UM MOTE E UM FOLHETO FEMININO

Poeta João Paraibano, um dos gênios da cantoria nordestina (1952 /  2014)

* * *

João Paraibano glosando o mote

Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três dias de chuva no Sertão.

O bezerro mamando a cauda abana;
A espuma do leite cobre o peito;
Cada estaca de cerca tem direito
A um rosário de flor da jitirana.
No impulso do vento a chuva espana
A poeira do palco do verão;
A semente engravida e racha o chão,
Descansando dos frutos que germina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três dias de chuva no Sertão.

Quando Deus leva em conta a nossa prece
O relâmpago clareia, o trovão geme,
Uma nuvem se forma, o vento espreme,
Pelos furos do véu, a água desce;
A campina se enfeita, a rama tece
Um tapete de folhas sobre o chão;
Cada flor tem formato de um botão
No tecido da roupa da campina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

No véu negro da barra, o sol se esconde;
Um caniço amolece e cai no rio;
Nos tapetes de grana do baixio,
Um tetéu dá um grito, outro responde;
A frieza da terra faz por onde
Pé de milho dar nó no esporão
E a boneca, na sombra do pendão,
Lava as tranças com gotas de neblina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

A presença do Sol é por enquanto.
Onde vinga uma fruta, a flor desprende;
Cada nuvem que a mão de Deus estende
Cobre os ombros do céu, de canto a canto.
Camponês não precisa roubar santo,
Nem lavar mucunã pra fazer pão;
Faz cacimba na areia com a mão
Onde o pé deixa um rastro, a água mina.
Jesus salva a pobreza nordestina,

Com três meses de chuva no Sertão.
A cabocla mulher do camponês
Caça ninho nas moitas quando chove
Quando acha dez ovos, tira nove,
Deixa o outro servindo de indez;
As formigas de roça fazem vez
De beatas seguindo procissão;
As que vêm se desviam das que vão,
Sem mão dupla, farol e nem buzina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

Sertanejo apelida dois garrotes,
Bota a canga nos dois e desce a serra;
Passa o dia no campo arando terra,
Espantando mocó pelos serrotes;
Sabiá, pra o conforto dos filhotes,
Forra o ninho com pasto de algodão;
Bebe o suco da polpa do melão,
Limpa o bico nas varas da faxina
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

Treme o gado na lama do curral,
Sopra o vento, cheirando a chão molhado;
Cada pingo de chuva, congelado,
Brilha mais do que pedra de cristal.
Uma velha, durante o temporal,
Se ajoelha, rezando uma oração,
Fecha os lhos com medo do trovão
E abre a porta, depois que a chuva afina
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

Cresce a planta, viçosa, e frutifica
Com um cacho de flor em cada galha;
Vê-se o milho mudando a cor da palha
E o telhado chorando pela bica;
A cigarra emudece, a acauã fica
Sem direito a fazer lamentação;
Deus afina a corneta do carão,
Só depois de três meses, desafina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

* * *

MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL – Salete Maria da Silva

O folheto de cordel
Que o povo tanto aprecia
Do singelo menestrel
À mais nobre academia
Do macho foi monopólio
Do europeu foi espólio
Do nordestino alforria

Desde que chegou da França
Espanha e Portugal
(Recebido como herança)
De caravela ou nau
O homem o escrevia
Fazia a venda e lia
Em feira, porto e quintal

Só agora a gente vê
Mulher costurando rima
É necessário dizer
Que de limão se faz lima
Hoje o que é limonada
Foi águas podre, parada
Salobra com lama em cima

A mulher não se atrevia
Nesse campo transitar
Por isso não produzia
Vivia para seu lar
Era o homem maioral
Vivia ele, afinal
Para o mundo desbravar

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MARCIA FONTENELLE – SÃO PAULO-SP

Caro Editor,

Esse presidente Messias é um santo milagreiro.

Conseguiu transformar em universitários os militantes da CUT e do MST.

É um milagre atrás do outro!

R. Eu quero ver mesmo é se ele consegue fazer o milagre de botar um militante zisquerdista pra raciocinar e enxergar a realidade.

Aí eu digo que ele é um santo arretado!

E já que você falou nos “estudantes” protestadeiros que  foram às ruas contra o “corte” de verbas, vamos ouvir este pitaco do Boris Casoy:

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BEM NO MEIO DO OLHO DO FURICO DA MILITANTE FOLHISTA

 

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POSTE MALANDRO

Haddad exige que o governo faça em quatro meses o que não fez em sete anos como ministro da Educação

“Um país que se sonha grande precisa de uma educação de qualidade, republicana, precisa de ciência, de pesquisa, em todos os campos do conhecimento. Não estamos enfrentando uma batalha política. Estamos diante da defesa de um marco civilizatório”.

Fernando Haddad, desocupado desde outubro, no Twitter, indignado com o governo Bolsonaro por não ter feito em quatro meses o que o poste de Lula deixou de fazer em sete anos como ministro da Educação.

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JOSÉ PAULO CAVALCANTI – RECIFE-PE

Meninos, eu vi.

A explosão do nosso melhor Brasil. O popular e profundo. Na voz meio de taquara rachada de Luíz Berto.

Foi assim. Estava ouvindo uma exibição experimental da Rádio Paulo Freire, da UFPE. E decidiram entrevistar o cidadão. Para falar de seus romances premiados.

Não contavam é que, aproveitando a oportunidade, o entrevistado contasse histórias do passado, de nossa gente simples, dos doidos que toda cidade do interior tem, os fuxicos, o rosto real de nossa gente.

Com memória elefantista, e uma graça toda especial.

Em muitos anos, foi sem dúvida a melhor exibição de um entrevistado que pude presenciar.

Em qualquer local.

Incluindo a TV Globo. Et caterva.

Algo, vou escolher bem a palavra, excepcional. De qualidade superior.

Não é o caso de dar parabéns ao Papa Berto.

Mas a todos nós, seus ouvintes e súditos.

R. Esta semana, quando me enviou material para sua coluna, o ilustre fubânico José Paulo acrescentou este adendo à mensagem:

P.S. Sua participação, no rádio, foi a mais brilhante que presenciei em muitos anos. Um show. Perfeito. Maravilhosamente perfeito. Parabéns, entusiasmados.

Quando é agora, recebo um negócio desses.

Êita gôta serena!!!!

Deixa eu se arrecuperar-se-me e se controlar-me pra ver se consigo continuar digitando.

Vindas de um dos mais brilhantes intelectuais brasileiro, membro da Academia Pernambucana de Letras, doutor PhD em Fernando Pessoa com obra traduzida em vários idiomas, ganhador de vários prêmios literários, jurista reconhecido e respeitado em todo este país e no exterior, estas palavras sacudiram o coração deste pobre Editor.

Brigadíssimo por tamanha generosidade, meu dileto amigo. Num mereço tanto.

É um privilégio gozar da sua amizade e tê-lo como colaborador desta gazeta escrota. 

E quem quiser ouvir a entrevista citada por José Paulo, basta clicar na imagem abaixo.

Claro que eu não iria deixar passar esta oportunidade de se amostrar-me de novo, mais uma vez, pro distinto público!

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