A VERDADEIRA VIAGEM PELO TEMPO

Goiano Braga Horta

Xavante (como era conhecido) foi chamado à NASA, a agência espacial norte-americana. Suas pesquisas ficaram conhecidas pelos técnicos, que examinavam a possibilidade de viagem pelo tempo, e achavam que Xavante tinha uma chave, algo que combinado com os estudos feitos pelos cientistas deles poderia completar o quebra-cabeças desenvolvido por dezenas de anos.

Xavante era na verdade Ubiratan. Filho de índios, quando nasceu deveria ser morto por ter vindo com um defeito em uma das pernas. Sua mãe fingiu que o levava para o mato, mas entregou-o a um indigenista que visitava a aldeia para que o levasse embora e salvasse a sua vida.

O homem que o levou não podia ficar com ele, era solteiro e vivia em incursões na mata, trabalhando para o governo do Brasil em contatos com os indígenas, não podendo interferir em suas culturas.

Por isso, saiu furtivamente com Endi – sobrenome que ele lhe deu dos que ele tinha na memória de sua vida entre tribos do Amazonas – e foi com esse nome, Ubiratan, que a mãe da bebê dissera, acrescido do Endi, que conseguiu uma breve licença no trabalho, fez uma rápida viagem e o entregou a uma família humilde da periferia de São Paulo, que o manteve e o criou com carinho, educando-o em escolas públicas da localidade.

Ubiratan Endi era um prodígio, foi considerado superdotado, desenvolveu-se nas ciências, terminou cursos sempre nos primeiros lugares em várias universidades e foi contratado para trabalhar em importante laboratório de pesquisas, onde desenvolveu vários experimentos e ganhou dinheiro suficiente para dar conforto a sua pobre e muito querida família adotiva.

Agora estava na NASA, paparicado por luminares da ciência, disfarçando o pequeno problema na perna que o fazia mancar quase despercebidamente: Tinha medo de ser excluído de alguma viagem espacial ou qualquer outra coisa que, apesar do seu físico atlético, o prejudicasse nas seleções.

Mas, não era nada disso de que tratava o projeto, nada que pudesse prejudicar sua aventura. Colocado em trabalho nos formidáveis centros de pesquisa da instituição, logo percebeu que seus conhecimentos realmente completariam o trabalho que a NASA vinha desenvolvendo, de uma viagem pelo tempo.

Foram necessários apenas dois anos para que o protótipo ficasse pronto. Ubiratan tinha percebido que tempo e movimento eram praticamente a mesma coisa. Em termos simples, era como se não havendo movimento inexiste o tempo. E tempo seria, assim, o movimento realizado pelas coisas, desde os corpos mais volumosos às mais mínimas partes dos componentes dos átomos. E esse era o detalhe que orientou a nova fase das experiências da agência espacial.

Poderia parecer que essa teoria nada tivesse de prática, mas os americanos entenderam ser ela a tal chave que faltava para ligar as coisas, ou, melhor, a peça que, encaixada, completaria o aparelho imaginado para a viagem no tempo: se tempo é movimento, é preciso apenas um grande movimento para acelerar um mergulho no tempo.

Paradoxal? Pode ser. Mas o aparelho estava pronto e faltavam apenas alguns ajustes para que, mediante a energia equivalente a algumas bombas de hidrogênio, fosse rompida a velocidade da luz em uma equação geométrica crescente.

Mas, seria um foguete? Nosso Ubiratan seria um candidato a astronauta?

Pois, não: o aparelho não sairia do lugar, apenas giraria a uma velocidade incrivelmente superior à velocidade da luz. E a máquina não seria ocupada por um ser humano, pois os efeitos sobre nosso organismo sequer podiam ser previstos: apenas aparelhos iriam realizar a incrível “viagem” e transmitir imagens, dados e informações aos observadores.

Ubiratan entrava nele várias vezes ao dia, durante meses, para verificações testes e ajustes.

Na última vez que o fez, quando tudo estava praticamente pronto para ser dada a, digamos assim, partida, uma tempestade elétrica atingiu o conjunto de edificações e uma terrível descarga invadiu o sistema, ligando a máquina do tempo e trancando Ubiratan dentro dela.

