OS CÚMPLICES DO STF

Guilherme Fiuza

Alexandre Toffoli e Dias de Moraes, ou vice-versa, a dupla caipira que jogou o Brasil em mais um debate inútil, não está sozinha. O debate é inútil porque ataque de pelanca não é ameaça à liberdade de expressão. E a dupla não está sozinha porque a construção do cenário para a bravata autoritária teve a contribuição de muita gente boa (sic).

Na campanha eleitoral de 2018 os justiceiros Luiz Weber e Rosa Fux, ou vice-versa, declararam que um caso comprovado de fake news poderia anular a eleição. Você sabe do que eles estavam falando, né? Não sabe? Explicamos então: essa fake news aí não tem nada a ver com notícia falsa.

Era apenas uma cópia vagabunda da estratégia eleitoral norte-americana para transformar Hillary Clinton em vítima do fascismo imaginário. Em outras palavras: tudo que não viesse da imprensa mergulhada até o pescoço na campanha da candidata do imaculado Obama era fake news. Estão até hoje gritando que a derrota foi um golpe do WhatsApp em conspiração com a Rússia, ou vice-versa. O inquérito provando que não houve conluio acaba de ser concluído, mas não interessa. Hoje em dia ninguém precisa de fatos.

A mesmíssima narrativa foi aplicada no Brasil. A formação de uma espécie de igreja progressista dos últimos dias – na verdade uma pantomima politicamente correta de alto teor lucrativo – foi tragando boa parte da sociedade virtuosa nos últimos anos. O truque é simples e irresistível: você adquire o kit-bondade (1,99) mediante a repetição dos clichês certos e ganha o salvo-conduto – uma espécie de abadá de bloco carnavalesco – para entrar no cercadinho vip contra os fascistas. Aí você pode cair na folia da demagogia humanitária como se não houvesse amanhã, que ninguém vai te incomodar.

Curiosamente, parte da imprensa que apostou tudo nas fake news da dupla Janot & Joesley em 2017 – no caso da delação armada (hoje suspensa) para virar a mesa do Brasil pós-PT – virou combatente contra as fake news das diabólicas redes sociais em 2018. Apareceram até agências de checagem de fatos para informar aos mortais onde estava a verdade (humildade é tudo). Uma cruzada épica para impedir que um golpe fascista das tias do WhatsApp decidisse a eleição, como nos Estados Unidos.

Foi nessa onda de resistência democrática para boi dormir que os tribunais superiores ganharam a missão intergaláctica de combater fake news – conforme anunciado pela dupla Fux-Weber. Entendeu de onde veio a varinha de condão usada agora pela dupla Toffoli-Moraes para brincar de ditadura?

Em outras palavras: no Brasil, como nos EUA e tragicamente em boa parte do mundo, a liberdade de imprensa tem sido tratada como a garota de programa que vai realizar o seu fetiche por um dia. A resposta dela não podia ser outra: ok, meu amor, vamos pro crime, mas não venha me pedir em casamento amanhã.

E eis que de repente, diante da censura carnavalesca decretada por Alexandre Toffoli e Dias de Moraes, uma legião de petistas e genéricos sobe no carro alegórico da imprensa livre, porque é carnaval e ninguém vai lembrar mesmo das nossas juras de amor à ditadura venezuelana. Repetindo: deu para entender o cenário do bordel onde a dupla caipira se sentiu à vontade para avacalhar a liberdade de expressão?

Esse STF foi forjado por Lula e sua quadrilha para referendar seu plano autoritário, exatamente como a corte suprema da Venezuela virou um anexo do chavismo. Isso não se consumou aqui porque o Brasil foi para a rua e impediu. Agora o Brasil precisa se olhar no espelho e decidir se quer reconstruir de fato suas instituições ou viver numa eterna micareta democrática.

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FALTAM ADJETIVOS

Assim como botou na conta de Temer 14 milhões de desempregados da era Dilma, deputados do PT e do Psol já atribuem a Bolsonaro, na maior cara-de-pau, os atuais 12 milhões de desempregados.

* * *

Xingar estes porras de felas-da-puta é uma desabafo muito ameno.

Além de se constituir numa grave ofensa às putas.

Temos que arranjar outras denominações pra enquadrar estes nojentos.

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O TAL DO LIVRE COMÉRCIO

Vamos imaginar duas pessoas: o José e o João. O José tem como princípio “ser independente e não depender dos outros”. Ele construiu sua própria casa e planta sua comida no quintal. Ele também costura suas próprias roupas e fabrica em casa o sabonete com que toma banho e o detergente para lavar a louça, que também foi ele que fez.

O João tem uma opinião totalmente oposta. Ele cursou uma boa faculdade e tornou-se um profissional extremamente competente em sua especialidade. Sendo muito competente, ele ganha bem, e com este dinheiro ele paga para que outras pessoas façam todas as coisas que não são sua especialidade: ele compra roupas e comida prontas, pagou um pedreiro para construir sua casa, e quem cuida do jardim é um jardineiro.

