JOSÉ NÊUMANNE - DIRETO AO ASSUNTO

A HORA DA POESIA

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA – Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Colaboração de Pedro Malta

CARLOS BRICKMANN - CHUMBO GORDO

A HORA DO VENDAVAL

É uma das maiores investigações financeiras de nossa História: por ordem do juiz Flávio Nicolau, do Tribunal de Justiça do Rio, foi quebrado o sigilo bancário e fiscal do senador Flávio Bolsonaro, o filho 01 do presidente da República, de sua esposa e filho, da empresa em que é sócio da esposa, de 88 ex-funcionários, de seu ex-assessor Fabrício Queiroz, esposa e filhas. O sigilo fiscal está quebrado de 2008 a 2018 e o bancário de 2007 a 2018.

Flávio Bolsonaro diz que a quebra dos sigilos servirá para explicar um vazamento ilegal já ocorrido; e que o objetivo é atacar seu pai. A explicação oficial é investigar a movimentação de R$ 1,2 milhão por Fabrício Queiroz, em um ano (em três anos, R$ 7 milhões). Há um depósito de Queiroz na conta de Michele, esposa de Bolsonaro; e Queiroz disse que pedia parte do salário do pessoal do gabinete para contratar, sem registro, mais assessores. Há 48 depósitos de R$ 2 mil cada na conta de Flávio Bolsonaro. A suspeita é de que houvesse entrega ao chefe de parte do salário de cada funcionário.

É investigação para durar muito tempo: pesquisar contas bancárias de mais de dez anos, de 95 pessoas, é exaustivo. Não deve haver surpresas enquanto as investigações evoluem. Mas haver investigações contribui para a piora do clima político, e talvez leve parlamentares de hábitos flexíveis a exigir mais do Governo em troca de seu apoio e de seus votos. Em bom português, haverá quem exija tratamento mais generoso por seu apoio.

Coincidência

A investigação sobre Flávio Bolsonaro acontece na ocasião em que está próxima a votação da reforma da Previdência. Acontece também, ao mesmo tempo, a delação premiada de Henrique Constantino, um dos donos da empresa aérea Gol, em que cita propinas que teria pago a Rodrigo Maia, hoje presidente da Câmara e principal articulador da votação da reforma. No Governo anterior, faltavam poucos dias para a votação quando explodiu a delação premiada de Joesley Batista, que gravou conversa com o presidente Michel Temer (com isso, a reforma da Previdência ficou para o Governo seguinte). Mas, afinal de contas, coincidência é coincidência. Acontece, não?

Temer livre

Como de hábito, haverá choro e ranger de dentes. Mas a libertação de Michel Temer nos tribunais superiores era inevitável. Isso não quer dizer que não tenha cometido os atos de que o acusam, ou que não possa, mais á frente, vir a ser considerado culpado (e, aí sim, receba uma sentença de prisão). Mas estava preso sem julgamento. Prisão preventiva não é antecipação de pena e pode ser aplicada em circunstâncias específicas: destruição de provas, por exemplo, perturbação da ordem pública, ameaça de fuga… bom, se Temer não destruiu provas como presidente, iria fazê-lo agora? Nunca tentou buscar asilo ou sair do país. Portanto, que espere o julgamento em liberdade. Se condenado, a coisa muda. Enquanto não for condenado, fica livre.

O cerco a Perillo

O ex-governador de Goiás, Marconi Perillo, do PSDB, derrotado amplamente nas eleições, vê apertar-se o cerco do Ministério Público sobre ele. Na semana passada, o MP moveu-lhe mais uma ação civil pública por improbidade administrativa (servidores eram contratados sem concurso público). Há 17 ações do MP contra Perillo, desde junho de 2018. Incluem de contratação de funcionário fantasma até irregularidades na aprovação de leis. Perillo viu seu candidato a governador ser batido por Ronaldo Caiado, não conseguiu se eleger senador, embora houvesse duas vagas, e na eleição presidencial foi o coordenador da candidatura tucana de Geraldo Alckmin.

