contenção de lúcidas procelas.

E quando ela explodir, em manhã radiosa,
do seio hão de brotar-lhe, em borbotões risonhos,
miríades de sóis! miríades de estrelas!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

JORNADA INGLÓRIA

A minha Mãe

Esfalfado, a sangrar de jornada em jornada,
nesta inglória ascensão às montanhas da vida,
tive por sol, por meta entre as nuvens perdida
da cordilheira azul desta eterna escalada,

a elevação mais alta e menos conhecida,
que tocava no céu, de luzes coroada…
Ai, tive a dor por glória, e por amor o nada,
e por sonho o infinito, e a terra por guarida.

E afinal, ao chegar ao cimo da existência,
não encontrei ali meu paraíso em flor,
mas tão-só gelo eterno, eterna sonolência.

Só restava inverter a jornada de dor…
Às campinas, que têm de luz mais florescência
que as montanhas do céu, frias e ermas de amor!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

PRIMAVERIL

Teu sorriso é o primeiro alvor da primavera,
seu hálito de luz. Cada cintilação
dos olhos teus é um sol que de mim se apodera,
e em torno ao teu olhar gira o meu coração.

Teu sorrir de manhãs é a própria primavera,
e é inútil resistir à floral estação.
Em vão resiste a rocha aos abraços da hera,
ao teu vernal poder também resisto em vão.

Tens o encanto de alguma etérea primavera
exilada na Terra! E é tanta a sedução,
é tamanho o esplendor que vem de ti e impera,

é tal o teu poder, que se tem a impressão,
ao ver-te, de que a própria exterior primavera,
que nos vem visitar, vem pela tua mão!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

ALADAS ILUSÕES

Meu colibri, meu beija-flor dolente,
doido corcel das minhas ilusões!
Traze-me ao coração, no bico ardente,
mil rosas, mil perfumes, mil canções!

Inventa, após, uma carícia quente,
com todo o ardor das imortais paixões,
e vem trazer-ma, em soluçar plangente,
do borbulhar de luz das amplidões!

Pede depois à lua branca e bela
que vá dizer do meu amor àquela
que há de viver eternamente em mim.

Volta afinal, meu sonhador alado…
e vem contar, com teu falar magoado,
por quem suspira aquele peito, enfim!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

LAGO AZUL

No lago azul das minhas ilusões
vi certa vez um rosto misterioso,
sereno e triste, embora tão formoso,
de enlouquecer incautos corações.

Perdi-me então num sonho vaporoso,
sonhei do amor as ternas emoções.
E alguém cantou tão místicas canções
que o mundo pareceu quedo e choroso.

Quis-lhe o brilho do olhar, sem ver-lhe a morte:
tinha o furor dos vendavais do Norte
e a solidão dos pélagos do Sul…

E debrucei-me sobre as águas frias,
tentei beijar-lhe os olhos de ardentias…
e em prantos me afoguei no lago azul!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

SONHO DE AMOR

Era um sonho de amor… Em misteriosa vinha,
um místico perfume embebedava a mente.
E de uma flor tão bela esse perfume vinha
que enchia de ilusões o coração da gente.

Ver a flor não bastava; e eu quis tocar-lhe a vida.
Mas, de tão frágil que era, e fina e delicada,
eu temi machucar-lhe a haste verde e pendida
e receei manchar-lhe a pétala rosada.

Pareciam abrir-se as sépalas num beijo.
Uma gota de orvalho a brilhar docemente
—um cristal num rubi— ateava-me o desejo.

Mas eu, renunciando à glória de possuí-la,
fugi. Doido que fui! pois logo a madrugada
matou-a para sempre, impiedosa e tranqüila.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

NUVEM

Vês, ao longe, uma nuvem fugidia
beijando a extrema curva do horizonte?
Qual garça fugitiva ela corria;
parada, sorve a luz da eterna fonte.

Olha-a bem. Vê-lhe a forma, que varia,
conforme a viração, de monte a monte.
Peregrina volúvel… Caberia
senão em todo o céu? Aqui defronte

fita-me agora. Como a dos espaços,
nuvem, movem-me as auras de uns carinhos,
aquieta-me a volúpia de uns abraços…

Só por ti sou todo eu: repouso e lida,
langor e crispação, brandura e espinhos,
na pulsação unânime da vida!