Provavelmente a maioria concordará que o João é mais rico e tem um padrão de vida melhor que o José. Quanto se trata de aplicar o mesmo conceito a países, porém, as opiniões já não são tão claras.

Os fatores envolvidos são os mesmos; em economês, são termos como “divisão do trabalho”, “vantagens competitivas”, “especialização” e “meios de produção”, que no fundo vem a ser o nosso bom e velho capitalismo.

Em termos leigos, trata-se de dizer que: a) é difícil ser bom em tudo; e b) ser bom em tudo não é suficiente, por que é necessário ter os recursos físicos para fazer algo, e isso custa dinheiro. Ou seja, o José, por melhor que seja, não tem os mesmos recursos para produzir algo que uma fábrica especializada tem, e por isso a sua produção “caseira” será mais difícil, mais trabalhosa e dificilmente terá a qualidade de um produto industrial, seja uma xícara, um sabonete ou um par de sapatos, para não falar de um automóvel ou um smartphone.

Enquanto o José e o João podem fazer suas próprias escolhas e viver com as consequências, em um país a situação é diferente, porque obriga um monte de gente a viver de acordo com esta escolha, concorde ou não.

Os que pensam como o José são chamados “nacionalistas”. Eles são a favor de reservas de mercado e não gostam de produtos importados. Isso significa que todas as pessoas (e não apenas eles mesmos) são obrigadas a comprar produtos piores e/ou mais caros para atender a esta política econômica. Os nacionalistas também acreditam que o país deve ser bom em tudo, ou pelo menos tentar, e também acreditam que o governo deve participar do mercado, cobrando impostos de uns e dando subsídios a outros, como forma de buscar este “ser bom em tudo”.

Pessoas que pensam como o João são a favor do “livre comércio”, e defendem que um país, assim como uma pessoa, se concentre no que faz de melhor. Fazendo isso, o país terá dinheiro para comprar o que os outros países fazem de melhor. Em geral, quem defende o livre comércio acha que o governo não deve se meter no assunto.

Vamos ver alguns exemplos práticos? O Brasil, obviamente, sempre pensou como o José: aqui tem fábrica de automóvel, de computador, de avião e de remédio. Só que quase todas pertencem a grupos estrangeiros e dependem de matéria-prima e tecnologia “de fora”. Por outro lado, temos muita agricultura, pecuária e mineração, que inclusive exportam muito, e que são considerados por alguns uma atividade “inferior”. Temos reservas de mercado, tanto abertas quanto disfarçadas. No fundo, ao se perguntar a um brasileiro “somos bons em fazer o quê?”, ele provavelmente hesitará ao responder.

Nosso vizinho mais próspero na América do Sul é o Chile, segundo os números. E o Chile, como o João, não tem dúvida sobre o que ele faz bem: Cobre e Vinho. É basicamente esta a pauta de exportações do Chile, que não tem indústrias de automóveis, nem de computadores.

Outros países que pensam como o João? Nova Zelândia, que exporta ovelhas. Suíça, que exporta medicamentos e produtos de engenharia fina, de relógios a motores de navio. Austrália, que exporta trigo, lã, carvão e minério de ferro. Nenhum deles tenta fazer tudo em casa: preferem comprar com o dinheiro que ganham fazendo o que sabem fazer bem.

Quem está certo? Prefiro passar a bola a você, leitor: que conselhos daria ao José, ao João e ao Brasil?

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INFRAÇÃO PRESIDENCIAL GRAVÍSSIMA

* * *

O jornazismo da Folha sempre a postos e sempre atento.

Os geniais redatores, depois do “diz leitor“, agora criaram o “dizem especialistas

Messias cometeu uma infração de presidencial gravidade.

Uma violação de grande porte das leis de trânsito: ele usou um capacete que contraria toda a estética revolucionária e que foi feito com base no modelo imperialista reacionário.

Um procedimento passível de um processo de impeachment.

E o pior de tudo foi o tumulto que o presidente bagunceiro provocou na ordeira, pacata e pacífica Guarujá.

Um grupo de baderneiros da extrema direita, fanáticos admiradores de Jair Messias, tumultuou a rotina da cidade.

Vejam no vídeo abaixo.

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DIA APÓS NOITE

Vendo o azul, que dilúculos augura,
da madrugada, e a mágoa do sol-posto,
quedo-me triste, e penso, com desgosto:
O mesmo céu que é berço é sepultura.

Assim também, um dia, no teu rosto,
nos teus olhos de cálida brandura,
vi tua alma a acenar-me, inda mais pura
sob o véu do cabelo descomposto.

Como a noite, porém, sucede a aurora,
tu me fugiste, e a luz, que me envolvia,
nas trevas se tornou em que ando agora.

Retorna entanto o sol, que antes morria.
E a minha alma, por isto, já não chora,
mas espera o raiar de um novo dia.

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