O caminho de Moro

O presidente Jair Bolsonaro criou um problema para seu superministro da Justiça, Sérgio Moro: garantiu que ele será indicado para o Supremo tão logo surja uma vaga, e deixou entrever que houve um compromisso seu com Moro para indicá-lo. Moro rapidamente disse que não houve acordo algum e que, quando houver alguma vaga no STF, Bolsonaro poderá ou não indicá-lo e ele poderá ou não aceitar um eventual convite. Mas abriu-se campo para que políticos como Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, voltassem ao tema de que Moro condenou Lula a pedido de Bolsonaro. A tese é falsa: primeiro, porque Moro condenou Lula pela primeira vez quando ninguém imaginava que a candidatura Bolsonaro cresceria como cresceu: segundo, porque todas as sentenças de Moro foram confirmadas pela segunda instância, no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, e os recursos de Lula foram seguidamente recusados nos tribunais superiores.

O trabalho de Moro

Quando Moro assumiu, Bolsonaro sabia que ele era indemissível. Mas o trabalho que desenvolve ainda não apareceu para o público. Até seu pacote anticorrupção está sendo analisado junto com um anterior, de Alexandre de Moraes, e a tendência é unificá-los. Moro não é unanimidade em Brasília.

DEU NO JORNAL

NADA DE LGBT EM CUBA

Angeli Full

Alguns iludidos poderiam achar estranho que o governo de Cuba tenha cancelado – em nome da “política do Partido, do Estado e da Revolução” – a marcha anual LGBT.

Iludidos sim, pela conversa mole da esquerda, sempre disposta a defender as “minorias indefesas”.

Essa conversa mole, ao menos em Cuba, não passa de uma mentira elaborada pelos “inventores de histórias” comunistas.

Só quem desconhece a história não sabe que o “herói” da revolução cubana Che Guevara apresentou, em 1959 – assim que Fidel Castro tomou o poder – um conceito muito especial: o do “novo homem”.

Essa ideia foi explicada em sua nota O homem e o socialismo em Cuba, na mesma época.

O tal “novo homem” de Guevara deveria ter valores anticapitalistas, cooperativos e não materialistas.

Qualquer um que se afastasse desse ideal era considerado “contra revolucionário”. Esse era o caso dos homens gays, que Guevara chamava de “pervertidos sexuais”.

A homossexualidade, vista pela ótica distorcida de Guevara e seu líder, Castro, era um sintoma de “decadência burguesa”. Expressão que os esquerdinhas emburralhados ainda hoje adoram usar, enchendo a boca.

Mas os mesmos esquerdinhas se esquecem que Guevara ajudou Castro a fundar o primeiro campo de concentração cubano em Guanahacabibes, para onde mandou homossexuais, testemunhas de Jeová, padres afrocubanos e outros, que eram forçados a trabalhar para o Estado. A maioria morria logo, depois de torturados e estuprados. O slogan desses campos – copiado dos nazistas de Auschwitz – era “O trabalho liberta”.

Mas as qualidades do nobre líder comunista não paravam aí. Guevara, entre outros passatempos, adorava torturar animais, característica de assassinos em
série. De fato, contam-se ao menos 216 vítimas diretas do assassino, no período de 1957 a 1959.

Os negros eram outro dos alvos do sujeito, que os descreveu em seu diário como “aqueles indivíduos da raça africana que mantiveram sua pureza racial graças à sua falta de afinidade pelo banho’”.

Aos mexicanos, ele se referia como ‘um bando de índios analfabetos.’

Assim, não há como estranhar, hoje, que o Estado cubano reprima manifestações LGBT, como acaba de fazer. É coerente com a concepção enviesada de Guevara e Castro sobre uma ‘sociedade superior’, onde a vida humana – e os humanos – tinham pouco ou nenhum valor.

Diferente – e muito – da fachada mentirosa alardeada de que lutam por minorias e as defendem.

A única minoria que defendem é a própria, de castas corruptas e algozes de seu próprio povo.

DEU NO JORNAL

CARLOS EDUARDO GOMES - PENSAMENTO LIVRE

SEM O TRIPÉ, NÃO PARA EM PÉ

Nosso presidente Jair Bolsonaro não entendeu o jogo. O que sustenta seu governo em pé é o competente tripé generais, Moro e Guedes. Essa troica é confiável e republicana, sem eles o Governo cai em pouco tempo. Embora os brasileiros estejam se acostumando a trocar de presidente no meio do mandato, isso não seria nada bom.

