A ESTATAL QUE É PRIVADA

A cena foi memorável: o presidente Fernando Henrique Cardoso vendeu em leilão uma das estatais-símbolo do país, a Cia. Vale do Rio Doce, por uns dois bilhões e pouco de dólares. O cheque foi ampliado e exibido à vontade – era o início da privatização. Bom, houve uma ou outra privatização, mas o país é ainda um dos campeões do mundo em estatais. E a própria Vale, a privada, tem hoje maioria de capital controlado pelos governantes, além da golden share imposta por Fernando Henrique. É uma única ação, mas dá ao acionista, o Governo, amplo poder de veto sobre as atividades da empresa.

Com a maioria do capital controlada por fundos sob influência oficial, o Governo poderia ter exigido que a Vale não funcionasse como privada na manutenção das barragens e na proteção das populações que viviam no caminho das águas e dos rejeitos em caso de acidente. Também poderia ter poupado o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, o Previ, das perdas bilionárias que vem sofrendo (e que atingem diretamente os funcionários do banco, já que são eles que pagam a suplementação de aposentadoria). Brumadinho, primeira tragédia da Vale, derrubou o valor da empresa. O Previ, hoje o maior acionista individual da Vale, teve no primeiro trimestre deste ano resultados R$ 5,8 bilhões abaixo do previsto. Tudo para fingir que, embora oficialmente uma empresa privada, a Vale continuasse estatal por debaixo do pano. E estatização, claro, com o dinheiro dos outros.

Cadê o foco?

O superministro da Fazenda, Paulo Guedes, disse no Congresso, mais uma vez, que o país quebra rapidamente se não houver uma reforma drástica da Previdência (sua meta é de R$ 1,2 trilhão de economia em dez anos, mas talvez se contente com um pouco menos). O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, fala em reforma que poupe R$ 1,1 trilhão em dez anos. No momento, não há votos suficientes para aprovar uma reforma deste porte – embora seja possível que se alcance a maioria necessária. Mas, com essa catástrofe anunciada, que é que faz com que o presidente vá ao Congresso? Não, não é a reforma da Previdência, nem a reforma tributária: é uma mudança nos dispositivos de trânsito, passando a tolerância das carteiras de habilitação de 20 pontos (momento em que, agora, supostamente devem ser cassadas) para 40 pontos. O objetivo é agradar os caminhoneiros, que agora poderão cometer o dobro de ilegalidades e mesmo assim manter a habilitação em dia. Tomar essa medida exige a intervenção do presidente? Até hoje, nunca exigiu. Tudo foi decidido pelos órgãos técnicos. Agora o que vale é mostrar aos eleitores o favor que lhes está sendo oferecido por ordem do presidente.

Cadê a segurança?

Duplicar o número aceitável de pontos na carteira de habilitação é bom para os caminhoneiros? Depende: a categoria terá mais liberdade para dirigir como quiser, com o fantasma da cassação da carteira bem mais longe. Mas, em compensação, correrão maior risco na estrada, já que outros motoristas também se sentirão livres para prestar menos atenção à segurança. Mas o presidente também não parece se preocupar muito com esse tema. Embora a monitoração eletrônica do trânsito nas rodovias federais tenha contribuído comprovadamente para reduzir o número de mortos e feridos em acidentes, Bolsonaro insiste em se opor ao aumento da fiscalização. Alega que “é preciso trazer de volta o prazer de dirigir”. Haverá maior prazer de dirigir do que concluir a viagem são e salvo, sem precisar gastar em hospital e oficina?

Boa notícia

O deputado Pedro Cunha Lima, tucano da Paraíba, está formulando uma proposta de emenda constitucional que se chamará PEC dos Penduricalhos. A ideia é gastar menos com o custeio da máquina administrativa. Hoje, até mesmo o parlamentar que se reelege recebe um penduricalho para custear a mudança para Brasília, outro penduricalho para morar lá (mesmo que já more em casa própria e até tenha outras propriedades), mais um penduricalho para comprar roupas, fora mordomias como carro, combustível, motoristas e assessores (há pelo menos um parlamentar com 70 assessores). A PEC dos Penduricalhos já tem 64 assinaturas garantidas, das 171 necessárias.

Inclusão!

Seria bom se isso valesse também para outros poderes, todos carregados de mordomias e auxílios diversos para fazer aquilo que o cidadão, que ganha menos, tem de fazer com seu próprio dinheiro. Nos EUA, o presidente paga as refeições da família na Casa Branca -excetuam-se aquelas em que há uma reunião de trabalho. E, na Suprema Corte, há um só carro de representação, o do presidente. Os outros ministros, se quiserem carro, que o comprem.

Armas impopulares

A pesquisa é do Ibope: 73% dos entrevistados são contrários ao porte de armas e rejeitam as medidas que facilitam as compras de armamento. Armas em casa são menos impopulares, mas também mal aceitas: 61% são contra.