De fora, todos, apavorados, tentavam desligá-la, mas os controles estavam comprometidos e não obedeciam.

Mais surpreso que atemorizado, Ubiratan viu com certa satisfação o início paulatino do movimento da máquina, que a princípio o colou na poltrona usada para as verificações.

Em poucos segundos Ubiratan estava à velocidade da luz e, surpreso, não sentiu qualquer efeito físico. Quanto mais aumentava a velocidade mais leve ele se sentia. Pôde levantar-se e dirigir-se aos aparelhos, verificar os painéis e imagens, olhar pela clarabóia o nada lá fora.

Não entendia bem o que acontecia, os mostradores indicavam a passagem a cada segundo de milhões de anos e a velocidade da máquina não parava de aumentar.

Ubiratan não conseguia acreditar que realmente viajava no tempo e resolveu tentar abrir a porta para ver o que se passava lá fora. E para sua surpresa não se passava nada, só escuridão e vazio. Olhou o mostrador e teve de se sentar: marcava 360 bilhões de anos. Não pôde compreender, sentia que haviam se passado apenas umas duas horas e a máquina parecia ter adquirido uma aceleração autônoma, muito maior, bilhões, trilhões de vezes superior ao que dela se esperava.

Passaram-se dias e Ubiratan não precisava comer nem beber. De início ficara preocupado que iria morrer de sede e de fome, nada mais havia na pequena esfera do que alguns biscoitos, um jarro de água e uma garrafa de café, mas a pequena ração acabara e ele nem sentira necessidade de água e comida.

Dois meses dentro da experiência incrível e os mostradores apresentavam os anos vencidos em forma de potências que já quase não cabiam nos mostradores. Após isso, Ubiratan, com seu espírito científico, nem se incomodava se eram dias, meses ou anos que estava ali dentro, apenas acompanhava, lia e anotava, quando se deu conta de que ultrapassara em muito o que se esperava tivesse sido o Big-Bang, a criação do Universo; mas a máquina não parava de avançar: além do Big Bang já se iam muitos bilhões de anos e Ubiratan , se sentia partindo ao encontro do Infinito, ao início dos tempos.

Mas… se espaço e tempo não têm começo nem fim, como chegar a algo que não existe? Como alcançar um momento e o lugar desse momento se esse momento não existiu? – ele se perguntava.

O tal do Big-Bang fora ultrapassado por ele, em sua viagem, e Ubiratan continuava mergulhando no espaço-tempo por bilhões e bilhões de anos, tudo indicando que a viagem seria eterna e que o tal início do Universo teria sido apenas um evento dentre uma infinidade de outros semelhantes.

Foi quando lhe sussurrou o espírito uma indagação desconcertante: se o tempo era infinito ele não poderia chegar ao infinito. Mas, o mais estranho ele concluiu: se ele não podia chegar ao infinito o infinito não poderia ter chegado a ele.

E continuava pensando: – Eu estava lá, na Terra, como estou aqui, agora. Estou neste momento viajando pelo tempo a uma velocidade inacreditável e crescente a cada segundo, mas percebo que essa viagem não chegará ao final, porque esse final não existe.

– Porém, concluiu ele, se eu não posso chegar ao infinito, o infinito não pode chegar a mim. E como ele chegou? Eu estou aqui!

Era forçosa uma conclusão!

Finalmente, os cientistas que de fora o observavam por alguns anos resolveram trazê-lo de volta e o fizeram. De fora, apenas podiam observar que o lugar onde deveria estar a máquina estava vazio, mas sabiam, pelos aparelhos, que a máquina, de alguma forma, continuava lá.

Desligaram tudo e como por milagre o aparelho se materializou frente aos seus olhos.
Abriram a porta e encontraram Ubiratan Endi exatamente como entrara, como se de lá daquele lugar nem a máquina nem ele nunca tivessem saído.

Ansiosos, queriam saber dele os resultados científicos de sua experiência na inacreditável viagem pelo tempo.

Mas o índio Ubiratan Endi, chocado, só conseguia repetir: – Senhores, a grande descoberta é que o Infinito não existe! Houve um começo! Houve um começo!

Houve um começo!