Os generais estão abandonados pelo Presidente que continua dando demonstrações de admiração e respeito pelo “ideólogo” Olavo de Carvalho, que já foi comunista, astrólogo, agora é ativista radical de direita e mentor dos Bolsonaro. Moro está vendo sua imagem de paladino da justiça derreter como picolé. O Juiz que defendeu o Brasil da roubalheira escandalosa do Petrolão, que foi usado como selo de qualidade pelo Novo Governo para propor uma nova política sem negociatas, agora é desprezado, tratado como um pedinte a um posto no STF.

O Ministro Paulo Guedes, que foi fundamental para muitos agentes econômicos aderirem a campanha “Brasil acima de todos, Deus acima de tudo”, hoje sofre com as besteiras diárias espalhadas pela Família B e as consequências na economia. Apesar do projeto transformador de uma economia tutelada pelo Estado, num ambiente menos burocrático e mais competitivo; apesar da “Coragem” de Guedes em enfrentar praticamente sozinho as comissões parlamentares defendendo em nome do Governo a reforma constitucional (Previdência) que poderá ser a pedra fundamental para uma possível e indesejável reeleição do Mito; Bolsonaro com seu populismo histórico está minando as expectativas positivas que a sociedade criou ao depositar 57 milhões de votos na sua chapa, dar ao PSL 54 cadeiras na Câmara e 4 no Senado. Bolsonaro não abastece mais no Posto Ipiranga e anula o efeito Guedes.

A cada semana o Relatório FOCUS, do Banco Central, mostra uma expectativa de crescimento do PIB menor. No final de 2018, depois da eleição do Mito, as instituições financeiras representadas nesse documento estimavam um aumento do PIB em 2019 da ordem de 2,7%. Esse número hoje está em 1,45%. Há quem fale em menos de 1%. Outro aspecto curioso é que os investidores estrangeiros sempre estiveram muito interessados em aportar recursos no Brasil, afinal de contas somos um país por construir. Nossa infraestrutura, por exemplo, é do século passado, as oportunidades são enormes. Porém, o dinheiro especulador, que compra ações em Bolsa de Valores e precede o investimento fixo está deixando o Brasil. Não é um bom sinal. Desde outubro 2018 até hoje (14/05/2019) o fluxo está negativo em R$ 11 bilhões.

Em 29/04 escrevi aqui no JBF, o texto “Filhos acima de todos, Deus acima de tudo”, em 14/05, no jornal “O Globo” o colunista Merval Pereira, compartilha essa percepção e dá o título ao seu artigo “O Mito acima de todos”. Bolsonaro erra se achar que ele é o Mito e que pode sustentar seu governo num outro tripé formado por Olavo de Carvalho, igrejas e caminhoneiros.

“Eu (Senador Flavio Bolsonaro) estava na mesa quando o Moro conversava com Jair recém-eleito presidente e pediu para levar o Coaf com ele. Jair falou: problema nenhum, é seu. Nunca tínhamos ouvido falar de Coaf na vida”. (Estadão 12/05) Se não sabia, agora já sabe. Não pode subestimar a astucia da Velha Política que está preparando o bote.

O Mito tem pés de barro, não se sustenta sozinho. Se antes tinha a expectativa a seu favor, agora ela passou a ser mais um obstáculo. Afasta-se cada vez mais do seu discurso sedutor de 28/10/2018. Ainda pode virar o jogo, basta retomar aquele roteiro.

Para ver muita coisa é preciso despregar os olhos de si mesmo – Friedrich Nietzsche

DEU NO JORNAL

UM XIBUNGO VERMÊIO NOS ZISTADOS ZUNIDOS

O dia a dia sofrido de Jean Wyllys, um exilado político, amarrado ao berço do capitalismo (Times Square), sendo torturado e reprimido pela imagem opressora do grande capital (Samsung e Coca-cola), sonhando com dias melhores em Cuba ou na Venezuela onde finalmente encontrará a paz.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

O JUIZ E O CANOEIRO

Muito antes de os países existirem na forma atual, com suas fronteiras bem definidas e os poderes do Estado bem delimitados, já havia reis que delegavam a cidadãos de sua confiança a tarefa de julgar as questões entre seus súditos.

