PARA BOM ENTENDEDOR

Fernando Antônio Gonçalves

Numa cidade interiorana de pequeno porte, um circo de dimensões acanhadas debatia-se com uma receita cada vez mais diminuta. O mote para vender os duzentos e poucos ingressos de cada sessão tinha se exilado de muito, desacreditando a companhia e tornando difícil de pagar a conta da pensão de Dona Lu, uma viúva distinta que tinha alugado doze dos seus quinze quartos para o pessoal circense.

As dificuldades pareciam eliminadas, quando se anunciou a estreia de um jovem trapezista de apenas dezesseis anos, corpo e cara de menino, jeitão de quem ainda não tinha qualquer intimidade com o ritmo adão-em-eva. E a faixa estendida entre dois postes da calçada da Matriz era prenúncio da mais pura adrenalina: “Triplo salto mortal!!. Sem rede de proteção!! Desafio de Cabra Macho!!! Não percam!! Pode ser o nosso último espetáculo!!”.

Além disso, para ampliar a ansiedade da pacata comunidade, um megafone fora instalado nos costados de um jegue alugado por dois ingressos, um para o dono do jegue e outro para a “mínima” que andava com ele pra tudo quanto era lugar. Uma gasguita ainda sem os apetrechos, metida a locutora de comercial, que berrava os dizeres contidos na faixa, vez em quando tomando água num caneco “artesanalizado” a partir de uma lata de azeite.

O Vieira Gonzales, nome artístico do Nando da Silva, carregava anos de ensinamentos transmitidos por um velho acrobata, bom de trapézio até alguns anos passados, quando um tiro de marido pouco amado deixara-o sem a musculatura rígida de uma das coxas. Paciente, soubera transmitir os segredos do salto triplo mortal ao Vieira, ele que se especializara como ninguém em pular de galho em galho, incontável a sua galeria de bem “contempladas”.

No sábado anunciado pela faixa da Matriz e pela gasguita montada no jumento, os ingressos logo se esgotaram, os últimos sendo adquiridos num puxa-encolhe dos diabos, valendo até amolegada para tirar senhoras mais pudicas da fila de compra.

Apresentado pelo Danilo, mestre-de-cerimônia também sócio-fundador da companhia, o Vieira caminhou até a escada de corda sob o rufar de um tambor meio avariado. Antes de principiar a subir, ouviu a voz sussurrante do seu instrutor:

– Está com algum tipo de medo? Algo até hoje eu ainda não lhe tinha dito. Lá em cima, em qualquer circunstância, aja com o coração, pois ter coragem é saber agir com o coração. Lembre-se sempre que, ao saltar, lançando seu coração sobre a barra do trapézio, você estará se lançando sobre aquilo em que acredita. O mundo pertence a quem põe o coração em tudo que é feito, seja qual for o tamanho do efetivado.

O circo demorou-se na cidade por um bom tempo, com seus duzentos e poucos lugares integralmente vendidos nos finais de semana. O arrecadado deu até para adquirir uma outra carrocinha de fazer cachorro-quente e um novo conjunto de cordas para o trapézio do Vieira, agora tornado estrela maior, muito embora continuasse simples como sempre foi.

Dona Lu, contente que só, ia aplaudir, todo final de semana, as evoluções do rapazote, sempre acreditando piamente numa frase de Voltaire, lida num pé de página de uma revista de palavras cruzadas: “O trabalho afasta de nós três grande males: o tédio, o vício e a necessidade”.

Trabalhar o futuro com as ferramentas do presente e com o coração, eis a receita. O resto é ficar chorando sobre o leite derramado.

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SUPREMO CASAL

Augusto Nunes

Gilmar sabe que todos são iguais perante a lei, mas ele e sua mulher são mais iguais que os outros

“O que causa enorme estranhamento e merece pronto repúdio é o abuso de poder por agentes públicos para fins escusos, concretizado por meio de uma estratégia deliberada de ataque reputacional a alvos pré-determinados. Tal estratégia revela-se clara no presente caso, em que ilações desprovidas de qualquer substrato fático são feitas não apenas em relação a minha pessoa, mas em relação a todo o Poder Judiciário nacional”.

Gilmar Mendes, ministro do STF, em petição enviada a Dias Toffoli sobre a investigação da Receita Federal contra ele e sua mulher, lembrando que todos são iguais perante a lei, mas o Supremo Casal é mais igual que os outros.

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DERROTA OU MORTE

J.R. Guzzo

Onde foi parar o Brasil no qual você morava até uma semana atrás? Ainda dá para lembrar: o senador Renan Calheiros praticamente já estava despachando como o novo presidente do Senado Federal. Com as suas imensas capacidades de gênio político, dono de estoques ilimitados de esperteza e líder indiscutível dos políticos que de repente caíram do caminhão de mudanças com a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais, Renan não poderia perder a disputa para presidir o Senado. Segundo mais de 100% dos doutores em ciência política deste país, a chance de qualquer outro senador vencer era a mesma de alguém mudar os 90 graus do ângulo reto. A horrenda rejeição popular ao seu nome era tratada, nos mesmos meios, como uma fantasia de amadores; “pressão de rua” não existe nesses casos, garantiam os entendidos. “Política de verdade”, em seu livro, não tem nada a ver com redes sociais, etc. Esse Bolsonaro, os vinte generais do seu primeiro escalão, o ministro Sergio Moro, etc., iriam aprender, enfim, que é impossível governar o Brasil sem “ceder aos políticos”, e o sinônimo de política no Brasil era Renan Calheiros. Saiu tudo ao contrário — mais uma vez ao contrário, aliás, como tem acontecido dia após dia.

Pois é: estamos vivendo no mesmo país, mas o país em que vivemos é cada vez menos o mesmo. O Brasil dos Renans, dos “profissionais” da política, das “realidades de Brasília”, está sumindo aos olhos de todo mundo; não existe mais como existia seis meses atrás, e menos ainda como há um, dois ou cinco anos. Não é isso que dizem para você, tanto que há apenas uma semana a vitória de Renan para a presidência do Senado era dada como uma verdade científica. Mas é isso que acontece no mundo dos fatos. Nesse mundo, o único que conta, o que houve foi o seguinte: “Perdeu, Renan. Game over”. E onde foi parar a perigosíssima raposa das raposas, que ainda outro dia estava no primeiro plano da política brasileira? Não havia mais raposa nenhuma, isso sim — ou, então, havia uma raposa cega, surda e aleijada, com prazo de validade vencido e incapaz de notar que estava desfilando nua no meio da rua. Em vez de olhar para a realidade, preferiu acreditar nos especialistas. Acabou virando estopa.

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ADAIL A. AGOSTINI – ALEGRETE-RS

ANTES DE TRANSAR – SE TU NÃO CONHECES AS LEIS – CONSULTA UM ADVOGADO!

Tu, ainda, és daquele tempo em que “sexo seguro” significava usar “camisinha” para evitar doenças sexualmente transmissíveis e gravidez?

Esquece, pois aqueles bons tempos, literalmente, terminaram!

Confira aqui as salvadoras “dicas” – E SEMPRE AS OBEDEÇA! – para um “sexo seguro” que qualquer homem deve observar no maravilhoso mundo feminista contemporâneo, pós-moderno e “macho-objeto”.

A coisa, agora, ficou assim:

Sabes, aquela gatinha que tu conheceste, sabe-se lá onde – e que vem te dando a maior “mole”?

Tu sabes que se tu a convidares para uma transa, ela vai topar, pois – se tu, ainda, não sabes – ela, feministamente, te escolheu para objeto-sexual momentâneo para as necessidades – não sabes lá quais – dela.

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