O resultado prático da experiência foi avaliado como imprestável e o governo abandonou o projeto. Certamente levaria uma eternidade para chegar ao início dos tempos, caso ele, como afirmava Ubiratan, realmente existisse. Muito investimento para pouco proveito, disseram.

Ubiratan voltou ao Brasil e sentiu que sua carreira de cientista chegara ao ápice e para nada. Deixou-a de lado. Conseguiu um lugar no governo como indigenista e orientou seu interesse para o estudo dos povos da floresta.

Hoje quase ninguém o chama pelo nome, é conhecido como Xavante e vive embrenhado na mata, misturado às tribos de onde pensa que nunca deveria ter saído.

Quando Xavante chega naquela aldeia, sua mãe o reconhece, sabe quem é ele, é seu filho Ubiratan.

Nunca lhe revelou essa verdade, mas se ri por dentro de tanta felicidade.

7 comentários em “A VERDADEIRA VIAGEM PELO TEMPO

  1. Poderia levar isto para o lado político, mas vou esperar a volta da viagem que o Goiano fará até a beirada da terra . Dizem as más línguas que ele vai no cruzeiro dos terra-planistas ( pagou o cruzeiro em reais). Por ora vamos dar um like.

  2. Olá, maluco! Acho absolutamente impossível levar isso para o lado político, salvo o debate se o Estado deve, ou não, interferir na cultura indígena que determina a morte de crianças que nascem com alguma deficiência. Veja o caso de Ubiratan, ou Xavante, que foi poupado, tornou-se um cientista tão impressionante que abriu o caminho para uma incrível viagem no tempo, e acabou voltando às origens, podendo fazer tudo ou mais que qualquer uma pessoa, mesmo um índio, é capaz de fazer no ambiente selvagem da floresta amazônica. Se tivesse sido morto o mundo teria perdido um cabeçudo.
    Bem, eu tinha esquecido de esclarecer que Ubiratan Endi tornou-se um petista safralhado, participou de greves e de movimentos da classe operária, além de simpatizar com o MST e ter ido duas vezes a Cuba e uma à Venezuela.
    Pronto, agora temos material, oquei?

  3. Joaquimfrancisco, faltou esclarecer que não disponho de baba para a viagem dos terraplanistas para dar de cara com um muro de gelo. Terraplanistas são tão bocós que alguma empresa safada e moleca vai levar um grupo até o polo norte e dizer a eles que a barreira de gelo é o fim do mundo e que basta passar por ela para cair no oco do mundo, o que certamente ninguém se proporá a fazer porque lá faz um frio do caralho.
    Bem, digamos que eu tenha a grana que daria para fazer essa viagem; oras, é claro que eu iria torrar metade em Cuba e a outra metade na Venezuela, gastando à grande porque lá o dinheiro brasileiro vale ouro em pó!
    Prazer em reencontrar-te. A gente vai se falando (já comprou tua arminha?)

  4. Esse menino tem futuro como escrevinhador à Borges. Se não for pra frente, pelo menos nos diverte e se esquecendo do PT. Vai ver que ele acabou convencido que o lula está preso.

  5. Tô Puto Com Tudo, PT está vinte e quatro horas na minha cabeça, já Lula está quarenta e oito. Eu acredito que, como num conto mágico de Borges, Lula será solto mediante o reconhecimento de que sua condenação foi arbitrária – nunca presenciei tantas vozes declarando que a a condenação não se fundou em bases adequadas, sólidas, as tais das provas concretas que não se pôde apalpar.
    Bem, Lula está preso, babaca, dir-me-ás -como se com isso afirmasses que nada mais há a fazer.
    Vê como estamos quietos.
    Como nos faroestes antigos, quando o mocinho declarava que aquele silëncio significava que lá vinha coisa.
    Pois é, lá vem coisa.
    É só aguardar, com a paciência necessária.
    Enquanto esperamos, acontece com Bolsonaro o que aconteceu com Marina Silva: ela se perdeu na tibieza de planos e projetos; Bolsonaro se esvai pela força de seus projetos impopulares e até desnecessários.
    E, é claro, Bolsonaro indo leva todo o mundo na enxurrada.
    Eu nem estou dizendo que ele poderá renunciar.
    É isso, Tô Puto, está escrito nas estrelas.
    Estrelas vermelhas.

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