Assim acontecia entre os Destros, um povo antigo, que vivia em algum ponto às margens do Mediterrâneo, antes de serem submetidos ao Império Romano, como tantos outros.

Era uma grande honra ser incumbido da função de julgador, porque todos ali sabiam que seu exercício exigia equilíbrio e sabedoria. Juízes insensatos, ou que se deixassem levar por interesses pessoais, acabavam gerando descontentamento entre a população, contribuindo, assim, para o descrédito do próprio soberano.

Sabendo disso, o destro Átrion sentiu um misto de alegria e preocupação, ao ser nomeado juiz. Afinal, tinha pouco mais de trinta anos de idade, e todos os juízes que ele conhecia eram homens de cabelos grisalhos, alguns ostentando longas barbas brancas.

É fato que havia estudado filosofia, na Grécia, e que, há mais de dois anos, era membro do Conselho de Sábios da sua aldeia, mas estaria pronto para a missão de julgar?

Durante os dias que se seguiram à sua nomeação, Átrion refletiu muito sobre isso. Por um lado, sentia-se honrado, com o reconhecimento que o rei lhe havia demonstrado; por outro lado, questionava-se se estaria preparado para decidir sobre a vida das pessoas.

Foi assim que, certa manhã, poucos dias antes da cerimônia do recebimento de sua Vara da Magistratura – um cajado que os juízes portavam, como símbolo da sua função – Átrion foi à casa de um experiente magistrado, conhecido como Mestre Aluk, cuja sabedoria era reconhecida por todos os seus pares. Buscava uma palavra que lhe acalmasse o espírito.

Mestre Aluk morava em uma chácara, em uma das muitas montanhas que havia nos arredores da aldeia onde Átrion exerceria suas funções de julgador. O velho magistrado recebeu o jovem com respeito e alegria, e o tratou com as honras de um juiz que já estivesse no exercício da jurisdição.

Encorajado pelo tratamento cordial do experiente julgador, Átrion foi o mais direto possível ao assunto:

– Mestre Aluk, tenho estado atormentado, desde a minha nomeação para o corpo de magistrados do Reino. Não questiono a escolha do Rei, nem nego os conhecimentos que adquiri ao longo de anos de estudo, e de outras funções que tenho exercido. Mas sei que sou o mais jovem dos juízes já nomeados por Sua Majestade. Tenho receio de me faltar a experiência necessária à atuação do julgador.

A partir daí, Átrion passou a tecer uma série de considerações a respeito do estudo, da experiência e da responsabilidade dos juízes.

Mestre Aluk ouviu tudo com atenção, sem demonstrar surpresa. Agradeceu a deferência de Átrion, por buscar seus conselhos, mas, sobre as preocupações expostas pelo futuro colega de magistratura, nada disse. Ao contrário, mudou de assunto e convidou o neófito para uma caminhada.

Depois de quase um quilômetro andando por um caminho aberto na floresta, falando sobre outros assuntos, chegaram a uma clareira, na margem do rio que descia do topo da montanha. Naquele ponto, a água formava ondas e fazia barulho ao se chocar com as pedras, devido à forte correnteza.

Mestre Aluk sentou-se em uma pedra grande, arredondada, e orientou Átrion a sentar-se em outra, semelhante. Parecia ser um lugar para onde o velho magistrado costumava se retirar, quando queria refletir sobre algum assunto.

Depois de uns instantes em silêncio, observando a correnteza, Mestre Aluk retomou a palavra:

– Meu caro Átrion, você sabe que esse rio deságua em um lago, em cujas margens está a aldeia onde você vai morar. Se você fosse contratar um canoeiro, para levar um saca de sal, deste ponto até alguém que mora na aldeia, que comportamento você esperaria do canoeiro?

