A ARTE DE QUEBRAR A CARA

José Paulo Cavalcanti Filho

Faz muito tempo. Em 1969, os militares pediram gentilmente (nem tanto) que não estudasse mais por aqui. E em nenhum outro lugar, se possível. Eram anos escuros, amigo leitor. Acabei indo para Harvard. Eles gostaram. Eu também. E seguiu a vida. Já em Cambridge, vi notícia de conferência no quadro de avisos – ainda não havia internet, então. Paul Samuelson, que viria a ser Nobel de Economia no ano seguinte, faria conferência sobre O que vai acontecer, pelo mundo, na década de 1970. Cheguei cedo. Ele falou sobre tudo. Mas nada sobre a América Latina. Nem para dizer que a volta da democracia estaria próxima, por lá. Talvez por não acreditar nisso. Na fase das perguntas, levantei e disse, com toda a impertinência (lamentável) dos verdes anos: “Professor, quero lhe fazer um favor”. Quis saber qual era. “Se andar para o Sul vai ver que, depois do México, há muitos outros países. Trata-se da América Latina. E o senhor se esqueceu de nós”. Após o que sentei, orgulhoso. Sem me dar conta de que logo iria lamentar essa fala.

O velho professor, tranquilo, respondeu: “É que vim dizer apenas o que vai acontecer de importante na década de 70, meu jovem. E na América Latina, de relevante, não vai acontecer nada”. Risos gerais. Gargalhadas. Me encolhi na cadeira. Rezando para que os poucos amigos já feitos, ou companheiros de sala, não me vissem. Depois, condoído com meu abatimento, o professor veio vindo em minha direção e disse: “Gostei de sua pergunta”. Recuperando um pouco da autoestima, balbuciei: “E, eu, de sua resposta”. Mentira, claro.

Penso agora em nosso Brasil. E vejo que a arte de quebrar a cara talvez não seja privilégio só meu. A começar pelo ex-ministro Bebianno. Mas também lembro da mitologia grega. Onde nasceram lendas de filhos matando seus pais. Como Zeus, que matou Cronos. Ou Édipo, que matou Laio. E de Roma, com Brutus assassinando Cesar – kai su, teknon; assim, em grego, foram ditas suas últimas palavras (tu também, filho). No caso de nosso presidente, são logo três. Mais um primo (ou o que lá seja), Índio, participante já de 58 reuniões no Planalto (mesmo sem ter nenhum cargo). Como Os 3 Mosqueteiros, de Dumas (pai), que eram quatro. Tudo sugerindo que bom seria Bolsonaro mostrar logo, aos filhotes, o caminho de casa. Que, nessa pisada, o risco de ser ele o próximo a quebrar a cara vai ser grande.

7 comentários em “A ARTE DE QUEBRAR A CARA

  1. Pertinente o questionamento, mas nem tanto a resposta de Dr. Samuelson. Será que nada de relevante aconteceu depois do México ou, por acaso, aos olhos dos cientistas econômicos a volta da democracia não teria relevância? Longe de mim querer contestar a visão reconhecidamente bem avaliada do Professor detentor do Nobel, mas não entender como importante o momento politico que se avizinhava em nosso continente pareceu-me um pequeno escorregão do mestre das ciências econômicas.

  2. Os governos “democráticos” anteriores , afundaram o pais , nos desmandos , roubos do erário , colocação em cargos até então tidos para pessoas de bom comportamento e conhecimento o mais profundo possível , de pessoas tipo os do supremo , tudo feito de forma oculta. Tanto é que para desfazer o novelo o MP e PF, tem tido enorme dificuldade e necessitado da cooperação de governos exteriores em suas investigações . O problema do atual governo é a exagerada quantidade de entrevistas, onde cada um quer aparecer mais que os outros. Bolsonaro deveria sim , começar a demitir quem falasse o que fosse inverdades, seja quem for, A imprensa , doida para dar notícia ( o que representa entrar dinheiro no bolso de muito jornalista), pega uma coisa e multiplica para fazer alarde. Muitos deles querem a volta do canalhismo praticado pelo pt e puxadinhos , que distribuiram verba pública a governos corruptos , ladrões e afins. O governo não deve

    Proteger quem mente. Evitar exposição desnecessária provocada por alguns, mesmo dos filhos do homem. mas não deve levar ao silêncio o que for achado de errado. Não deve se tornar um novo pt!. Fora corrupção e segredinhos que fazem aumentar o trabalho da PF e MP, quando se tem que investigar algo.
    ,

  3. so uma colocaçao , que talvez seja pertinente , principalmente em economia , na decada de setenta o brasil passou da quadragesima posiçao , como paises , na economia mundial passando para a setima posiçao a epoca , e criou o que hoje e a terceira industria de aviaçao civil no mundo , portanto ha de se convir , que o premio nobel estava equivocado e muito sobe a america do sul , pena que no brasil se exalte , as praticas e os resultados ruins , principalmente a epoca dos militares e se esconda fatos e avanços que aconteceram a mesma epoca ,,,,um artigo que me foi enviado , talvez demonstre bem esta omissao da nossa historia , trata´se de um artigo que cita o monumento aos herois brasileiros da primeira grande guerra , e que existe na frança , mais especificamente em pariis

  4. Eu vejo duas situações: uma de um jovem aluno que sabia o que estava acontecendo; outra de um velho professor que esqueceu de pesquisar.

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