8 pensou em “A ESTATAL QUE É PRIVADA

  1. Vou comentar de baixo para cima.

    Acho válidas pesquisas de opinião, porém as do Pesquisa Ibope valem tanto quanto uma nota de 3 reais. Para mim o Ibope está no mesmo nível do Vox Popoli do baixinho Marcos Coimbra, que trazia resultados por encomenda do PT.

    O único partido a encarar a redução de custo do parlamento com seriedade é o Novo que, além de cortar os penduricalhos, Já faz tudo isso por estatuto. O Alexis Fontaine é exceção quanto ao auxílio moradia, pois mudou com a família (mulher e 3 filhos) para Brasília e não tem apartamento funcional. O custo de vida em Brasília é muito alto.

    Para o auxílio moradia acabar tem que vender todos os apartamentos funcionais dos deputados e senadores. O Onix Lorenzone, p. ex., é ministro e mora em ap. da câmara.

    Multas de trânsito em estradas e nas cidades viraram fábrica de arrecadar dinheiro. Tá certo multar em faltas graves como: ultrapassagem em local proibido, avanço de sinal vermelho, tráfego no acostamento, embriagues no volante, velocidade excessiva e ultrapassagem pelo acostamento. Porém, colocar máxima de 40km/h e radares móveis escondidos em uma estrada BR como a Rio-Santos é um absurdo.

    Um motorista passa facilmente de 20 pontos e fica estressado quando dirige nestas condições. Perder a CNH para um motorista que depende do veículo para trabalhar é perder o Emprego. Foi promessa de campanha, 58 milhões de brasileiros votaram nisso.

    O Bolsonaro foi pessoalmente entregar o projeto da N. Previdência no congresso. Seu ministro Guedes junto de assessores já foram 3 vezes nas comissões de análise , sendo que lá ficaram por mais de 6 horas cada vez. Bolsonaro e Guedes já foram nos mais diversos programas de TV e rádio para defender o projeto. Não vejo como se comprometer mais ainda com o tema.

    Os acidentes da Vale não tem nada a ver com sua privatização e sim com a falta de fiscalização dos órgãos governamentais. Das poucas coisas boas do Gov. FHC foram as privatizações.

    • Desculpe ,a Vale era para ser de longe,a maior mineradora do Brasil.Foi DADA pelo bandido-maior,pai político do 9DEDOS,senhor FHC,ao verdadeiro dono :George Soros.A Bradespar ,uma das maiores acionistas da Vale é laranja de Soros;a Blackrock(maior fundos de hedge americano),idem.A litel ,maior acionista individual ,é uma rede dos grandes fundos de pensão que tungam os trabalhadores há décadas e estão inclusive sob CPI,que não anda porque aqui é a terra brasilis,aonde só a corrupção pinta e borda.É formada por Previ-BB(citada pelo colunista),Petrus-Petrobrás,Funcef(Caixa) e Cesf(elétricas de SP).FHC só no paredão.Você poderia ler também sobre o desastre de Mariana,provocado por uma fusão de duas empresas concorrentes (e aí iria ver como o Brasil é expoliado em suas riquezas naturais).A Samarco é fusão da Vale com a australiana BHP Bilington (maior do mundo por pertencer á família mais rica do mundo há 300 anos,os Rothschild).Como você acha que funciona essa concorrência?Ligue os pontos:Soros foi casado com uma Rothschild e é o maior metacapitalista conhecido no mundo.Todos estes citados estão se lixando para o Brasil.Se eu fosse falar dos minerais como o nióbio(nas mãos da família Moreira Salles-CBMM Araxá),iria gastar um dia inteiro.Discutimos reformas de INSS e perdemos 1 trilhão de dólares por ano só com o subfaturamento do nióbio.

  2. Quer dizer que em menos de 15 anos o brasileiro mudou de ideia e agora é a favor do desarmamento? Antes eram 63,94% a favor e agora a maioria é contra? Duvido muito!!!!

  3. Sr. Carlos, já faz tempo que estamos apertando cinto em nossas casas. Deixamos de lado coisas que não são tão importantes e até aquelas importantes. O motivo? Os preços vão subindo devagar mais constantes e a maioria dos cidadãos, só tem aumento nos rendimentos uma vez por ano. Não é choradeira, é realidade.

    Nós rebolamos pra pagar nossas contas e assistimos os Três poderes, repito “Os Três Poderes” dançando a VALSA DO IMPERADOR.

  4. Quer dizer que o governo, como ainda manda na Vale, poderia ter “exigido” que as barragens fossem bem conservadas e que as receitas fossem bem geridas? Claro, e também poderia ter exigido que o Sargento Garcia prendesse de vez o Zorro e que as ovelhas e os lobos andassem de mãos dadas.

    Fala sério, Brickmann. A Vale faz estas lambanças justamente porque AINDA É ESTATAL, graças à esta invenção chamada “privatização à brasileira”, onde o governo transfere o comando para fundos de pensão estatais, fingindo que não são estatais.

    Vale lembrar a máxima de Roberto Campos: “No Brasil, empresa privada é aquela que é controlada pelo governo, e empresa estatal é aquela que não é controlada por ninguém”.

Deixe uma resposta para Marcelo Bertoluci Cancelar resposta