Átrion percebeu que aquela não era uma simples pergunta sobre o transporte de sal. Pensou por alguns segundos e tentou ser objetivo em sua resposta:

– Mestre Aluk… essas águas são um tanto revoltas. Eu esperaria que o canoeiro conduzisse a embarcação em segurança, sem a deixar virar. Mas também que ele usasse da necessária habilidade para, nos momentos certos, aproveitar a força da água corrente para impulsionar a canoa. Evitando encalhar em algum ponto das margens, ou demorar demais no percurso até o lago.

Mestre Aluk sorriu. Parecia satisfeito com a resposta:

– Então, meu caro Átrion, você sabe como um juiz deve se conduzir. Porque o juiz deve ser como esse canoeiro, transportando o sal. No alto dessa montanha, nasce o rio, que serve de caminho até o lago e a aldeia. As leis do nosso povo, nossos costumes e valores, são como as pedras dessa montanha, de onde brota o rio do Direito. Por ele o juiz deve conduzir sua canoa, transportando a decisão que irá resolver a controvérsia. Observe que, assim como o canoeiro, o juiz não é um ser inerte, que deixa a embarcação ser levada pelas águas, à deriva. Não! Ele atua, com seu remo, corrigindo o rumo, evitando choques com as pedras… trabalhando para que o rio do Direito o conduza ao lago da Justiça. Mas o condutor da embarcação deve ter consciência de que não pode fazer prevalecer a sua vontade sobre a força do rio. Se tentar agir assim, provavelmente naufragará. Ou, talvez, entrará tanta água na canoa que dissolverá o sal. Assim, tal qual o canoeiro, que deve usar o poder das águas no cumprimento da sua missão, o juiz deve conhecer as correntes do Direito, para as usar na busca da realização da Justiça. Jamais deve fazer isso por interesse pessoal ou de terceiros, ou mesmo para tentar impor ao povo a sua própria noção do justo. O sal da Justiça deve ser entregue ao seu destinatário, na aldeia, e não deixado nas margens do rio, ou dissolvido em suas águas.

Após ouvir aquelas palavras, Átrion olhou detidamente para o rio, imaginando-se conduzindo a embarcação sobre as águas. Vários pensamentos vieram-lhe à mente, mas se limitou a dizer:

– Espero ter a humildade necessária, Mestre Aluk, para saber conduzir minha pequena canoa, entregando o sal da Justiça às pessoas da aldeia.

– Você a terá. Tenho recebido notícias de sua conduta no Conselho de Sábios. Muitos comentam do seu equilíbrio, sua humildade e seu senso de Justiça. Agora, vamos voltar à minha casa. Deve haver um bule de chá quentinho à nossa espera.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DODDO FÉLIX – BOM JARDIM-PE

Carríssimo Papa Berto,

esse fiel que ora vos escreve está deveras sumido.

O fato é que ainda não concluí a escrita do meu livro sobre Bom Jardim. Devo concluí-lo somente em finais do ano que vem.

Mas deixemos de lero-lero e vamos ao que (me) interessa.

Estou anexando esse soneto que escrevi semana passada. Caso valha a pena e ainda queira dá-me a honra, publique-o.

Com votos de que continue em gozo de plena saúde (você , Aline e o João), aceite o abração desse seu humilde e devoto admirador.

R. Aqui você não pede nada, meu caro.

Aqui você manda e dá as ordens.

Que bom que reapareceu e deu notícias.

Sucesso no seu livro.

E vamos ao soneto que você nos mandou:

A UM PSEUDOGURU

O poeta não é de tecer loas
a quem quer que se mostre inconsequente.
Não aceita também que algum demente
fique atacando a moral das pessoas.

Faz jus, decerto, às mais áureas coroas
aquele que respeita sua gente,
tal como faz general Villas Boas,
um cidadão, sem dúvida, decente.

Os insultos banais de um falastrão
(o vilão louco que lá longe ladra),
homens de bem jamais atingirão.

É na distância que os covardes agem…
E o tal guru nesse perfil se enquadra,
pois lhe falta, afinal, honra e coragem.

Bom Jardim, 8 de maio de 2019.

CHARGE DO SPONHOLZ