BURACO NEGRO

É uma privação que não desejo a ninguém. Vários dias sem Internet, para trás e para frente, uma ilha de desinformação e de isolamento do mundo.

A isso chamam desapego: o desespero total de não estar ligado a nada e a ninguém, ou a algo e a alguém, prefeririam os mais perfeccionistas.

Acordo sem noção do passado e sem descortino do futuro. Se escrever um poema, ninguém o lerá; se enviar uma carta, irá pelo vento ao nada e a lugar algum; ninguém me ouve, ninguém me vê.

Não, não estou só, há pessoas do meu lado, há gente circulando, porém todos sem o mesmo acesso ao mundo externo. Somos como mortos-vivos perambulando pelas telas de cinemas e tevês.

– Bom dia, algo de novo?

– Nada, irmão, nada. O mesmo de sempre!

Um dia, espero que em breve, saberemos se choverá ou fará sol, se cairá neve no Rio de Janeiro, se a segurança aumentou, se o trânsito melhorou, se a saúde progrediu, se há comida e teto para todos, se o desemprego diminuiu e se a mortalidade infantil é coisa do passado.

Por enquanto, tudo o que sabemos é que neste momento chove, o dia deve permanecer nublado, talvez, e certamente permaneceremos desconectados.

Vejo alguns loucos andando de um lado para outro procurando sinal. Pobres coitados. Por aqui não há torres, ah! As desejadas horríveis torres sobre prédios e montanhas: – Cadê?

O dólar subiu? Caiu? A bolsa despencou ou marcou novo recorde? Bolsonaro renunciou ou emplacou a reforma da previdência? Nada, nenhuma resposta.

Alguém sabe se emplacaram o improvável e impossível impedimento do Gilmar Mendes? Tófolli foi enquadrado pela PF por não ter sido aprovado em concurso público para juiz?

O Ministro das Relações Exteriores conseguiu provar que o Nazismo foi um regime de esquerda e que Cuba é extremamente direitista?

Novas teorias filosóficas estarão surgindo? A física quântica conseguiu foros de ciência?

Enfim… dúvidas, só dúvidas.

Não dá para desapegar e ficar aqui, indefinidamente, sem saber se Lula está solto ou preso, se Moro lhe pediu perdão, se os recursos foram julgados, acolhidos, rejeitados, providos, descartados, e se a prisão logo após, imediatamente, o julgamento da segunda instância pacificou os corações dos brasileiros e resolveu que a Constituição merece interpretações mais, bem mais profundas, para que a verdadeira justiça se faça – quem não tem dedos não precisa de anéis.

Espero que alguém esteja anotando tudo, guardando jornais e preparando relatórios, para que, quando voltarmos ao mundo das coisas reais, proporcionado pela Internet, possamos apalpar as coisas intangíveis.

Enquanto isso, paciência, vou jogando paciência off line.

Mas é duro.

2 comentários em “BURACO NEGRO

  1. Goiano viajando em que pais? França? Inglaterra? Alemanha? Caraca! Se nesses países o Goiano não tem internet, imagina se estivesse viajando por um daqueles países que tem a democracia que os perseguidos políticos queriam implantar no nosso Brasil.

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