A VERDADE MOSTRA A CAUDA

A história é deliciosa: duas pessoas comendo algo que ambas apreciam, que se sabe que eles apreciam, mas que por motivos políticos não poderiam devorá-lo em público. Algum desavisado os fotografou; algum mentiroso mandou esconder o prato; algum incompetente fez o trabalho, bem mal feito. A deliciosa história envolve o embaixador de Israel e o presidente do Brasil.

As leis alimentares judaicas, que só os ortodoxos seguem, proíbem o consumo de lagosta. Não é o caso dos governantes de Israel, laicos – mas, como dependem do apoio de partidos religiosos, não comem em público alimentos proibidos. Shelley violou essa norma política e, pouco antes do jogo entre Brasil e Peru, comeu lagosta no almoço com Bolsonaro – que, como tenta demonstrar, só gosta de hambúrguer, cachorro-quente, bandejão e pão com leite condensado. Lagosta é coisa de ministro do Supremo, gente chique, que usa toga francesa em vez de camiseta do Palmeiras. Shelley e Bolsonaro gostam de lagosta, claro, mas não gostam que isso seja divulgado.

Algum desavisado fotografou o almoço (para a Embaixada de Israel, que postou as imagens). Algum pouca-prática mandou retocar a foto, apagando a lagosta (um photoshop a transformaria numa saladinha). Algum inepto rabiscou as lagostas, mas sobrou cauda suficiente para identificá-las. Outro desavisado postou a foto assim mesmo. Onde já se viu isso, políticos que nem mentir sabem direito? Viraram notícia até no Washington Post.

Tudo errado

Imaginemos que o inepto que rabiscou as lagostas tivesse feito um bom serviço. Todos iriam querer saber o que é que Shelley e Bolsonaro mandaram ocultar. Não podia dar certo. Por que não os flagraram enquanto ainda estavam no couvert, comendo azeitonas, cenoura, pão e ovinhos de codorna?

A Previdência…

A reforma da Previdência, espera o Governo, será aprovada até o fim da semana na Câmara; daí seguirá para o Senado. Joice Hasselmann, a líder do Governo no Congresso, está confiante nisso. Bolsonaro mais atrapalhou do que ajudou – e, diga-se em seu favor, não distribuiu cargos nem pixulecos a deputados de cujo voto precisa. Liberou R$ 1,4 bilhão de verbas para emendas parlamentares, mas previstas em lei. O máximo que fez pela reforma foi demitir alguns ministros para que reassumissem na Câmara e garantissem mais votos à aprovação. Jogou limpo. Mas quem realmente está empurrando a reforma é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

…e daí?

Imaginemos que a reforma passe por Câmara e Senado, sem grandes modificações. E que é que o Governo vai fazer no dia seguinte? Como fará para que a reforma gere empregos e dê algum empuxo à economia do país? O próximo passo é a reforma tributária. Mas mais uma vez o Congresso toma a frente: enquanto a equipe econômica ainda não definiu a sua reforma, a Câmara retomou a proposta do líder do MDB, Baleia Rossi, assessorado pelo competente economista Bernard Appy, que de início unifica cinco impostos e toma medidas contra a guerra fiscal entre os Estados. Acaba a mamata de hoje, em que o empreendedor negocia com vários Estados para ver qual lhe oferece mais vantagens, o que faz com que alguns bilhões de impostos não sejam arrecadados. Serão atingidos interesses como os da Zona Franca de Manaus, e não se tem ainda ideia de como compensá-los. Mas o trem anda.

O caminho das urnas

As várias reformas previstas poderão mexer positivamente na economia, o que fortalece a candidatura de Bolsonaro à reeleição, em 2011 (sim, é cedo, mas João Dória já é candidato e Rodrigo Maia flerta com a ideia). Bolsonaro tem hoje o apoio de um terço do eleitorado: a pesquisa XP-Ipespe, feita a pedido da corretora XP, informa que 34% da população consideram que o Governo é ótimo ou bom (a pesquisa Datafolha é semelhante: 33%), 28% regular (Datafolha, 31%) e 35% ruim ou péssimo (Datafolha, 33%). Mas o fato é que Bolsonaro perdeu boa parte de seus adeptos do início do Governo até hoje. Em parte, por motivos políticos: ele conseguiu simbolizar a luta contra o PT. Hoje, parte de seus aliados volta ao centro e busca candidato.

Os partidos

O caro leitor acha que os 33 partidos de hoje são muitos? Bom, eram 35, e dois desapareceram: o PRP foi incorporado pelo Patriotas e o PPL pelo PCdoB. Outro deve sumir; o PHS, absorvido pelo Podemos. Mas tudo para por aí: já há no TSE dois pedidos de novas legendas, o Partido Nacional Corinthiano e o Partido da Evolução Democrática. A UDN espera renascer a partir da anulação do Ato Institucional nº 2, que em 1965 extinguiu todos os partidos políticos. E há 73 legendas que iniciaram processo de formação. Montar partido é bom e barato, já que dão acesso ao Fundo Partidário. Há anos, antes do aumento brutal dos recursos do Fundo, o dirigente de um partido nanico se queixava de ter só R$ 100 mil por mês para as despesas.

