BELA DA TARDE DE COTOVELO

Veranear durante 90 dias seguidos? Isso mesmo! Houve uma época, em Natal, que era esse o procedimento padrão. Proprietários de casas de praia, as mantinham fechadas durante nove meses no ano, para ocupa-las no início das férias escolares da molecada, somente retornando à capital após o Carnaval.

Relaxar e descansar nesse intervalo de tempo era quase impossível diante da movimentação intensa de veranistas e amigos que se visitavam em perene confraternização. Por outro lado, a trabalheira doméstica multiplicava-se para desespero das donas de casa que se valiam da mão-de-obra de moradores da região para ajudar na administração das residências de verão.

Veraneávamos na praia de Cotovelo, vizinho ao povoado de Pium, onde conhecemos Ina, nosso apoio técnico durante alguns anos. Morena-clara, esbelta, beirando 20 anos de idade, dizia-se noiva de Toinho, motorista de ônibus da linha Natal-Pirangi. Ina trabalhava cantarolando as músicas mais tocadas nas rádios.

Em 1991, Alceu Valença lançou o LP “7 Desejos” onde o carro-chefe era La belle de jour. Um sucesso estrondoso! E haja Ina a cantar sem parar: “…Era a bela da tarde/Seus olhos azuis como a tarde/Na tarde de um domingo azul/Labele diju!…”.

Perguntei-lhe se entendia o significado do termo La belle de jour, título da música. “Não senhor!” – respondeu-me e, curiosa, aguardou o que eu tinha a dizer. Então, resumi para ela o filme Belle de jour do diretor espanhol Luis Buñuel, lançado em 1967, com Catherine Deneuve no papel da erótica Séverine.

Falei-lhe da insatisfação de Séverine com o marido médico, e de como ela mantinha uma vida dupla marcando encontros à tarde para concretizar suas estripulias amorosas, daí o nome do filme. Fascinada com o que escutara, Ina perguntou: “A moça se chamava mesmo Severina?”. “Sim. Em francês, Severina escreve-se Séverine, com ‘e’ no final” – expliquei-lhe.

Dia seguinte, ela nos informou da impossibilidade de continuar trabalhando na casa, porque cuidaria de uma tia enferma. Gostávamos e precisávamos do trabalho de Ina, por isso insistimos numa negociação e acordamos que sua jornada diária terminaria à uma da tarde. Assim acertado, assim cumpriu-se o trato.

Quarta-feira de Cinzas, enquanto arrumávamos as tralhas para retornar à normalidade da vida na capital, soubemos da preocupação de Ina diante de uma possível gravidez. Lamentamos a ansiedade da moça.

Alguns meses depois, num feriado prolongado, convocamos Ina para o apoio costumeiro na casa de praia. Ela apareceu com uma barriga saliente e mantivemos este papo: “Para quando será o parto? Você já casou?”. Ela respondeu com incrível naturalidade: “Em outubro… Já o noivado acabou quando Toinho descobriu que não era ele o pai da criança”.

“Ah, entendi! Escolheu o nome do pirralho?” – perguntei.

“Se for homem será Alceu; se for mulher, Severine!”

“Por que Severine?” – insisti. “Ina é apelido. Meu nome é Severina. Então…”. Fiquei perplexo porque Ina assumira, literalmente, o comportamento da personagem de Buñuel, embalando seus sonhos eróticos na música de Alceu Valença.

Nunca mais vimos Ina. Ainda hoje me bate a dúvida se agi corretamente deixando a moça a par das safadezas da ninfomaníaca Belle de Jour.

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  1. Caro Narcelio, não creio que seu esclarecimento tenha sido decisivo para a gravidez de Ina, agora a identificação com o filme e a música foi perfeita. Temos aqui um grande compositor, Nena Queiróz, que faz paródias de músicas para o carnaval. O nome do bloco dele é “Quanta Ladeira” que já é uma tirada com a música Guantanamera (a paródia diz: quanta ladeira, Olinda quanta ladeira).

    Pois bem: o prefeito do Recife, o petista João Paulo, pegou um terreno da prefeitura no bairro da Boa Viagem e decidiu construir um parque com projeto feito por Oscar Niemeyer. Criou-se uma confusão miserável com os moradores porque eles queriam uma área verde e Niemeyer gostava mesmo de concreto. João Paulo não ouviu os apelos da comunidade e Niemeyer projetou o parque foi construído e recebeu o nome de parque Dona Lindu, mãe de Lula.

    A turma do Quanta Ladeira não perdeu tempo e no carnaval do ano seguinte apresentaram está versão para La Belle de Jour

    Fizeram um parque esquisito
    Na praia de Boa Viagem
    Botaram dois prédios redondos
    Em formato de cu
    O parque era feio de cima de costas e de frente
    Fizeram tudo diferente
    Fuderam a mãe do presidente
    A dona Lindu

    Dona Lindu era o parque mais feio de toda cidade
    É todo concreto não tem um pé de bambu
    Oscar Niemeyer arquiteto idoso
    Fez um projeto feioso
    Só pra comer o velho cu
    Da dona Lindu

    Então, meu caro, usando seus dotes musicais de um quase Beatle, cante na melodia da música de Alceu Valença.

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