11 pensou em “A VERDADE MOSTRA A CAUDA

  1. Fico imaginando se Bolso pusesse a mão no bolso e comesse a mulher ou irmã desta gente. Quantas toneladas de papel , quantas camêras!, o meliante molusco comeu outras putas até em “serviço” e pouco mostram .PQP!. Se ele peidar talvez talvez até engarrafem o odor e o misturem com os da esquerda para entrarem com ação de impeachment . Jornalistas de fuxico!. Bando de cornos!. Tanto tempo para se formarem ( ou deformarem) acabam mais cheios de defeito. Só idiotas não veem que como todo governo este apesar de ser o melhor , ainda tem falhas . E perdem tempo com fuxicos. O governo não se resume só a Bolsonaro. Certamente que a contra gosto do Presidente , no governo como um todo ainda a muito o que extirpar. E tudo o que precisa ser extirpado tem o apoio desta excrescência que imprensa , pisa , e esmaga a verdade.

  2. Isso é jornalismo?? Falta do que fazer. Falta de terapia = ter a pia cheia de louças pra lavar!! Vão procurar uma lavagem de roupas!! Quanta idiotice!!

  3. Qunado o Bolsonaro disse que não gostava de lagosta?????
    O colunista devia se informar antes, mas pedir que este pessoal se informe e pesquise é pedir demais, basta ver o que publicaram do IntercePT.
    O bom jornalismo morreu a muito tempo atrás e o pior não teve divulgação nenhuma sobre a sua morte, pois os jornalistas tinham que pesquisar….

  4. O Washington Post na época do Watergate já teve mais relevância. Hoje deve estar na mesma trilha do NYT e a Folha. Uma pena. Dar importância a uma foto editada pela Embaixada de Israel em face a um almoço de domingo com o PR? Regado a Coca-cola e com cesto de vime à mesa.

    A reforma da previdência será aprovada e está com valores de corte de despesa acima do que o mercado previa. A narrativa é de que ela será aprovada apesar do Bolsonaro e do Guedes e graças ao Maia e o Centrão. Então tá.

    Mesmo antes e com os sinais inequívocos da aprovação, o mercado já derrubou o Dólar e ações têm recordes de alta todos os dias. Alguém ainda tem dúvida que o que trava a economia era o déficit fiscal que será mitigado com a reforma? Outras reformas serão necessárias (tributária e política) por´m estas serão mais fáceis, uma vez resolvida a primeira.

    à partir da eleição de 2020 para prefeitos, não haverão mais coligações partidárias e a cláusula de barreira vai endurecer para os partidos nanicos. A previsão é que em 2026 não tenhamos mais que 8 partidos. Esta atual legislatura não tem vontade de mudar as coisas, porém sem as coligações, candidaturas como a do Tiririca perderão sentido.

    A partir de 2022 podem começar a ser discutidos temas como o fim do fundo eleitoral, do horário dito gratuito de TV, o voto distrital e a redução / melhor distribuição da câmara dos deputados e seus custos.

  5. Caro João Francisco, o Washington Post é um jornal importante, hoje ligado ao grupo Amazon, e não foi o único a tratar do caso. Se isso não tivesse importância, Bolsonaro não se preocuparia tanto em divulgar que trocou o banquete oficial por um bandejão, nem divulgaria a foto de quando esteve no Japão com os filhos, ainda na fase de candidato, como se fosse de agora, tudo para mostrar um estilo de vida modesto. Sem problemas – mas quando as coisas são apanhadas, ficam engraçadas. Em Israel, como diz a nota, a comida kosher (de acordo com as normas religiosas) não é comum entre as autoridades, mas todos fazem de conta que a comem para não melindrar os partidos religiosos. E não diga que é perseguição a Bolsonaro: Fernando Henrique foi amplamente comentado quando comeu buchada de bode e ainda disse que parecia um prato francês, dobradinha à moda de Caen. Quanto às outras notícias, estão nos jornais – e a coluna que assino foi uma das primeiras a dizer que a reforma iria passar. Também na coluna saiu a notícia de que a Bolsa estava subindo e rompendo a barreira dos cem mil pontos. Mas não pense que, com o fim das coligações, candidatos como Tiririca perdem a importância. Eles levam votos à legenda, não à coligação, e ampliam a bancada. O voto distrital resolveria boa parte dos problemas, do custo da campanha ao horário eleitoral gratuito, mas aprová-lo é difícil: os eleitos chegaram lá com o atual sistema, por que iriam querer trocá-lo? Cortar o número de vagas na Câmara é também complicado, já que reduz as possibilidades dos parlamentares que se candidatarem.
    abração!

  6. Não me parece que a “edição” da foto tivesse por objetivo ocultar de fato o prato objeto da refeição pelos participantes. Pelo meu limitado conhecimento da religião judaica, que é extremamente tolerante com as gafes alheias, tenho que se tratou de um mero “tapa-sexo” como víamos há tempos atrás e ainda se vê ainda hoje em programas de tevê americanos. Trata-se, portanto, de uma proteção aos seus do “ultraje” de degustar um fruto do mar em público. Não é proibido existir, apenas entendem que não é bom explicitar em público, mesmo todos sabendo que há “algo” por baixo da tarja preta.

  7. Sr. Carlos, eis ai uma disputa que acho interessante. O executivo enviando projetos e o legislativo também se mexendo. Se for para destravar o País, é uma disputa saudável. Não importa quem vai ser o próximo presidente, até lá muita aguá vai rolar e sabemos que no Brasil estamos sempre nos surpreendendo no campo da política. Só para lembrar, o atual governo foi instalado a 6 meses e ainda está engatinhando, já nasceu falando, agora precisa aprender a andar.

  8. Sonia Regina, se as boas medidas vierem do Executivo ou do Legislativo não faz diferença: o importante é que sejam boas. Lembrando Deng Xiao Ping, que modernizou a China, não importa a cor do gato: o importante é que cace os ratos. Abração!

  9. Decididamente esta “escrota gazeta” é maravilhosamente democrática. Não importa a cretinice, a publicação é assegurada.

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